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Este é o "Som do Gabinete de Guerra" das manhãs 360, à segunda-feira, com a análise do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, muito bom dia.
Começamos pela visita dos enviados de Washington a Moscovo e a Kiev. Miguel, que resumo podes fazer das conversações de Steve Witkoff e Jared Kushner com representantes dos dois países? Trump está a tentar fechar este dossiê para se apresentar como pacificador nas eleições intercalares de novembro?
Já era difícil para nós entendermos o que poderiam Steve Witkoff e Jared Kushner resolver ou pelo menos adiantar naquelas três horas de conversa em Moscovo com Vladimir Putin. Depois nós assistimos àquilo que foi a conferência de imprensa e o que vimos foi uma sabugice tal sobre o presidente russo, que ficou basicamente demonstrado que a Ucrânia não estava na mesa das negociações. Basicamente, aquilo que aconteceu é: Donald Trump envia os seus enviados a Moscovo para ouvirem a posição de Moscovo, para depois irem a Kiev dizer a Volodymyr Zelensky o que tem que fazer. Basicamente, o que Donald Trump procura aqui é exatamente aquilo que tu dizes, que é depois daquilo que foi a derrota política na guerra contra o Irão, que não se conseguiu transformar uma capacidade de superioridade militar numa vitória política, há esta necessidade de Donald Trump de fazer duas coisas, de tentar mostrar internamente que se consegue marcar a agenda internacional, que o presidente norte-americano tem influência nos vários focos internacionais, não só na questão do Médio Oriente, mas nomeadamente naquilo que ele prometeu de terminar a guerra em 24 horas, se bem te lembras, na questão da Ucrânia, e então voltar a mostrar ao povo americano de que ele está em controle. Tivemos esta visita um bocado inusitada, da forma como foi organizada e um bocado até extemporânea, depois da visita de Ratcliffe, o director da CIA, em que tivemos três horas de conversa, não sabemos muito bem todos os dados e também não se conseguiu entender muito bem qual era a solução, porque não sabíamos de antemão do caderno de encargos. Agora, o que é que nós assistimos? A uma malcheia de nada, porque depois os dois enviados chegam a Kiev, falam sobre garantias para o inverno, garantias de segurança, de que vão continuar a haver conversas tripartidas entre a Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos, entre a Ucrânia, os Estados Unidos e a Rússia, e que efectivamente se falou também das garantias da entrega de Patriots. Portanto, é uma tentativa de Donald Trump parecer internamente que está no controle da situação, porque Donald Trump precisa desesperadamente de uma vitória que possa efetivamente relançar o Partido Republicano para as midterms.
Temos também de olhar para as eleições na Alemanha, país que conheces bem, Miguel. Se a AFD conseguir formar governo, será o primeiro partido de extrema-direita a liderar um Estado alemão desde a Segunda Guerra Mundial. O que isto pode representar para a Ucrânia e para a Europa?
De qualquer forma, a AFD vai tentar governar, seja sozinha, ou seja com o apoio do partido de extrema-esquerda, curiosamente, mas terá essa tentativa de formar governo ou até mesmo de ir a novas eleições na tentativa de ter a maioria. O que isto representa para a Ucrânia e para a Europa? Bom, para a Europa é uma grande derrota, porque nós vemos pela primeira vez um partido que tem dois pilares importantes, que é contra uma quantidade de decisões que são tomadas em Bruxelas, quer seja questões ligadas ao euro, decisões económicas, mas essencialmente a postura da Alemanha e a postura da Europa relativamente ao apoio continuado à Ucrânia, ao apoio a esta guerra e ao apoio àquilo que são os ucranianos que decidiram viver na Europa fugindo à guerra. Portanto, é efetivamente um virar de página triste, é certo, um virar de página daquilo que era a cooperação europeia para com a Ucrânia. Obviamente que estas eleições não atingem o governo central alemão, mas fragilizam a posição da Alemanha, até porque nós temos o partido AFD que diz que a Alemanha teria que voltar a conversar com a Rússia na procura de um entendimento que não passasse por esta ideia de que a Alemanha está em guerra contra a Rússia. Portanto, no momento em que nós assistimos uma viragem nas sondagens a favor da extrema-direita, em países como por exemplo a França, que temos eleições no ano a seguir, quando temos um governo central alemão extremamente fragilizado, que eu posso dizer, em minha opinião, não acredito que chegue até ao final do mandato em 2029 e creio que vamos ter eleições antecipadas, é efetivamente aquilo que há muito tempo que eu venho a dizer, que é a Rússia não precisa de estar efetivamente em guerra direta com a Europa, nem precisa de vir por aí abaixo com os tanques para criar esta desunião, para criar esta tensão entre os países e este problema interno, que é esse, efetivamente, o seu grande objetivo. Portanto, ontem foi o princípio de algo que pode acontecer na Europa que nos deve preocupar. Esta desunião aqui dentro e esta Esta ideia de que dentro da Europa podemos voltar a ter os países a olharem uns para os outros não como parceiros, mas como adversários.
Sobre o Médio Oriente, o Irão não enfrenta apenas os ataques dos Estados Unidos e a tensão no Estreito de Ormuz. A economia do país está literalmente a ir ao fundo, sua moeda caiu para mínimos históricos e o custo de vida está insustentável. Miguel, o regime do Irão tem força pra continuar esta guerra com os Estados Unidos ou perante tudo aquilo que disse, vai ser obrigado a recuar?
Em termos económicos, as coisas estão mesmo muito mal. Só pras pessoas lá em casa terem uma ideia, por exemplo, a diferença daquilo que é o real para o dólar está quase dois milhões e tantos reais para um dólar. Portanto, a inflação também está em máximos históricos. A dificuldade dos bancos de terem capacidade de se financiarem também está praticamente no limite máximo e significa que o Irão não está a conseguir responder economicamente a este garrote financeiro que os Estados Unidos estão a fazer. O que significa que existem agora duas opções. E é aqui que me parece que há um grande problema e uma tentativa de provocar os Estados Unidos, que é: existe dentro da guarda revolucionária ou dentro do regime, se quiseres, duas ideias. Uma que ainda acha que há uma possibilidade de negociar, não um memorando de entendimento, mas algum tipo de memorando ou cessar-fogo que permitisse o alívio das sanções e permitisse, por exemplo, a possibilidade de ir buscar os valores que estão bloqueados. E isto é uma urgência enorme para tentar estancar este problema econômico, porque está-se a assistir ao princípio do colapso econômico do país. E depois existe, pelas informações que temos da guarda revolucionária, uma ideia de que a única solução é efetivamente invocar os Estados Unidos, provocar na região um escalar militar neste sentido. Achar que com o escalar da guerra, isto provocaria de novo tensões no preço do petróleo, que isto automaticamente iria criar tensões naquilo que são os preços do petróleo nos Estados Unidos, e que isto poderia provocar ainda pior resultado nas eleições das midterms e, de alguma forma, infligir uma derrota ao presidente dos Estados Unidos. Agora, tudo com o sacrifício do povo iraniano. O que me parece que nós vamos assistir nas próximas semanas, nos próximos meses, à possibilidade de começarmos a ter um colapso geral daquilo que é a capacidade financeira do país, o que poderá provocar, efetivamente, algumas cisões dentro do regime. E creio que é isso que os Estados Unidos estão a tentar criar para depois das midterms, aquilo que eu e tu aqui já falamos, poderá haver o golpe final, se quiseres, militarmente, para criar a tentativa de efetivamente derrubar o regime dos aiatolás.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Até para a semana.
Muito obrigado. Até para a semana. Obrigado.