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Este é o Som do Gabinete de Guerra hoje com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia, boa tarde.

Bom dia. Começamos por Vladimir Putin, que terá sugerido parar a invasão nas linhas atuais. O objectivo final será o controlo da Crimeia, mas também manter Kiev fora da NATO. Zelensky já disse que não abre mão da Crimeia, mas os Estados Unidos devem propor o reconhecimento da região como parte da Rússia, não só à Ucrânia, como aos aliados europeus esta quarta-feira em Londres. Francisco, o que lhe parece que vai sair daqui?

Para já, nada de novo.

Exato.

Putin se mantém irredutível nas suas ambições de manter fora da NATO. Isso para ele, considerou desde o início que era impensável. Já sabemos disso. E os territórios que ele conquistou, dificilmente vai sair. Veja, o general representante norte-americano para negociar o problema da Ucrânia, vem nos apresentar um modelo quase idêntico à Cortina de Ferro, a dividir uma zona controlada pela Rússia, outra pela Ucrânia e outra por forças armadas internacionais. De maneira que nada de novo. Ou seja, não vai haver cedência de territórios da parte do russo e, infelizmente, isto tem todas as condições para continuar.

Entretanto, o presidente russo disse também estar aberto a negociar diretamente com a Ucrânia para discutir um cessar-fogo sobre alvos civis. Francisco, não é muito cinismo quando até agora ainda não respondeu sequer à proposta de Zelensky para um período de tréguas de 30 dias? Aliás, o próprio Zelensky já disse que não aceita negociar sem ter a resposta à proposta que fez.

Eles têm as suas agendas internas e internacionais. Se querem negociar, tem que chegar a cedências de ambas as partes, senão não há negociação. Agora, é importante e é interessante, não houve o respeitar daquele cessar-fogo.

Durante a Páscoa.

No mar.

Sim.

Esse da Páscoa não houve, mas foi um dia.

Sim, 30 horas, exatamente.

Deu para as pessoas, para os soldados se reorganizarem, descansarem um pouco, mas os combates retomaram. Sobre as infraestruturas energéticas, houve, de facto, alguma acalmia, mas houve bombardeamentos sobre as cidades. De maneira que não estou a ver que isso, para já, mas é uma demonstração de boa vontade. Vamos ver se isso acontece. Eu não acredito, porque até encontrar esse equilíbrio, quer dizer, o Zelensky está irredutível. O Putin agora diz que não se importa de negociar, mas é sobre infraestruturas civis. Os combates não vão cessar. Se o Zelensky está irredutível, diz que ele tem que responder, é a diplomacia a funcionar. Se não houver diálogo, não há negociação possível. De maneira que, têm que ter estas manifestações das suas posições perante o seu público, no caso do Zelensky, até perante o seu eleitorado e perante o apoio internacional. Agora, quando se sentarem à mesa, é para negociar. Quando eles se sentarem, não sabemos quando vai ser, se forçados ou não, e por quem, ou pela circunstância. Mas tem que haver negociação, porque senão continuamos a ter destruição de infraestruturas e morte de inocentes.

Entretanto, no Médio Oriente, o Qatar e o Egito, dois dos mediadores internacionais do conflito entre o Hamas e Israel, terão proposto uma nova fórmula para terminar com a guerra em Gaza, que passa por um período de tréguas de cinco a sete anos, a libertação de todos os reféns e dos palestinianos detidos em prisões israelitas e a retirada completa das IDF de Gaza. Francisco Proença Garcia, quando sabemos da intenção de Netanyahu de acabar de vez com o Hamas, parece-lhe viável esta proposta?

Ouça, é uma proposta que, à partida, não é viável. Como é que eles querem uma trégua de sete anos, a libertação de todos os presos, são milhares deles. A retirada das forças, é impensável. Por aquilo que nós nos temos apercebido, ao longo da história tem sido assim, mas no último ano e meio, como é que as Forças Armadas vão retirar sem ter aniquilado o Hamas e sem ter havido a libertação completa dos reféns? Isso é em Gaza, mas depois temos o problema na Cisjordânia, depois temos o problema na Síria, e depois temos o problema lá em cima no Líbano. É como se diz numa gíria: vamos alimentando a opinião pública internacional com estas coisas, mas o problema não se resolve. O Hamas não perdeu a sua capacidade de atuação militar, está muito reduzido. Mas como é que as forças israelitas vão sair de Gaza por um período de sete anos? Não vai acontecer. A não ser que haja uma mudança do poder político interno. Talvez depois disso consigam encontrar algum equilíbrio pela saturação da guerra, mas tem que haver do outro lado também alguma vontade de libertar reféns. Libertar milhares de prisioneiros e do outro lado não haver libertação de reféns e serem exigências que são, à partida, quase inaceitáveis. Olhe, há boa vontade, pelo menos de negociar.

Há boas intenções.

Isto é impensável.

Exato.

Isto é impensável, mas nós gostávamos de negociar uma paz impensável. Logo se vê.

Aliás, o ministro das Finanças de Israel disse há dias que recuperar os reféns não era o mais importante. Disse que a prioridade era, sim, eliminar o Hamas de Gaza. Foram também estas declarações que motivaram uma série de manifestações que assistimos esta semana em Tel Aviv. Muito incendiárias estas palavras.

Nós sabemos que o ministro das Finanças é um homem extremista, mas são eles que estão no poder. Enquanto eles estiverem no poder, isto não vai acalmar, não se vai resolver, de forma nenhuma. Com estes ou com outros no poder, a situação não se vai resolver, a não ser, de facto, com uma diminuição mais significativa ainda Aquela da redução da capacidade de intervenção do Hamas. Como aconteceu com o Hezbollah, que está praticamente desmembrado, as suas lideranças militares quase não existem, as políticas estão a migrar pra América Latina. Bom, quando essa situação acontecer, talvez Israel tenha mais vontade. Mas veja, é um problema de afirmação do poder israelita. Enquanto este poder durar, enquanto não o substituírem, não vamos ter ali qualquer cessação das hostilidades. Já não estou a falar de resolução do problema, que isso não se vai resolver. Cessar agora estas intervenções militares e o sacrifício daquelas populações. Quando o ministro diz isso, veja, começa a perder apoio popular, porque o que a população quer é a libertação dos reféns. Estamos há um ano e meio quase à espera. Porque agora a guerra, para eles é um modo de vida. Já estão habituados a aqui, mais intervenção, menos intervenção, agora querem é: qual é a contrapartida da morte e da destruição? Não há a libertação de reféns. E o senhor diz que isso não é prioritário. Bom, então vamos pensar duas vezes se vamos apoiar. E a situação interna está bastante instável. Mas o fato é que ele não sai do poder. O Netanyahu está lá há muitos anos. Parece que está pra durar. Vamos ver.

Depois do encontro do fim de semana em Roma, no próximo sábado vai haver uma terceira ronda de negociações entre Estados Unidos e Irão sobre o programa nuclear. Francisco Lourenço Garcia, sabemos alguma coisa do que tem sido discutido até aqui?

Outra situação que há pelo menos boa vontade, sobretudo da parte do Irão, estão abertos. As sanções ao fim deste imenso tempo de sanções, o regime tem que abrir um pouco, mesmo até pra acalmar a situação interna. De maneira que penso que, havendo essa boa vontade agora do Irão, e tem que se ver, a pressão e a demonstração de força dos Estados Unidos tem sido muito intensa. Mas vamos ver agora, e onde é que estão os outros parceiros que negociaram isto na década passada, antes de Trump ter acabado com o anterior acordo? Onde é que está a Europa? Mais uma vez não contamos.

Pois.

De maneira que eu penso que há boa vontade do Irão, porque precisa mesmo, porque quando foi da última vez, houve um inundar de dinheiro, porque eles são um país rico. Não têm acesso, pois, aos bens. Mas eu lembro que eles compraram dezenas de aviões à Boeing, à Airbus. Depois, outra vez com as novas sanções, voltaram a estar fechados e a população a ser sacrificada. De maneira que acho que há essa vontade interna de aliviar a pressão. E depois vamos ver se de fato conseguem chegar a um acordo que seja favorável a ambas as partes e uma intervenção militar norte-americana seria muito custosa, mas há demonstrações de força, está havendo movimentação de porta-aviões pra o local, o sobrevoo dos B2. Isso é demonstração de força, o show de flag, mostra a bandeira. A dissuasão, vamos ver se funciona.

Pois.

Também funciona pra outros parceiros. Não funciona só pro Irão, funciona pra os Huthis, funciona pra os israelitas a dizer que nós estamos cá pra vos ajudar naquilo que for preciso. Bom, vamos ver.

Sobre os Huthis, o secretário-geral da ONU diz estar profundamente preocupado com os ataques dos Estados Unidos no Iêmen. Guterres tem motivos para se preocupar com a retaliação?

Com a retaliação. Sabe que os Huthis são um não Estado.

Exatamente, pois.

Porque controla parte do Iémen, não controla o Iémen todo. Infelizmente, controla Saná e controla ali aquela parte do Mar Vermelho. Bom, mas enquanto os Huthis lá estiverem, o comércio internacional, sobretudo da marinha mercante ocidental, tem que ser pela rota do cabo. Os chineses passam lá, mas os chineses pagam quase mil milhões de suborno ou de taxa para poder passar naquela zona, quase mil milhões por ano para os Huthis. De maneira que isso também está prejudicando as economias ocidentais, porque eles circulam e os fretes são mais baratos e as companhias ocidentais têm que ir à volta pela rota do cabo, pela África do Sul, onde encarece muito o frete.

Claro.

De maneira que as intervenções militares dos Estados Unidos diminuem a capacidade militar dos Huthis. Mas eles não deixam de cobrar a taxa aos navios que passam e não deixam de vez em quando lançar uns mísseis pra Israel. De maneira que vamos ver. Também é uma guerra que se arrasta há muitos anos.

Muitos anos, sim.

Com os árabes a intervirem em força e a gastarem muito dinheiro e a comprar muito equipamento aos Estados Unidos, mas sem resolução do problema. De maneira que eu acho que desgasta, sim, a capacidade militar. Aquela população é mais uma vez sacrificada, mas não vai resolver o problema. Eu bombardear, eu se não tiver botas no terreno, não resolvo o problema. E sobretudo, para a circulação marítima, para a linha de comunicação, que é muito importante, está seriamente afetada e nós quase não falamos nisso.

É verdade.

E depois ali ao lado, no Mar Vermelho, temos outra grande guerra frio que ninguém fala, que é o problema de Sudão. Também ninguém fala, é logo ali ao lado. E depois temos os bombardeamentos deles ali a partir pra Israel. De maneira que os Huthis vai ser um problema que vai perdurar, destrói-se a capacidade deles agora. Eventualmente, ali com o problema do Irão. Se for no mesmo pacote as negociações do nuclear com o Irão, a diminuição do seu apoio aos seus próprios, talvez a situação melhore.

Francisco Lourenço Garcia.

Jogos em vários tabuleiros ao mesmo tempo.

É verdade. Muito obrigada pela sua análise e por estar conosco em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia pra si. Muito obrigada.

Obrigada. Bom dia.