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Está aberto o gabinete de guerra na Rádio Observador, quando está a passar uma semana desde o início do conflito no Irão. Foi no sábado da semana passada que todos acordamos com as notícias dos bombardeamentos ao território iraniano, bombardeamentos levados a cabo por Estados Unidos da América e Israel, uma situação que se prolonga e já começa também a ter efeitos na economia mundial. Vamos fazer uma análise das notícias mais recentes deste conflito. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo já está Pedro Ponte de Sousa, é professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense. Muito bom dia, obrigado por estar conosco neste domingo. Uma das notícias que está a marcar esta manhã é a informação de que o Irão já terá escolhido um novo líder, já terá consenso para um novo líder supremo. Para se perceber isto, o líder supremo é escolhido uma assembleia com 88 membros e alguns membros dessa assembleia comunicaram à imprensa estatal iraniana que a escolha está feita, está apenas presa por alguns detalhes processuais que precisam de ser resolvidos. Qual é a importância para o Irão e para aquilo que pode ser a continuação ou não deste conflito, esta escolha iraniana para um novo líder?

Bom dia, Miguel. Bom dia a todos e muito obrigado pelo convite. Naturalmente, falamos do topo da cúpula político-religiosa do Irão e, portanto, naturalmente, esta indicação é de extrema importância, ainda que julgo seja preciso suavizar um pouco as expectativas sobre essa importância. Neste sentido, por um lado, é verdade, hoje há a indicação de que já teremos o nome. Na verdade, o que sabíamos nos últimos dias era justamente isso, era que, em princípio, que eventualmente seria ao longo deste fim de semana que saberíamos ou que seria escolhido, pelo menos, talvez não soubéssemos, mas pelo menos que seria escolhido. E, portanto, estará para breve essa informação, logo veremos. Mas eu julgo que talvez a questão mais importante é a de que se isto significa uma mudança substancial do comportamento do Irão. Ou seja, dependendo de quem seja o escolhido e que haja a eventualidade de significar uma mudança de comportamento muito significativa. E eu confesso que não vejo essa possibilidade como muito plausível. Não me parece muito exequível, nem que o futuro traga uma liderança mais forte, mais militarizada, com uma dimensão mais forte do poder. E assim também não me parece que haja muito espaço para que haja um incentivo especial no sentido da diplomacia e da negociação. Podemos falar de cada uma delas, mas ambas decorrem quer das capacidades que o Irão detém neste momento, e nomeadamente da grande diferença de poder entre o Irão e os dois Estados que o agrediram, os Estados Unidos e Israel, bem como do facto de a diplomacia e negociação parecer que ainda não está no momento certo. Olhamos para o conflito e parece que a realidade bélica vai continuar e não provavelmente a dimensão diplomática ou negocial, que sabemos que está sempre em curso, mas ainda num patamar secundário, mas sobretudo onde também parece difícil que o Irão entenda os seus parceiros de diplomacia como credíveis, uma vez que no último processo negocial sabotaram esse mesmo processo. Como sabemos, a preparação desta agressão não durou um dia, nem uma semana e, portanto, pelo menos durante o último mês das negociações, em que não era apenas o Irão a dizer que as coisas estavam a correr bem, nem os Estados Unidos, eram também aqueles que estavam a facilitar a negociação a outros Estados, diziam que as coisas estavam a correr bem, e na verdade era apenas uma cortina de fumo enquanto Estados Unidos e Israel preparavam a agressão que vinham a competir.

Esta escolha também do próximo líder supremo do Irão acontece enquanto os bombardeamentos também seguem. Nós já vamos falar dos ataques que estão em curso, mas queria abordar aqui um outro aspecto, porque o Irão tem esse líder supremo, mas tem também um presidente, o presidente que ontem falou, Masoud Pezeshkian, falou para pedir desculpa aos países vizinhos que foram bombardeados nos últimos dias, principalmente durante o fim de semana passado, mas também durante o início desta semana, que seria uma resposta aos ataques dos Estados Unidos da América e Israel. Há um pedido de desculpas, diz "são nossos irmãos", pede desculpa por esses ataques de retaliação. O que justifica este pedido de desculpas?

Acho que há duas explicações que na verdade são a mesma. Por um lado, o Irão não tem provavelmente interesse em alienar estes vizinhos. Aliás, se fizermos um retrocesso a estes nove dias, temos a agressão dos Estados Unidos e de Israel, temos a legítima defesa, a retaliação, se quisermos, do Irão contra as bases, as capacidades militares dos Estados Unidos e de Israel na região, muitas delas, a esmagadora maioria delas, naturalmente, nestes Estados vizinhos do Irão, ou seja, quase todos aliados dos Estados Unidos, quase todos com bases militares, com capacidades militares norte-americanas. São esses essencialmente os alvos atingidos, ainda que naturalmente agora precisamos ao longo destas semanas de avaliar se esse direito de legítima defesa foi adequadamente exercido ou não. Essa é uma questão que nos vai ocupar durante semanas, mas ao mesmo tempo, esses Estados vizinhos não retaliaram, ou seja, não perpetuaram uma lógica de escalada, ou porque de fato os alvos foram apenas bases norte-americanas e israelitas, ou porque entenderam que a opção a tomar era a de não escalar. Isso é especialmente difícil em contexto de conflito. É muito difícil, quando estamos num conflito, que uma das partes Consiga quebrar a lógica de escalada, que parece que se alimenta a si própria e dizer: "Não, nós não vamos retaliar. Naturalmente, expressamos a nossa oposição ao ataque que foi feito, mas não retaliamos". E, de alguma forma, estas declarações do presidente do Irão encaixam aqui. O Irão não tem nenhum interesse em alienar estes vizinhos. Ao mesmo tempo, há uma salvaguarda nestas declarações do presidente do Irão, e que é: se os ataques foram conduzidos e continuarem a ser conduzidos de bases de capacidades americanas e israelitas que estejam nestes Estados, naturalmente, esses ataques continuarão, como aliás também têm continuado, nomeadamente sobre o Koweit, sobre os Emirados Árabes Unidos e veremos se sobre outros. Assim como parece corresponder a um sentido de uma certa concentração de forças neste sentido. Há dois grandes riscos para esta guerra: um que é o do aprofundamento do conflito, ou seja, de estarmos perante um conflito cada vez mais violento. Essa é uma grande preocupação. Mas há uma segunda grande preocupação que tem que ver com o alargamento do conflito, o alastramento, se quisermos, ou seja, de outros Estados, de outros atores regionais se envolverem diretamente no conflito. E para já, atendendo à resposta que esses Estados árabes deram de grande contenção e de grande responsabilidade, parece que não estamos perante essa possibilidade. Ou seja, parece que o alargamento não é a possibilidade em cima da mesa, quanto muito poderá haver algum aprofundamento. E por isso mesmo, é tão importante para o Irão concentrar meios e recursos que são escassos, naturalmente, e que não são de uma luta igual, são de uma luta profundamente desigual. O Irão tem capacidades muito diferentes das dos Estados Unidos e de Israel. Recordamos que os Estados Unidos têm 50% da sua força aérea, neste momento, no Médio Oriente. É uma capacidade avassaladora e, portanto, aquilo que o Irão vai ter que fazer ou está a fazer é justamente reconcentrar os seus recursos para atingir os alvos mais prioritários e isso significa Estados Unidos e Israel.

Donald Trump fez também uma espécie de balanço dos últimos dias. Diz que está a ganhar a guerra por larga margem, fala num regime iraniano enfraquecido depois de uma semana de ataques. Falou a bordo do avião presidencial, foi durante a madrugada, e Donald Trump diz que está a destruir todo o arsenal de guerra iraniano. Aviões, drones, diz que destruiu quase toda a marinha iraniana. O que sabemos ao certo sobre isto? O que leva Donald Trump também a dizer isto?

Exatamente. Sabemos muito pouco, até porque em operações militares anteriores, e como sabemos do ano passado, foi-nos prometido que a capacidade do programa nuclear do Irão estava destruída, estava dinamitada para anos, eventualmente para décadas, e ou estava e esta guerra é baseada em pressupostos que não são verdade, o que é bastante plausível, ou então não foi possível atingir de forma substancial esse programa nuclear e daí surgir esta guerra, o que também é bastante plausível. De facto, sabemos ainda pouco sobre os alvos atingidos. Sabemos, sobretudo do ponto de vista da cúpula político-militar, e nesse sentido não é uma boa notícia para o Irão, ou seja, sabemos que o Irão se preparou na designação, na nomeação de eventuais sucessores, mas apesar de tudo, um número tão grande, tão vasto de elementos da cúpula político-militar eliminados não deixa de ser muito significativo e apontar para algumas dificuldades, quer do ponto de vista da segurança em sentido amplo, quer do ponto de vista da intelligence, dos serviços secretos, enfim, são elementos muito relevantes. Do ponto de vista estritamente militar, nós temos uma característica que já nos vem acompanhando nas guerras que foram conduzidas ao longo das últimas duas décadas, e que é uma superioridade militar quase avassaladora da parte dos Estados Unidos e de Israel, mas que apesar de tudo, parece não estar a produzir os efeitos políticos esperados. Donald Trump dizer que está a ganhar 5 x 0 ao intervalo, não significa de grande coisa se chegar ao final do jogo e empatar ou perder por 6 x 5. Ou seja, não é especialmente útil e para, aliás, como o Miguel dizia muito bem, nós não temos, de facto, grande evidência. Sabemos que foram atingidos uma série de alvos militares. Também sabemos que há muitos alvos não militares atingidos. O caso mais notável é o da escola de Minab, que a 28 de fevereiro foi um dos primeiros alvos atingidos, ao que sabemos, matando quase 200 crianças. E também ao que sabemos, é o New York Times que o relata numa análise muito detalhada, que ela se encontra numa proximidade de uma base naval iraniana e, portanto, que tudo aponta para que tenha sido um alvo da operação militar dos Estados Unidos, ou seja, que o massacre daquelas crianças tenha sido conduzido pelos Estados Unidos. Tudo isto corresponde a um conjunto de circunstâncias muito complexo. Portanto, por um lado, grande capacidade militar, grande superioridade militar, tecnológica, etc, mas que não está a traduzir-se numa transformação significativa do sistema político-militar iraniano e, por outro lado, o Irão, que não tendo grande capacidade de defesa, como estamos a perceber, vai conseguindo algum tipo de retaliação, quer por mísseis, quer por drones, que vai permitindo conduzir de alguma forma uma guerra profundamente desigual, mas que permite pelo menos arrastar o conflito e causar dano sobre os adversários, quer os Estados Unidos, quer Israel.

Conflito que começou no sábado passado e que perdura. Não sabemos ao certo quanto tempo vai durar. O próprio Donald Trump também já apresentou períodos diferentes para a duração deste conflito. O Irão continua a dizer que não vai baixar as armas e recusa essa rendição, como foi pedida por Donald Trump. Pedro Pont de Souza, muito obrigado por ter estado connosco esta manhã de domingo. Um resto de bom fim de semana.

Muito obrigado, foi um prazer. Obrigado.