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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Fazemos o ponto de situação nos principais conflitos que marcam a atualidade. Hoje temos conosco Carlos Gaspar, professor e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Carlos Gaspar, muito boa tarde.

Boa tarde.

Temos de olhar para o conflito entre Israel e Irão que vai marcando a atualidade.

Ou a guerra.

A guerra, claro. A rádio oficial do exército israelita avança hoje que subiu para oito o número de mortos do ataque iraniano em Israel, sendo que desde o início do conflito morreram 21 pessoas no território israelita. O Irão relata até agora cerca de 220 vítimas mortais. Ora, Carlos Gaspar, Netanyahu garante que Israel está no caminho para a vitória. O primeiro-ministro israelita sublinha que quer alcançar dois grandes objetivos nesta guerra: eliminar a ameaça nuclear e eliminar a ameaça com mísseis. Até onde é que isto vai parar?

Supõe-se que o primeiro objetivo do primeiro-ministro israelita é o próprio regime teocrático. Portanto, em primeiro lugar, trata-se de fazer cair o regime iraniano e só em segundo lugar degradar as capacidades militares iranianas e atacar as instalações nucleares. Em relação à degradação das capacidades militares iranianas, Israel está a conseguir uma parte importante dos seus objetivos: a decapitação dos comandos militares, os bombardeamentos das antiaéreas, a destruição de sítios de lançamentos de mísseis. Tudo isso está a avançar, provavelmente de acordo com o programa militar desta operação. Mas o essencial desta operação, aliás, como está implícito no seu nome, é provocar a queda do regime. A operação israelita chama-se Rising Lion. A ascendência do leão, e o leão é o símbolo da bandeira persa, é o leão persa. Não é um leão israelita, é o leão persa que estava na bandeira do Xá antes da revolução islâmica. Em relação ao terceiro objetivo, as instalações militares, as indicações que existem até este momento são que Israel bombardeou Natanz, a principal instalação nuclear, mas à superfície, e o essencial das centrifugadoras e das reservas de urânio enriquecido estão em subterrâneos, que ainda não atacou a outra grande instalação militar em Fordow, que está dentro de uma montanha e é extremamente difícil de atacar sem as bombas de penetração norte-americanas. Aparentemente, houve uma fábrica de montagem de armas nucleares que foi destruída, pelo menos as instalações à superfície.

Entretanto, como já ouvimos aqui há pouco, Israel começou a emitir avisos de evacuação de bairros em Teerão. É uma estratégia que já era usada na Faixa de Gaza e em vários outros territórios, mas nunca no Irão. Isto é um sinal de que o conflito ainda se vai manter, porque Israel já faz isto há muito tempo na Faixa de Gaza, fez, como dizia, em Beirute. Isto é sinal de que se vai alargar também ao Irão por um tempo indeterminado?

Em primeiro lugar, trata-se de antecipar o bombardeamento da rádio e da televisão iranianas. E as forças israelitas estão a pedir à população que evacue o bairro onde está a televisão iraniana. Isso significa que Israel não quer apenas degradar as Forças Armadas e as instalações nucleares, quer degradar os instrumentos, as instituições de controle do regime. No mesmo sentido, atacar o quartel-general da Força Qods, que é a força de repressão, uma espécie de guarda pretoriana do regime. Portanto, quer desmantelar as instituições revolucionárias iranianas dentro da sua estratégia de fazer cair o regime rapidamente. O que é importante para Israel e que é a condição essencial da sua vitória é que o regime possa colapsar a partir de dentro, a partir de uma revolta iraniana, e para isso é preciso infligir ao Irão uma derrota sem apelo nem agravo. O Irão já foi derrotado em Gaza com a Hamas, já foi derrotado no Líbano com a neutralização do Hizbulá, já foi derrotado na Síria com a queda do regime Hafez al-Assad e agora trata-se de fazer cair o regime em Teerão, infligindo mais uma derrota com esta campanha de bombardamentos. Se o regime não cair, o Irão torna-se um adversário mais perigoso para Israel e para a região.

Face a essas derrotas que referia aqui, Carlos Gaspar, pergunto-lhe se considera que o Irão está numa posição cada vez mais enfraquecida ou até na mais enfraquecida dos últimos tempos e também daí este ataque?

Certamente. Aliás, era impossível para Israel atacar o Irão como está a fazer, tendo na sua retaguarda próxima o Hamas, o Hezbollah ou as forças que estão no Iraque e na Síria, que ameaçariam imediatamente intervir, designadamente com salvas de mísseis contra Israel. Todos esses passos são passos prévios, são condições prévias desta operação, mas são também outras tantas derrotas do Irão na medida em que destroem uma componente, um eixo essencial da sua política externa e da sua guerra contra Israel.

Entretanto, ouvimos hoje o Irão pedir aos países europeus para que pressionem Israel a cessar estes ataques. Podemos ver algum país europeu a alinhar com este discurso ou a eventual queda do regime dos Aiatolás é também do interesse do Ocidente?

É improvável que exista algum Estado europeu que queira alinhar com essa proposta iraniana. A proposta iraniana de um cessar-fogo imediato foi feita por intermédio da Arábia Saudita e do Qatar, neste momento. É a informação que existe. Nesse caso, não é impossível que alguns países do Golfo estejam disponíveis para fazer a intermediação com Washington para que a administração norte-americana defenda junto do governo israelita a cessação das hostilidades.

Mas então qual é que deve ser a postura, especialmente dos países europeus? Porque temos visto da União Europeia, especialmente na ofensiva na Faixa de Gaza, pedidos de contenção do exército israelita. Não é a mesma coisa no Irão. Por isso, em que pé é que fica a Europa no meio deste conflito?

A Europa não é um ator decisivo no Médio Oriente, e mesmo os Estados Unidos estão em retraimento. Este ataque de Israel ao Irão, aliás, de certa maneira demonstra isso mesmo, que o que está em causa é um equilíbrio regional, e esse equilíbrio regional vai ser decidido entre as potências regionais com uma intervenção lateral mínima, em todo o caso secundária, de potências externas, sejam os países europeus, naturalmente, seja a Rússia, ela própria, ou mesmo os Estados Unidos, que aparentemente estavam a tentar chegar a um acordo com o Irão sobre as armas nucleares. Tinham dado 60 dias para o acordo ser terminado, mas ao 61º dia, Israel atacou. Não é evidente que Israel tenha feito esse ataque de acordo com os Estados Unidos.

No acordo, o acordo já existia, foi entretanto rasgado no primeiro mandato de Donald Trump.

Certo.

O único caminho agora é voltar a esse acordo de que Donald Trump quis sair?

O acordo era um acordo particularmente mau, especialmente porque não tratava dos proxies da revolução iraniana, do Hamas, do Hezbollah, dos Houthis ou dos sírios. Mas entretanto, esse problema ficou resolvido na primeira fase desta guerra entre Israel e o Irão, entre 2023 e a sexta-feira passada. E nesse sentido, regressar a esse acordo de 2015, que o presidente Donald Trump deitou pela janela fora, seria um passo no bom sentido, embora seja necessário robustecer muito significativamente a capacidade de inspeção dos inspetores da Agência Atômica, uma vez que há, aparentemente, um certo número de instalações nucleares às quais eles não têm acesso.

Mas voltar a esse acordo seria visto como um passo atrás? Donald Trump diria sempre que não, mas seria visto como um passo atrás ou, por outro lado, o acordo que seria agora firmado seria sempre diferente do que foi rasgado na altura?

Provavelmente não seria muito diferente. Em qualquer caso, as condições políticas e estratégicas seriam bastante melhores, uma vez que o Hezbollah está neutralizado, o Hamas também, a Síria mudou de regime. Portanto, a pior parte desse acordo para Israel estaria resolvida, mas o objetivo de Israel não é regressar ao acordo, como ficou demonstrado, era justamente impedir que se avançasse para um acordo nos mesmos termos ou em termos semelhantes aos de 2015, e aproveitou esta oportunidade, o 61º dia, para lançar esta ofensiva. Depois desta ofensiva, ou o regime teocrático cai e há uma nova situação, ou não cai e o regime sucessor, o regime que permanece no poder, o regime teocrático, vai certamente avançar e acelerar o programa nuclear militar.

Aproveito ainda para lhe perguntar, Carlos Gaspar, não temos muito tempo, mas também já agora para olhar para que efeito isto pode ter para a guerra na Ucrânia. Sabemos que hoje temos a Cimeira do G7 no Canadá. Surgiram as notícias que dizem que Zelensky planeia discutir a compra de armas com Donald Trump. O que se passa neste momento no Irão pode prejudicar o apoio à Ucrânia?

Não é isso que prejudica o apoio dos Estados Unidos à Ucrânia. O que prejudica o apoio dos Estados Unidos à Ucrânia é a proximidade entre o presidente Donald Trump e o presidente Vladimir Putin, e aparentemente isso não está em causa. De resto, as duas guerras estão ligadas. O Irão é um aliado da Rússia, uma derrota do Irão é uma derrota da Rússia e é uma vitória da Ucrânia.

O que perguntava, Carlos Gaspar, era se os Estados Unidos, vendo-se obrigados a financiar ainda mais ou suportar ainda mais militarmente Israel, se isso não teria depois consequências para o apoio que chega à Ucrânia.

Eu percebi qual era a pergunta.

Estou lhe a perguntar se-

Eu percebi qual era a pergunta e a resposta é que o nível de apoio dos Estados Unidos à Ucrânia depende da relação entre Trump e Putin. E não dos stocks, nem dos investimentos financeiros, que em ambos os casos são ridículos para o orçamento militar norte-americano.

Fica clara essa ideia. Obrigado, Carlos Gaspar. Fica também por aqui mais um "Gabinete de Guerra". Obrigado, Carlos Gaspar, professor e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. O "Gabinete de Guerra" está de volta amanhã.