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Gabinete de Guerra na Rádio Observador com o coronel Carlos Mendes Dias, em dia de eleições intercalares nos Estados Unidos, com as sondagens a apontarem para a vitória do Partido Democrata e para uma mudança de maioria tanto no Senado como na Câmara dos Representantes. Senhor coronel Carlos Mendes Dias, boa tarde. Bem-vindo à antena do Observador. Começava precisamente por esta questão: a confirmarem-se as sondagens, a confirmar-se a vitória do Partido Democrata, essa vitória vai de alguma forma condicionar a política externa determinada por Donald Trump?
Julgo que sim. Certamente irá condicionar um pouco, até por associação com as políticas internas também. Mas eu refiro aqui que a política externa não é de Donald Trump, a política externa é norte-americana que nesta altura tem, digamos, no seu topo os republicanos. Deixe-me dizer uma coisa independentemente do curso das eleições. Estas mudanças são esperadas, não é por ser Donald Trump ou outra pessoa qualquer, podia ser ao contrário, podia ser Joe Biden.
Há sempre um desgaste de quem está no poder, não é?
Repare, para não ir mais longe, no pós-Segunda Guerra Mundial, de 1946 até às últimas eleições, julgo que foram 2022, houve 20 eleições deste tipo, a chamada "midterms elections", digamos, as eleições de meio de mandato. Destas 20, o partido do presidente perdeu sempre assentos ou num lado, Câmara dos Representantes, ou no outro lado, Senado, em 18 ocasiões. As duas exceções, julgo que eu me lembre, julgo que foi na Câmara dos Representantes, foi em 1998, era Bill Clinton, e depois em 2002 com George W. Bush. Mas no conjunto geral, dado que disse, do meu ponto de vista, bem, o desgaste e, neste particular, situações difíceis, eu diria normal a perda de representantes. Agora, o que pode ser anormal é o nível ou o grau com que se perde representantes, primeiro lugar. Segundo lugar, na minha opinião, obviamente, para evitar muitas conjeturas sem alguma objetividade, quais são as competências do Senado? Porque se as Câmaras vão mudar, o que é que pode influenciar? As competências exclusivas do Senado norte-americano de 2003, por exemplo, a aprovação de nomeações presidenciais, que têm que ser confirmadas. Ora bem, é uma condicionante. A ratificação de tratados internacionais, que normalmente nos casos do chamado segurança e defesa, significa apoios, alianças, etc. Aqui, ainda mais importante, porque dos senadores carece maioria de dois terços, 67. E outra coisa, agora está fora, mas o julgamento do processo de impeachment também é feito no Senado. Portanto, eu vou chamar assim, se a cor mudar, obviamente que afeta, quer do ponto de vista externo, quer também do ponto de vista interno. Depois, o Senado, a chamada Câmara Alta norte-americana, tem responsabilidades partilhadas com a Câmara Baixa, aquilo a que nós chamamos, em boa verdade corretamente, Câmara dos Representantes. No fundo, o Senado partilha a competência ou poder legislativo de fazer leis com a Câmara dos Representantes, na justa medida em que os textos têm que ser aprovados exatamente iguais num lado e noutro, para depois subirem ao presidente para serem sancionados, salvo seja pelo presidente. Ora bem, elaborar e aprovar leis federais. Portanto, se mudar a cor da Câmara, se não tiver conjunto com a outra, maior dificuldade. As declarações de guerra e tudo o que respeita às Forças Armadas, no fundo, manter as Forças Armadas. Aprovar orçamentos federais e instituir impostos, embora o processo inicie exclusivamente na Câmara dos Representantes, depois é jogado entre as duas Câmaras, na justa medida em que o Senado pode propor alterações ou emendar esses projetos. A regulação do comércio internacional e interestadual também é partilhada entre o Senado e a Câmara. Exclusivo da Câmara dos Representantes, por exemplo, é eleger o presidente dos Estados Unidos em caso de empate. Um voto por Estado. Julgo que é assim, com a devida cautela. Portanto, só para não cansar muito e não ser exaustivo, estamos aqui com alguma objetividade a dizer: é certo que se mudar, eu vou chamar assim, as cores democrata ou republicano das Câmaras, obviamente que a liberdade de ação, mesmo nas competências que respeitam ao senhor presidente norte-americano e ao partido que o sustenta, obviamente que são grandes, que são nesta medida. Agora, a lógica da mudança ou eu vou chamar derrota, perda de assentos, é uma constante quase histórica. Deixe-me só acrescentar. Se nós remontarmos, julgo eu, e agora perdoem-me quem nos está a ouvir, de um exercício de memória. Por exemplo, desde a Guerra Civil Americana, estou a falar, sei lá, 1861, 1865, mais ou menos, houve 40 eleições desse tipo. Trinta e cinco, portanto, quem está no poder foi castigado. E para as pessoas também perceberem, porque muitas já me fizeram esta questão e eu aproveito, se me permite.
Claro.
Estas eleições não são eleições presidenciais. Ok? Donald Trump, Kamala Harry, Joe Biden, etc, não estão nos boletins de voto. Hoje eu já fui confrontado com pelo menos 10 a 12 perguntas desse tipo na rua E não são os presidentes que estão em jogo, não é uma eleição presidencial.
Seu Manuel, a anteceder a abertura das urnas nos Estados Unidos, um ataque norte-americano que teve como alvo a ilha de Qeshm. Deve ser enquadrado este ataque precisamente nesta ida às urnas dos eleitores norte-americanos?
Eu confidenciava há dois ou três dias, por questão de ética, com uma pessoa que não vou aqui identificar, que primeiro não era lógico ataque antes das eleições, mas há sempre um princípio que se procura respeitar ou o que isso quer dizer, que é o princípio da surpresa. E por conseguinte, pode-se inserir um pouco nesta lógica, mas há aqui outra questão. Para mim será um sinal claro que o próprio presidente americano e o próprio partido que o sustenta pensam que podem ter uma queda significativa e de facto virar quase tudo para os democratas e nesse sentido, antecipar de circunstâncias. Se virar quase tudo para os democratas, o ataque ao Irão parece-me evidente. Há muitas coisas que nós não sabemos dos grandes gabinetes. Mas eu julgo que esse sinal é antecipando. E depois, permita-me também dizer o seguinte: seja governo democrata, seja governo republicano, o que está em causa, a não ser que haja mudanças nas exigências iranianas para se continuarem as negociações, é o seguinte: o outro lado, quer democratas nas Câmaras, quer republicanos em ambas ou numa ou noutra com maioria, se é vantajoso para os norte-americanos e até para nós, independentemente se é cor azul ou se é cor vermelha, satisfazer as condições iranianas para se continuarem a avançar nas negociações. E eu rapidamente vou dizê-las. Primeiro, fim das hostilidades em todas as frentes. Segundo, final do bloqueio naval dos norte-americanos. Terceiro, libertação de todos os ativos financeiros iranianos congelados. Julgo que serão cerca de US$6 bilhões. Quarto, fim das sanções econômicas e petrolíferas e outras, todas. Quinto, cessação de todos os ataques, ameaças de assassínios, etc. Sexto, não interferir nos assuntos internos do Irão e sim ao apoio dado às oposições iranianas. Esta não interferência nos assuntos internos é se a própria população levar um tiro no meio dos olhos ou nas pernas para não se manifestar, faz parte. E em último, compensação financeira por todos os danos da guerra. A pergunta que se coloca e não vou aqui alongar para aspectos de natureza geopolítica é, independentemente da cor azul ou vermelha, se para avançar nas negociações, isto é aceitável, quer para democratas, quer para republicanos.
E o tom da sua pergunta indicia a resposta. Claro que não.
Indicia a resposta, claro que não. Agora, claro que pode haver formas diferentes de fazer coisas. No tempo de Bill Clinton, o erário público norte-americano era delapidado porque se financiava as oposições iraquianas contra Saddam. Entrou George W. Bush e preferiu ir com violência militar para tirar Saddam. Duas formas diferentes de fazer as coisas, duas formas onerosas. Bill Clinton, estratégia indireta. George Bush, estratégia direta. Mas a finalidade é a mesma.
Sendo que tendo em conta a evolução da economia norte-americana, essa parece ser uma opção pouco viável.
Exatamente, ora que está. Desde há muito tempo, reparar déficits nos norte-americanos a partir de 100% é quase imoral. Este movimento, e é isso que fosse qualquer presidente, os norte-americanos, do meu ponto de vista, estão com grandes dificuldades econômicas. Nós não dizemos que estamos falidos porque parece mal, da maior potência do mundo. Mas de facto, com dívidas enormes, preços enormes, têm que retrair dispositivo do espaço eurasiático. Tem que retrair, não pode gastar mais, e por isso ainda mais este desgaste. Depois ainda se atente, quer dizer, os norte-americanos, quais são os dois primeiros países detentores de dívida norte-americana em montantes significativos? Um é o Japão e o outro é a China. Primeiro e segundo por esta ordem. E é por isso também que ao mesmo tempo que está muito dependente, tem apenas uma certeza: é que a China colabora na não desvalorização do dólar.
Claro. Tem interesse nisso, certamente.
Ora bem. O Japão deixa de ser muito importante e por isso também uma das preocupações no Estreito de Ormuz. Embora os norte-americanos em si possam não ser grandemente afetados, a não ser por processos que são de natureza sociológica e que nós também somos afetados, mas aquilo afeta os aliados norte-americanos no espaço asiático. E um deles é o Japão, que detém a maior dívida norte-americana E Donald Trump sabe isso e todos sabem isso. Portanto, as decisões, do meu ponto de vista, são eivadas de um conjunto de elementos, uns que nós sabemos, outros que não, e às vezes trazem-nos a ideia que a decisão parece ser incompreensível. É porque verdadeiramente nós não temos todos os elementos. E depois, o seguinte: nós estamos neste espaço. Quer dizer, pode haver circunstância que as adoções de medidas norte-americanas sejam favoráveis, outras vezes desfavoráveis à Europa ou aos países europeus, para ser mais rigoroso. Mas atentem que os outros entes, as outras entidades políticas, os outros grupos políticos não têm que pensar nem têm os mesmos interesses que nós e vice-versa. Nós ao dizermos é melhor para lá aquilo, é melhor para lá aquilo outro, estamos a raciocinar no nosso interesse, não no interesse dos outros. Isto não é nenhuma crítica. É apenas considerar que os interesses são diferentes e as finalidades, e muitos deles podem não ser de acordo com os nossos. E deixe-me finalmente dizer: nós temos que acabar com a ideia de uma vez por todas, porque a nossa juventude certamente não merecerá, como nós também não merecemos, que do ponto de vista do cumprimento das funções políticas, deixemos apenas de gerir as sociedades. Nós temos que construir a sociedade. E sabemos que, por exemplo, se tivermos em listas eleitorais daqui a 30 ou 35 anos, pessoas de outro tipo de culturas etc., e que podem ser eleitos e com toda a legitimidade, o caminho que os países podem tomar pode sofrer mudança radical relativamente àquilo que queremos hoje ou que estamos a julgar hoje. E é preciso, sem qualquer problema, explicar isto às pessoas que votam, aos mais humildes também. Nós não devemos apenas apelar ao aumento de pensões porque precisamos de 1 milhão e tal de pensionistas a votar em nós. Nós precisamos que eles percebam, porque eles têm a mesma dignidade que os outros, e não apenas manipularmos as pessoas.
Uma conversa seguramente interessante. É pena não termos mais tempo para explorar esta visão que aqui partilha connosco e também uma notícia de há pouco com Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, a anunciar a intenção de acabar com a ajuda militar anual dos Estados Unidos a Israel, que, porventura, também se fundará naquele argumento que há pouco invocava das dificuldades económicas que os Estados Unidos atravessam. Coronel Carlos Mendes Dias, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra da Rádio Observador, a segunda edição do dia.