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Em dia de cimeira da NATO, que tem como palco Ancara, capital da Turquia, é o tema com que arrancamos este Gabinete de Guerra. Tenho hoje como convidado o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Começamos com as declarações de Donald Trump que se seguiram ao encontro com o presidente turco Recep Erdoğan, em que o presidente dos Estados Unidos não descarta aquela possibilidade que continua a pairar no ar de retirar militares das bases europeias. Como é que interpretas esta renovada ameaça e as críticas que fez aos aliados europeus?

Eu acho que isto só mostra duas coisas: mostra que Donald Trump tem aqui um problema de princípio com a Aliança Atlântica, que tem pouco a ver com a questão do nível de investimento em defesa, porque pra qualquer pessoa razoável que tenha minimamente em conta as realidades políticas, econômicas e orçamentais, o aumento do investimento em defesa por toda a Europa e, em particular, na Europa de Leste e na Europa do Norte, realmente tem sido excepcional. Estamos a falar da volta de 20%, juntando os países europeus membros da NATO mais o Canadá no ano passado. O conjunto dos países europeus membros da NATO mais o Canadá já gasta quase 600 mil milhões de dólares por ano em defesa. Isso significa que gasta mais do que a China, que é o segundo país que gasta mais a seguir aos Estados Unidos. Só é ultrapassada pelos Estados Unidos, mas isso é assim desde sempre e é assim também porque os Estados Unidos querem que seja assim. É uma política dos Estados Unidos ter um diferencial enorme no investimento em defesa face a qualquer rival para manter a sua posição de preponderância nesta dimensão tão importante do poder internacional que é a dimensão militar. Mas o problema de Donald Trump, de fundo, não é esse. O problema do Donald Trump, de fundo, com a Europa é que é uma aliança, portanto uma aliança limita a liberdade de ação de todos os seus membros, inclusive do mais poderoso, que são os Estados Unidos, e Donald Trump não gosta de limites à sua liberdade de ação e ainda por cima é uma aliança essencialmente de democracias, portanto de Estados em que há um grande peso das instituições, das leis, uma grande tradição de limitação do poder, uma grande dificuldade em simplesmente aceitar pressões, decisões de alguém como Donald Trump, por exemplo, a Dinamarca. No caso da Dinamarca, por muito que interessasse à Dinamarca vender a Groenlândia, que é uma fonte de despesa, de fato achava que não devia fazer isso e a própria lei e Constituição dinamarquesa não permitem isso, tanto mais que os habitantes da Groenlândia não querem. Esse é que é o problema de fundo do Donald Trump e esta é uma forma dele manter a pressão sobre os países europeus. O que isto também mostra é que ele, apesar de tudo, tem uma dificuldade, que é a ideia de livrar-se da NATO, livrar-se dos aliados europeus, continua a não ser popular nos Estados Unidos. A maioria dos norte-americanos continuam a valorizar a Aliança Atlântica, continuam a valorizar a aliança com outras democracias europeias, embora seja verdade que um número crescente de republicanos, sobretudo aqueles mais alinhados com Trump, realmente começam também a alinhar com as suas críticas da aliança, que não fazem nenhum sentido. E só pra terminar, Donald Trump agora tem insistido nestes últimos dias que o grande aliado dos Estados Unidos é Israel. Esse é que é um grande aliado. Israel participou exatamente zero vezes em guerras, em conflitos ao lado dos Estados Unidos, no Afeganistão, no Iraque, onde quer que seja. A única vez em que participou foi nestes conflitos agora com o Irão, que foram provocados de alguma forma ou pelo menos estavam completamente alinhados com os interesses dos Estados Unidos. Portanto, isto mostra bem que de fato isso não tem nada a ver com repartição de esforço ou com serem aliados realmente dispostos a trabalhar e inclusive a combater junto com os Estados Unidos. Tem a ver realmente com as preferências, os preconceitos ideológicos do Donald Trump, que passam tempo a falar do Ocidente, mas na verdade, tem sido talvez o presidente norte-americano que mais contribuiu pra minar a unidade do Ocidente e, em particular, a sua forma mais institucionalizada e mais robusta que é a Aliança Atlântica.

E esta ameaça de retirar militares de bases europeias é retórica ou é pra levar a sério?

Eu acho que é uma coisa tão contraproducente e tão contrária aos interesses norte-americanos que provavelmente é mais retórica do que outra coisa, mas teremos de ver. Mais uma vez, para ser claro, a presença de tropas norte-americanas na Europa é uma enorme vantagem para a Europa. Não interessa propriamente o número. A questão é que são uma demonstração concreta do compromisso dos Estados Unidos com a segurança europeia e são também uma espécie de armadilha, ou seja, qualquer ataque russo neste momento, por exemplo, aos países bálticos, provavelmente iria vitimar tropas de outros países da Aliança Atlântica, inclusive tropas norte-americanas. E portanto, independentemente do Artigo Quinto, os Estados Unidos quase que seriam obrigados a envolver-se nesse conflito. Isso significa que seria sempre um conflito sem nenhum sentido racional para a Rússia, porque na melhor das hipóteses, mesmo que a Rússia conseguisse bons resultados militares, só iria levar a um envolvimento maior da maior potência militar do mundo e, no limite, até uma escalada para um conflito nuclear em que toda a gente perdia. Portanto, nem sequer fazia sentido iniciar esse conflito. É essa a grande função das tropas norte-americanas da Europa. Não é propriamente a função militar em si que elas desempenham, é esta função estratégica de dissuasão. E nisso elas são insubstituíveis. Os europeus podem arranjar outras 60 mil ou 70 mil tropas com os mesmos equipamentos que não substituirão essa função. Mas as bases europeias onde estão essas tropas são extremamente úteis para a projeção de poder norte-americano. O país onde há mais bases norte-americanas na Europa, que é a Alemanha, por exemplo, teve um papel crucial no apoio logístico e até médico também, por exemplo, às operações militares dos Estados Unidos no Afeganistão ou no Iraque. E a mesma coisa agora nesta campanha com o Irão. É o grande hospital militar dos Estados Unidos fora dos Estados Unidos. E obviamente está muito mais perto de qualquer zona de combate onde os Estados Unidos têm estado envolvidos do que os Estados Unidos e, portanto, desse ponto de vista é uma enorme vantagem para quando é preciso dar um apoio urgente a soldados que estão feridos. As bases aéreas e as bases navais vimos agora a sua importância crucial quando Donald Trump de repente descobriu que alguns países europeus afinal não iam dar acesso a essas bases na questão da campanha contra o Irão. Isso de facto mostra que é do interesse europeu, mas também é do interesse norte-americano, toda a gente ganha. Só que Donald Trump não consegue pensar assim. Pensa sempre em termos de jogo de soma zero, se alguém ganha, alguém tem que perder. E tem esta obsessão há muitas décadas que qualquer tipo de aliança dos Estados Unidos, qualquer tipo de presença no exterior é sempre uma exploração dos interesses norte-americanos dos Estados Unidos e, portanto, como ele nunca se pode enganar, enfim, temos esse problema, que provavelmente vai continuar a insistir nesta tecla. Vamos ver se vozes mais racionais e mais atentas aos reais interesses norte-americanos, inclusive os próprios militares norte-americanos, conseguirão travar esta tendência.

E é em função destas posições públicas que esta cimeira da NATO, que hoje começa em Ankara, na Turquia, também se reveste de um caráter especial. Há uma grande expectativa para saber o que vai resultar desta cimeira. Bruno, hoje ficámos com pouco tempo para este "Gabinete de Guerra", ainda tinhas aqui mais uns temas que sugerias abordar. Por exemplo, a Ucrânia e os apelos de Volodymyr Zelensky para reforçar as defesas antiaéreas de Kiev. Um pedido feito esta manhã à margem da cimeira da NATO, tema que seguramente teremos oportunidade para abordar no "Gabinete de Guerra" dos próximos dias. Bruno, um abraço.

Obrigado.