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Está na hora de abrirmos a porta do Gabinete de Guerra com o José Rafael Lopes. José.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Duas guerras em curso em partes bem diferentes do mundo, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Nos próximos minutos vamos falar sobre estes dois conflitos. Junta-se a nós o Vitor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa, a quem agradeço a disponibilidade. Vitor Gabriel, vamos começar por olhar para o conflito na Ucrânia. Foi morto esta manhã o tenente-general russo Igor Kirilov, depois de uma explosão em Moscovo. Os serviços de segurança da Ucrânia terão reivindicado o ataque, pelo menos é isso que indicam as fontes deste serviço em várias agências de notícias. A Rússia já avisou que vai responder a este ataque. Pergunto-lhe que impacto é que isto poderá ter na guerra em curso?

Muito mais obrigado à Rádio Observador pelo convite para mais um gabinete de guerra. O impacto, a Rússia não poderá fazer muito mais do que já tem feito, que é bombardear a Ucrânia sem fim nas últimas semanas. Poderá, por exemplo, tentar uma ação parecida junto dos serviços militares ucranianos, uma ação de resposta ao mesmo nível. Isso é utilizado muito quando os países estão em guerra, é responder ao mesmo nível, neste caso, atacando também personalidades militares ucranianas. Agora, por este patamar também percebemos que os serviços de informação e esta operação, podemos chamar de sabotagem ou de subversão, não sou técnico e especialista nessa área, mas esta ação em território russo foi uma ação muito bem preparada, e segundo conhecemos, junto à casa do militar russo que faleceu. E isso prova que os serviços ucranianos continuam a trabalhar com muito critério e apoio da coligação ocidental. Portanto, isso não é, na minha opinião, única e exclusivamente favido pelos serviços secretos ucranianos e pelos serviços que fizeram esta operação, mas também deverá ser provavelmente do conhecimento dos Estados Unidos e com acordo dos Estados Unidos.

Vitor Gabriel Oliveira, a minha questão era mais no sentido de que tipo de reação é que podemos esperar por parte da Rússia, tendo em conta esta garantia de vingança após este assassinato.

Era como lhe dizia, poderá ser um ataque a uma personalidade militar ucraniana no mesmo patamar, ou então aumentar o número de personalidades ucranianas no mesmo patamar do militar russo e na mesma patente do militar russo, dando assim uma resposta ao mesmo nível em termos de guerra, porque no terreno a Rússia tem estado a atacar muito forte nas últimas semanas. Portanto, aquilo que acredito é que possa haver uma resposta com uma tentativa de ataque a uma alta patente ucraniana nas próximas horas ou nas próximas semanas. Mas claro, isso é subjetivo e é especulação. Com certeza conheceremos nas próximas horas aquilo que vai acontecer e que a Rússia vai responder.

Vitor Gabriel Oliveira, se as armas químicas estiverem, de facto, a serem utilizadas no terreno, de que forma é que a comunidade internacional pode agir para defender a Ucrânia?

Penso que pouco ou nada poderá fazer, pese embora nas negociações de paz, e este próximo mês de janeiro vai ser decisivo até o dia 20, até à tomada de posse de Donald Trump, mas poderá a comunidade internacional pressionar os países que têm estado ao lado da Rússia, para fazerem pressão sobre a Rússia para a não utilização das armas químicas e há acordos internacionais nessa matéria. E claro que os países que estão a apoiar a Rússia e que estão ao lado da Rússia, indiretamente, terão força para conseguir fazer parar a Rússia, se isso realmente se verificar, que ainda não é certo que se verifique. Portanto, poderá estar a acontecer, mas não é ainda um dado concreto verificado a nível internacional.

Vamos olhar também ainda para declarações do ministro polaco dos Negócios Estrangeiros. Ele que pede que o Ocidente pressione a Rússia e não a Ucrânia para que haja uma tentativa para chegar a um acordo de paz, para negociações, para haver um acordo de paz. Acredita que esta é a forma mais correta para clarificar que é Moscovo o agressor e não a Ucrânia que tem de ceder às imposições de Putin?

A Polónia tem uma perceção do que deverão ser as negociações muito diferente do que têm os Estados Unidos ou do que têm países que, pese embora estejam a apoiar a Ucrânia, mas que não estão na primeira linha numa potencial invasão russa. Portanto, a Polónia tem que também pensar no seu próprio futuro e é importante manter essa pressão alta sobre a Rússia, ou seja, o ministro polaco tem toda a razão, mas claro que isso depois em termos de terreno não é fácil de materializar. Isso será algo mais a levar para a mesa das negociações. Aliás, o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco esta semana dava uma entrevista em que dizia que a Polónia tem que se reforçar e que a guerra é uma realidade. Nós não estamos em guerra na União Europeia, mas também não estamos em paz absoluta. Portanto, isso é uma das principais preocupações polacas neste momento. E a Polónia também dá uma mensagem forte à comunidade internacional para dizer que não podemos ceder a tudo aquilo que a Rússia queira impor, mas isso dependerá, sobretudo, daquilo que Donald Trump pensar. Portanto, neste momento, a Europa, com a fragilidade que tem e com que está neste momento e dividida como está, a vários níveis e frágil economicamente e dividida também por outras questões económicas, nomeadamente a assinatura do acordo do Mercosul e pelas fragilidades internas que tem os países Estar em situações de transição na França e na Alemanha. A Europa neste momento, claro que mantém a força de estar posicionada aqui na Europa estrategicamente, geographicamente é aqui que se passa o conflito, mas na realidade, aquilo que dizia o ministro dos estrangeiros polaco esta semana, é que os Estados Unidos terão cerca de entre 40 a 60 mil militares na União Europeia, nomeadamente em acordos com a NATO, mas que terá que ser a Europa a ter uma força muito maior nesta área. E a Polónia vem liderar essa informação e essa capacidade que a Europa deverá ter. Portanto, a Polónia vem dar o alerta e dar o primeiro passo para esse novo ciclo que poderá ser a área da defesa na União Europeia.

Vítor Gabriel Oliveira, antes de avançarmos para o conflito no Médio Oriente, olhar também para a presença de tropas da Coreia do Norte na linha da frente. Há já relatos de ataques ucranianos contra essas tropas norte-coreanas. Isto podemos já assumir que são forças para a linha da frente das forças de Moscovo?

Sim, Vladimir Putin tem tido algumas dificuldades em continuar a recrutar e as tropas da Coreia têm estado a reforçar as linhas da frente e segundo relatos que podemos consultar em fontes abertas na imprensa internacional, temos visto que os soldados ucranianos e as altas patentes ucranianas continuam a dizer que o número de homens que vai sobre a linha da frente é num número avassalador. Embora haja muitas baixas, continuam sempre a vir mais homens. Nós, aliás, assistimos agora a um dado que Volodymyr Zelensky quando esteve em Paris, na abertura da renovada Catedral de Notre-Dame, esteve com Donald Trump e teve a oportunidade de dizer a Donald Trump quantas baixas é que tinha havido e o número de baixas do lado russo era duas a três vezes mais do que era do lado ucraniano. Por aí podemos perceber a forma como a Rússia também está a lidar com este processo e a forma como lida com as suas próprias baixas.

Vamos virar então atenções para o conflito no Médio Oriente, neste caso, o conflito na Síria. Bashar al-Assad, o presidente deposto da Síria, disse que o país está nas mãos do terrorismo. Entretanto, o porta-voz do governo de transição já respondeu a estas declarações, diz que a Síria não vai voltar a ficar nas mãos da família Assad e pede aos Estados Unidos e a outros países ocidentais que reconsidere a classificação atribuída ao grupo que controla este país. Concorda? É tempo de avaliar esta classificação?

Neste momento é tempo de perceber o que se está a passar diariamente, porque neste momento tomar opções a frio poderá ser muito complicado. Aquilo que estamos a perceber é que Israel tenta tomar a dianteira a sul, a Turquia tenta tomar a dianteira a norte, mas não nos podemos esquecer que os Estados Unidos têm uma base entre a fronteira do Iraque e da Síria, e também têm militares dentro da Síria. Aquilo que está a ser feito neste momento é uma avaliação do que está a acontecer na realidade. A comunidade internacional e os Estados Unidos não se podem imiscuir demasiado dentro da política síria, portanto, têm que ter algum controle sobre isso, mas também não podem abjicar de vigiar de perto, porque o grupo que controla neste momento a Síria é classificado como grupo terrorista. Até março, pelo menos, o líder que está neste momento à frente dos destinos da Síria ficará até março. Portanto, aquilo que a comunidade internacional tem que fazer é acompanhar de perto. E aquilo que percebemos é que com a base militar dos Estados Unidos na fronteira, como eu dizia há pouco, entre o Iraque e a Síria, e com a coligação que mantém desde sempre, historicamente, entre Israel e Estados Unidos, os Estados Unidos e a comunidade internacional estão a tentar acompanhar a situação da melhor forma, sem intervir demasiado no governo e nas questões internas da política que será a Síria para os próximos anos.

Vítor Gabriel Oliveira, mas há aqui já um aproximar por parte deste processo de transição aos Estados Unidos. Já mostra aqui muita diferença do que pode vir a acontecer na Síria?

Por isso mesmo é que eu estou a dizer que essa não intervenção imediata dos Estados Unidos na Síria e esse deixar que este grupo se aproxime, pode ser importante para os Estados Unidos, apesar embora esteja classificado como grupo terrorista, como dizia há pouco, mas sobretudo aquilo que a comunidade internacional, os Estados Unidos, a coligação Israel, avaliam é qual será o menor dos males. De um lado tínhamos este grupo classificado como grupo terrorista e do outro lado tínhamos Bashar al-Assad, que era inimigo da coligação internacional e dos Estados Unidos. Aquilo, por exemplo, que Israel está a fazer na Síria, e aquilo que diz Benjamin Netanyahu, é que está a tentar proteger as suas próprias fronteiras nos montes Golã, onde mantém uma presença muito acível já há alguns anos, mas sobretudo tentar que o Hezbollah e que o Irão, e Benjamin Netanyahu disse isso essa semana, que o Irão não tome posição.

E que ilações podemos tirar dessa colocação das forças israelitas nessa zona tampão, digamos assim, nos montes Golã?

Principalmente é porque Benjamin Netanyahu pensa que Israel pensa que, em termos de política estratégica, pensa que poderá haver uma influência do Hezbollah no novo governo da Síria, e Benjamin Netanyahu não quer isso, e poderá haver uma influência também do Irão. E Benjamin Netanyahu já disse que está preparado para apoiar institucionalmente todo e qualquer governo, mas que não tenha influência do Irão e que não tenha influência do Hezbollah. Portanto, isso é muito importante para Israel. Israel é o primeiro, talvez o primeiro representante, representa-se a si próprio, como é óbvio, mas talvez o primeiro aliado dos Estados Unidos na região. Portanto, os Estados Unidos, ao manter Aquela base que dizia há pouco entre o Iraque e a Síria, é claro que é com base em muita informação recolhida por Israel e sabemos a capacidade que Israel tem na área da intelligence e na área da recolha de informação. E neste momento, isso faz a diferença naquela região do globo, essa capacidade de recolher informação para saber o que se está a passar.

Para terminar, olhar também para declarações de Kaja Kallas, na União Europeia, a dizer que a União Europeia tem de aproveitar esta janela de oportunidade histórica com a queda do regime na Síria. Fala mesmo em otimismo cauteloso. Há razões para tal?

A União Europeia primeiro tem que ter muita preocupação sobre aquilo que vai acontecer na Síria. Já percebemos que há muitas pessoas a regressarem à Síria, muitos refugiados. Muitos deles, e sabíamos que acontecia, muitos refugiados sírios entravam pela Grécia e também no Chipre. Temos que perceber que a União Europeia, nós muitas vezes podemos percepcionar ou esquecer-nos disso, mas a União Europeia está praticamente geograficamente em cima da Síria, porque uma parte importante da ilha do Chipre está junto à fronteira marítima da Síria. Portanto, Kaja Kallas ao dizer isso, aquilo que diz é que a União Europeia também se deve posicionar no conflito, provavelmente mais à frente e com o apoio dos Estados Unidos, ter alguma força de paz na Síria ou ter alguma presença mais institucional na Síria para também capacitar o novo regime e também para capacitar o conhecimento da comunidade internacional para a nova política da Síria nos próximos anos. Penso que Kaja Kallas está a posicionar a política externa da União Europeia para que consiga manter uma presença e para que consiga também controlar melhor, se me permite utilizar essa expressão, ali a fronteira marítima e a questão da migração. Sabemos que isso é um assunto muito importante para a União Europeia e para muitos países e para muitas alas políticas da migração.

E recentemente verificou-se mesmo já muita imigração em torno da Síria depois da queda do regime.

Sim, tem continuado a haver movimentos, muitos migrantes regressam à Síria porque entendem que isso é o melhor para si, mas também muitos que lhes permitiu agora sair de forma diferente. Portanto, a União Europeia terá que sempre ter uma grande preocupação com aquilo que se passa na Síria, porque o Chipre e a Grécia são a primeira porta de entrada para a União Europeia e sabemos que estes países têm feito muita pressão sobre Bruxelas para que sejam tomadas políticas agressivas no controle das migrações. Portanto, é muito importante que Kaja Kallas posicione a política externa da União Europeia para que a partir de março, na Síria, possa ter uma intervenção institucional forte, juntamente com os Estados Unidos, com Israel e com os aliados, e para que a Síria possa provavelmente finalmente manter uma paz que se parece difícil de conseguir a breve trecho, mas é isso que se espera.

Muito obrigado, Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da sede da Europa. Foi mais um Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador. Fica, como sempre, disponível em podcast. Estivemos a olhar para o conflito na Ucrânia e também no Médio Oriente.