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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais. Bem-vinda, Liliana.
Bom dia.
Hoje é dia de mais uma reunião entre Emmanuel Macron, Keir Starmer, Friedrich Merz e também com o presidente ucraniano. Vão discutir, entre outras coisas, o apoio da Europa à Ucrânia, e também o aumento da pressão sobre a Rússia. O que espera que possa sair desta reunião, se é que poderá sair daqui algo de concreto deste encontro?
Bom dia. Esta reunião parece-me uma das mais importantes desde o início da primavera. Aliás, desde logo, porque se segue à carta aberta que Zelenskyy enviou a Vladimir Putin durante esta semana e também, depois, e isto também me parece bastante relevante, ao Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, em que Vladimir Putin reconhece pela primeira vez que a dinâmica econômica está atualmente moderada na Rússia. Ou seja, apesar de ter minimizado as dificuldades econômicas que o país enfrenta e ter destacado, naturalmente, as parcerias com o Sul global, como faz recorrentemente, há aqui, efetivamente, um reconhecimento de que o aumento dos preços e dos impostos das últimas décadas, mas sobretudo algum encerramento de empresas e escassez de mão de obra, já não consegue ser escamoteado. E por isso é que eu dizia que esta reunião hoje é bastante importante. Agora, nós não conseguimos antecipar o que é que efetivamente vai sair do ponto de vista dos compromissos oficiais. O que parece claro é que a Europa já percebeu que terá de assumir uma maior liderança, porque Donald Trump está muito menos preocupado neste momento com aquilo que se passa na Ucrânia e as implicações que pode ter para a arquitetura de segurança europeia, do que aquilo que, neste momento, se passa no Médio Oriente, em particular no Irão. E depois, também me parece relevante destacar que, neste momento, nós também estamos numa fase de preparação para a nova reunião, que irá decorrer em Paris, da Coligação de Vontades. Ou seja, que vai decorrer agora em julho e poderá estar efetivamente em discussão as missões de treino militar, a proteção do espaço aéreo ucraniano, o apoio, naturalmente, e a continuidade desse apoio às Forças Armadas ucranianas e a eventual presença militar europeia na Ucrânia após um acordo de paz. Mas, como eu dizia, e depois da carta que foi enviada por Zelenskyy a Vladimir Putin, eu acho que neste momento aquilo que Paris, Londres e Berlim perseguem é efetivamente um aumento da pressão sobre a Rússia para destapar efetivamente as vulnerabilidades. Repare, eu estava há pouco a falar das vulnerabilidades econômicas, mas aquilo que os ataques em profundidade ucranianos têm vindo a revelar é que há efetivamente também fragilidades do ponto de vista militar. Aliás, a carta de Zelenskyy referiu isso mesmo. Zelenskyy chegou a dizer e a escrever na carta que Vladimir Putin sabe que os nossos drones de longo alcance não conseguem apenas atingir o Fórum de São Petersburgo percorrendo uma distância de mais de 1000 km, mas que essa distância não é o limite das nossas capacidades. Ora, há aqui, naturalmente, um entendimento por parte dos europeus que este é talvez um dos momentos de maior fragilidade por parte da Ucrânia, até porque nos últimos dois meses, a Ucrânia recapturou mais território do que perdeu para as forças russas, aliás, em abril e em maio, e de acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, esta tendência pode vir a manter-se. Ora, neste momento, é talvez a fase mais importante para que efetivamente os europeus revelem aqui alguma pressão. Agora, como eu lhe dizia, nós não conseguimos antecipar se há efetivamente um acordo, não destes três Estados, mas de todos os Estados, e não falo da União Europeia, falo da Coligação de Vontades, naturalmente.
O certo é que apesar dessa fragilidade que aparentemente a Rússia tem nesta altura, Liliana, como estava a explicar, o certo é que Vladimir Putin não aceita essa proposta para um encontro sobre a guerra, não aceita falar sobre a guerra, até porque de certa forma isso seria assumir essa vulnerabilidade?
Naturalmente, mas repare, normalmente quem propõe negociações é quem está em vantagem do ponto de vista militar. Aliás, não se senta à mesa das negociações quando não se tem capacidade de impor as condições da paz. Mas se reparar, o Kremlin, nos últimos meses, até sensivelmente o início de maio, veio continuadamente propor negociações. Ou seja, neste momento que efetivamente a Ucrânia responde e diz que está disponível para essas negociações, numa carta muito contundente por parte de Zelenskyy, há aqui um aparente recuo. E esse aparente recuo, aquilo que mostra é também essa fragilidade por parte da Rússia nesta fase. Porque a Rússia também entende que os próprios apoios que tem estão muito mais preocupados com o encerramento do Estreito de Ormuz e com a afetação do comércio global a nível internacional, naturalmente.E por isso é que me parece que esta fase é efetivamente uma fase de vantagem, ainda que seja uma vantagem relativa. Não há aqui uma vantagem clara por parte da Ucrânia, nem tampouco dos europeus, mas é efetivamente uma fase de vantagem relativa dos europeus e naturalmente da Ucrânia face à Rússia.
Liliana, olhemos agora também para o que se passa no Médio Oriente, o conflito entre Estados Unidos e Irão, que começou com a Operação Fúria Épica, chegou ao dia 100, sem que se vislumbre um entendimento para um fim das hostilidades. Podemos fazer um balanço destes 100 dias? Foi um falhanço esta operação lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irão?
Eu não diria falhanço ou fracasso, porque efetivamente aquilo que nós observamos desde o início foi uma opacidade em relação aos objetivos estratégicos que efetivamente, quer os Estados Unidos, quer Israel, tinham relativamente a esta guerra. Dito inicialmente que era inviabilizar a capacidade de desenvolvimento do programa nuclear iraniano, por um lado. Por outro lado, também inviabilizar a capacidade de desenvolvimento ou de produção em maior escala de mísseis de longo alcance que pudesse efetivamente ameaçar, como tem ameaçado, através dos seus proxies, quer o Hezbollah, quer os Houthis, quer também o Hamas e Israel, e também a queda do regime. Ora, aquilo que nós fomos percebendo, até pelos avanços e recuos ao nível das negociações, é que estes objetivos estratégicos foram sendo redefinidos. E foram sendo redefinidos, efetivamente, porque houve bloqueios e houve a resistência, neste momento, por parte do Irão, que talvez não fosse expectável ao início. E aquilo que nós vamos percebendo é que estamos numa fase de impasse estratégico, com combates efetivamente limitados e negociações paralelas a decorrer, sobretudo através da prestação dos bons ofícios do Paquistão, mas nós não podemos dizer que há um cessar-fogo que seja completo, porque temos visto que ele tem sido muito precário. Aliás, o Irão lançou mísseis e drones, como nós sabemos, sobre o Kuwait e o Bahrain, aliados dos Estados Unidos, e os Estados Unidos também interceptaram vários projéteis e responderam a essa intercepção de projéteis, atacando radares e instalações de vigilância iraniana perto do Estreito de Ormuz. São os acontecimentos mais recentes. Por isso, as negociações neste momento estão um pouco bloqueadas, por um lado, pela exigência iraniana de acesso aos ativos congelados e pelo desacordo, naturalmente, em relação ao programa nuclear. E, por outro lado, porque os Estados Unidos, neste momento, também pretendem o desbloqueio total e imediato do Estreito de Ormuz e é efetivamente o único ativo negocial que o Irão tem. E por isso é que dizia, não creio que há aqui um fracasso total, mas há um impasse, naturalmente, ao nível daquilo que são as reivindicações de ambas as partes e aquilo que é capacidade de uma das partes impor à outra parte aquilo que são as suas exigências negociais.
E esse impasse e também estes ataques de que a Liliana falava, também colocam ainda mais em causa, ou pelo menos atrasam ainda mais a possibilidade de se alcançar um entendimento para uma trégua, um cessar-fogo, algo que ponha, de certa forma, algum final a estas hostilidades neste conflito?
Sim, nós vamos ter o início do Mundial em breve. E é provável que o conflito entre numa fase mais de paralisia enquanto durar o mundial de futebol. E provavelmente, até porque os Estados Unidos não têm qualquer tipo de interesse em estar a gerir uma guerra enquanto decorre o Mundial também no seu país.
Por uma questão de comunicação?
Exatamente, por uma questão também de comunicação. Mas é natural que após o Mundial, nós retomemos ou tenhamos, pelo menos, avanços, quer do ponto de vista operacional, quer também do ponto de vista negocial. Agora, aquilo que também começa a ficar claro é que muito dificilmente alguma das partes conseguirá obter todos os objetivos estratégicos que tem neste conflito.
E isso também acaba por dificultar o alcançar de um entendimento, porque ninguém quer perder a face perante esta negociação, não é?
Claro, exatamente. E podemos entrar, efetivamente, também numa fase de uma "unfinished war". Como sabemos, que naturalmente quando há esta reclamação por parte das partes tão intransigente, isso pode efetivamente acontecer. Agora, nós também não nos podemos esquecer que irão decorrer eleições em Israel em setembro e esta questão política dentro do Estado israelita também pode vir a alterar aquilo que é a força e a posição negocial, quer de Israel, quer dos Estados Unidos face ao Irão. Por isso, há aqui várias variáveisQue temos de colocar na matriz e deixá-las em aberto, porque não é possível, neste momento, com aquilo que nos aguarda em breve, e não parece que os Estados Unidos não queiram aproveitar o mundial para a utilização do seu poder como soft power, até porque está bastante comprometido a nível internacional e este evento desportivo servirá não apenas para a questão da diplomacia desportiva, como o Qatar também o fez, como estamos recordados, mas servirá também para a projeção de poder, de atração e naturalmente, de computação a nível internacional para os Estados Unidos, que tem vindo a ser hipotecado ao nível das opiniões públicas globais.
Portanto, acredita que este mês de mundial poderá ser interessante num outro sentido de, se calhar, haver mais enfoque da comunicação no desporto e menos na guerra e daí haver aqui uma certa pausa no desenrolar das negociações e tudo aquilo que poderá ser o conflito.
Exatamente. Pode haver, efetivamente, essa deslocação daquilo que é o foco a nível internacional. Mas nós temos aqui vários acontecimentos. Eu dizia, primeiro temos o mundial, depois temos uma sucessão de acontecimentos que podem efetivamente vir a definir a natureza deste conflito e aquilo que será o futuro da arquitetura regional do Médio Oriente ao nível da segurança. Porque este conflito não é apenas um conflito entre o Irão e os Estados Unidos ou Israel, aliás, e nós temos vindo também a observar aquilo que se passa em relação ao sul do Líbano com a captura de parte do território pelo Hezbollah. Aquilo que acho que é mais importante que nós olhemos é, de facto, o futuro, quer da arquitetura, como eu dizia, quer da sucessão dos acontecimentos, porque depois também temos as eleições intercalares nos Estados Unidos no início de novembro. E naturalmente que todos estes eventos irão condicionar até o posicionamento ao nível negocial dos vários atores.
Liliana Reis, muito obrigado por ter vindo a este Gabinete de Guerra. Um resto de bom domingo.
Muito obrigada e um bom domingo. Com licença.