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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise de João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar pelo conflito na Ucrânia. O director da CIA e os serviços secretos de informação norte-americanos terá viajado para Moscovo para algumas reuniões. O motivo concreto não foi revelado. Entretanto, os Estados Unidos vieram pedir a suspensão dos ataques ucranianos durante a presença de uma delegação de alto escalão em Moscovo. Pergunto-lhe se consegue antever aqui algum cenário, alguma razão em concreto para esta deslocação.
Muito boa noite, Laura, e obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui. Eu diria que isto surge um pouco na sequência de algumas movimentações que aconteceram nos últimos tempos. Tinha havido, há não muito tempo, a libertação de um preso americano que estava detido na Rússia há já vários anos e que na altura, chegámos a falar disso aqui no Gabinete de Guerra, foi visto um pouco como um sinal de que em momentos em que Putin sente alguma tensão, alguma maior pressão por parte da comunidade internacional e dos Estados Unidos sobre a ação que leva a cabo na Ucrânia, dá sempre um sinal de boa vontade, de tentativa de aproximação e de indicadores que poderá estar próximo de alguma negociação. Obviamente, temos agora um novo director da CIA e esta é a primeira viagem que faz a Moscovo e, portanto, isto pode única e exclusivamente ter um sentido meramente exploratório e de, eventualmente, qualquer tipo de estabelecimento de relação com a sua contraparte. Não obstante isso, tendo em conta a raridade deste tipo de reuniões, tendo em conta a forma como acontecem, sempre envoltas em grande secretismo, é difícil perceber exactamente quais é que serão as conclusões desta ação e, eventualmente, da presença de algum tipo de delegação de alto nível que possa estar em Moscovo nos próximos dias. Eu acho é que, sem dúvida, há aqui a necessidade, os Estados Unidos aprovaram há não muito tempo um novo pacote de sanções à Rússia e há aqui, de facto, um endurecimento por parte da administração americana na sua posição em relação à Rússia e, de certa maneira, há a necessidade de acelerar o processo negocial e de exercer pressão para que a Rússia modifique a sua disponibilidade para se sentar à mesa das negociações, que seria por si só um avanço muito significativo face àquilo que temos visto nos últimos meses.
Volodymyr Zelensky revelou hoje que a Ucrânia recebeu mísseis Patriot recentemente, mas não adiantou qual o país que os disponibilizou a Kiev. Por que este secretismo?
Zelensky garantiu nas últimas horas, nestes últimos dias, importantes apoios do ponto de vista militar, com a Alemanha também a assumir o compromisso de enviar em breve novos mísseis, também Patriot, novo armamento por parte desta coligação da boa vontade, e também de eventualmente ter acesso à compra de mísseis Patriot também nos Estados Unidos. Eu diria que este secretismo, primeiro, não vejo que haja grande necessidade ou grande interesse em revelar de que forma é que a Ucrânia obteve este armamento, nem sequer exactamente quantificar qual é que será o número desses armamentos, mas eu acho que pode estar relacionado com a ameaça que a Rússia tem sempre feito a países que se disponibilizam para ajudar a Ucrânia com este tipo de armamento, porque a Rússia sabe que é obviamente fundamental para a defesa ucraniana e tem sempre colocado pressão do ponto de vista, pelo menos da retórica, dizendo que poderá retaliar contra países que se mostrem disponíveis para oferecer armamento de longo alcance à Ucrânia. E, portanto, este secretismo pode estar relacionado com algum medo de represálias ou, de certa maneira, para evitar qualquer tipo de tensão que possa surgir entre a Rússia e o país que presta este auxílio à Ucrânia.
Vamos olhar agora para o Médio Oriente. Donald Trump disse hoje que o Irão está a passar por uma crise humanitária de proporções épicas, afirmando mesmo que Teerão não tem pagado salários às Forças Armadas. Pergunto-lhe se a situação está realmente assim no Irão ou se se trata, uma vez mais, de uma retórica exagerada do presidente norte-americano.
Eu acho que aqui a melhor resposta que tenho é mesmo um "nim". Eu diria que é uma combinação das duas coisas. Infelizmente, mais uma vez, uma retórica hiperbolizada da parte do presidente americano, de uma forma acalorada e de certa maneira catastrofista como já nos habituou, o que acaba em última instância por levar a alguma desconsideração por parte dos seus aliados e por grande parte da opinião pública de cada vez que o presidente americano expressa uma opinião, o que dificulta efetivamente a nossa avaliação da realidade. Ao mesmo tempo, não há dúvidas de que, de facto, a situação económica iraniana sofreu um grande revés. Tem sofrido vários reveses desde o início da invasão americana, porque obviamente o preço das exportações marítimas aumentou brutalmente e, portanto, o próprio estrangulamento do Estreito de Ormuz, que afeta a Europa, que afeta a economia global, afeta a China, etc, acaba por também afetar de uma forma indelével a economia iraniana, porque o aumento do preço das exportações, o aumento do custo de tráfego marítimo, que resulta deste estrangulamento do Estreito de Ormuz Afeta duramente a economia iraniana e tem consequências diretas naquilo que é o dia a dia dos iranianos. Há relatos de falta de medicamentos em hospitais, de falta de acesso a cuidados médicos básicos que resultam da escassez de acesso que o Irão tem neste momento. Há obviamente dificuldades económicas sentidas pela população e não há dúvida de que há uma dificuldade económica muito significativa sentida pela população mais diretamente. Não sei até que ponto é que ela chegará à cúpula do regime e, em particular, àquilo que é o garante da sobrevivência do regime, que é a Guarda Revolucionária Iraniana. Diria que há aqui uma necessidade de uma pitada de sal, como sempre, em tudo aquilo que o presidente americano diz e que algures no meio estará a verdade entre uma situação muito difícil e alguma capacidade de resistência da parte do regime iraniano de continuar a assentar a sua sobrevivência no corpo da Guarda Revolucionária.
Os Estados Unidos estão a oferecer uma recompensa de até $10 milhões, mais de €8 milhões, por informações sobre os 14 líderes da Guarda Revolucionária Islâmica, incluindo o líder supremo do Irão, Ali Khamenei. Pergunto-lhe o que é que estará a falhar nos serviços de inteligência norte-americanos ou do lado norte-americano para a Casa Branca chegar a este ponto, para tomar esta medida?
Eu não sei se colocaria exatamente a questão nesses termos, no sentido de haver um falhanço dos serviços secretos americanos. Não tenho muitas dúvidas de que há, de facto, dificuldade na obtenção desse tipo de informação. O regime iraniano, sobretudo depois da morte do seu anterior líder, numa operação que estava a ser programada há muito tempo pelos serviços secretos israelitas em conjunto com os Estados Unidos. As informações que são públicas levam a vários anos de preparação da parte dos serviços de inteligência israelitas para saberem a localização estratégica do líder iraniano e depois conseguirem produzir um ataque letal a partir do interior do país. E a partir desse momento, obviamente, o regime iraniano também levantou as suas defesas e tudo o que diz respeito à segurança do filho e do atual líder iraniano assumiu outros contornos e reforçou a segurança em torno da cúpula dirigente do regime iraniano. Mas eu recordava que isto não é propriamente uma novidade da parte dos Estados Unidos. Eu recordava-me que quando foi Osama Bin Laden, os Estados Unidos, ainda durante a presença de Obama, chegaram a oferecer uma recompensa de $25 ou $27 milhões para informações que pudessem conduzir à captura de Osama Bin Laden, 1 milhão pelo seu filho. Não é propriamente uma estratégia nova que os Estados Unidos empreguem, mas que acabam por servir como complemento dos seus serviços de informação e que podem eventualmente prestar algum tipo de informação adicional. Eu acho é que essas informações acabam, e seguramente os Estados Unidos terão isto em conta, acabam por ser sempre pouco fiáveis, porque a tentação de obtenção de vantagem através do fornecimento de informação pode ser maior do que aquilo que é o valor real da informação prestada por qualquer tipo de informador que possa surgir nestes momentos.
Entretanto, o Irão e Omã anunciaram hoje que vão propor o estabelecimento de um corredor temporário de navegação no Estreito de Ormuz, bem como um projeto conjunto de desminagem. Parece-lhe este um plano viável?
Difícil de prever. Não há dúvida também de que o Irão e Omã têm reforçado o seu diálogo e a sua cooperação nos últimos tempos. Temos assistido a isso e tido a oportunidade de o comentar nos últimos tempos, não só da perspetiva do acordo bilateral que poderia estar em cima da mesa de controle sobre o estreito de Ormuz, mas também daquilo que era uma nova relação de cooperação entre os dois países que têm águas territoriais no estreito de Ormuz, mas que se se vier a concretizar, poderão ser eventualmente um bom sinal ou algum indicador de que poderá haver uma tentativa de normalização do tráfego marítimo na região. Eu tenho dificuldade em ser demasiado determinístico nesta análise, porque obviamente o Irão nunca deixará de utilizar o estreito de Ormuz como, infelizmente, moeda de troca ou como a forma mais eficaz que tem de defesa e de retaliação frente a qualquer ataque americano, pelas consequências que isso tem, quer do ponto de vista militar, porque permite ao Irão um controle muito importante na região, mas sobretudo do ponto de vista económico. O controle sobre o estreito de Ormuz será sempre fundamental para a estratégia defensiva do Irão e tenho dificuldade em ver, a não ser que um acordo seja verdadeiramente alcançado e negociado, que possa ser favorável ao Irão ou pelo menos aceitável por parte do Irão, que esse controle seja abandonado desta forma, sem haver nada em troca ou sem haver nenhuma contrapartida em troca.
Muito obrigada pela sua análise, João Albuquerque, é especialista em Relações Internacionais. O Gabinete de Guerra fica por aqui. Está de regresso amanhã.
Muito obrigado. O gosto foi todo meu.