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Abrimos a porta ao "Gabinete de Guerra", o programa da Rádio Observador em que damos destaque às principais questões geopolíticas que marcam a atualidade. Hoje conto com a análise do coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, Jorge Rodrigues. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. O dia de hoje é marcado pelos encontros de Donald Trump com Volodymyr Zelensky e também com Benjamin Netanyahu. Ainda não há grandes informações que tenham saído desses encontros, contudo, que leitura é que podemos fazer, Jorge Rodrigues, destes esforços diplomáticos reforçados por parte do presidente dos Estados Unidos da América?

Boa tarde, Rafael. São duas coisas distintas numa situação e outra. Isto obviamente que, em teoria, representam as visitas para homenagear Lindsey Graham, que de alguma forma foi um suporte para os dois países, Israel e Ucrânia, mas na verdade tem muito mais do que isso. Enquanto que num caso, Netanyahu vem, apesar de ser a oitava vez que se reúne com Donald Trump, o estado das relações é fraco. A última reunião foi em fevereiro, antes do conflito do Irão, e Israel fez um grande esforço pra conseguir esta reunião agora. Vários temas estão em desacordo, como provam os telefonemas, que atingiram níveis de alguma agressividade, diria mesmo. Mas apesar dos arrufos conjunturais, eu relembro que estamos a falar de aliados estratégicos, e portanto, em última análise, Netanyahu já levou ao desespero várias administrações, portanto é mais uma situação, mas ambos precisam, e até agora reforçada pela não resolução satisfatória da questão no Irão. Mas ambos precisam por motivos diferentes. Os objetivos maiores, e eu julgo que agora é necessário concentrarmo-nos também um pouco do ponto de vista de quem visita, o Israel está numa fase complexa, tem eleições a curto prazo, Netanyahu precisa mostrar que Trump o apoia, portanto há aqui uma dimensão política bastante grande. Vai tentar de alguma forma assegurar uma continuidade do esforço no Irão, vai influenciar Trump discretamente, enfatizando o desenvolvimento das capacidades nucleares e de mísseis balísticos, que continua a ser procurado por parte do Irão. Tem uns pontos em desacordo, seja a questão da Turquia e dos F-35, seja mesmo a questão nuclear do enriquecimento de urânio para a Arábia Saudita, mas também eu julgo que esses pontos serão os que poderá influenciar mais a questão do Líbano e da Síria, a não retirada, porque isso coloca em causa, de facto, a segurança de Israel. E há aqui um último ponto em que haverá um desacordo, mas que Netanyahu já procurou de alguma forma um equilíbrio: a questão de Gaza e o conflito com o Board of Peace, e nomeadamente a entrada na segunda fase do processo de paz, bem entendido. Isso poderá acalmar um pouco Trump, que neste momento está a colocar aqui obviamente uma posição de força, mas que na prática acaba por ser sempre influenciado por Israel. Zelensky está numa posição muito diferente, está num momento muito positivo, apesar de enfraquecido no plano interno, muito ligado à questão de demissão de Fedorov, que nem a demissão de Syrskyi ou a nomeação de Kamara acabou por acalmar, mas está reforçado pelo sucesso parcial na condução da guerra e pelo apoio internacional, nomeadamente este recente de ontem, mais exatamente, com o apoio do Reino Unido continuado com Burton, seja na defesa aérea, na segurança marítima, na produção combinada de armamento, e eu aqui ressalvo inclusivamente o equipamento anti-jamming que traz algum sucesso, o Stoneclock, que vai ser produzido na Ucrânia, e portanto acaba por levar Zelensky a ter objetivos mais concretos, mais direcionados para o que Trump procura, que é um caminho para o processo de paz, aproximar o acordo de segurança da sua concretização e ganhar aqui a licença de produção dos Patriot PAC 3, que foi prometido por Trump, mas nós nunca sabemos se isso se concretiza. Portanto, tanto um como o outro eram importantes neste momento, mas naturalmente a posição de Zelensky é mais favorável, apesar de Netanyahu ter sempre mais capacidade de influenciar por vários motivos, e naturalmente que a questão do Irão é determinante neste ponto.

Vamos avançar, falar ainda de uma ameaça de Donald Trump, que admite atacar a Pickaxe Mountain e as infraestruturas civis se não houver um acordo com o Irão. Que fortaleza é esta?

Bem, esta montanha da picareta, mal traduzida, é uma instalação nuclear subterrânea, é altamente blindada, altamente protegida e é ultrassecreta, sabemos pouco, sabemos que fica junto ao complexo Natanz. Está numa profundidade de 80 a 100 metros, complexo de túneis em rocha sólida, granítica, o que acaba por a transformar resistente às armas mais capazes antibunker dos Estados Unidos, como a GBU-57. Portanto, o máximo que se pode conseguir, o que de certo modo já foi o que se conseguiu noutros complexos, é de alguma forma selar temporariamente as suas entradas. Este complexo tem ainda a particularidade de nunca ter sido visitado pela Agência Internacional de Energia Atómica, o que leva a que haja um certo mistério sobre o que existe. E sabemos que foi para lá que, de alguma forma, foram transferidos seja centrifugadores, seja estoque de urânio enriquecido, para salvar o programa nuclear iraniano. Portanto, acaba por ser importante não só pelo que representa, mas também porque houve vestígios de muita atividade que pressupõe o reforço de capacidades nesta região.

Jorge Rodrigues, temos ainda dois minutos para abordar um tema que envolve Teerão. A guerra com os Estados Unidos e com Israel está a reduzir drasticamente a capacidade de produção de gás do Irão. Isto é sinal de que o regime vai ter de procurar a paz sob o risco de enfrentar um colapso?

Não necessariamente. O Irão está a adotar uma postura de resistência. O Irão, como os Estados Unidos também, percebeu que a paz é melhor que a guerra. É uma evidência para a situação em que está. Uma crise energética no Irão gera prejuízo econômico-financeiro, dificuldades energéticas com apagões, há elevada pressão social, é tudo verdade, mas está perante uma ameaça existencial ao regime. E o regime já decidiu há muito tempo que vai resistir a todo custo. E o controle do Estreito de Ormuz é sua arma nuclear, para todos os efeitos, a arma que pode usar e que realmente tem impacto, seja regional, seja global. Acresce a isto o impacto gerado pelas ações de retaliação e a influência dos proxies, como nomeadamente a grande ameaça Houthi em Bab el-Mandeb, mas também sobre os países do Golfo. E vai dando sinais contraditórios. Por um lado, a pausa de hostilidades, aceita negociar, mas depois mantém uma retórica de confronto, prossegue com os projetos nucleares e balísticos, incentiva as ações dos proxies, vai desenvolvendo algumas ações que criam instabilidade. Tem como objetivos maiores, e eu julgo que este ponto é determinante, o controle do Estreito. Manter o controle do Estreito como end state e uma posição favorável na reconfiguração do Médio Oriente. E, obviamente, vai através desse controle do Estreito exacerbar a sua posição, tirar a vontade dos Estados Unidos de combater e tentar desmembrar a coligação e o apoio dos países do Golfo. E, portanto, será através dessa ação que o Irão irá continuar a desenvolver a sua procura do sucesso final.

Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado, Jorge Rodrigues, é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. O Gabinete de Guerra fica por aqui e está, como sempre, disponível em podcast.