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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise de Orlando Sá Monge, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Eu que agradeço o convite. Muito boa noite.
Vamos começar com a situação no Médio Oriente. Israel e Irão trocaram vários ataques durante o dia de hoje e a madrugada também. Podíamos ir pela rota de que será que Trump está a perder mão sobre o conflito e sobre o parceiro que é Israel, mas isso é algo que já ouvimos muitas vezes, já foi discutido várias vezes. Eu queria mais ir aos cessar-fogos, chamemos assim. Israel não conseguiu manter o cessar-fogo no Líbano. Em Gaza, os ataques continuam, pelo menos nove pessoas morreram e 43 ficaram feridas em ataques israelitas na região nas últimas 24 horas. Agora com o Irão também foram trocados vários mísseis. Trump teve uma outra chamada com o primeiro-ministro israelita no dia de hoje, o que fez com que Netanyahu suspendesse os ataques no Líbano. Tendo em conta as chamadas de atenção de Trump, até que ponto é que Benjamin Netanyahu pode esticar a corda?
Boa noite. De facto, nós estamos aqui num conjunto de situações cada vez mais complexas e em que ao estarmos a comentar no momento em que ocorrem, até podemos estar a falar ao arrepio de informações que ainda teremos no futuro e que poderiam fazer curvar a análise em torno da verdade, enquanto que agora o que temos são um conjunto de elementos que estamos a tentar unir. E sobre essa questão de Trump telefonar até a dar possivelmente uma espécie de raspanete a Netanyahu, também seria algo que, embora possível, nós não sabemos muito bem sempre o tom que é empregue entre um e outro. E pode haver até uma proximidade que no fundo seja do interesse de ambos, não só agora estamos numa situação de alguma paragem, de uma suspensão de ataques, como na realidade também pode ser que o ataque, pelo menos a resposta de Israel, tenha sido um pouco mais coordenada do que estamos à espera. A ideia de termos o presidente dos Estados Unidos a dar ordens a Israel é possível, até porque é o aliado principal na região que Israel não perderá, mas dentro de uma relação que já foi tensa em muitos outros pontos. Também é verdade que Israel pode não estar a desafiar completamente os Estados Unidos quando responde, mas sim, dentro de um sistema de partilha de informações, dentro de um sistema em que pode haver conversas para além daquelas que são públicas, pode ser do interesse dos Estados Unidos manter perante o Irão a possibilidade de conversações, trazer o Irão para negociações, dando a entender que estão dispostos a forçar Israel a não intervir mais no conflito e a não escalar. Isto é algo que não sei até que ponto é que pode estar até a beneficiar a paz, porque muitas vezes o prolongamento destas situações, no fundo de guerra, em que estamos numa situação em que a guerra parece intermitente, mas continua a acontecer, pode estar mais neste equilíbrio entre Irão e Israel, esta forma de estar em que se dá esperanças ao Irão em como Israel não vai retaliar quando o Irão ataca. E agora, de facto, quem cortou com o cessar-fogo, muito precavitante e sabemos que muito relutante, mas durante dois meses que foi ainda assim firmado, pelo menos no que diz respeito a ataques de maior escala, a verdade é que muitas vezes a impotência que vem do lado de fora, neste caso dos Estados Unidos, podia desequilibrar um bocadinho mais se apoiasse mais contundentemente Israel, isso inibiria mais o Irão de fazer este tipo de ataques. Ainda assim, note-se que este ataque do Irão foi bastante mais contido do que os dois anteriores. Nós estamos a falar neste momento, não se sabe bem o número, mas seis, oito, 10 mísseis. Portanto, não se compara com as situações que tivemos em que houve ataque direto a Israel e fica o sinal. E fica também o sinal que se calhar o ataque a Beirute, neste caso a tal região no sul, Dahieh, que tem sido muito falada, pode ter sido excessivo. Aliás, note-se que mesmo algum general israelita veio a público dizer que foi um erro estratégico por parte de Israel, que deveria haver mais contenção para permitir que os Estados Unidos cheguem a um acordo. Ora, a ideia de que os Estados Unidos estão mesmo perto de um acordo também é ela própria discutível. Nós não sabemos que possibilidade é essa. Trump esteve muito moderado durante alguns dias em que até não falou muito sobre o assunto, parecia que poderíamos estar perto de um acordo, mas sabemos sempre que aquilo que é principal, o irânio enriquecido, pode não ser facilmente libertado pelo Irão. Pode ser que em torno da abertura do estreito já haja mais proximidade das posições, mas em relação ao Líbano, e a sua pergunta ia até nesse sentido, aí é que pode estar um dos pontos de tensão principal. É que o acordo com o Líbano está estabelecido e Israel e o Líbano não têm razão nenhuma para se atacarem, muito pelo contrário. Aliás, eu destaco, ainda há uns dias e antes desta salva de ataques por parte do Irão e contra a resposta de Israel, houve uma entrevista do Joseph Aoun, do presidente do Líbano, e é uma entrevista dada a nível internacional, a uma cadeia internacional da imprensa, em que ele dá a entender que também tenta ele próprio controlar muita da influência do Hezbollah. Ele é muito cuidadoso com as palavras e mesmo sabendo que o Hezbollah tem posições, não só através de políticas, através dos deputados e mesmo em alguns postos do Estado, ele é muito prudente a dar a entender de que poderia firmar relações com Israel de maior proximidade. A questão é sempre a maneira como o Estado do Líbano não tem capacidade para, de forma unificada, conseguir controlar esse grupo que está cada vez mais declaradamenteA atalhar o caminho ou a receber instruções de Teerão. E é por isso que a Hezbollah, no fundo, não faz parte do acordo, não tem acordo com Israel. A guerra continua por essa via, mas não é bem do Líbano em si. Talvez para sairmos até um pouco desta discussão, deveríamos voltar à temática do Líbano enquanto Estado, da sua viabilidade, da sua identidade, do seu fortalecimento, apesar das várias etnias, religiões e origens plurais, pode haver e há um sentimento nacional libanês que deveria ser reforçado contra este grupo terrorista. E o Jesof Aoun tenta dizer isso, tenta dizer que não é só a componente armada que nós vemos, há uma dimensão quase não cultural, mas econômica e social, nas palavras dele, que dão alguma força a esse grupo e que nos levam para esta situação de não termos o Estado libanês a atuar de maneira unívoca e determinada, mas sim estar sempre à mercê deste grupo. E depois, já se sabe, entre Israel e o Hezbollah acaba por haver estes ataques no tic por tac que vão sinalizando ao Irão que, no fundo, a guerra não acabou. E não acabou mesmo. Por muito intermitente que esteja, parece que os cessar-fogo nunca são muito totais. Como até diria Trump há muito pouco tempo, parece que naquela zona do globo cessar-fogo significa que continuam a disparar uns contra os outros, mas moderadamente. Estou a citar.
Também queria falar um bocadinho, mesmo dentro deste tópico do Irão, da capacidade militar do Irão. Netanyahu esteve em conferência de imprensa há umas horas, diz que o Irão e também a Hezbollah, mas queria mais focar-me no Irão, estão mais fracos do que nunca. Isto apesar de no outro dia, por exemplo, Trump ter voltado atrás na retórica de que o Irão estava muito fraco e muito debilitado, mas depois admitiu que afinal o Irão ainda tem mais de 20% das capacidades militares. A verdade é que o Irão está a ser um osso duro de roer para Israel e os Estados Unidos. Até que ponto é que esse debilitar das Forças Armadas iranianas não está a passar de propaganda militar por parte dos Estados Unidos e de Israel e se este osso duro de roer vai ser roído.
Um dia conseguiremos fazer a história e medir efetivamente as forças e fraquezas de um lado e de outro. No início, no 28 de fevereiro e nos dias seguintes, o que é facto é que os Estados Unidos e Israel tiveram milhares, ultrapassaram os 10 mil alvos e utilizaram também um conjunto de munições absolutamente impressionante, que também os pode ter deixado numa posição de terem que voltar à sua produção e terem que voltar a ponderar muito bem até o apoio a outros países. Agora, é certo que as forças do Irão, não só a cúpula como os comandantes, até a liderança política, neste caso do líder supremo, foram eliminados, tal como as forças principais que tinham ainda de marinha e mesmo de alguma força aérea, que não era o forte, mas que ainda assim resistia. Neste momento, os ataques foram em torno de alguns comandantes da Guarda Revolucionária, alguns centros de produção de armamento, há envolvida alguma empresa internacional, uma fábrica química, portanto, estes novos alvos do Irão sinalizam que há alguma capacidade. E depois também não podemos esquecer que há aqui, de facto, uma forma de estar destes grupos que por muito enfraquecidos que estejam, como os Houthis, conseguem fazer alguma mossa, conseguem disparar alguns mísseis, sinalizar a sua presença e têm uma forma de estar que é muito mais próxima das suas bases, com mais autonomia, com uma forma de esconder os seus equipamentos militares, de esconder, escamotear e, portanto, de criar uma dinâmica no terreno que depois é impossível de eliminar completamente.
Peço desculpa estar a interromper.
As lanchas, por exemplo, podemos destruir a marinha, mas as lanchas com uma metralhadora conseguem fazer alguma mossa.
E peço desculpa estar a interromper, mas só para também clarificar que, por exemplo, os Houthis até recentemente, há poucas horas também, ameaçaram de que podiam atingir navios israelitas para não deixar passar no Mar Vermelho e até, por exemplo, o Irão recebe muito dinheiro através do mercado negro e das chamadas frotas fantasma, também consegue receber muito dinheiro através daí, portanto é um bocadinho difícil de medir esta capacidade militar.
É isso mesmo, e até a coordenação entre eles vão sinalizando, mas mesmo dos Houthis é um bom exemplo, porque tiveram durante muitas semanas praticamente sem conseguirem entrar neste texto de resistência liderados pelo Irão. Agora dispararam duas vezes e já foi notícia em todo o mundo, mas o que é facto é que se calhar voltaram ao silêncio. Se calhar gostariam de conseguir bloquear mais um estreito, o estreito de Mandeb, é sempre difícil dizer este nome, o estreito entre o Djibouti e o Aden, e também se conseguissem, se calhar, seria mais uma grande vitória. Mas Mandeb vai continuar, se calhar, aberto precisamente por falta de capacidade dos Houthis para conseguir imprimir a sua dinâmica, que seria de voltar a ter aqui, como o Irão tem em Ormuz, alguma alavanca de exercer poder. Vamos ver então que capacidades é que tem de um lado e do outro. O que é facto é que enquanto há uma suspensão de ataques, esta trégua momentânea, estes grupos têm tendência para tentar reorganizar e voltar depois com mais força. São, de facto, projetos dos quais mesmo os membros são membros muito militantes, estão muitas vezes até dispostos a morrer por essa causa. São baseados também em ideiasE algumas dessas ideias até não são muito compatíveis entre si, ou melhor, são compatíveis até certo ponto, mas têm as suas nuances próprias, são sempre declinações umas das outras. Os houthis são bastante diferentes dos do Hezbollah, o Hezbollah mesmo muito diferente do Hamas, que aliás tem uma inspiração que é um pouco mais sunita. Os houthis são mais zaidistas. Depois quando vamos ver até a discussão entre eles também pode ser tensa. Agora, para já, enquanto é o Irão a tentar coordenar, controlar e até inspirar, vão continuar mais ou menos do mesmo lado e em alguma sincronia, mas na sincronia possível. Agora, quanto às forças do Irão neste momento, eu acho que é difícil saber. Têm alguma, conseguem impor algum medo no Estreito, definitivamente, e estão a continuar a tentar produzir ao máximo, sem dúvida nenhuma, e provavelmente a tentar junto dos seus aliados também até um pouco mais de apoio, mas que já se sabe, neste momento os aliados também estão preocupados consigo próprios e se calhar não conseguem também lhes dar mais cobertura. Estou a falar do caso, por exemplo, da Rússia, que se calhar também está é compradora do equipamento do Irão, quando o Irão também se calhar gostaria de estar comprador de algum equipamento vindo do norte.
Sim, e eu queria agora ir muito rapidamente também, porque em termos de tempo não temos muito, mas falar sobre a Rússia, falar sobre a Ucrânia. E sim, obviamente que os dois gostariam de ter equipamento um do outro, mas creio que tanto a Rússia como o Irão precisam do equipamento para combater as guerras que estão a combater. Mas sobre a Ucrânia e sobre a Rússia, o partido pró-Europa venceu as eleições na Arménia, mais um partido no leste europeu a aproximar-se dos valores europeus e a fazer algum tipo de pressão na Rússia. O Kremlin pode reagir e tentar prejudicar o país. Acha que pode ser apenas pela via económica ou, não quero estar a exagerar, pode partir para um cenário militar semelhante, por exemplo, a uma invasão na Ucrânia?
Essa pergunta é muito interessante porque, na realidade, parte da força deste partido do Pashinyan, que agora ganhou o contrato civil, parte precisamente do facto de a Rússia não ter ajudado a Arménia ou, neste caso, os arménios que estavam na região do Azerbaijão, que é o Nagorno-Karabakh. A campanha que foi feita contra o Pashinyan, que acabou por ganhar com uma certa vantagem e portanto terá, em princípio, a maioria dos 101 deputados, está em princípio com 64, e portanto acaba por ganhar, foi uma campanha que foi feita na premissa de que ele teria sido um perdedor da guerra contra o Azerbaijão porque teria concedido um conjunto de terras, nomeadamente o Nagorno-Karabakh, e mesmo as zonas da passagem da tal estrada que vai unir as duas regiões do Azerbaijão, que é um país descontinuado. Ora ele, na realidade, apresentou-se como alguém que iria tentar fazer o equilíbrio precisamente entre a ligação à Rússia, que por razões energéticas precisa de manter, mas acentuar os laços com a União Europeia e até com os Estados Unidos, tentando normalizar com o Azerbaijão e com a Turquia, que têm sido vizinhos difíceis de gerir, precisamente porque mais do lado do Azerbaijão há sempre esta reclamação de algumas pequenas regiões que, no fundo, vai reclamando com base em direito internacional, e este atual primeiro-ministro tem evitado a guerra precisamente através destas cedências. Portanto, é alguém que se candidata em nome da paz, mesmo tendo cedido. O que é interessante ter ganho, do lado oposto teríamos o candidato Karapetyan, muito controverso, pertence no fundo aos oligarcas, tem nacionalidade russa e cipriota e estava aqui a tentar disputar este lugar precisamente tentando sublinhar ainda mais a ligação à Rússia, que nos últimos dias, e precisamente para tentar criar uma espécie de crise económica a Pashinyan e a este governo, até limitou as importações dos bens que são exportados pela Arménia, que até uma grande parte são flores, são frutos, algum peixe, e alguns destes produtos foram redirecionados para um país que no fundo ajudou o governo a respirar de alívio nestes últimos dias, que foi a Letónia. Portanto, a Letónia teve aqui um papel proeminente, país da União Europeia, em limitar a possibilidade de entrar-se em crise económica. E portanto, as sondagens davam, de facto, o primeiro lugar a Pashinyan, mas sabíamos que um conjunto dos outros partidos, partidos mais pequenos, podiam tentar fazer coligação com o Karapetyan. A situação é toda ela muito difícil na Arménia, porque estas divisões são sentidas de uma maneira muito pessoalizada. O Karapetyan até estava, na realidade, em prisão domiciliária e foram membros da família a fazer a campanha. É uma situação bastante complexa, mas que ainda assim, de um modo geral, temos um candidato mais pró-europeu, que acho que se pode considerar mais pró-europeu, apesar de querer manter todas as ligações, nomeadamente à Rússia, vencer e, portanto, esperemos que a Arménia tenha vencido. Ainda não tem sequer o estatuto de candidato à adesão à União Europeia, nem isso para já está em causa no curto prazo, mas poderá estar a médio e a longo prazo, porque o que é facto é que Nikol Pashinyan olha para a União Europeia com uma possibilidade de quem sabe um dia poder lançar uma candidatura e quem sabe se a Arménia não poderia vir a ter condições para isso. Para já, portanto, não caímos na tentação da maior proximidade à Rússia e aqui poderia haver o paralelo com a Ucrânia, porque normalmente isto da eleição de um candidato que pode parecer mais europeu leva a Rússia a ser muito contundente e foi Putin que até foi o mais contundente com a Arménia, dizendo que têm mesmo que escolher um lado ou outro. E por aqui também demonstra muito desta personalidade desta Federação Russa.
Sim, e a Arménia que, em princípio, deve receber algumas sanções económicas também. O Ukrainska Pravda, um dos jornais ucranianos, diz que a Rússia ameaçou em aumentar, por exemplo, as tarifas dos comboios e a não permitir a entrada de arménios no país. Há uma comunidade muito grande na Rússia também.
O que levou a uma coisa que até passou quase despercebida, que foi, se for preciso cortar com a Rússia, a Arménia não tem capacidade energética. O JD Vance, que eu normalmente critico tanto, foi rapidamente à Arménia tentar fazer acordos de centrais nucleares para que a Arménia tivesse mais independência. Acontece que logo depois, creio que uma semana depois, coisa assim, a Rússia também veio dizer exatamente o mesmo, que se eles quisessem centrais nucleares, poderiam ser russas. Ora, para uma Rússia que, de facto, supostamente estaria disposta a dar proteção à Arménia e que não o fez perante a guerra no Nagorno-Karabakh, e estávamos a falar da proteção de pessoas da Arménia, por muito que o território, a nível de direito internacional, seja do Azerbaijão, a Rússia também ficou muito descredibilizada enquanto interlocutor que vende algum estatuto de segurança, neste caso, à Arménia. Enfim, para já parece-me que desta eleição resultou uma atitude mais ponderada e equilibrada e esperemos que corra tudo bem.
Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado, Fernando Salmoins, especialista em relações internacionais.
Muito obrigado.
O Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.