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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Todos os dias analisamos os principais conflitos do globo. Para tal, convidamos hoje o historiador Bruno Cardoso Reis, a quem deixo um muito bem-vindo. Muito boa tarde.
Boa tarde.
Bruno, vamos começar com a guerra na Ucrânia e com um volte face diplomático. Os Estados Unidos cancelaram a cimeira com a Rússia, ao que tudo indica, devido a um telefonema tenso entre dois representantes, um de cada país. Que ilações é que podemos tirar desta decisão, Bruno?
Boa tarde a todos. No fundo, é uma confirmação do que já tinha sido anunciado, ou seja, esta ideia de que não havia condições para se avançar com a cimeira entre Trump e Putin em Budapeste. Em todo caso, não deixa de ser relevante, porque por um lado é formalizar que a questão não está apenas suspensa, que foi os termos em que a coisa foi posta, mas que basicamente os Estados Unidos dão como encerrada a questão, portanto, que não haverá uma cimeira. Aqui há sempre que sublinhar este aspecto, que convém recordar que Donald Trump é alguém por natureza muito imprevisível e portanto pode sempre voltar a fazer uma chamada espetacular com Putin e voltar a ter algum tipo de ideia. Mas à partida, aquilo que parece aqui mais relevante é que, vendo a notícia no Financial Times, que é a origem desta informação, aquilo que passa é a ideia de que quem está realmente a dirigir neste momento a pasta da Ucrânia e as negociações com a Rússia já não é Steve Witkoff, mas é Marco Rubio, o chefe da diplomacia norte-americana, que tem uma postura mais convencional, se quisermos, mais diplomática no sentido clássico do termo, e também uma visão mais estratégica dos interesses americanos do que tinha Steve Witkoff, que parecia sempre estar muito desejoso de um acordo quase a qualquer preço com Putin. E portanto, o resultado disso é que se fez uma conversa mais a sério entre Rubio e o seu homólogo Lavrov, o ministro dos estrangeiros russo, e que aquilo que ficou claro, inclusive através depois de um documento, como falou a peça conversa, é que basicamente as exigências russas são as mesmas do início da guerra, ou seja, não há qualquer cedência e são exigências completamente esparatadas, que implicam reconhecer coisas como que haveria um regime nazi na Ucrânia, que é uma coisa absolutamente delirante. Convém sempre lembrar que Zelensky é judeu, que o avô de Zelensky combateu os exércitos nazis na Segunda Guerra Mundial , que é a Rússia que utilizou os mercenários do grupo Wagner na Ucrânia. O grupo Wagner chama-se Wagner não em homenagem à música do Wagner, mas em homenagem ao fato de Wagner ser um antissemita e ser alguém ideologicamente visto como próximo, uma espécie de precursor do nazismo. Mas em todo caso, com outras exigências do tipo a Ucrânia nunca teria de se desarmar, portanto, teria de ficar à mercê da Rússia . E inclusive exigências também sobre a própria NATO e a forma como a NATO se defende em relação à Rússia. Portanto, são coisas que realmente não fazem nenhum sentido. Não é propriamente uma surpresa, mas é o confirmar o formalizado que já se sabia. Aquilo que é realmente relevante, para já, é que aparentemente a corrente que prevalece na administração Trump neste momento, de facto não considera essas exigências aceitáveis, não quer uma paz a qualquer preço, e desse ponto de vista, parece aceitar que realmente há que continuar a apoiar a Ucrânia e há que continuar a fazer pressão sobre a Rússia. E realmente parece-me que essa é a visão mais acertada e que também está mais de acordo com o que são os interesses estratégicos dos aliados europeus dos Estados Unidos.
E Bruno, num minuto antes de avançarmos para o Médio Oriente, as Forças de Defesa da Ucrânia dizem ter destruído o tal míssil que Putin dizia ser impossível de interceptar. Isto significa o quê para as forças russas e para todo o discurso de que há mísseis impossíveis de interceptar?
Realmente essa é a questão. Eu acho que temos que ser sempre céticos em relação a essa ideia, porque há uma espécie de arma milagrosa que vai resolver a guerra, seja de um lado, seja do outro. Desde logo porque as duas partes também têm recursos limitados, estão muito desgastadas pelo conflito e portanto têm dificuldades também em produzir armamento em quantidade que depois pudesse fazer realmente uma enorme diferença. Sobretudo, este dado fundamental que é constante nas guerras, que é por que essa ideia de uma arma milagrosa, de uma tecnologia milagrosa muitas vezes mostra ser errada? Porque o outro lado também tem um voto, porque o inimigo também tem um voto, ou seja, o que acontece é que surge uma arma nova, muitas vezes ela consegue ter algum impacto até pelo efeito surpresa, pelo efeito desconhecimento, mas depois o inimigo, o outro lado adapta-se, começa a perceber como é que aquilo funciona e começa a perceber também como é que consegue interceptar, como é que consegue encontrar formas de interceptar esses novos sistemas. Portanto, não me espanta que seja assim. Obviamente aqui temos sempre que ter algum cuidado com confirmação de informações e tudo isso. Os dois lados estão sempre permanentemente também numa guerra de propaganda em relação ao outro lado, mas isso é o normal na guerra, ou seja, que não haja realmente, como diz, mísseis impossíveis de interceptar. Podem ser muito difíceis, mas eventualmente com um consciente esforço, investimento e inovação, muitas vezes o outro lado acaba por conseguir realmente encontrar formas de lidar com esses novos sistemas de armamento.
Bruno Cardoso Reis, vamos avançar, falar do conflito no Médio Oriente. Israel devolveu 30 corpos de palestinianos em troca de restos mortais de dois dos reféns. Esta é uma das notícias mais recentes. Isto mostra que os termos do cessar-fogo estão a ser tratados da forma como deveriam ser, sendo que Israel ainda assim continua a atacar também a Faixa de Gaza.
Para já temos uma espécie de modelo de cessar-fogo, um cessar-fogo no modelo daquilo que temos visto por exemplo entre o Líbano e Israel, ou seja, há um cessar-fogo no sentido de que não há hostilidades constantes, não há troca de tiros constantemente, mas há ocasionalmente ações armadas, ataques de um lado e do outro, Israel alegando que é atacado pelo Hezbollah ou vice-versa, no caso do Líbano. Aqui também temos um pouco a mesma coisa. Tivemos agora há dois dias um ataque também, por um lado, um só israelita que foi morto numa emboscada, o Hamas alega que não são eles, mas não sabemos se é verdade, se não é, se é um grupo dissidente do Hamas, se é outro grupo armado, porque há vários, a Jihad Islâmica, etc. Portanto, exatamente aqueles problemas que fomos aqui discutindo, que é como é que se consegue realmente desarmar múltiplos grupos armados, garantir que uma parte deles não esconda as armas, não se mantenha ativo, e como é que se garante que isso não leva Israel realmente a dizer: "Bem, não há condições para manter o cessar-fogo". Mas pelo menos para já, o que tem acontecido realmente não é um retomar das hostilidades em grande escala, portanto, tem havido ataques ocasionais. Eu diria, no contexto do Médio Oriente, de um cessar-fogo entre partes entre as quais há enorme desconfiança, eu acho que é provavelmente o mal o menos. Pelo menos continua a haver também entrada de ajuda, continua a haver troca de cadáveres, quer de prisioneiros palestinianos, quer de reféns israelitas. Portanto, acho que tudo isso são, à partida, boas notícias. Esperemos que dure e que de facto não haja aqui uma escalada que eventualmente possa pôr realmente em perigo o cessar-fogo.
Muito obrigado Bruno Cardoso Reis, aqui com a análise ao conflito, quer no Médio Oriente, quer também da guerra da Ucrânia. O Gabinete de Guerra fica por aqui e está de regresso em breve na antena da Rádio Observador.