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Está aberto o gabinete de guerra. Vamos conversar nos próximos minutos com o Major-General Isidoro Morais Pereira sobre os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Começamos pela Ucrânia. Muito boa tarde, Major-General. Vamos olhar aqui para mais esta série de ataques ucranianos à Rússia: fábricas, refinarias de petróleo, tudo em chamas, linhas férreas atingidas pela Ucrânia, tudo em território russo. A Rússia também bombardeou a Ucrânia durante a madrugada. Mas como é que se explica tantas falhas defensivas por parte da Rússia? Tivemos já bombardeamento de aeroportos, aviões atingidos, agora refinarias de petróleo. Há aqui graves falhas de segurança por parte da Rússia.
O primeiro aspecto que acho que é importante salientar é que a Rússia é o maior país do mundo, tem 17 milhões de quilômetros quadrados. E para conseguir proteger dos ataques levados a cabo por drones, ou por mísseis, ou por outros tipos de alvos, não é fácil cobrir da mesma forma e de forma eficaz 17 milhões de quilômetros quadrados e todas as infraestruturas militares e todas as outras que apoiam o esforço de guerra, designadamente as fábricas de material militar, as refinarias, todas as bases aéreas. Há alguma dificuldade em fazê-lo. A Rússia tem algumas vulnerabilidades nesta área, até porque estabeleceu prioridades. A Rússia estabeleceu prioridades quanto à defesa antiaérea e que todos nós conhecemos. Em primeiro lugar, estabeleceu a sua capital, o Kremlin, e todas as instâncias oficiais e fundamentalmente toda a Rússia gelada, a Rússia fundamentalmente do Ocidente. Estabeleceu também como grande prioridade proteger a obra do regime, que é a ponte considerada pela Ucrânia como ilegal, que une a Rússia continental à península da Crimeia, que é a ponte de Kerch. Estabeleceu como prioridade, e isso é absolutamente obrigatório, proteger outras cidades como Leningrado, Belgorod, que é um hub logístico, Rostov-on-Don, mais ao sul, que é a cidade onde está localizado o posto de comando operacional da invasão russa da Ucrânia. Há aqui uma série de áreas que são de interesse estratégico pra Rússia e que não podem deixar de ser protegidas em termos de defesa antiaérea. Aliás, há notícias de que até parte dos sistemas mais modernos, os S-400 Triumph e alguns já mais antigos, mas também eficazes, como o S-300, terão sido trazidos da Rússia mais longínqua, da Rússia oriental, pra Rússia ocidental, no sentido de proteger estes alvos estratégicos de que eu tenho falado. Mas mesmo assim, a manta é curta. Quando se procura aconchegar os ombros e protegê-los do frio, muitas vezes ficam os pés de fora. E é deste fato, desta vulnerabilidade, que advém do fato da Rússia ser um país imenso em termos de extensão geográfica, que a Ucrânia tira partido, como nós sabemos. É o maior país do mundo, uma extensão enorme e uma população exígua pra tanto território. Estamos a falar de 140 milhões de russos. E é isso que a Ucrânia vem tirando partido. Quer dizer, a Rússia não tem capacidade com o seu equipamento militar para proteger, ao mesmo tempo, todas as suas bases aéreas, todas as suas unidades militares, todas as suas refinarias, todas as suas centrais termelétricas, todas as suas centrais hidrelétricas.
Mas nós nunca tínhamos visto ataques desta dimensão ao longo destes três anos. Agora estão a intensificar. O que acontece aqui? É a Ucrânia que melhorou esta parte também dos ataques com drones?
A Ucrânia melhorou imenso. Nós se olharmos pra aquilo que a Ucrânia era capaz, em termos de atingir a profundidade do dispositivo da Rússia, no início era praticamente inexistente. Baseava-se fundamentalmente naquilo que o Ocidente lhe poderia eventualmente fornecer. E nós assistimos, durante muito tempo, durante vários até anos, ao fornecimento de mísseis de cruzeiro e outro tipo de material militar, como por exemplo, os mísseis ATACMS, mas assistimos sempre, ao mesmo tempo que esses mísseis eram fornecidos, em determinadas quantidades, vinham acompanhados de caveates, daquilo que em português, traduzindo esta palavra do inglês, se chamam restrições de emprego. Portanto, eram mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos fornecidos, quer pelos Estados Unidos, quer por algumas potências europeias, mas com restrições de emprego. Dizem: "Nós estamos a fornecer este armamento, mas este armamento não pode ser utilizado na profundidade do dispositivo russo". Em boa verdade, este tipo de restrições nunca fizeram grande sentido, até porque estas armas que foram fornecidas tinham um alcance relativamente reduzido. Os mísseis ATACMS norte-americanos, os mísseis táticos do exército, como nós sabemos, têm um alcance limitado a 300 km, pelo menos estes que têm sido fornecidos pelos Estados Unidos à Ucrânia, e os mísseis Storm Shadow e SCALP-EG, fornecidos, respectivamente, pelo Reino Unido e pela França, mísseis de cruzeiro lançados de plataformas aéreas, como o Sukhoi Su-24, agora os Mirage 5000F. Esse material nunca teve um alcance por aí além. A Ucrânia, nesta contingência, viu-se obrigada a desenvolver vetores Com mais alcance. E lançou-se no desenvolvimento, digamos, em acelerado ou eu até diria exponencial, e tem tido um sucesso tremendo, no desenvolvimento de drones e drones mísseis com alcances que chegam aos 2500 km. E é tirando partido desse tipo de vetores que a Ucrânia tem posto em marcha ataques como aquele que assistimos esta noite. Vamos lá ver, a Ucrânia ontem, já numa atitude preventiva, declarou, até para que o Kremlin ouvisse, que uma vez que o Kremlin estava a preparar uma resposta aos ataques levados a cabo por forças de operações especiais, que nós sabemos, destruindo os vetores estratégicos em lugares longínquos como Belaya, a 4500 km na Rússia siberiana, e Putin prometeu retaliar, prometeu vingança. Ontem o executivo ucraniano avisou que durante algumas semanas deixou de atacar as refinarias e os centros de produção de energia da Rússia, mas que voltaria a fazê-lo. E voltaria a fazê-lo porque já o fez. Portanto, aquilo que estamos a assistir é novamente a uma escalada.
E provavelmente vamos ter mais retaliação russa também depois destes ataques ucranianos nas últimas horas.
Provavelmente.
Falar aqui muito rapidamente, ainda temos cerca de dois minutos, sobre a situação no Médio Oriente, Gaza concretamente. O Hamas diz que está pronto para entregar Gaza se a guerra acabar. Deixou esta informação a Israel. Diz que Gaza tem que ficar entregue a um ator palestiniano consensual e Israel tem que pôr fim à ofensiva. São aqui as condições.
O que estamos a assistir é facto. Vamos lá ver, o Hamas está a ficar praticamente encurralado. E não era de admirar que à medida que vai sendo cada vez mais encurralado, e até porque surgiram dentro da própria população de Gaza grupos que se opõem, apoiados pela autoridade palestiniana e armados e equipados por Israel, que se opõem ao Hamas. Portanto, a determinado tipo de atividades que o Hamas tem levado a cabo e que tem usado, por exemplo, a ajuda humanitária para ter a população na mão. O Hamas tem-se apossado consecutivamente da ajuda humanitária e depois distribui-a a seu bel-prazer pela população. Essa oposição interna está a aparecer. Por outro lado, Israel, nesta segunda ofensiva sobre a Faixa de Gaza, está a limpar de forma mais eficaz o território e o Hamas está a ficar encurralado. Por isso é que estas notícias de que o Hamas poderá estar disposto a negociar o fim completo das hostilidades e entregar todos os corpos dos reféns e aqueles que ainda estão vivos, em troca da entrega do futuro político da Faixa de Gaza a uma entidade que seja julgada como idônea para poder cuidar daquilo que é o futuro dos habitantes da Faixa de Gaza. Portanto, não me admiro que esta própria proposta venha agora e só deriva de um facto: a razão é que o Hamas está a ficar completamente destruído e encurralado. Agora, vamos ver em que moldes, ainda não sabemos. Eu acho que temos que esperar mais algum tempo, porque o Hamas até à data, a sua posição tem sido irredutível e tem dito sempre: "Sim, senhor, estamos dispostos a entregar os reféns, mas a cessação completa das hostilidades por parte de Israel, a retirada incondicional das forças israelitas de Gaza", e o Hamas, até à data, sempre pretendeu perpetuar-se como autoridade política sobre Gaza.
Sim, aqui parece ser essa a diferença.
Parece, exceto isso, faz toda a diferença.
Major-General-
Parece ser a luz ao fundo do túnel que falta.
Major-General Isidor Moraes Pereira, muito obrigado por ter estado conosco no "Ponto de Guerra".
Nada, é um gosto.