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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo, Jorge, a mais um Gabinete de Guerra. Jorge, a Ucrânia vai partilhar um novo plano de paz com os Estados Unidos, um plano atualizado e sem os pontos considerados antiucranianos. Acontece também depois da reunião de ontem com alguns líderes europeus e também numa altura em que é conhecida uma entrevista de Donald Trump ao político, com várias nuances, a sublinhar também que a Rússia tem vantagem na guerra porque é maior do que a Ucrânia. Aquilo que lhe queria perguntar e que gostava que analisasse, Jorge, é perceber como é que se consegue encontrar algum equilíbrio entre estes dois planos, entre aquilo que são as pretensões da Rússia e também da Ucrânia.
Boa tarde, Luís. Não vai ser fácil segurar esse equilíbrio de uma forma realista. As posições ainda estão muito longe. Há uma carta de intenções, de facto, de parte a parte, linhas vermelhas, mas este plano, agora a referência é dos 20 pontos, já tivemos vários outros, ainda está a faltar ali algum pragmatismo e, portanto, foi colocado de forma desequilibrada a partir do momento em que Donald Trump, que os Estados Unidos é sempre o único mediador capaz neste contexto, mas lançou uns 28 pontos de uma forma muito desequilibrada e começou mal esta fase da negociação. Não que esteja à espera de outra coisa, porque a geopolítica procura equilíbrios, não propriamente justiça, mas verdadeiramente tem que existir aqui algum tipo de aproximação para conseguirmos avançar um pouco mais. Zelensky, por um lado, é inteligente, é pragmático, tenta envolver os Estados Unidos e a União Europeia, mas a verdade é que com a pressão de Trump no momento em que a Ucrânia está em particular fraqueza, seja pela corrupção que tem sido identificada nos seus meios governativos, seja algumas limitações de apoio que se traduzem depois na prática com falta de iniciativa no terreno. A Ucrânia está fraca, mas o que é essencial perceber que a Europa está muito envolvida, porque como a Ucrânia fraca, a Europa fica fraca e a aliança euro-atlântica também estará fraca. E a Rússia sabe disso e sabe também que é especialista em guerra comunicacional com impacto tremendo na opinião pública ocidental. Não que a Rússia esteja assim tão bem, em boa verdade, mas tenta demonstrar que está com sinais que está em condições de prosseguir a guerra, seja com ameaça à Europa, seja com o decreto de Putin sobre os reservistas, uma pressão de iniciativa no terreno com ataque às infraestruturas, às cidades, e mesmo na área económica demonstra também alguma preocupação em demonstrar essa solidez, que complementa com visitas à Índia e outras demonstrações do relacionamento internacional, que seria um dos pontos a considerar sempre como ponto fraco, mas tenta demonstrar que não. E por isso não abdica das causas profundas. As causas profundas serão sempre o problema em que poderemos não chegar a acordo, será exatamente porque essas quatro grandes pontos quentes continuam em aberto. O território, a soberania da Ucrânia, as garantias de segurança, o que pode vir a ser feito em relação às populações russófonas. Em último ponto, que a Rússia pretende sempre demonstrar que a Ucrânia irá ficar com uma Bielorrússia 2.0. Portanto, não vai ser pra já. Teríamos que envolver os diversos atores e negociar de uma forma verdadeira.
E de resto, Volodymyr Zelensky assume desde logo que não há acordo sobre o Donbass, diz até que quer chegar a acordos separados sobre garantias de segurança. Jorge, como é que tudo isto pode ser colocado em prática? Como é que podemos ter aqui acordos separados ou terá que ser apenas um acordo em vários pontos? Como é que podemos olhar pra isso também?
A questão territorial é um dos maiores problemas, por isso é que mereceu ser salientado muito recentemente aqui por Zelensky. E nesse aspecto será sempre uma questão em que dificilmente teremos um acordo. Portanto, alguma solução terá que ser encontrada sem grande sucesso de parte a parte. Aqui há três cenários evidentes: a Rússia retira, congela a frente ou a Ucrânia cede. A primeira é muito pouco provável. Eu acho que estaremos a pensar um pouco mais entre as outras duas. Volto a dizer que o plano de 28 pontos desequilibrou bastante. Não há aqui trocas plausíveis que sejam fáceis de incluir de maneira a ser aceitável pelos dois lados, pelo que o congelar a frente parece ser o mais razoável. Só que claro que isto demonstra problemas ao compensar o invasor e com tudo o que vem adstrito a isto, o fator moral da população ucraniana, para além da parte política e constar da Constituição a não cedência de territórios, que a Rússia não vai desistir do Donbass, portanto irá continuar até o conseguir, mesmo que exista aqui um congelar da frente. E depois o reconhecimento internacional, se é só uma ocupação de fato ou se haverá ou não reconhecimento, é um fator também muito importante. Em suma, serão as tais garantias de segurança que o Luís fazia referência e muito bem na pergunta, que nas várias áreas, nas várias dimensões, seja terrestre, seja na zona de interdição aérea, Sky Shield, seja as outras três dimensões, terá que ser assegurado Um acordo de garantias de segurança com o Ocidente, em especial com os Estados Unidos, naturalmente. E como é que vai ser conseguido? Aqui é que está o grande problema. Se é a União Europeia, é mais fácil chegar a acordo, resta saber se haverá vontade depois para o cumprir, visto que há aqui uma ligação direta com a segurança europeia. Já com o Trump, Trump é transacional, para conseguir tem que dar algum tipo de vantagem, oferecer vantagens econômicas futuras e que poderá estar a pôr em causa a mesma sobrevivência e desenvolvimento econômico do país como um todo. Portanto, não será particularmente fácil, mas naturalmente será este o caminho que Zelensky tem que seguir.
E parece que há aqui quase dois blocos diferentes a fazer uma mesma negociação para um mesmo objetivo. E de resto, ontem Londres defendeu um aumento da pressão econômica sobre a Rússia após a reunião dos vários líderes europeus com Zelensky. Ainda fazem sentido estas sanções, estas pressões econômicas sobre a Rússia nesta altura do campeonato?
Tem sido a arma da Europa e tem sido uma arma que de alguma forma tem sido importante e tem evitado o apoio. Zelensky tem evitado o que seria uma capitulação caso estivesse apenas na mão de Trump. Aliás, Kaja Kallas em Doha há dois dias, como já outros líderes, Von der Leyen, etc., foram referenciando, mas a Kaja Kallas de uma forma muito direta, que a economia russa está em dificuldades e que o enfraquecimento pela economia seria o caminho para o sucesso, como já foi, por exemplo, com o Afeganistão, em que a Rússia só parou quando atingiu um nível de economia insuportável. A Europa está a tentar, de alguma forma, exercer uma determinada pressão, mas também ela está sob pressão, porque a ameaça de uma paz na Ucrânia em que seja desfavorável à Ucrânia será sempre um risco muito grande para a segurança europeia no futuro. Aliás, o Merkel muito recentemente disse que o futuro da Ucrânia estava muito ligado ao futuro da Europa e que, portanto, há aqui um tipo de autonomia estratégica que é colocada em causa. Esses problemas de unidade que têm sido colocados a nível interno e a nível de polarização dentro da Europa é muito bem aproveitado por Donald Trump no National Security Strategy que saiu recentemente, em que põe em causa e coloca toda a arquitetura de segurança Euro-Atlântica. Isso pressiona naturalmente a Europa e se virmos o que está a acontecer na Ásia também, em que os Estados Unidos não apoiam o Japão nem Taiwan, apesar de irem dizendo que o vão fazer, na verdade, depois ficamos a identificar que a Europa vai ficar sozinha e que tem apenas esta arma e o apoio, a manutenção do apoio à Ucrânia, como verdadeira capacidade de intervir. A Rússia tenta mostrar que está bem neste campo, inclusivamente o Banco Central antecipou a autorização de troca de dívidas estrangeiras, tentando mais uma vez referenciar que está bem economicamente. Mas é aqui nesta arma que pode ser um bom ponto fraco para ser pressionado, mas não pode, e este ponto é particularmente importante, não pode ser usada de forma isolada, tem que ser usada com outras dimensões, nomeadamente com o hard power a nível militar, de forma a pressionar Moscou.
Jorge Rodrigues, na preparação para este "Gabinete de Guerra", dizia-nos que considera que no que toca ao conflito do Médio Oriente, ele está numa fase interessante. Por que classifica assim este momento do conflito do Médio Oriente ou daquilo que se vai passando no Médio Oriente?
Mais do que interessante, eu até diria determinante, porque poderemos estar aqui a pensar se existe ou não uma fase dois. Se por um lado, e Izhar Levi referenciou, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, referenciou que agora a nova fronteira é a linha amarela. Nós estamos a terminar a fase um, que é mais fácil, que não terá corrido bem, mas que de alguma forma permite continuar, mas que agora estão verdadeiramente os problemas a surgir. Nem os apoiantes do povo palestiniano e do Estado palestiniano estão muito dispostos agora a abdicar para esta fase dois. Isso fica evidente que temos aqui alguns problemas muito complexos para ultrapassar. Um primeiro será logo o desarmamento do Hamas, com agora esta nova versão que o Catar e a Turquia vieram colocar na mesa, dar dois anos para esse desarmamento e reorganização, o que é particularmente complexo quando estamos a falar de um grupo terrorista que tem como principal motivo de força exatamente a sua unidade para destruição de Israel. O segundo ponto será a questão do novo governo, com Blair, sem Blair, quem irá participar, que tipo de gestão estará, se terá já alguma participação a nível da autoridade palestiniana. E o ponto três, as garantias de segurança que poderão ser dadas a Israel, visto que Israel também tem que ter algum tipo de certeza em relação ao que não vai acontecer no futuro, nomeadamente sofrer ataques deste género. E quando temos o Hamas que não está disponível para se desarmar, que temos vários atores locais que querem instabilidade regionais, que não se reveem neste processo e a nível global, que a competição que per si também não está propriamente seguidista em relação a este processo, não será fácil de termos um bom passo para a segunda fase Por último, estará sempre dentro das garantias de segurança a força de interposição, que tem essa tal dupla missão de manutenção de paz ou, se calhar para alguns é única, para outros também de imposição de paz, em que tem que assegurar que realmente haja ali um tipo de estabilidade que permita, através das regras de empenhamento, assegurar que haja uma estabilização do processo. Por que a Linha Amarela é importante?
E porque é que é importante e já agora, que linha é esta? Explicar um bocadinho também aos nossos ouvintes em que é que isto se enquadra.
A Linha Amarela surgiu muito rapidamente no acordo de cessar-fogo, em que foi determinado que numa primeira fase, as tropas israelitas tinham que retirar para trás desta Linha Amarela, que foi considerada por parte de Israel que seria a zona limite para dar alguma segurança ao território israelita propriamente dita. Ou seja, funcionaria como uma buffer zone para impedir ataques a território israelita e que deveria ser progressivamente envolvida à administração palestiniana para a internacional. O plano previa em si que Israel não anexasse ou ocupasse permanentemente territórios de Gaza. Só que temos sentido que, de alguma forma, a linha de defesa avançada serve particularmente os interesses de segurança de Israel, mas poderá também haver aqui algum tipo de interesses políticos e está a ser reforçada com preparação de terreno de engenharia, reforço de tropas, meios de vigilância, etc, que dá a entender que vai sofrer uma ocupação longa, de prazo longo, que vem atribuir um pouco mais de profundidade estratégica a Israel, na mesma linha que acaba por acontecer no Líbano ou na Síria, em que Israel ocupa de facto algum tipo de territórios para lhe dar uma margem de segurança maior. Portanto, poderá realmente vir a ser uma formalização de uma nova fronteira de facto, não de jure, mas de facto, como tem acontecido noutras áreas. Isso é particularmente determinante, porque os muçulmanos não aceitam, naturalmente, o Islão não aceita, o Qatar não apoia financeiramente se Israel não retirar totalmente. A Turquia, já sabemos nas suas posições extremistas de Erdogan, ameaça de todas as maneiras, ao mesmo tempo que procura estar nas forças de interposição exatamente para criar instabilidade na ação da IDF. A Arábia Saudita só haverá Acordos de Abraão com esta questão dos reféns e a retirada de Israel, e o Egito quer uma força internacional para a monitorizar desde já. Portanto, por todo este conjunto de envolventes de diversos atores, como eu disse há pouco, locais, regionais e globais, está em causa todo o processo de paz, o condicionamento da segunda fase, que definitivamente per se não será fácil, está determinantemente afetado por este tipo de ocupação e relembro também pela dificuldade de desarmamento do Hamas, que agora recebeu este apoio do Qatar e da Turquia.
Jorge Rodrigues, muito obrigado pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. O Gabinete de Guerra está de regresso mais logo.