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Abrimos aqui a porta do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o último desta quinta-feira. Vamos analisar alguns dos principais conflitos que marcam a atualidade. Hoje com Rui Vilar, especialista em defesa nacional. Muito boa noite, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar pela tensão entre Irão e Estados Unidos. A Casa Branca não afasta um ataque militar, todas as opções estão em cima da mesa, assegura que a presidência norte-americana está a monitorizar a situação no Irão. Há informações, nos últimos minutos, de que há porta-aviões norte-americanos a caminho do Médio Oriente. Rui Vilar, qual é que pode ser o gatilho final para que os Estados Unidos lancem esse ataque em larga escala?
Olá, boa noite e boa noite também a todos os ouvintes que nos ouvem na Rádio Observador. Eu acho que usou mesmo a expressão correta: qual o gatilho que falta? Uma vez que estamos a assistir a um escalar de tensão. Trump já vem avisando há vários dias, com várias declarações, que pode fazer uma intervenção naquele país. Inclusive, deu força aos manifestantes para continuarem a lutar e a conquistar pela liberdade e que os Estados Unidos estariam prontos para ajudar. Essas movimentações têm acontecido. Já assistimos à retirada de funcionários de bases militares americanas na região. O próprio Reino Unido também já deu ordem aos funcionários da sua embaixada para serem retirados. Os cidadãos americanos também já foram alertados para saírem do Irão. Portanto, podemos estar aqui a falar de assistir a um ataque que pode acontecer iminentemente, inclusive esta noite.
Não há volta atrás, na sua opinião?
É assim, com Donald Trump pode haver volta atrás e não só com Donald Trump, mas nestas questões estratégicas mundiais, muitas vezes há ameaças não credíveis e há ameaças credíveis. No caso de Donald Trump, as ameaças normalmente são bastante credíveis. E reforço que as agências internacionais classificam o ataque como mais provável do que improvável. E estando o Irão fragilizado como tem estado nos últimos tempos, nomeadamente com o crescendo de apoio americano na região e com a demonstração de pouca força após o ataque israelita do último verão, podemos estar a assistir a uma intervenção dos Estados Unidos, que é sintomático dos tempos onde vivemos, onde hoje em dia acordamos com notícias de possíveis ataques ao México. Já houve intervenção na Venezuela, os Estados Unidos também falam na questão da Groenlândia, também estão activos no conflito que envolve a Ucrânia e a Rússia.
Não é bluff.
Nesta questão do Irão, os americanos de facto estão a ter um comportamento bastante atuante no panorama mundial. Portanto, eu acho que podemos estar à espera de um ataque, até porque o que Donald Trump tem dito é que se essa repressão violenta continuar, que os Estados Unidos vão ter que intervir. Agora, há aqui um dado curioso para analisarmos, ou seja, para pensarmos que o ataque poderá não acontecer. Isto porque nos últimos dias também Donald Trump fez algumas exigências, nomeadamente sobre aquele cidadão de 26 anos que foi condenado a ser enforcado e o regime iraniano adiou esse enforcamento. Ou seja, há aqui alguns sinais de que o regime iraniano também percebe que pode ter que começar a fazer algumas cedências. Agora vamos ver se essas cedências continuarem, Donald Trump pode adiar, pelo menos, a intervenção.
Aliás, do Teerão chegam notícias que falam de uma normalização do quotidiano das pessoas, reabriu inclusivamente o espaço aéreo. Os Estados Unidos podem, de alguma maneira, ter de arranjar aqui outro motivo se quiserem, de facto, atacar o país.
É assim, é muito pouco claro o que se está a passar no Irão, até porque o corte de comunicações também não tem ajudado. Aliás, mesmo o número de mortos, há quem fale em mais de 2000 mortos, há quem fale em 116, há quem fale em 45. Nós ainda não sabemos bem, mas o que já percebemos é que a resposta tem sido muito dura por parte do regime, que por um lado legitima, e fê-lo logo no início das manifestações, legitimou as manifestações, mas por outro, reprime violentamente as manifestações, portanto, diz uma coisa e faz outra. E hoje tivemos também na Assembleia Nacional do Irão, uma declaração de guerra aos Estados Unidos a dizerem que responderiam a um eventual ataque e com os habituais gritos de "Morte à América", e assistimos a isso hoje no Irão. Portanto, está aqui um panorama que pode dar para ambas as coisas, mas parece-me, neste momento, que um ataque americano está iminente.
Entretanto, a Suíça ofereceu-se para mediar as conversas entre os dois países, Estados Unidos e Irão. Parece-lhe que é o mediador mais indicado? Tem poder suficiente para se colocar entre estes dois grandes?
Sim, historicamente, pelas posições do país, parece-me um país interessante para mediar esse conflito. Até porque a União Europeia hoje já libertou a informação de que vão ser aplicadas mais sanções ao Irão. E eu recordo que foram essas sanções, quer da União Europeia, quer dos Estados Unidos, que levaram à crise económica no país, que estão na gênese destes conflitos. E aliás, o próprio regime russo hoje também falou de forma oficial pela primeira vez sobre este conflito e atribuiu precisamente esse fator para a existência das manifestações Agora vamos esperar para ver nos próximos dias, mas sim, toda e qualquer iniciativa que leve ao estabelecer da paz e da serenidade é sempre de salutar.
Falemos agora na guerra na Ucrânia. Hoje Donald Trump diz que é Volodymyr Zelensky que está a bloquear o processo de paz. Como é que avalia esta despreocupação do presidente norte-americano com as próprias contradições em que acaba por entrar, é que numa semana afirma que é Vladimir Putin quem está a causar constrangimentos, outras vezes diz que é Zelensky. E já agora pergunto-lhe também se este alegado apoio da Rússia na invasão norte-americana à Gronelândia pode de alguma maneira favorecer a posição de Vladimir Putin nas negociações com a Ucrânia.
Enfim, eu confesso que sobre aquilo que me perguntou, há duas coisas que tenho que ressalvar. A primeira é que não é surpresa, quase desde o início da presidência de Donald Trump, quando percebemos que ele não define Zelensky como um aliado para chegar a um acordo. Já se percebeu que Trump está a tentar diminuir Zelensky, está a tentar que existam as eleições na Ucrânia, está a tentar que a figura que lidera a Ucrânia seja outra, porque parece-me que ele acha que com Zelensky vai ser muito difícil haver um acordo. E depois há, claramente, na medição de forças, Trump olha para o mundo e olha para as coisas de outra forma, nesse estilo mais de homem de negócios, onde diz hoje uma coisa e amanhã outra, sempre com o objetivo de negociação, mas claramente olhando para Putin como um aliado forte e o aliado que ele acha que é mais importante chegar a um acordo. Portanto, mais uma vez vimos Donald Trump a fragilizar Zelensky, vimos a sintonia da Rússia, onde o Kremlin, através do seu porta-voz, concordou logo de seguida com as declarações de Donald Trump. Portanto, parece-me um pouco evidente que Trump conta resolver o conflito, mas sem Zelensky.
Putin falou hoje também neste conflito e diz que está pronto para voltar a ter uma amizade com os países europeus, invoca as relações históricas entre as duas regiões. Acredita, Rui Vilar, que é possível que a Rússia volte a ter uma relação positiva a nível comercial, a nível diplomático com a Europa, mesmo depois de um cessar-fogo? Ou vai demorar várias décadas para que isso aconteça?
Acho que vai demorar muitas décadas. Eu acho que hoje Putin teve uma declaração muito interessante do ponto de vista de estratégia, e nós temos também que estar atentos a isso. Eu acho que ele hoje falou claramente para a Europa, no tal encontro com os embaixadores. Ele diz, inclusivamente, que tem apresentado iniciativas para construir uma nova arquitetura confiável e equitativa para a segurança europeia e global. Ou seja, conhecendo aquele regime, conhecendo aquele ator político, o que Putin me parece que está a querer dizer é sossegar a Europa e dizer que fica contente em obter o controle da Ucrânia e no fundo também mandar uma mensagem aos países vizinhos da Rússia para não fazerem aquilo que ele entende como provocações. E acho que é isso que ele quer dizer. E é curioso que ele quando falou nessas raízes históricas, que claro que foram quase que cortadas pela raiz no século XX, com o regime da União Soviética, mas são raízes que de fato existem entre a Rússia e a Europa, sendo que a Rússia está presente em dois continentes, mas é claramente um país mais europeu. Aliás, as relações com Portugal, que ele hoje referiu, curiosamente, referiu Portugal nesses países que têm raízes históricas com a Rússia. E Portugal é um desses países desde, imediatamente, o século XVIII. E depois, quando olhamos para a literatura, quando olhamos para a dança, para o ballet, o próprio cristianismo, olhamos para aquilo e achamos que aquilo é a Europa, porque de fato há uma grande ligação entre a Rússia e a Europa. E eu acho muito interessante que a relação seja restabelecida e que haja um entendimento entre os países europeus e a Rússia. Agora, Putin tem que mudar alguns comportamentos que tem, porque o regime que ele tem implementado nos últimos tempos é um regime semelhante àquele que cortou relações com a Europa no século XX, que é um regime semelhante ao soviético. Portanto, eu entendo esta mensagem dele quase como uma mensagem para a Europa, a dizer para nós não termos receio de que ele não vai fazer aquilo que alguns países europeus têm receio, que é ir além da Ucrânia. Eu acho que ele claramente disse mesmo que quanto antes acabasse aquela guerra, melhor. No fundo, passou a mensagem à Europa de que vai ficar por ali e vai querer dominar algumas regiões da Ucrânia. Isso parece-me mais do que evidente. Portanto, resta perceber como é que Zelensky, é difícil que ele agora ceda naquilo que nunca cedeu. Portanto, parece-me que para o conflito terminar, poderá ter que haver ali algumas mudanças no regime ucraniano. Pelo menos é isso que me parece, é uma análise factual da minha parte, não é uma intenção, mas parece-me claramente que é essa a opção tomada quer por Putin, quer por Donald Trump.
Putin aqui a tentar sossegar, digamos assim, a Europa aqui na análise de Rui Vilar, especialista em assuntos internacionais. Muito obrigada por ter estado conosco aqui na Rádio Observador, por ter aceitado o nosso convite. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.