Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora o novo Gabinete de Guerra, esta terça-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Trump falou esta segunda-feira com Vladimir Putin. O norte-americano garante que Moscou é a favor de uma resolução pacífica e ficou de apresentar uma nova proposta de cessar-fogo. Já Putin diz que está no bom caminho. Bruno, não é a primeira vez que ouvimos isto. O que será diferente desta vez?

Eu penso que não vai ser nada. Eventualmente, a única coisa é que já há sinais fortes que os Estados Unidos se vão desinteressar do processo. Trump não tem aqui condições de declarar uma vitória, nem de conseguir o Prêmio Nobel da Paz, que é o seu grande sonho há muitos anos, e portanto, provavelmente vão sair do processo.

Aliás, o J.D. Vance já deu a entender isso, não é?

Exatamente. O próprio Donald Trump disse que isto é um problema, sobretudo, europeu. Devia ter sido sempre um problema dos europeus para os europeus resolverem. Se ele for consequente com isso, já não é mau também, porque significa que, apesar de tudo, reconhece que os europeus têm aqui alguma palavra a dizer, algum interesse na questão. As declarações de Donald Trump são aquelas típicas, que é: "Vai começar imediatamente negociações". Eu pensei que já tinha havido negociações na semana passada, mas para acabar com a guerra já, em letras minúsculas, etc. Havia aqui duas pessoas nesta chamada, uma era o Putin, que tem grande experiência também na gestão de Donald Trump e ainda antes de ele ter feito essas declarações, o Putin fez umas declarações, que foram as primeiras a sair, e eu estive aqui a reler, que é basicamente um exemplo acabado do diplomatese, no sentido de não diz nada. É um parágrafo inteiro em que não se diz nada, não se compromete a nada. Diz que concordou, que vai começar a trabalhar com o lado ucraniano para ter um memorando sobre um possível futuro acordo de paz, que vai definir uma série de posições. Isto é tudo citações ipse verbis da comunicação russa, sobre os princípios de um acordo e o timing de um possível acordo de paz. Basicamente é nada. Vai haver um memorando sobre um possível acordo de paz, que no futuro irá haver, em termos que vão ser discutidos. Basicamente, isto não é nada.

É mais do mesmo.

É a confirmação de que realmente Putin não leva a sério Donald Trump e não tem razões para levá-lo a sério, porque não há nenhuma indicação de qualquer tipo de pressão norte-americana sobre a Rússia, que ele considera que, na prática, os Estados Unidos são uma espécie de aliado de facto da Rússia neste momento. Ou seja, coloca seriamente a questão de saber se, à parte de não fazer nenhuma pressão sobre a Rússia, se os Estados Unidos continuarão, pelo menos, a fornecer material, munição, munições, peças sobressalentes, etc, em relação ao equipamento que já forneceram, mesmo que seja a pagar, mesmo que sejam os ucranianos a pagar ou os aliados europeus a pagar, eventualmente a partir dos fundos russos, mas mesmo essa questão não está garantida. E o que ficou claro aqui é que, nestas condições, não há nenhuma razão para a Rússia de boa-fé entrar num processo de paz. E o teste definitivo para isso não são palavras, não são comunicados, não é a minha opinião ou de outros analistas. É a questão de facto de que a Rússia não aceita um cessar-fogo. À partida, esse seria o primeiro teste da boa-fé negocial. Se está realmente interessada em terminar o conflito e começar a negociar, até evitando o risco de o próprio desenrolar do conflito no terreno eventualmente descarrilar essas negociações, é haver um cessar-fogo enquanto se negoceia. Isso claramente não está em cima da mesa. Apesar da pressão americana inicial, Donald Trump deixou cair isso e continuamos na mesma, ou seja, com a Rússia a dar sinais de que vai insistir nas mesmas condições que tem tido sempre, que é: há que resolver as causas que deram origem ao conflito. Ou seja, traduzido por miúdos, a Ucrânia quer ser um país realmente independente, não quer ser um satélite da Rússia, quer ter a sua própria política externa e isso ser inaceitável para a Rússia neoimperial de Putin, que se vê como uma espécie de novo czar.

Bruno, mas antes de falar com Putin, Trump ligou a Zelensky. Sabemos detalhes do que foi conversado?

Não sabemos grandes detalhes. Aquilo que sabemos é na sequência das duas chamadas. A única coisa que podemos dizer é que não parece, nestes últimos episódios desta telenovela Ter havido novos choques entre Zelensky e os responsáveis americanos. Também teve um encontro com o vice-presidente Vance em pessoa em Roma, a pretexto desta primeira missa do Papa Leão XIV e as coisas parecem ter sido relativamente cordiais, tanto quanto percebemos. O máximo que se pode dizer é isso. Eventualmente, eu daria mais importância ao fato de Donald Trump também ter feito uma série de chamadas para os líderes de vários países europeus, os principais países europeus, a par do seu companheiro de golfe, que é o presidente da Finlândia, que enfim, tem aqui alguma importância, mas eu atribuo mais a chamada à questão do golfe do que propriamente ao fato da Finlândia ser um país desta linha da frente, sendo que tem uma fronteira mais longa com a Rússia. Em todo caso, isso é positivo no sentido que realmente mostra que os países europeus estão a conseguir passar a mensagem ao Trump.

Mas quis ouvir, sim.

Exatamente, que eles têm alguma coisa a ver com o assunto e que isto é um assunto importante pra Europa, e há pelo menos aqui alguma deferência diplomática da parte do presidente norte-americano, mas não me parece que quer da chamada de Zelensky, quer da chamada com os líderes europeus, possa deduzir que isso teve algum efeito em alterar a postura de Donald Trump, que no fundamental parece ser evitar qualquer choque com a Rússia, qualquer pressão que possa criar problemas com a Rússia, e essa que é a prioridade, que está em linha, aliás, com a sua postura externa em geral e que esteve em destaque nestes últimos dias com a sua visita à Arábia Saudita e países vizinhos das Arábias, que é basicamente esta ideia de que as alianças tradicionais não interessam nada, questões de valores, democracia não interessam nada. O que interessa é quem é que tem dinheiro e onde é que se pode fazer bons negócios. E aparentemente o Donald Trump acha que a Rússia é um sítio onde há dinheiro e onde se pode fazer bons negócios.

Bruno, sobre o Medio Oriente, segundo o Washington Post e uma fonte próxima de Donald Trump, há a notícia de que ele teria ameaçado medidas se Israel não avançasse com o processo de paz. Parece-te possível isto? Poderá ter alguma relação com a viagem que ainda agora mencionaste que Trump fez aos países do Golfo Pérsico semana passada?

Eu acho que temos que ter algum cuidado com uma informação que para já não vem do próprio Donald Trump.

E sempre das fontes próximas, não é?

Exatamente, embora a partida do Washington Post como jornal de referência e portanto de confiança, estou certo não inventaram simplesmente isso. Isso parece ser sinal, a par de um outro dado objetivo mais importante que referiste, que é ele não se deslocou a Israel durante esta viagem ao Medio Oriente, podia ter feito isso. Encontrou-se com o líder sírio, muito claramente por pressão, por resultado do lobby da Arábia Saudita e eventualmente até da Turquia. Ora, Israel tem sinalizado uma postura muito hostil em relação a este novo líder sírio, portanto claramente privilegiou as boas relações com a Arábia Saudita em relação às boas relações com Israel, inclusive tem dado sinais também de que está disponível pra um acordo com o Irã. Assinou também uma espécie de um cessar-fogo com os Hutis, sem envolver Israel, sem consultar Israel. Fez um acordo pra libertar um refém israelita americano através do Qatar, dos amigos do Qatar, que não oferecem só aviões, pelo visto também oferecem um refém, numa negociação através do Qatar, mas com o Hamas, sem envolver Israel. Tudo isso são realmente sinais de que há limites sérios à relação entre Netanyahu e o atual governo israelita e Donald Trump, que não parecem ser assim tão surpreendentes. Ou seja, Donald Trump basicamente não tem grandes problemas com as condições da população civil em Gaza ou mesmo com perseguir a guerra, mas não quer que isso perturbe as suas relações com os países árabes, a que ele dá grande importância, que são os países do Golfo. Aqui a grande questão era perceber o que é que pesava mais. Se é o fato de Netanyahu ser popular entre a direita americana, entre os partidários de Donald Trump, se era mais esta importância que ele dá a fazer bons negócios com a Arábia Saudita, a manter boas relações com a Arábia Saudita. Para já, e se calhar como efeito mais imediato desta viagem, parece prevalecer sobretudo esta última hipótese, de ser mais importante o relacionamento e os milhares de milhões prometidos de investimento dos países do Golfo. Vamos lá ver se isso dura ou se o governo israelita consegue recuperar aqui algum terreno, mas claramente parece ser isso que está a prevalecer nestes últimos dias.

Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Obrigada pela análise, Bruno. Boa semana.

Obrigado. Bom trabalho.

Obrigada.