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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Orlando Sá Moens, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Boa noite.
Muito boa noite. Vamos começar por olhar para mais um alegado ato de sabotagem em território europeu. A Estónia diz que Moscovo foi responsável por um incêndio nas instalações de uma empresa especializada em drones terrestres em Tallin, em agosto. A Rússia já veio negar ser responsável. Estamos perante mais um caso atribuído à guerra híbrida de que tanto se fala recentemente.
Muito boa noite, muito obrigado pelo convite. Nós começamos a ter um conjunto de situações que até são muito parecidas na maneira como desconhecemos efetivamente o que aconteceu. E o que temos é esta situação, esta penumbra em que notamos a tensão, principalmente nos países mais perto da Rússia e em que certas coisas começam a acontecer como que em cascata. Pode parecer, por vezes, coincidência, mas são em cadeia e há, de facto, aqui um pouco coincidência a mais. Ou seja, alguns destes atos podem ter um grau de intencionalidade ou pelo menos, mesmo que não tenham, há um grau de descuido, de erro, de omissão e de, se calhar, da Federação Russa estar a poder testar a nossa determinação e as divisões na Europa. Aqui, neste caso, os países bálticos são daqueles que estão mais expostos a esta forma de estar da Rússia. Podem até não ter sido alvo, como foi a Ucrânia, de uma invasão, precisamente porque já pertenciam à NATO. E agora, aquilo que temos reportado é aqueles projéteis russos que podem ter sido baralhados e entrado para a Estónia ou até para a Letónia. Tem acontecido recorrentemente e cabe-nos encontrar um conjunto de critérios para que estes casos não deem origem a uma decisão precipitada, mas também temos que dar o sinal à Rússia de que não vamos permitir que casos não intencionais perdurem no tempo. Portanto, devíamos ser um pouco mais ciosos das fronteiras dos países da NATO e continuar a reforçar estes três Estados que são aqui, de facto, uma frente perante a Federação Russa. Agora, em guerra, estamos sempre na tal situação de que a verdade é a primeira a morrer e ficamos perante um conjunto de relatos diferentes perante as mesmas ocasiões e que não sabemos se é inserido propriamente nesta escalada atual da Rússia ou não, ou de que parte é que poderá estar o descuido ou o erro. Mas enfim, quem brinca com fogo arrisca-se a queimar e felizmente que ainda não houve nenhuma situação mais trágica destas incursões.
Vamos também olhar para o conflito no Medio Oriente. O Irão diz que Donald Trump está preso num pântano em relação às negociações. São palavras do secretário do Conselho de Segurança Iraniano, que afirma que o país apresentou as condições para terminar a guerra, mas que o presidente norte-americano não tem condições para tomar uma decisão. Considera que Donald Trump estará mesmo a ter algumas dificuldades para conseguir tomar uma decisão ou não?
Nós estamos, de facto, aqui perante um impasse cuja complexidade está a atingir algumas camadas. Por um lado, tivemos esta tentativa de o Irão chegar com uma proposta, assim até um bocadinho surpreendente, em que pareciam dar oportunidade a Trump de conseguir colher uma certa vitória política, que poderia apresentar até uma promessa de abertura do estreito em sete dias. E em troca dessa promessa, atenção que uma promessa dada pelo Irão também não creio que deva ser levada totalmente a sério, mas em troca as exigências eram naturalmente a questão dos ativos. Ou seja, muito possivelmente, a ênfase dada e já dada no memorando pode ter sido aqui ainda mais sublinhada. Em troca de um melhor resultado eleitoral, que poderia ser alcançável por Trump, caso ele pudesse ter um estreito aberto e pudesse ter dito que tinha chegado a uma espécie de acordo, em troca disso, o Irão procurava, acima de tudo, o descongelamento dos ativos e se calhar que estas primeiras tranches, que se fala em 12 mil milhões, mas poderá ser mais, o levantamento gradual de parte das sanções, e aqui mais uma vez atuariam como uma forma de retorno aos seus ativos e àquilo que o Irão quer continuar a vender de forma mais livre. Portanto, isto, no fundo, seria o fim do bloqueio dos Estados Unidos, que pela maneira como esta proposta aconteceu, pode estar mesmo a ter efeito. Falam-se sempre entre os vários milhões, 200 a 300, alguns cálculos até podem ser maiores de 300 milhões de euros que podem ser perdidos por dia pelo Irão. Mas o que é facto é que o Irão lá vai continuando a escoar junto dos seus, provavelmente, intermediários, nem sempre registados. E portanto, até o Irão pareceu comprar tempo. E repare-se que mesmo quando Trump responde assertivamente e diz que não, e não morde este isco que podia ser até, digamos, de alguma forma, levado a isso pela conjuntura, o Irão começa a dizer que ainda não teve uma resposta formal dos mediadores e a pôr uma camada quase burocrática e de formalização para que isto não se passasse assim tão rapidamente. Agora, claro que nos Estados Unidos é mais difícil a decisão e que vemos aqui que Trump pode estar um pouco perdido. Ele vai experimentando diferentes abordagens, vai dizendo coisas diferentes Poderá estar a encetar uma forma de estar que nós temos sempre muito cuidado de tentar analisar, porque ele ao mesmo tempo que diz que há uma pressão pelo Irão para um acordo, quando o acordo aparece também não diz em que medida é que discorda e em que pontos. E de facto é mais difícil articular um país como os Estados Unidos do que neste momento o Irão, apesar de sabermos que a guarda revolucionária ainda tem um poder civil ao qual se calhar deve algum tipo de respeito e por muito que saibamos que muitas das decisões são descentralizadas e também muitos destes ataques que foram aparecendo aos países do Golfo, que às vezes até nos pareciam algo descoordenados, também se pode dizer que o Irão pode ainda ter uma capacidade de centralizar as decisões ou de buscar aquilo que pode ser a ideia do líder supremo, que não aparece e que está oculto, de uma maneira que os Estados Unidos pode não estar a conseguir agora ultrapassar. Recordo-se que também não é alheio a estas dificuldades dos Estados Unidos o facto de terem desmobilizado ou dispensado muitas das pessoas que trabalhavam no setor diplomático e mesmo no setor militar do Pentágono e que têm sido dispensados desde janeiro de 2025, paulatinamente e gradualmente, e que têm tornado os departamentos dos Estados Unidos que lidam com estes assuntos, se calhar, um pouco menos profissionais. E portanto, tudo isto pode estar a ser sentido pelo Irão como uma forma de dizer que os Estados Unidos estão um pouco perdidos nestas várias frentes. E de facto, os Estados Unidos estão um pouco perdidos nas várias frentes, ainda tentam atuar um pouco em relação à Ucrânia. Provavelmente teriam que ter uma posição articulada com Israel, porque parte da exigência do Irão passa pelo atenuar do conflito no Líbano. Não se sabe até que ponto é que não teria que ter uma articulação com a própria Arábia Saudita, porque os Estados Unidos também estão a tentar criar um conjunto de fundos de investimento que venham a ter infraestruturas energéticas na Arábia Saudita para evitar o estreito de Ormuz como sendo predominante na questão do comércio do petróleo e encontrar alternativas pelo mar Vermelho. Mas também sabemos que há muita relutância dos Estados Unidos em atuar em favor da Arábia Saudita e contra os Huthis. E portanto, sim, é um Trump que depois tenta pressionar Xi, provavelmente quando ele esteve em reuniões agora nesta visita de Estado, mas que sabemos que a China muito possivelmente pode não ter ouvido nem seguido a batuta de Trump e poderá continuar a ajudar na medida que quiser, quer a Rússia, quer o Irão. Nós temos aqui um efeito em que as guerras se vão misturando e em que os Estados Unidos estão, de facto, com muita dificuldade em ter decisões, é verdade. Isso por vezes faz com que não tomem decisões precipitadas, mas neste caso, já tivemos tantas por parte dos Estados Unidos que até a nós, analistas, torna-se complicado perceber um pouco o que é que falta para que os Estados Unidos possam ser mais contundentes na abertura de Ormuz. Ainda assim, se olharmos a contabilidade dos navios, já tivemos dias mais ali entre os 50, os 60, que é muito abaixo daquilo que era antes e muitos deles nem todos os que entram saem, não saem na mesma medida que entram, mas na última semana houve um aumento de fluxo um pouco significativo.
Muito obrigada, Orlando Sá Mendes, especialista em Relações Internacionais. Obrigada pela sua análise.
Muito obrigado. Boa noite.
Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã.