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E esta segunda-feira a análise no Gabinete de Guerra é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Bom dia, Miguel.

Olá, João, muito bom dia.

Bom dia. Miguel, o fim de semana fica marcado por ataques e contra-ataques no Médio Oriente, apesar dos diversos cessar-fogo em vigor. O que isso significa? Significa que vamos assistir a este padrão daqui para a frente, em que os acordos não servem pra nada? É a realidade que se impõe?

João, essa pergunta é bastante importante, até porque nós temos que entender aqui uma coisa, que é: o primeiro cessar-fogo, que foi o cessar-fogo que o Paquistão, que o primeiro-ministro do Paquistão nos veio dar a informação, dizia duas coisas. Dizia que o cessar-fogo punha efetivamente um cessar-fogo entre os beligerantes Israel, Estados Unidos e Irão, e que este cessar-fogo incluía também o Líbano. E naquela primeira noite, naquela primeira madrugada, o Paquistão, o Irão, os Estados Unidos e Israel aceitaram este cessar-fogo que incluía também o Líbano. Horas depois, Israel vem dizer que não, que este cessar-fogo não inclui o Líbano, os Estados Unidos dão uma abertura para que Israel tratasse a questão do Líbano separadamente da questão do Irão e a partir daí, houve este caminho para a tentativa de chegar a um memorando de entendimento, sendo que o Irão sempre disse que não poderia haver uma assinatura do memorando de entendimento, e muito menos de um processo de paz, sem que o cessar-fogo fosse cumprido. Esse cessar-fogo, esse entendimento, esse memorando de entendimento, esse acordo tinha que incluir sempre os proxies, ou seja, a questão do Hezbollah no Líbano. Mas isso nunca foi cumprido por parte de Israel. E nós sabíamos também que Israel nunca quis e nunca aceitou este cessar-fogo, da mesma forma que o cessar-fogo imposto pelos Estados Unidos entre Israel e o governo do Líbano também nunca foi cumprido parte a parte, e também não por Hezbollah. E portanto, quando nós olhamos, João, a sua pergunta faz sentido. Ou seja, nós temos aqui uma ideia de cessar-fogo imposta pelos Estados Unidos, no papel, mas o que também tiramos deste final de semana é que os Estados Unidos não mais têm capacidade de intervenção política e de decisão no Médio Oriente. Veja-se que ontem, quando do ataque do Irão a Israel, o presidente americano não só o disse publicamente, mas como o fez também diretamente a Netanyahu, que pediu que não houvesse retaliação e que pediu que houvesse contenção, porque o acordo estava muito próximo e na entrevista que ele deu à televisão americana este final de semana, disse que Netanyahu teria que aceitar o acordo e que: "quem manda sou eu". Mas o que está demonstrado é que neste momento Israel não mais segue as orientações dos Estados Unidos e está a tomar a decisão sozinha. Portanto, o que nós vimos é esta situação de que o cessar-fogo não interessa muito e que os Estados Unidos, neste momento, como o país que interveio juntamente com Israel, não mais tem capacidade decisória sobre Israel, o que nos traz à ideia de que os próximos dias poderão ser complicados e poderão efetivamente nos trazer uma escalada deste conflito muito maior do que nós poderíamos estar à espera.

As relações entre Estados Unidos e Israel podem degradar-se nos próximos dias, Miguel?

As relações já não estavam boas. Por quê? Porque desde o início desta guerra que há duas agendas diferentes. Há a agenda de Israel, que é completamente diferente da agenda dos Estados Unidos. Israel tem a agenda de Hezbollah, Hamas, Huthis, as milícias do Iraque e o Irão. Portanto, são quase cinco frentes em que está. Os Estados Unidos foram trazidos para esta guerra por Israel com o intuito de enfraquecer o governo do Irão e obrigar o Irão a assinar um acordo. Mas entretanto, aperceberam-se nestes 101 dias de guerra de que, afinal, a ideia de Israel era completamente diferente. Israel opôs-se sempre a qualquer tipo de acordo em cima do joelho que os Estados Unidos andam a tentar fazer pra se livrarem deste problema. E o que efetivamente aconteceu foi que a relação entre os dois foi se deteriorando, porque o presidente americano apercebeu-se que de alguma forma foi enganado, porque lhe foi vendida a ideia de que isto afinal era meia dúzia de semanas e que o governo e o regime iraniano iria colapsar e, portanto, a coisa fazia-se de forma fácil. Não vou dizer tão fácil como foi na Venezuela, mas eles acreditaram que seria muito fácil e foram se apercebendo que, efetivamente, Israel estava numa deriva belicista e securitária, e se quisermos também expansionista, que os Estados Unidos não controlam. E entretanto, é verdade que a relação dos dois, até por aquele telefonema em que supostamente um gritou com o outro, e que o presidente americano terá dito ao primeiro-ministro israelita que ele não era muito inteligente e que ninguém gostava dele, etc, mostra efetivamente que a relação está beliscada. E deixe-me só terminar dizendo isto, João. Parece importante. Esta ideia consensual que existia nos Estados Unidos entre o Partido Republicano e o Partido Democrata, que acontecesse o que acontecesse, esses dois partidos estariam sempre do lado de Israel, hoje esse consenso está quebrado.Dentro do Partido Democrata e dentro do Partido Republicano, parte desses dois partidos vêem Israel, neste momento, como um problema para os Estados Unidos, quando estamos num ano de eleições tão importantes.

Que são as midterms que vão acontecer em novembro e que apesar de todos os desmentidos, obviamente que têm influência no desenhar da política externa americana, certo, Miguel?

Claro que sim. Até porque é o seguinte: há quem olhe para as midterms e não lhes dê muita importância. Até porque é o seguinte: olhando para as sondagens, mesmo que Donald Trump perca a Câmara de Representantes, dificilmente perderá o Senado. Não perdendo o Senado, fica muito difícil, por exemplo, sofrer um impeachment. Mesmo que ele não consiga ter o apoio majoritário no Congresso, que é a união das duas câmaras, ele poderá continuar a governar como está a governar, através das chamadas ordens executivas. Portanto, sem ter que passar a legislação no Congresso. O que significa que ele não está muito preocupado. Depois, não é a cara dele que vai aparecer nos boletins de voto e este é o último mandato dele. Parece-me a mim que o narcisismo de Donald Trump lhe permite viver bem com uma derrota ou pelo menos com resultado menos positivo. Apesar de, isto também é verdade, os candidatos que ele apoiou nas primárias republicanas nos vários estados terem todos ganho. Isso também nos diz que o Partido Republicano continua refém do próprio Donald Trump. Seja como for, é um ano de eleições também em Israel. Vão ser umas eleições complicadas. Há até uma linha em Israel que defende a não participação de Netanyahu nas eleições, que lhe seja dado o perdão por parte do presidente israelita e que ele vá para a sua reforma e deixe Israel entregue a uma nova linha política. A nova linha política, que se for a de Smotrich e a de Ben-Gvir, nós estamos a falar da extrema direita pura e dura israelita, que tem uma visão ainda mais belicista que Netanyahu. O que nós temos pela frente pode não ser efetivamente uma coisa muito positiva, porque Israel obviamente que está acossado, porque continua a viver rodeado por países que não o reconhecem, alguns deles que tendem a lutar pela sua destruição.

O fato é que nós nas últimas horas assistimos a trocas de mísseis entre o Irão e Israel, algo que não acontecia, creio, desde abril. Isso significa que este conflito pode escalar rapidamente, Miguel?

Agora dependerá dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não têm interesse absolutamente nenhum que este conflito vá escalar. Não só não têm interesse, como vão ter grande dificuldade novamente de justificar dentro de portas, o porquê do escalar desta situação. Mais, sendo que Israel, neste momento, até mesmo dentro da sociedade americana é visto como, possivelmente não majoritariamente, mas é visto por uma parte da sociedade americana como alguém que provocou este conflito, talvez seja difícil ao presidente americano justificar efetivamente uma nova ronda de ataques. Mas, por outro lado, Israel traz esta situação para onde sempre quis, porque Israel nunca quis que os Estados Unidos parassem. Israel queria que os Estados Unidos continuassem e queria continuar na deriva belicista contra o Irão, obrigando o colapso interno do próprio regime, o colapso interno da própria sociedade. Israel queria criar no Irão o mesmo que criou na Palestina e o mesmo que tenta criar no Líbano, que é um Estado falhado, ou seja, um Estado que caísse completamente e que fosse uma sociedade e um país que não tivesse capacidade de se voltar a reerguer. E portanto, de alguma forma dominaria depois ali o espectro político por parte de Israel. E é isso que Israel continua a tentar. Israel continua a tentar convencer o seu parceiro, neste caso os Estados Unidos, que ainda o projeto que eles encetaram em 28 de fevereiro, ainda não está terminado. Ou seja, que o problema, e isso também é verdade, e isso nós aqui também temos que nos preocupar enquanto Europa, é que efetivamente o Irão não deixa de ser o grande financiador do terrorismo internacional. Logo, o fato gerador de todo este problema continua a existir, que é o regime iraniano. E portanto, por um lado, Israel tem razão quando nos diz que o fato gerador de todos os problemas para o Oriente Médio, mas também mundialmente, que no nosso caso, o financiamento do terrorismo continua a existir. O problema é que os Estados Unidos sabem que só vão conseguir resolver com uma intervenção militar enorme. E essa intervenção militar teria que obrigatoriamente passar pelas chamadas boots on the ground, ou seja, com a intervenção de tropas terrestres, o que seria um desastre e poderia ser um novo Vietnã para os Estados Unidos.

Para os Estados Unidos. Miguel Bagumarten, muito obrigado, boa segunda-feira e boa semana.

Obrigado, João Pedro, também um abraço.