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Há novos desenvolvimentos sobre a fuga de documentos do Pentágono, com revelações sobre a guerra na Ucrânia e também receios de desinformação pelo meio. Vamos começar por este ponto na agenda de trabalhos de hoje do Gabinete de Guerra e com o Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.
E as mais recentes revelações decorrentes dessa fuga de informação apontam para a presença de militares ocidentais no terreno da Ucrânia. De acordo com a BBC, os relatórios do Pentágono apontam para 50 elementos das Forças Especiais britânicas no terreno, também militares da Letónia, de França, dos Países Baixos e ainda dos Estados Unidos. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Temos de ter sempre cuidado a analisar isto, claro, mas a ser verdade, a Rússia pode tomar esta situação como um envolvimento direto da NATO?
Olá, boa tarde. Eu acho que a propaganda russa provavelmente vai aproveitar estes dados. Quer dizer, mesmo na ausência de dados, eles continuavam a insistir nessa narrativa, portanto, aqui têm qualquer coisa um pouquinho mais concreta em que pegar. Agora, vamos lá ver, eu não me recordo se já tínhamos falado sobre esse tema ou não, mas a verdade é que a questão das forças especiais, lá está, mais uma vez, o que é grave é que isso tenha sabido, mas a questão das forças especiais é um pouco aquelas tropas que nós vemos às vezes nos filmes em que eles vão para uma missão secreta em que lhes é dito: "Bem, e se acontecer alguma coisa, nós não sabemos nada de vocês, não tivemos nada a ver com isto". Portanto, no fundo, uma das mais-valias das forças especiais é esta ideia de deniability. De serem forças suficientemente secretas ou discretas para poderem agir de uma forma que depois permita negar que estavam presentes. Isto está naquela zona cinzenta que permite aos Estados dizer: "Não há um envolvimento direto". Em todo o caso, estamos a falar de um número muito reduzido. O país que aparentemente tem mais forças especiais, de acordo com esta informação, e a confirmar-se, claro, será o Reino Unido com pouco mais de 50. Os Estados Unidos têm pouco mais de uma dezena e estamos a falar de quatro ou cinco outros países que têm também 10, 12, oito, sete forças especiais. Acho que os Países Baixos têm uma. Também não é dito no documento exatamente o que é que estão a fazer, mas pode-se presumir que não estarão em funções operacionais, porque isso poderia arriscar serem capturados pelas forças russas ou serem abatidos pelas forças russas. Portanto, provavelmente estarão numa função de alguma cooperação em termos de aconselhamento operacional, mas mais na retaguarda ou em missões, eventualmente, de treino, também mais na retaguarda. À partida, isto não quebra esta regra de que não há um envolvimento direto com tropas dos países ocidentais. Em todo o caso, obviamente, coloca um pouco em questão isso e o ideal era que isso não se tivesse sabido. Mas eu recordo, por exemplo, no caso da Guerra Americana no Vietname, de 1965 a 1973. Hoje em dia sabemos que houve um envolvimento à volta de 3 mil "conselheiros militares soviéticos", muitos deles eram realmente também forças especiais. Estamos a falar de vários milhares, nesse caso, à volta de 3 mil. E também isso não levou a que na altura se tivesse dito que a Guerra do Vietname era uma guerra direta entre os Estados Unidos e a União Soviética, que quem os Estados Unidos realmente estavam a combater era a União Soviética. Quer dizer, na propaganda americana insistia-se muito nesta dimensão do combate ao comunismo, mas mesmo na propaganda americana não se falava de um combate direto com a União Soviética ou do facto de a União Soviética ser o inimigo principal. Há aqui uma clara manipulação dos factos pela propaganda russa. Agora, lá está, estes dados, apesar de tudo, e objetivamente, são úteis para a propaganda russa, ajudam a alimentar essa narrativa de um combate com a NATO e não com a Ucrânia.
O Pentágono aponta para meses de investigações. Será possível alguma vez encontrar os responsáveis por esta fuga de informação?
Pelo que eu percebo, pelo que tenho visto, há aqui algumas dificuldades. Isto, de facto, não é uma fuga, tem várias características estranhas. Por exemplo, começou por aparecer aparentemente num site de gamers, de fãs de videojogos, que trocam experiências sobre videojogos e outros temas. Isso podia apontar para eventualmente um hacker. No entanto, os ficheiros que aparecem são fotografias e não propriamente ficheiros eletrónicos, portanto, parecem apontar para alguém que teve acesso fisicamente aos documentos e que depois os reproduziu fotograficamente. Mas enfim, também se pode aqui há fotografias. E também, aparentemente, esse sítio, esse grupo original de gamers, entretanto, foi completamente apagado. Se os responsáveis americanos falam em meses, imagino que isso queira dizer que haja aqui uma dificuldade grande. Também pode querer dizer que querem dar algum sentimento de falsa segurança a quem esteja envolvido. Eu não tenho a mínima dúvida. Aliás, o secretário de defesa norte-americano, o Lloyd Austin, disse: "Nós não vamos deixar pedra sobre pedra até saber quem foi". Não tenho a mínima dúvida que isto é a prioridade absoluta neste momento para tudo o que são organismos de contra-espionagem nos Estados Unidos, porque realmente é fundamental parar isto e garantir que não se volta a repetir. Mas há aqui um problema, realmente, aparentemente, de conseguir chegar à fonte original e, sobretudo, há um problema que é se não se voltar a repetir isto, o que obviamente ao mesmo tempo é desejável, mas tem este problema que é, se a pessoa parou este tipo de atividades, pode-se tornar bastante mais difícil detectar rapidamente essa pessoa. Imagino que a vigilância esteja muito reforçada e que isso também tenha assustado quem quer que seja que esteja envolvido nisto. E sim, acho que é possível que estejamos perante uma investigação prolongada e isso é um problema para os Estados Unidos, cria aqui uma insegurança grande, não saber exatamente de onde é que veio a fuga e não pode haver garantias de que a fuga será impedida, que não se voltará a repetir.
Bruno, o governo da Eslováquia suspeita de possível sabotagem russa aos caças MiG-29 que Bratislava entregou à Ucrânia. Do que leste e das informações que tens, o que poderá ter acontecido neste caso?
Os eslovacos vêm dizer que a manutenção destes caças era assegurada por uma empresa russa e portanto, isso permite a suspeita de que pode ter havido, com o agravar das tensões, etc, poderá ter havido na fase final dessa suposta manutenção, na verdade, não manutenção, mas sabotagem. Outra possível interpretação é que realmente são caças cuja desativação estava programada para os próximos dois ou três anos e, portanto, também já bastante envelhecidos. Com a paragem da manutenção, podem ter-se degradado bastante mais e portanto, isto ser uma forma da Eslováquia justificar o facto de depois de ter oferecido os caças, eles afinal não estarem minimamente em condições ao ponto da Ucrânia dizer que não estava interessada afinal em os receber. Portanto, acho que as duas possibilidades existem. E pelo que eu vi também, os eslovacos não dão certezas absolutas e também não apresentaram dados concretos que permitam afirmar com certeza que se tratou realmente de sabotagem russa. Em todo o caso, a acontecer, teria sido no passado. Mas é uma possibilidade. Aliás, nós sabemos que a par, por exemplo, daqueles ataques contradizentes russos na Grã-Bretanha, o último dos quais em 2018 em Salisbury, também houve um ataque, aliás, por alguns dos mesmos agentes e graças também depois aos dados que foram recolhidos por essa investigação britânica, a um paiol, portanto, a um caldo de armazenamento de armas na República Checa, que resultou numa explosão e que resultou também em mortes. Portanto, não é algo sem precedentes esta ideia de que pode haver aqui sabotagem russa contra países ocidentais que têm armamento do tempo soviético e aproveitando até alguns dos conhecimentos e das redes que vêm ainda do tempo soviético. Portanto, percebe-se que os eslovacos coloquem essa possibilidade, mas eu acho que realmente não temos aqui dados seguros para afirmar que foi efetivamente assim.
Sim. Bruno, mudamos aqui um pouco a agulha, não diretamente a ver com a guerra na Ucrânia, mas indiretamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Taiwan vê os exercícios militares da China como Pequim estando a preparar-se para lançar uma guerra. Foi a entrevista à CNN que o disse. É uma nova escalada de tensão que pode ter consequências maiores desta vez.
Nós estamos realmente num mundo muito mais perigoso e temos esta possibilidade real que é não uma, mas duas guerras envolvendo duas grandes potências, duas grandes potências nucleares, uma na Europa, outra digamos, no Pacífico, no Extremo Oriente, na Ásia, ou seja, nesse caso envolvendo a China e Taiwan. Ainda recentemente tivemos a visita do presidente Macron à China, uma das suas grandes prioridades e que justificou até uma série de declarações que depois foram também muito criticadas, mas uma das suas prioridades claras era precisamente evitar esta escalada entre a China e Taiwan. Portanto, no fundo, a ideia de que para a Europa não haveria nada pior do que uma segunda guerra envolvendo uma grande potência e que poderia inclusive levar a uma aproximação maior entre a China e a Rússia. Agora, a verdade é que muitas vezes as guerras acontecem deliberadamente e digamos, correspondendo a objetivos racionais, outras vezes correspondem a escaladas descontroladas, a incidentes e acidentes, a um nacionalismo que inicialmente se alimentou até por razões de política interna, para consolidar, legitimar um determinado regime, mas que depois esse nacionalismo acaba por se descontrolar ou pelo menos se tornar muito difícil de controlar e torna muito mais difícil, isso é um dado muito claro, gerir estas crises de uma forma pragmática, gerir estas crises no fundo procurando um compromisso. Muitas vezes, o nacionalismo de parte a parte acaba por reduzir muito a margem de manobra para se chegar a algum tipo de acordo. E portanto, eu acho que é uma questão que está em cima da mesa, que está em aberto. Saber se de facto ainda estamos numa fase nesta tensão entre a China e Taiwan, em que é possível de alguma forma voltar a congelar o status quo, esta ideia de que Taiwan não declara a independência e a China não invade ou não toma medidas militares contra Taiwan, se ainda é possível regressar a esse status quo, ou se já estamos num processo de escalada em que a possibilidade de um conflito militar é crescente, e só se conseguirá eventualmente evitar através de pressão, através de sanções, através de medidas de dissuasão também militar. Agora, eu acho que há aqui um dado que é fundamental nós percebermos, é que se houver de facto um confronto envolvendo a China e Taiwan, em que os países ocidentais muito dificilmente poderão deixar de apoiar os Estados Unidos e deixar de apoiar Taiwan, as consequências inclusive econômicas da guerra que vimos agora com Ucrânia, de um conflito com a China, seriam terríveis. Fariam que este pico de inflação que passamos agora, algumas dificuldades pontuais que passamos em alguns setores, parecessem uma coisa menor, porque realmente o grau de interdependência e o peso da economia chinesa na economia global e também nas economias europeias, não tem nada a ver, obviamente, com a Rússia. A Rússia é a 11ª economia mundial, a China é a primeira, segunda, e em muitos setores é responsável por produzir 50, 60%, por exemplo, em áreas críticas como a questão do setor da saúde, de tudo o que é equipamento médico. Portanto, realmente é uma questão muito séria, parece-me bastante distante, mas teria um impacto enorme e muito sério na Europa, imediatamente nas economias europeias, inclusive de um país como Portugal.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Amanhã temos duas novas reuniões do gabinete de guerra na Rádio Observador.
Obrigado.