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Este é o Som do Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Orlando Samão, especialista em Relações Internacionais. Olá, Orlando. Bom dia, bem-vindo.
Muito bom dia.
Bom dia.
Muito obrigado pelo convite.
Obrigada nós por ter aceitado. E começamos pelo Médio Oriente. O enviado especial norte-americano Steve Witkoff diz que vai haver uma grande reunião para discutir o futuro da faixa de Gaza, uma reunião supostamente liderada por Donald Trump, que tem como objetivo delinear o futuro do enclave palestiniano depois da guerra contra Israel terminar. Orlando, alguma ideia de quem poderá estar presente nesta reunião e do que poderá ser decidido?
Neste momento, falar sobre Gaza é sempre um risco e quem estará, ainda pior. Estamos perante uma situação em que várias visões aparecem sobre o enclave e o que fazer, mas continuamos nesta situação de apenas deixar as pessoas confinadas a espaços cada vez mais pequenos. Continua a haver o medo de Israel em que o Hamas não esteja totalmente desarmado, não esteja totalmente destituído, e que ainda consegue, de facto, fazer ações contra o Israel, faz com que a agressividade e até muita desproporcionalidade que tem sido criticada, continue. Esperemos que haja uma iniciativa um pouco mais contundente dos Estados Unidos e do Witkoff, e que se consiga, de alguma maneira, apaziguar esta situação tão difícil, juntando aqueles que podem ser determinantes. E aqui eu creio que os países pelos quais passarão sempre as conversações de paz, para além do Qatar, que aqui tem servido um pouco de intermediário, digamos assim, e que vai falando com o Hamas, mas acima de tudo o Egito. Não há forma de conseguir conciliar ou reconciliar as posições que não sejam por quem iniciou precisamente a trajetória de normalização com Israel, que foi o Egito, em 78, e que governou Gaza até 67. Portanto, é um dos países que seria bom também estar mais envolvido, até para ser mais responsabilizado, porque a crítica tem recaído muito sobre Israel. Às vezes não tanto pelo Hamas, que até passa pelos pingos da chuva, também da forma como tem lidado com a situação e com a sua própria população, mas o Egito também faz fronteira e em certa medida também podia ser um pouco mais responsabilizado. Mas vamos ver a ideia que vem dos Estados Unidos, porque neste momento é até difícil prever qual é que é a atuação.
Sobre a guerra na Ucrânia, Steve Witkoff diz que a situação é complicada, mas afirma que Putin quer terminar a guerra. Numa entrevista à Fox News, disse ainda que o presidente russo mostrou interesse em terminar com este conflito. Orlando, o que os Estados Unidos sabem que mais ninguém está a ver? Acho que nem mesmo a Rússia.
Sim, mas creio que pode haver aqui, de facto, uma situação de alguma falta de experiência por parte do Witkoff. O que houve nas palavras da Rússia, são sempre palavras muito ponderadas, são palavras que são ditas no momento certo para alterar um pouco da percepção dos Estados Unidos, que parecem muito ansiosos em querer sair e parar de se envolver.
E passar para a União Europeia.
Passá-lo mais para os europeus. E estão tão ansiosos que esperam qualquer tipo de ponto por onde possam pegar e para reatar esse tipo de conversações. Repare-se que foi precisamente essa a reunião entre o Witkoff e Putin que desencadeou todo este processo das reuniões. E as reuniões são importantes, quer a do Alasca, quer a de Washington, mas nenhum dos líderes tinha procurado perceber o que é que a expressão garantias de segurança que a Rússia poderia estar disposta a dar à Ucrânia queria dizer, e que se baseavam, no fundo, neles próprios ou talvez em membros do Conselho de Segurança da ONU, mas a Rússia estava muito a pensar na China. Ou seja, não se entenderam quanto a detalhes, parece que estão mesmo com dificuldade em falar dos temas que podem ser complicados. A Rússia vai continuar sempre a dizer que tem muito interesse em parar e a guerra pode parar. Aliás, a guerra começou por iniciativa de Putin, pode parar amanhã se a Rússia recuar. Também pode terminar amanhã se os termos impostos pela Rússia forem aceites, mas isso não sabemos que futuro a Ucrânia teria, até que ponto é que ainda seria um país soberano. Claro que os Estados Unidos estão aqui muito a mercê e a deixarem-se levar. Eu acho que temos que ter aqui todos algum espanto pela maneira como os Estados Unidos estão a ser humilhados nesse discurso.
Mas já não é de hoje, Orlando.
Isto já não é de hoje. Trump continua a criticar muito a administração de Biden, até como sendo uma espécie de quase culpado da situação, quando, na realidade, ele também já prometeu que a Rússia deveria ter consequências severas se não aceitasse os seus termos, e sempre a dar os prazos e a reduzi-los para que a Rússia aceitasse outro tipo de postura. E ainda assim, depois mais tarde, é ele que demover, é ele que adapta o seu discurso. Essas consequências severas foram esquecidas, as sanções e as tarifas secundárias adiadas. A seguir, ele insistiu no cessar-fogo, mesmo antes da reunião, que também deixou cair. Insistiu nas garantias de segurança, até aéreas, mas recua e agora voltam a aparecer alguns pontos de contacto em relação a essa possibilidade por parte dos Estados Unidos. Falou no encontro bilateral, mas em que ele poderia estar presente mais tarde em Washington, a utilizar a expressão também quadrilateral, ou seja, também com a Europa e não só com ele, mas acima de tudo queriam sentar Zelensky e Putin à mesa, e Trump dizia que tinha muito esse objetivo, mas também quando nota que, no fundo, a Rússia não está assim tão interessada nisso, mais alguma coisa que deixa cair. Ou seja, ele vai deixando cair essas pretensões. Mantém toda a confiança em Witkoff, mas aqui parece que é mesmo a Rússia, neste caso, Lavrov, que até tem falado mais. Tem sido o interlocutor e não tanto Peskov. As palavras contam, eles estão com bastante receio de poder ser mal entendidos, e então deixam Lavrov, que tem muito mais experiência, a falar com todo o cuidado e, no fundo, a darem a entender. Eu tenho aqui uma expressão de Lavrov Que achei muito interessante, já tem alguns dias, de dizer que o Zelensky, eles usam a expressão em inglês "pretending to be". Portanto, ele está a fingir ser o líder da Ucrânia. Ora, estes são os termos que usam em relação a Zelensky.
E é também por isso que Putin diz que não se senta à mesa com ele. Não reconhece a legitimidade.
Essa posição de igualdade. Mas enleou-nos o suficiente para pensarmos que isso até poderia ser possível. Mas neste momento, eu creio que quando Lavrov insiste numa agenda presidencial, e diz que não há uma agenda presidencial para que se possam realmente reunir, eu creio que os russos achariam que Zelensky teria toda a legitimidade se fosse para assinar uma espécie de capitulação. Como no fundo é para continuar a lutar, é para que os termos e condições sejam um pouco mais favoráveis à Ucrânia, e já não estamos a dizer que sejam completamente, porque se calhar a Ucrânia ainda podia estar disposta, nós não sabemos, privadamente, a abdicar de facto dos territórios e tentar mais tarde recuperá-los. Mas seria a troco de quê? Porque no fundo a Rússia não está a dar a paz. Está a dar uma promessa de paz, que é muito diferente e não se sabe até quando é que não continuariam por aí a fora. Aliás, a Rússia tem neste momento um pé em Dnipropetrovsk. Dnipropetrovsk já é a província a seguir. Neste momento a Rússia já tem algumas localidades, apesar de muito pequenas, numa operação feita de surpresa.
Mas uma zona que quer muito conquistar, aquela região.
Quer muito conquistar, porque quer por via mais a sul de Kherson, que ainda não conseguiram passar, portanto para o outro lado do rio, poderia dar acesso precisamente mais tarde por uma investida em direção a norte a Kiev. Dnipropetrovsk já tem o nome do rio e chegar ao rio é chegar a esta espécie de fronteira do Império Russo. Que pode ser mais uma das camadas intelectuais e ideológicas desta Rússia. Enfim, confluem muitas outras. A Rússia quer nos dar aqui lições de história, também foi isso que fizeram a Trump, e a história aqui não tem perdão, não tem juízo e também não tem valores, porque é possível sempre utilizar uma argumentação mais soviética, mais do império ou mais de Pedro, o Grande, para justificar quase qualquer tipo de fronteiras. Quem quer a paz não fala na história, fala no futuro e fala nos acordos e nas prosperidades das pessoas que habitam nos territórios e não tanto nas nações como já foram. E os Estados Unidos não estão, se calhar, neste momento à altura das circunstâncias e perceber e conseguir ter a leitura do mundo que deveriam.
Orlando Samões, muito obrigada pela sua análise. Em mais um Gabinete de Guerra. Continuação de boa semana, Orlando.
Boa semana. Muito obrigado.
Muito obrigada.