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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Daniela Nunes, bem-vinda. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky vai estar na Casa Branca reunido com Joe Biden esta noite. Já passou pelo Congresso norte-americano. O objetivo deste encontro com Joe Biden é evitar, nas palavras do próprio presidente norte-americano, o melhor presente que Putin podia ter. Conseguirá, mesmo tendo em conta a posição dos republicanos no Congresso, que é a de fechar a torneira do financiamento a Kiev?

Olá, Vanessa. Olá a todos. Eu espero que sim. Essa é a minha esperança e julgo que é a esperança de todos os que no Ocidente estão conscientes, como é o caso do presidente Biden, de que a segurança da Ucrânia e assegurar a segurança da Ucrânia é a ponta de um iceberg que é a própria segurança europeia, a própria segurança norte-americana e a própria segurança internacional. De facto, o ceticismo republicano tende a não ir tão longe nesta minha visão do iceberg, porque considera que a ideia de Putin atacar um país NATO é uma ideia absurda. Mas a questão que eu coloco é: nós, em 2013, também acharíamos absurdo que Putin tentasse tomar a Crimeia. Em 2021, também achávamos absurda a ideia de uma operação militar especial, aqui entre muitas aspas. Portanto, este tipo de coisas e este tipo de ideias só são absurdas até que elas aconteçam um dia. De facto, alguns republicanos estão especialmente hostis relativamente à continuidade da ajuda norte-americana ao esforço de guerra ucraniano. Eu, nesse sentido, nem quero pensar onde é que vamos parar se Donald Trump for eleito daqui a menos de um ano. Depois também há aqui associado, e temos vindo aqui a falar, não apenas no Gabinete de Guerra, mas no contexto de outros programas, outros comentadores e analistas, tem-se falado na questão também da fadiga mediática. Vamos quase com dois anos de guerra e esta fadiga não é apenas uma fadiga republicana e não tem protagonismo apenas em contexto de Congresso norte-americano. Há, de facto, aqui uma necessidade de continuar a chamar a atenção para a urgência e a emergência que está em continuar a ajudar a Ucrânia, porque seria um presente para Putin abrir as portas em terreno ucraniano para a vitória e certamente essas portas não se cingiriam depois a território ucraniano. O seu projeto é obviamente muito maior do que isso, conforme eu também já disse aqui no contexto destes nossos programas, é um projeto muito mais napoleônico do que meramente ucraniano.

E um dos países que tem mais razões para estar preocupado, até do ponto de vista histórico, é a Polónia, que teve um impasse político, mas que agora tem um novo primeiro-ministro, Donald Tusk, ex-presidente do Conselho Europeu, e foi ele que disse estar farto de ouvir os políticos dizerem que estão cansados da situação na Ucrânia, aqui não fadiga mediática, mas já acusando os políticos de fadiga política em relação à Ucrânia, e Tusk pede uma mobilização total do Ocidente. Esta é uma voz, Daniela, que pode ter peso no Conselho Europeu desta semana?

Sim, pode, e não apenas no Conselho Europeu. Julgo que esta é uma voz que pode trazer alguma vivacidade a este debate de que estávamos a falar na questão anterior, acerca da necessidade de manter acesa a chama da ajuda à Ucrânia e de manter acesa a chama das opiniões públicas no Ocidente e dos regimes políticos no Ocidente perceberem que garantir a segurança ucraniana é também garantir a nossa segurança e, em particular, é garantir a segurança polaca, mas também de outros países que, como dizia o Bruno, e muito bem, historicamente percebem bem o que é o perigo da vizinhança russa. E estou aqui a pensar, por exemplo, em três pequenos países ali bem próximos de território russo, que são os três bálticos. Gostava também de aqui saudar o novo primeiro-ministro polaco e dizer que esta eleição significará certamente uma ainda maior aproximação da Polónia à Europa, ao projeto europeu e aos ideais ocidentais de liberdade e de democracia, que são essenciais também para lidar com esta questão do debate do apoio à Ucrânia. Por outro lado, também me parece que significará, como aliás podemos verificar pelas declarações aqui citadas pelo Bruno, um reforço por parte da Polónia da ideia de que é preciso dar continuidade ao esforço e ao apoio de guerra na Ucrânia. A Polónia, que tem sido também um país a fornecer ajuda, não apenas financeira, mas também muita ajuda material e logística, e por isso ter líderes e personalidades que sublinhem esta urgência e esta necessidade, e também esta retórica, no fundo, é imprescindível até para fazer face a outras posturas antagónicas, como é por exemplo a do líder húngaro, cada vez mais hostil a esta ajuda financeira e material proveniente dos fundos europeus para a Ucrânia e que hoje mesmo foi alvo das críticas do ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, que dizia que Orbán não está apenas contra a ideia de apoiar a Ucrânia, mas está contra qualquer que seja o rumo ou qualquer que seja a direção que a Europa pretenda tomar. O que obviamente não é positivo, tendo em conta que sabemos que ao final destes quase dois anos de guerra, a tal fadiga mediática afasta cada vez mais as pessoas desta problemática e deste perigo, que obviamente não desapareceu só porque já passaram quase dois anos.

Daniela, o principal opositor de Vladimir Putin, Alexei Navalny, que estava preso, agora está desaparecido há pelo menos seis dias. O Kremlin diz que não tem intenção nem capacidade de o localizar. Podemos ter aqui mais uma situação como aquela que aconteceu com outros opositores e outros dissidentes políticos?

Sim, claro que sim. Eu julgo que isto em duas ou três palavras resume-se em mais do mesmo. Acho que não só o Kremlin tem toda a capacidade para localizar Navalny, como aliás também acho que é a única entidade capaz de o fazer. Até é um bocado irónico. Trata-se de um preso político, trata-se de um opositor do regime que o próprio regime oprime e que o próprio regime prende. E o mesmo regime diz que não sabe ou não pode localizá-lo. Não faz grande sentido, mas também não há muito mais a acrescentar. É o modus operandi habitual do Kremlin, que apesar de frustrante, não é um comportamento que nos pareça estranho, vindo de quem vem e vindo de onde vem. O que também não é estranho, depois são as declarações do senhor Dmitry Peskov, que acusa os Estados Unidos de tentativa de interferência num processo que supostamente só diz respeito à Rússia e ao regime russo, portanto, trata-se de um preso político russo, que está preso por um conjunto de regras que não cumpriu e um conjunto de regras que são estabelecidas por este regime. A ideia é que os Estados Unidos não têm que ingerir neste regime, nestas regras e neste modus operandi. É mais do mesmo no contexto da narrativa russa e putinista.

O "Gabinete de Guerra" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.