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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Neste programa falamos de conflitos em curso, destaque para a Ucrânia e destaque para o Médio Oriente. E hoje destaque, claro, para a Assembleia Geral das Nações Unidas, que decorre em Nova York. Eu sou Miguel Cordeiro, comigo em linha está já Luís Tomé, professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e investigador senior do Instituto Português de Relações Internacionais. Muito boa tarde. Obrigado por se juntar a nós.

Olá, boa tarde.

Está a decorrer esta Assembleia Geral das Nações Unidas e acaba de discursar Donald Trump. Terminou há minutos esse discurso longuíssimo de Donald Trump. Temos aqui vários destaques. Desde já deixou um ataque direto a países da NATO que estão ainda a comprar petróleo à Rússia. Isto é o que diz Donald Trump. E diz que as Nações Unidas não têm conseguido reconhecer o trabalho que Donald Trump tem feito. Diz que conseguiu travar sete guerras que estavam em curso, mais do que qualquer outro presidente, primeiro-ministro ou país alguma vez conseguiu fazer. Como é que avalia este discurso de Donald Trump? Foi longuíssimo, de fato. Foi assim que começou com este autoelogio e crítica às Nações Unidas. Há algo que podemos retirar de maior destaque deste discurso de Trump?

Sim, do conjunto do discurso, eu acho que há dois alvos no discurso do presidente dos Estados Unidos: as Nações Unidas e o multilateralismo de maneira geral, e a Europa, em particular os países da União Europeia. Mas são vários os tópicos relevantes. Ele obviamente começa, como sempre, por se vangloriar, justificar os êxitos daquilo que ele chama a era dourada dos Estados Unidos, e logo a seguir liga isso ao que ele considera ser um grande sucesso na repressão da imigração neste mandato, aliás, até agradecendo a El Salvador pelo excelente trabalho em receber e prender tantos criminosos. Depois tem essa, mais uma vez, enganosa afirmação de que acabou com sete guerras só desde que regressou à Casa Branca este ano, sempre naquela tentativa de se candidatar a Prêmio Nobel da Paz, e depois sem assinalar ou elogiar o aniversário das Nações Unidas, criticou a organização. Desde logo, a primeira crítica é por não o ter ajudado em nenhuma das suas trumpianas iniciativas de política externa. Diz que a ONU tem grande potencial, mas que precisa ser profundamente reformada sem justificar exatamente, concretizar em que sentido. Agora, aqui uma fragilidade óbvia: as organizações são aquilo que os membros fazem delas, e os Estados Unidos são há décadas o membro proeminente, não é apenas criador proeminente das Nações Unidas, tem direito de veto como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e, portanto, é corresponsável ou o maior responsável por muito daquilo que ele critica da fragilidade e da falta de partido potencial que têm as Nações Unidas. Depois, claro, destaca-se o que ele já tinha dito, o reconhecimento do Estado da Palestina é uma recompensa para o Hamas e quer a libertação já dos reféns, sem referência às atrocidades cometidas em Gaza, à crise humanitária, aos colonatos, às ameaças de Israel de reanexações. Ameaça a Rússia com as tarifas poderosas no caso de não estar pronta pra acabar com a guerra na Ucrânia, mas faz isso para ligar críticas aos países europeus que têm que aderir àquilo que os Estados Unidos estão a fazer, adotando exatamente as mesmas medidas. Foi esta a expressão que ele utilizou, acrescentando que vocês, europeus, estão muito mais perto, e os Estados Unidos têm um oceano pelo meio. E depois virou-se contra a Europa, criticando em particular as políticas migratórias, dizendo que fazem parte de uma agenda globalista de imigração, e até utilizando uma expressão fortíssima, dizendo que os vossos países estão a ir pro inferno, justificando o sucesso da federalização da política de Washington e da mobilização da Guarda Nacional, mas dizendo esta expressão terrível, que é "os vossos países estão a ir pro inferno", acrescentando que ele depois é muito bom a prever coisas também a propósito da energia limpa e da nova grande fraude verde, como ele chamou. Portanto, o conto geral, voltando ao início, é uma crítica às Nações Unidas e à Europa em particular. O resto é um pouco daquilo que ele próprio vem dizendo nos últimos tempos.

Entretanto, Marcelo Rebelo de Sousa vai discursar esta tarde. Podemos esperar que alguma coisa em particular deste discurso será o último de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente da República nas Nações Unidas?

Eu acho que há três ideias, certamente, que o presidente Marcelo vai passar: o apoio ao multilateralismo e à paz, vincando que Portugal tem estado sempre neste apoio do multilateralismo e paz, para além da diplomacia. Depois, num segundo ponto, certamente, o apoio à Ucrânia e a condenação da Rússia. E creio que, de novo, justificará o reconhecimento agora por Portugal do Estado da Palestina. Eu creio que, a grosso modo, serão estes os tópicos principais do discurso do nosso presidente.

Muito bem. Esta Assembleia Geral das Nações Unidas é espaço também para muitas reuniões bilaterais, é espaço também para a reunião do Conselho de Segurança sobre Gaza e sobre a Ucrânia, e isso vai acontecer ainda durante o dia de hoje. Mas quanto a essas reuniões bilaterais, há destaque para a reunião entre Trump e Zelensky. Há mais reuniões em destaque também durante o dia de hoje. O que podemos esperar desses encontros bilaterais e qual será provavelmente o maior destaque?

Bom, é esse encontro com o presidente ucraniano. Eu acho que Zelensky, mais uma vez, vai tentar demonstrar Presidente Trump que Putin não só não está interessado em quaisquer negociações, conversações a sério conducentes a uma paz, como continua com a sua agenda maximalista, dos objetivos maximalistas e agressivos. Portanto, tentará, por um lado, que os Estados Unidos libertem mais auxílio, nem que seja por via de venda de armas a países europeus à Ucrânia e, por outro lado, que os Estados Unidos de Trump cumpram aquilo que vêm sendo suas ameaças repetidas numa estratégia falhada de apaziguamento e concretize sancionando, criticando publicamente a Rússia que não quer qualquer paz. Eu acho que essa é a agenda de Zelensky. Não sabemos o estado de espírito do presidente Trump, isso é sempre um fator acrescido de imprevisibilidade àquilo que pode ser o resultado e o tom da conversa, mas eu acho que esse é o esforço do presidente ucraniano nesta nova conversa com o presidente Trump.

Muito bem.

Depois há outras reuniões importantes que se calhar falaremos daqui adiante. Com os países árabes por um lado e com o primeiro-ministro Netanyahu por outro.

Mas podemos esperar alguma decisão importante dessas reuniões?

Não e não creio que Donald Trump esteja em condições de tomar decisões. Pode fazer aquela retórica, certamente com Zelensky vai repetir aquilo que disse agora mesmo no discurso, ameaçar a Rússia com eventuais tarifas, mas quantas vezes já o vimos fazer isso, insistindo junto dos europeus que este é que devem fazer mais. Não parece que vá adiantar nada sobre garantias norte-americanas, quer aos aliados NATO, quer em particular ao apoio de força de segurança europeia para a Ucrânia. Isso seria o prêmio que Zelensky gostaria de ter, mas não creio que o fará. Do ponto de vista no Médio Oriente, Donald Trump tem aqui um equilíbrio muito difícil de fazer, porque vai reunir primeiro com um conjunto de países árabes, a começar pelo mais importante deles, Arábia Saudita, embora também esteja o presidente da Turquia, que não é árabe, mas também estará nesta reunião. Mas vai ter que se confrontar com este drama e as linhas vermelhas que estes países já foram traçando, de que jamais aceitarão qualquer reanexação de territórios palestinianos, por exemplo, Gaza ou parte ou a totalidade da Cisjordânia ou até de Jerusalém. E vão lembrar a Trump que ele iniciou e teve sucesso diplomático os chamados Acordos de Abraão, que levou um conjunto de países árabes a reconhecer e estabelecer relações diplomáticas com Israel. E, portanto, no fundo, sensibilizar Trump para ele também ajudar a traçar linhas vermelhas, limites que Netanyahu e Israel não podem ultrapassar. Além de, obviamente, vários destes interlocutores que vão reunir com Trump, são países que têm negócios enormes com a família Trump e com outros norte-americanos. Depois, vamos ver é o equilíbrio e o que é que diz Trump na sequência desta reunião e da outra que à partida terá, se confirmar, com o primeiro-ministro Netanyahu, que será depois da reunião de Trump com os países árabes. Mas Netanyahu também tem aqui esse dilema, porque por ele, tendo afirmado, morreu o objetivo da comunidade internacional dos dois Estados, nem sequer verdadeiramente, tal como Trump, assume a autoridade palestiniana como entidade verdadeiramente corporizante do poder político palestiniano que possa levar a cabo negociações. Portanto, vai tentar ver que margem de manobra tem ele, Netanyahu, para gerir internamente as sensibilidades diferentes do seu governo pra se manter no poder e ver até onde há tolerância e margem de manobra do presidente Trump. É o equilíbrio que Trump vai ter que fazer entre os países árabes, e agora também alguns aliados ocidentais em relação à Palestina, com a agenda de Netanyahu e dos seus ministros mais extremistas, sendo que o próprio Donald Trump nem sequer autorizou ou deu o visto ao presidente da autoridade palestiniana para ir discursar às Nações Unidas e sanciona a autoridade palestiniana. Portanto, temos aqui esse bloqueio muito complicado. Veremos como é que Donald Trump se exprime ou se toma alguma decisão a favor mais de um lado ou do outro. Tenho dúvidas. Ele é bastante influenciável, mas é influenciável aos argumentos de um lado e de outro, e eu acho que isso o paralisa.

Entretanto, hoje o dia também fica marcado por uma reunião da NATO. Mark Rutte falou no final da reunião, que serviu para discutir a violação do espaço aéreo da Estônia neste caso, mas discutiu-se a violação do espaço aéreo de países membros da NATO, com Mark Rutte a dizer que a NATO vai defender cada centímetro do espaço aéreo e quis condenar essa atitude por parte da Rússia. Seria de esperar alguma posição mais forte por parte da NATO, algo mais concreto? Tudo que escutamos agora já temos vindo a escutar nos últimos dias.

Não é só nos últimos dias. Nós vimos a escutar isto há anos, pelo menos, já pra não ir mais atrás, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia. E de fato, esperava-se nesta altura uma posição mais firme da NATO e em particular dos países europeus NATO, porque nós tivemos no espaço de poucos dias por duas vezes ser invocado o artigo 4, ainda hoje temos estas alegadas incursões de aeronaves russas no espaço aéreo da Dinamarca e da Noruega. Por acaso, Dinamarca tem uma parcela do seu território cobiçado por Trump, a Gronelândia, e a Noruega, ilhas de Svalbard, cobiçadas pela Rússia. Mas a realidade é que isto não é uma coincidência nem é engano, há um padrão. É uma premeditada escalada irresponsável do lado russo nessa sua guerra híbrida.

Sendo que nessa questão dos drones, ainda não há uma certeza de envolvimento russo. A líder da Dinamarca aponta que sim. A NATO hoje não se quer atrapalhar praticamente com isso.

Há essas dúvidas, não é? Mas nós temos uma sequência de uma série de eventos, por isso é que eu digo que não pode ser só coincidência, porque há um padrão nesta tática de salame avançando fatia a fatia, testando a NATO, a sua prontidão militar, a resposta política, os limites do que considera agressão Tentando, por um lado, amedrontar os europeus e dissuadir a tal força de garantia de segurança pra Ucrânia, dividir os europeus e dividir europeus e americanos, explorando a margem de manobra concedida por Trump, o tal que faz ameaças que nunca cumpre no apaziguamento falhado. Eu recordo que em 2015, a Força Aérea da Turquia abateu uma aeronave militar russa após violar o espaço aéreo da Turquia quando ia a caminho da Síria pra bombardear turcomanos que combatiam o Assad. Um mês antes, tinha havido também uma incursão de um drone russo em espaço aéreo da Turquia, que avisou e cumpriu, portanto, mantendo as regras de engajamento. E não teve que esperar pela NATO, não teve que fazer consultas à NATO, fê-lo. E portanto, mostrou que as suas regras eram robustas e não deviam ser colocadas à prova e não foram. Depois disso, foi a primeira vez que um país da NATO abateu uma aeronave militar russa, e agora nós, repetidamente, perante vários episódios, estamos a tornar impune este comportamento irresponsável. Portanto, é momento de os países europeus não estarem permanentemente à espera de Donald Trump, que prossegue a linha de apaziguamento com a Rússia e que nos deixa a nós o essencial da nossa segurança. Temos que mostrar firmeza. Depois de tantos episódios, de por duas vezes terem sido invocado o artigo quarto, esperava-se uma postura mais firme do lado da Aliança Atlântica, sob pena de, obviamente, esta tática do salame continuar. E não esqueçamos que estamos numa semana delicada, porque no domingo vamos ter eleições antecipadas na Moldova, outro alvo da Rússia, eleições parlamentares em que há muitos relatos, mais uma vez, de interferência e ingerência russa neste processo eleitoral. E vamos ver como é que isto culmina, porque o país também está relativamente dividido entre os pró-ocidentais, como a presidente Maia Sandu, e os pró-russos. Nós já assistimos ao que assistimos antes da invasão da Ucrânia, aquilo que a Rússia foi fazendo em processos eleitorais, e agora estamos a ver a Moldova neste risco, neste quadro, e a Europa vai apenas fazendo isto de que vai defender cada milímetro, cada centímetro do seu território, mas isso já o disse dezenas de vezes.

Muito bem, Luís Tomé, muito obrigado por mais esta participação no nosso Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã aqui na Rádio Observador.

Obrigado, boa tarde.