Tinha 52 anos. Era operária de uma fábrica têxtil de Braga dedicada à produção de tela para tendas. O dia de trabalho devia estar no início para esta mãe de dois filhos pois passavam poucos minutos das 9h da manhã quando o desastre aconteceu. A dado momento a mulher aproxima-se de um tear para introduzir uma bobine de fio. Uma peça da roupa que vestia fica presa no tear. Este, ou não tinha sistema de travagem ou se o tinha ele não funcionou. Como a máquina não trava Maria José Silva acaba trucidada. O óbito foi declarado no local, dizem as poucas notícias dedicadas ao caso. Sim, este acidente de trabalho, apesar dos seus contornos chocantes, não foi muito além da transcrição da notícia do Correio da Manhã e das reportagens nos meios locais.
Por esses dias — este acidente aconteceu a 21 de Outubro — assistia-se ao vivo e em directo ao triunfo do activista e ao ofuscamento do trabalhador. O activista não só é um produto do nosso tempo como existe pelos meios do nosso tempo: sem os directos a anunciar “a carga policial” que está para começar, que afinal não avançou ainda mas vai avançar daqui a pouco; sem o acompanhamento das deliberações das assembleias populares, seja isso o que for, o activismo era um Big Brother sem televisão, ou seja um flop. O activismo vive das audiências e gera audiências.
As notícias sobre a operária da fábrica esmagada pelo tear remetem para coisas técnicas como os teares, os sistemas de travagem, os fios e as bobines, os seguros ou a falta deles, já o activismo permite dar largas às performances dos revolucionários de tik tok.
A operária da fábrica de tendas não interessa mediaticamente falando. O activista que anuncia que vai dormir dentro de uma tenda numa praça central de Lisboa ou do Porto tornou-se o foco das notícias e das atenções desse cortejo de figuras típicas obrigatórias em qualquer protesto em que se ouça a palavra Revolução. Temos os inevitáveis artistas que interrompem a sucessão de concertos “gratuitos” pagos pelo contribuinte para virem lembrar a esses mesmos contribuintes que devem contribuir ainda mais, agora pela habitação (ou por aquilo que eles entendem que deve ser a habitação pública) e amanhã, tal como antes, pela causa do momento. Temos os advogados que em todo o agente de autoridade português vislumbram um algoz. E, claro, não podemos esquecer as maravilhosas pessoas solidárias, sempre com total disponibiidade de meios e de tempo para o exercício da sua solidariedade. Agora as maravilhosas pessoas solidárias fazem em parte incerta refeições para os manifestantes, com produtos certamente caídos do céu e transportados por anjos. A estas e outras figuras junta-se ainda o estudante ou activista de sotaque estrangeiro que, com alguma condescendência, explica aos locais que eles têm de empatar menos e tratar de fazer a revolução. Enfim, a tenda no Rossio é a versão ISCTE da casa do Big Brother.