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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise de Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Bom dia, Miguel.

Olá, João, bom dia.

Bom dia. Miguel, vamos começar pela notícia da última noite: Irão e Estados Unidos concordaram em criar uma célula de gestão de conflitos para pôr fim aos combates no Líbano. Quem é que poderá fazer parte deste organismo e qual o seu estatuto legal?

Olá, João. Olá também a quem nos ouve. É incrível que se chegue a esta ideia de criar uma célula de um gabinete de guerra, no sentido de tentar resolução de conflitos num espaço que é de responsabilidade direta do próprio Irão. Ou seja, o Irão é responsável pelos seus próprios proxies, nomeadamente o Hezbollah. O Hezbollah é uma criação própria do Irão nos anos 80 para infligir ataques, distúrbios, problemas e tudo o que conseguir fazer no norte de Israel. E agora procura-se encontrar uma solução para quê? Para trazer Israel para dentro de uma, não vou dizer negociação, mas pelo menos de uma solução para o parar das hostilidades com os próprios proxies. Como não se consegue trazer Israel e o governo de Israel a aceitar aquilo que é o memorando de entendimento, que é uma derrota total daquilo que eram os objetivos de Benjamin Netanyahu, então tenta-se criar esta ideia. Não sei de quem foi a ideia, parece-me peregrina. A mim parece-me uma ideia difícil de ser implementada. Mas tenta-se criar aqui esta ideia de que os Estados Unidos não conseguem ter controle sobre aquilo que são as determinações do próprio governo de Israel, então tenta-se criar aqui quase um organismo igual àquele que foi criado para a Palestina. Aquela também, na altura, quando se criou aquela organização, que depois teve aquela pompa e circunstância quando foi a assinatura do acordo de paz com o Hamas, sem que nunca esse organismo tenha sido implementado e tenha funcionado. Parece-me que é uma tentativa vã de tentar acalmar Israel, mas isto só poderá acalmar quando existir efetivamente um acordo legítimo, bem feito e que o Irão tenha controle naquilo que é a determinação dos seus proxies. Portanto, parece-me difícil e parece-me mais uma tentativa dos Estados Unidos de não perder a mão, permita-me essa expressão, naquilo que é a condição sine qua non por parte do Irão para continuar nas negociações deste memorando, que é o parar de hostilidades no Líbano. O que é difícil, porque o próprio Benjamin Netanyahu já vai dizer que as tropas israelitas que ocupam o sul do Líbano continuarão lá para proteção do norte de Israel.

Há negociações a decorrer, há um memorando já assinado. O que é que pode comprometer um acordo definitivo, Miguel2

É tudo difícil, porque repare, ninguém confia em ninguém. Toda a gente sabe que é difícil resolver alguns dos pontos. A questão do nuclear a mim não me parece difícil, porque isso também já tinha vindo a ser falado e, portanto, mais ponto, menos ponto, vai-se chegar a um acordo muito parecido com aquele acordo do chamado JCPOA, que Barack Obama conseguiu em 2015. Qual é a grande dificuldade? A grande dificuldade é a questão política de o Irão acabar por manter o próprio regime que Donald Trump dizia também querer combater, neste momento financiado por aquilo que vai ser a libertação de sanções e as autorizações para a venda do petróleo. E depois é a sobrevivência política e até existencial de Israel, que está posta de alguma forma em causa naquilo que é a sua própria segurança e como é que estas duas forças vão poder coabitar naquele espaço do Oriente Médio, quando as duas mais ou menos têm como objetivo destruir a outra. Desde 79, que o Irão tem como seu objetivo destruir a existência de Israel, e Israel desde 79 que tem como um dos seus principais objetivos manter-se vivo, não permitindo ser destruído pelo Irão. Portanto, isto continua. E neste momento temos os Estados Unidos que vieram, que baralharam isto tudo, mas que de alguma forma permitem o financiamento do próprio regime que também diziam querer combater. E isto é que poderá pôr em causa este memorando de entendimento neste espaço de 60 dias, porque o Irão agora descobriu que tem uma arma muito maior do que a questão nuclear, que é ao fechar o Estreito de Ormuz, implica a economia mundial e de alguma forma põe pressão política ao presidente dos Estados Unidos, porque consegue, de alguma forma, mundializar este conflito através da economia. E isso é que poderá ser o grande calcanhar daquilo que é todo este memorando de entendimento.

Miguel Baumgartner, muito obrigado pela sua análise no Gabinete de Guerra de hoje e boa semana. Obrigado.

Boa semana. Um abraço. Obrigado.