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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, edição de sexta-feira à noite. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo já está Bernardo Valente, especialista em relações internacionais. Vai nos ajudar a analisar o que está a acontecer em diferentes conflitos pelo globo, mas com destaque para o Médio Oriente, que vai marcando a atualidade por estes dias. Bernardo, muito boa noite. Vamos começar com Marco Rubio. Aliás, vai ser o grande protagonista deste episódio, desta edição do Gabinete de Guerra, mas vamos começar por declarações sobre o conflito no Médio Oriente, no Irão, mais concretamente. Marco Rubio diz que os Estados Unidos da América esperam terminar esta guerra no Irão dentro de semanas e não dentro de meses, portanto, aponta para uma solução para breve.

Sim, olá, boa noite e mais uma vez agradecer o convite também e dizer que esta questão do Marco Rubio agora afirmar que o conflito está por semanas, é também, de alguma forma, o perpetuar daquele discurso de Donald Trump, que seria muito rápida esta intervenção no Irão e que seria também de acordo com aquilo que eram os interesses dos Estados Unidos e não de Israel. No entanto, se fizermos uma retrospectiva desta situação, temos que perceber o quê? Que primeiro, aqueles que eram os objetivos iniciais ou aquilo que era o legitimar da intervenção dos Estados Unidos no Irão, neste momento não é mais do que, se calhar, um pano de fundo que ninguém fala, porque um dos objetivos era obliterar o programa de mísseis balísticos e obliterar o programa nuclear iraniano. Pelo fato de o Irão, há pouquíssimo tempo, ter atacado as bases britânicas cedidas aos norte-americanos em Diego Garcia, portanto, com mísseis balísticos de médio e longo alcance, percebemos que esse programa de mísseis balísticos está longe de ser obliterado. Por outro lado, outro dos objetivos era uma sucessão do regime, uma transição pacífica ou desejavelmente pacífica, do regime teocrático, do regime dos aiatolás, para um regime que se pudesse aproximar de um sistema democrático. Este é talvez o que está mais longe de ser alcançado. Por quê? Porque se formos olhar para aquilo que têm sido as últimas semanas, já nem sequer se fala de uma possível sucessão do regime. Já não se fala do filho do antigo xá, já não se fala sequer dos curdos, que Donald Trump chegou a falar num determinado momento, que seriam os curdos a assumir a liderança ou poderiam ser eles a assumir a liderança com as táticas de guerrilha contra o poder da Guarda Revolucionária. E agora temos esta sequência de declarações de Marco Rubio hoje e todas elas bastante fortes e interessantes para aquilo que será o desenrolar do conflito, mas percebemos também que o objetivo, neste momento, da administração norte-americana, e que é um objetivo que acho que quase todo mundo acaba por segui-los nisso e por ter essa vontade, que é abrir o Estreito de Ormuz. Portanto, o objetivo hoje é um objetivo que não existia quando a intervenção dos Estados Unidos começou. E o Irão percebeu que através do Estreito de Ormuz e da disrupção que causa no mercado internacional, através do bloqueio do Estreito de Ormuz, tem os Estados Unidos na mão e tem também a duração do conflito na mão. Portanto, quando Marco Rubio vem dizer que o conflito irá durar semanas, é difícil perceber como é que o conflito irá durar semanas, se por um lado não vamos ter tropas no terreno e tendo em conta aqui que querem também tomar a ilha de Kharg, e portanto a ilha de Kharg implicará sempre ter tropas no terreno. Claro que não é no terreno do Irão continental, é no Irão insular, mas mesmo assim expõe muito aquilo que são as fragilidades do exército norte-americano caso tenham que tomar conta da ilha de Kharg, porque são um alvo fácil num estreito de terreno muito limitado. Portanto, temos todas estas dimensões. Temos Marco Rubio a tentar também acalmar os mercados, tal e qual como Donald Trump tentou acalmar os mercados no início da semana, ao dizer que afinal agora íamos ter cinco dias para conversações, conversações essas que o Irão desmente. Portanto, temos uma guerra de narrativas em que os Estados Unidos diz que sim, que o processo de paz pode estar para breve e o Irão que diz que não vai ceder em nada naquilo que são as suas exigências, exigências essas que diminuem também aquilo que é o poder e a hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional, porque vem falar, por exemplo, do pagamento de reparações de guerra. Portanto, eram os Estados Unidos a assumirem que isto tinha sido uma guerra não só assimétrica, mas uma guerra injusta e que as vítimas tinham sido, neste caso, o Estado iraniano e o regime dos Aiatolás, se quisermos. Portanto, temos todas estas variáveis e um fim para o conflito. Aqui diria que não estou de acordo com Marco Rubio, porque me parece bastante difícil a partir do momento que o Irão continua a criar disrupção no Estreito de Ormuz. E quando falamos do Estreito de Ormuz e das águas internacionais do Estreito de Ormuz, é importante dizermos que estamos a falar de 3 km para uma via, 3 km para a via no sentido contrário, portanto, 6 km no total. O Irão, devido à sua orografia, à sua geografia Facilmente consegue, através de uma base montada nas montanhas, criar a disrupção no Estreito de Ormuz através de Shaheds, de instrumentos arcaicos, de drones do mais rudimentar possível. E isto é o suficiente, este lançamento de material militar de vez em quando. Não precisa ser uma coisa continuada, mesmo que seja assim só de forma paulatina e descontínua ou pouco frequente, a verdade é que é o suficiente para criar o medo nas empresas que garantem esta logística, que garantem o normal funcionamento das cadeias de produção. E portanto, o conflito, infelizmente, parece-me que está para durar, a não ser que Donald Trump, Marco Rubio, a administração norte-americana, perceba que está a ser demasiado prejudicial, mesmo para o eleitorado interno norte-americano e para a própria administração norte-americana, continuar este conflito, e então por uma espécie de pressão interna dos próprios republicanos, não quer dizer que seja do movimento MAGA, mas dos próprios republicanos, que decidam sair, uma espécie de uma tentativa de uma saída limpa, sabendo que deixam sempre numa posição frágil, tanto Israel, seu aliado histórico, como as monarquias do Golfo, seu aliado mais recente, mas um aliado econômico importante.

Vamos continuar a falar de Marco Rubio. Já referi que vai ser o protagonista deste episódio, mas ele diz que é possível os Estados Unidos da América alcançarem objetivos sem tropas no terreno. Nós, de facto, estamos aqui a falar sobre esta questão de durar semanas ou durar meses, se vai ser breve ou se vai ser mais longo este período de negociações, mas esta questão de tropas no terreno foi muito falada esta semana. Os Estados Unidos, foi noticiado em vários órgãos de comunicação social que já estariam prontos para enviar paraquedistas para o terreno, entre 1500 e 3000 militares para o Irão. Marco Rubio diz que é possível os Estados Unidos conseguirem alcançar os objetivos sem tropas no terreno, mas colocar tropas no terreno também pode colocar outra pressão. Isto está mais perto de acontecer ou é um tema que é sempre utilizado quase como a discussão em torno das bombas nucleares, que é importante os países que têm essa capacidade reforçarem que o podem fazer, mas raramente acontece. Pelo menos nesta altura em que as guerras passam muito mais por aviação, drones e bombardeamentos.

É uma excelente pergunta, porque creio que primeiro temos que abordar os objetivos. E se o objetivo for a transição do regime, como estava a dizer, parece-me que o conflito irá durar muito mais do que semanas. E esse seria o objetivo inicial de Israel, se bem que acho que Israel e o próprio Netanyahu agora já mudaram um pouco de posição até do ponto de vista narrativo, e parece-me que não são inflexíveis no sentido em que podem criar a disrupção completa no Irão, mesmo que isso não depois obrigue àquilo que seria uma mudança de regime. Portanto, acho que há a possibilidade de fragmentar tanto os grupos sociais no Irão, criar uma espécie de proto-guerra civil, que não obrigue então à mudança de regime, e parece-me que Netanyahu neste momento até estaria favorável a esse tipo de solução. Agora, os Estados Unidos, como é que o conseguem fazer sem tropas no terreno? Essa parece-me ser a grande questão, até porque se Donald Trump diz a certo ponto que a União Europeia são cobardes porque não ajudam, que os países da NATO do eixo atlântico não apoiam aquilo que é o outro lado do Atlântico, o lado americano, e que por não apoiarem são uns cobardes, tornam a NATO um tigre de papel. O que me parece que está a fazer aqui é hostilizar, como já tenta fazer há algum tempo, os outros membros da NATO, principalmente porque se queixa muito de contribuir demasiado para a NATO e depois não receber de lá os dividendos que pretendia, mas também a União Europeia cria aqui uma posição clara a partir do momento que tem, não diria tropas no terreno, mas tem uma força anfíbia junto da costa do Iémen, precisamente para travar aquilo que são a intervenção dos Houthis nesta costa do Iémen, principalmente contra navios da União Europeia. Portanto, há cerca de dois anos que está uma força estacionada da União Europeia junto a essa costa iemenita. Chamada a operação Aspides. E o que acontece então perante isto? A União Europeia, perante o pedido de ajuda de Donald Trump, recusou-se sequer a mover esta força anfíbia para junto do Estreito de Ormuz. Estamos a falar de uma viagem que, do ponto de vista logístico, seria muito menos complexa do que mover agora todas as forças europeias para o Estreito de Ormuz diretamente. Portanto, percebe-se aqui que os Estados Unidos estão isolados, claro, com o apoio de Israel, e talvez, caso se torne uma questão existencial e que seja percecionado como uma questão existencial nas monarquias árabes, monarquias árabes não, nas monarquias do Golfo. Se isto se tornar uma questão existencial, que parece que é o que indicam as palavras do príncipe saudita, hoje podemos ter aqui então um apoio tripartido, uma força tripartida entre Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo. Mas Donald Trump tem aqui um problema grande, que é Donald Trump há muito tempo, aliás, não só Donald Trump, mas toda a política externa norte-americana, há muito tempo que vem falando de se cingirem ao hemisfério ocidental. Este conflito no Irão não é visto como uma questão existencial para o eleitorado norte-americano. Deixar tropas no terreno e perder vidas norte-americanas, sejam elas das forças anfíbias, dos paraquedistas, mas perder vidas norte-americanas num conflito com o qual a maior parte da população norte-americana não se identifica, pode ser penoso para Donald Trump. Por isso é que Marco Rubio vem dizer que não serão necessárias tropas no terreno. Mas sem tropas no terreno, aquela defesa em mosaico descentralizada que as guardas revolucionárias conseguiram montar e que é uma forma de descentralizar um poder teocrático e é uma forma militarizada também de descentralizar esse próprio poder, e que depois se estende, em última instância, para os Houthis, para a Hezbollah, para o próprio Hamas Sem uma força no terreno, estes braços armados não irão desarmar. Até porque muitos deles sobrevivem precisamente destas ações de guerrilha, sobrevivem precisamente por serem grupos terroristas armados. Portanto, como é que se desarma um grupo terrorista? Essa é que é a grande questão. Como é que se desarma um grupo terrorista sem ter tropas no terreno? É pela via diplomática. E neste momento percebemos que Irão e Estados Unidos não podiam estar mais distantes naquilo que é a via diplomática, porque há exigências de ambos os lados, exigências essas que não foram atendidas nem de um lado, nem do outro.

Sim, entretanto, há uma notícia que surgiu em alguns meios de comunicação social nos Estados Unidos da América. Estados Unidos e Israel já estarão a utilizar reservas de mísseis de interceção e isto está a acontecer a uma grande velocidade. Isto foi um alerta do Royal United Services Institute for Defense and Security, um relatório publicado ontem, hoje noticiado. As reservas de mísseis de interceção dos Estados Unidos da América e de Israel já estarão num nível baixo. Sabemos que Estados Unidos têm ajudado noutros conflitos, como por exemplo, na Ucrânia, a enviar armamento. Sabemos que têm ajudado Israel numa guerra longa frente ao Hamas, que já dura há anos, há meses, e agora há este conflito. Podemos, de facto, estar neste cenário em que as reservas de mísseis intercetores, ou seja, a capacidade de defesa dos Estados Unidos e de Israel pode estar aqui num nível baixo?

Parece-me também difícil termos neste momento, e parece-me ser um pouco jogo narrativo, as defesas norte-americanas, e estamos a falar do exército, quer se queira, quer não, mais desenvolvido do mundo, e que esteja agora com uma redução, com um declínio, com os chamados shortages desse tipo de material, tanto de defesa como ofensivo. Mas a verdade é que também foi noticiado hoje que os Estados Unidos ponderavam deixar de ajudar tanto a Ucrânia do ponto de vista armamentista para conduzir esse esforço de guerra para o Irão, esse esforço de guerra e esse esforço material de recursos materiais e logísticos para o Irão. Tenho alguma dificuldade em dizer se realmente, ou tenho alguma dificuldade até em perceber como é que os Estados Unidos e Israel se metem num conflito através de uma intervenção que, como já disse aqui, é uma violação do direito internacional e não vai de encontro àquilo que são as regras do sistema internacional, pelo menos as montadas desde a Segunda Guerra Mundial, e como é que se propõem a fazer isto, sabendo-se que o Irão está preparado para esta intervenção, principalmente desde que subiu ao poder o Khamenei, o antigo aiatolá, e porque se tornou um regime muito mais musculado, muito mais opressivo do que era com o aiatolá anterior, e como é que os Estados Unidos e Israel, sendo que têm exércitos bastante desenvolvidos, estão agora, passado um mês de conflito, num declínio armamentista e a precisar eventualmente de ajuda de reforços externos. No entanto, também é importante perceber aqui dois ou três pontos que podem ajudar os Estados Unidos e Israel neste confronto e que podem, claro, então magoar a causa iraniana. Se bem que também poderemos ir lá, há outros pontos que podem ajudar a causa iraniana. Mas, por um lado, o facto de termos agora a possibilidade da França cada vez mais a falar de forma vocal sobre a expansão da sua defesa, daquilo que seria um Iron Dome, portanto, da sua defesa do ponto de vista nuclear para a Europa, uma espécie de guarda-chuva da Europa para o nuclear. É importante porque se percebe aqui que há agora a noção que este conflito, se se continuar a globalizar, pode ser também uma ameaça existencial à própria União Europeia. No entanto, traz também o seu revés, traz também o seu senão, que é uma expansão deste guarda-chuva de proteção da França, que terá que ser respondida sempre por parte da Alemanha, porque sabemos que este eixo franco-germânico tem uma tensão permanente também na questão do nuclear, por quererem ser a potência que se afirma como nuclear na Europa Central ou na Europa continental, se quisermos. Mas isto é também uma prova que há outros aliados que se estão a preparar para este conflito e que estão agora, a União Europeia também, a apanhar um comboio que tinha perdido há algum tempo. No entanto, temos também o contrário, que é que há aqui algumas causas que podem ajudar a causa iraniana e o esforço de guerra iraniano. Entre eles está a possibilidade de termos aqui um eixo chinês e coreano, da Coreia do Norte, a ajudar o Irão a nível dos chips, portanto, ao nível da nanotecnologia, que é usada depois para a construção de drones. E isso pode estar a acontecer como já aconteceu antes. Podemos ter aqui também a Rússia, e é uma denúncia que foi feita já há algum tempo pela administração norte-americana, a Rússia a ajudar com informações, com inteligência, aquilo que são as posições norte-americanas e as possíveis ações norte-americanas em território iraniano. Portanto, vemos que temos aqui duas alianças a serem formadas, se bem que me parece também que há aqui um outro fator, que é o aparecimento de um canal diplomático entre Donald Trump e Vladimir Putin através deste conflito no Irão, em que uma cedência de Vladimir Putin em relação à questão iraniana poderá ser também uma cedência, eventualmente, de Trump e da defesa da Ucrânia em relação a Vladimir Putin.

Só para terminar, vamos tentar falar aqui um pouco também do conflito na Ucrânia. E voltamos ao protagonista que estávamos a referir, a Marco Rubio, porque há aqui uma guerra de palavras entre os Estados Unidos da América e a Ucrânia. Zelensky diz que os Estados Unidos da América propuseram uma troca. A Ucrânia desiste da região de Donbass para a Rússia e os Estados Unidos da América cedem as garantias de segurança. Neste caso, Marco Rubio veio falar sobre isto e acusou Zelensky de mentir sobre esta alegada proposta norte-americana. Disse Marco Rubio que isso é mentira, disse isto aos jornalistas depois de uma reunião do G7, bem perto de Paris. Disse que é lamentável que Zelensky o tenha dito, porque sabe que não é verdade. Estamos aqui a entrar num conflito diplomático, mais um entre Estados Unidos da América e Ucrânia?

Não deixa de ser surpreendente depois de, em Davos, Zelensky ter hostilizado de alguma forma os parceiros europeus, que foram eles que financiaram grande parte do esforço de guerra ucraniano desde o início do conflito, e agora, por outro lado, entrar também nesta tensão com a própria administração norte-americana. Zelensky, na verdade, não ganha nada em estar a mentir nesta questão. Ou seja, é difícil para mim conceber que seja Zelensky a mentir nesta questão. Por quê? Porque Zelensky está frustrado. A causa ucraniana neste momento deve estar toda frustrada, precisamente porque os holofotes do mundo ocidental passaram quase todos para o conflito do Médio Oriente e para o Irão. Portanto, há aqui uma frustração inerente. Agora, Zelensky dizer isto parece-me pouco plausível. Por quê? Porque Zelensky quer duas coisas há muito tempo deste conflito, quando percebeu que eventualmente iria implicar a cedência de território, porque a Rússia já estava demasiadamente dentro do Donbass. E uma delas é garantir que consegue grande parte do Donbass, incluindo algum território que possa estar ocupado. E por quê? Porque quem conseguir garantir este domínio sobre o Donbass entre a Rússia e a Ucrânia estará também mais próximo de garantir aquilo que é a sustentabilidade económica e a redefinição de prioridades económicas do pós-guerra, porque o Donbass é um centro nevrálgico, não só de transportes, e os transportes são essenciais para todo o tipo de recursos, mas também um centro nevrálgico para as terras raras, por exemplo. Portanto, quem ficar com o Donbass estará mais próximo desta recuperação económica entre a Rússia e Ucrânia. E depois são as garantias de segurança, que é o outro ponto que está aqui em causa, não só as garantias de segurança, mas também não reduzir aquilo que são os seus efetivos militares. Quando Zelensky pede as garantias de segurança, ele pede umas garantias de segurança como se estivesse dentro da NATO, umas garantias de segurança como se estivéssemos a falar do Artigo Quinto. O problema é que Donald Trump garante que há as tais garantias de segurança, no entanto, fora do quadro da NATO. E como já se percebeu aqui, uma coisa que Putin conseguiu, que Donald Trump conseguiu, que Xi Jinping conseguiu, foi destruir completamente um conceito fundamental nas relações internacionais e no contacto entre Estados, que é o conceito de confiança. E, portanto, é natural que Zelensky desconfie bastante quando Donald Trump oferece as tais garantias de segurança, porque sabe que ele já explodiu várias vezes com mesas negociais, inclusive agora com o Irão, em que estavam a negociar a tal obliteração do programa nuclear. E o que o Donald Trump faz? Precisamente durante o período de negociação, intervém no Irão e acaba por matar o seu líder supremo. Portanto, Zelensky percebe aqui que os norte-americanos, neste momento e no contexto político interno dos Estados Unidos e no contexto também geopolítico daquilo que são as relações internacionais e do que é confiança dentro do sistema internacional, os americanos não são um aliado fiável, nem nas garantias de segurança, nem na possibilidade de não mudarem de lado ou são uma ameaça permanente devido a ainda terem este contacto diplomático também com o lado russo e com Vladimir Putin.

Bernardo Valente, muito obrigado por esta análise no nosso gabinete de guerra. Voltamos à conversa muito em breve.