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Este é o Som do Gabinete Guerra das manhãs 360, hoje com a análise de Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da SETC Europa. Bom dia, muito obrigada por estar conosco.

Bom dia, Maria João.

Bom dia. Zelensky quer apresentar aos Estados Unidos os planos que tem para forçar a Rússia a acabar com a guerra, quer apresentar as ideias a Joe Biden e aos dois candidatos à Casa Branca, mas continua a afastar o diálogo com Vladimir Putin. Vítor, o que lhe parecem ser as ideias do presidente ucraniano? O Kremlin, entretanto, já criticou as declarações de Zelensky e insistiu que vai continuar com a ofensiva.

Sim, Dmitry Peskov, o porta-voz do governo russo, que todos conhecemos, já afirmou que a operação especial é para continuar. Mas não são mais do que, na minha opinião, declarações de retórica repetidas. Parece-me que realmente a Ucrânia conseguiu um ascendente na região norte de Kursk, ao ter conseguido realizar esta incursão, mas sem poder utilizar armamento de determinados estados aliados em solo russo, fica bastante limitada nesta ação. Pode, por um lado, ter sido positivo para a Ucrânia, mas pode, por outro, ser um problema. Kursk que, como sabemos, fica a cerca de 100 km da fronteira da Ucrânia com a Rússia. Ou seja, há que manter a retaguarda em vários parâmetros, o logístico, principalmente. E isto, tanto pelo tempo como pelo inverno que se aproxima, será complicado de manter para Volodymyr Zelensky. Quanto mais a Ucrânia se projetar sobre o território russo, mais dificuldades terá devido à extensão geográfica e à projeção que é preciso conseguir em território russo para manter essa mesma ocupação do território russo.

Mas Vítor, a Ucrânia ao colocar toda esta pressão em território inimigo, também faz com que a Rússia não possa pôr ainda mais pressão na região de Donetsk, onde tem avançado.

Sim, Vladimir Putin não tem as preocupações do senso comum. Não deslocou tropas de outras regiões ucranianas ocupadas, por exemplo. Isso era indicado que pudesse acontecer nas primeiras horas, mas não aconteceu. Sabe que a guerra será longa e que a Ucrânia terá muitas dificuldades em manter a retaguarda, como eu falava há pouco, no território russo. Aliás, pode até ser uma vantagem para Putin deixar os ucranianos durante o inverno em Kursk. Mantendo as posições que já tem hoje na Ucrânia e focando-se no resto do território ucraniano, mantendo um congelamento daquela região, sem poder utilizar armamento fornecido pelos aliados, mais tarde e com o desgaste das tropas, conseguir uma retaliação naquela zona.

Falou dos aliados. O ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, diz que o maior desafio de Kiev é mesmo o medo que os aliados têm da escalada. Concorda?

Sim, o Kremlin e os seus responsáveis sabem que falar e lançar alertas sobre a força nuclear da Rússia provoca reações nos aliados. Sabemos que os países ocidentais, onde as democracias são pressionadas pela opinião pública e pela comunicação social, por exemplo, e onde se vai a eleições regularmente, isso é uma das facetas dos regimes democráticos, irem a eleições, têm uma perceção de medo e de receio completamente diferente. Além de existir o fantasma real da utilização de armas nucleares na Ucrânia, começa-se igualmente a destapar o véu para possíveis ataques da Rússia em territórios aliados, nomeadamente os territórios das suas fronteiras. Se Zelensky usar armas ocidentais em território russo, o que é que levará Putin a não bombardear territórios da NATO na fronteira? É uma pergunta retórica, mas é uma pergunta que nos pode deixar uma reflexão.

Vamos agora até ao Médio Oriente olhar para a nova ronda de negociações no Qatar. Vítor Gabriel Oliveira, de que forma é que os Estados Unidos e as eleições de novembro estão a ter influência nas negociações e até na sua conclusão ou na sua não conclusão?

A equipa de Biden já estava há alguns meses a tentar tudo para que houvesse um princípio de acordo até às eleições de 5 de novembro. Além disto, com a nomeação de Kamala Harris, este processo adensou-se, houve uma velocidade muito maior. Veja-se, por exemplo, o discurso de Kamala Harris na convenção, em que indicou ser uma prioridade sua a chegada a um acordo de manutenção de paz e duradouro na região. Mas eu gostava de chamar a atenção ao momento em que Kamala Harris é nomeada e passa a ser acompanhada por muitos dos responsáveis que estiveram na campanha do Obama. E Obama geria estes assuntos com maestria. Aliás, muita da entourage de campanha de Kamala Harris é neste momento preparada e orientada por estes responsáveis. Axelrod, que era o responsável de campanha de Obama, não está, mas grande parte das pessoas que trabalhavam com ele estão também a colaborar na campanha de Kamala Harris. A partir deste momento, os Estados Unidos começaram a imprimir uma pressão completamente diferente no forcing para a resolução do problema e para a chegada a um princípio de acordo antes das eleições americanas. E nesta matéria falo tanto neste conflito como no conflito anterior, e se repararmos, agora voltando um pouquinho atrás, falo no conflito ainda da Ucrânia, há uma incursão em território russo, quando há esta pressão dos Estados Unidos para que se tente chegar a um princípio ou a princípios de acordo. Isto também condicionará a opinião pública americana, tanto num conflito como no outro.

Há quem diga que nesta nova ronda estão presentes as segundas linhas dos países envolvidos. Concorda?

Sim, neste momento, tanto a parte palestiniana como a parte israelita já deixaram o Catar, onde estão a decorrer as negociações. E neste momento são segundas linhas que estão na mesa das negociações, mas eu gostaria de referir que todos estes intervenientes sabem que não podem deixar a mesa das negociações, precisamente por aquilo que eu disse agora. A pressão dos Estados Unidos é enorme, diplomática e militar na região. E por esta dinâmica que agora acabei de referir, não acredito que as negociações terminem sem algum fundo branco, mesmo que seja para continuar as negociações mais tarde. Os Estados Unidos estão a imprimir uma pressão enorme para que haja qualquer resultado para que isso possa ser veiculado de forma comunicacionalmente bem feita pela campanha de Kamala Harris.

Entretanto, as IDF lançaram uma operação de contra-terrorismo de larga escala no norte da Cisjordânia. Já avisaram que pode durar vários dias, tal como António Guterres, Josep Borrell também condenou os ataques e diz que esta operação não deve ser uma extensão da guerra em Gaza. E Vitor, é este o ponto. Muita gente fala no risco de escalada do conflito. Isto não pode ser interpretado dessa forma?

Sim, Netanyahu tem revelado que cada vez que se está próximo de um princípio de acordo, reage militarmente. Há uma pressão enorme sobre Benjamin Netanyahu em Israel, tanto por parte de membros do seu governo, mas também já por uma grande parte da sociedade civil, que além de não acreditar na resolução do conflito positivamente para Israel, pese embora continua a advogar que Israel deveria ter feito o que fez, ou seja, deveria ter retaliado, também começa a não acreditar, e até por algumas notícias que têm vindo a público sobre reféns que têm aparecido, mas já sem vida e muita da sociedade civil acredita que grande parte dos reféns e os familiares dos reféns que têm dado algumas entrevistas, acreditam que passados estes meses todos, muitos deles serão encontrados, mas já sem vida e pedem só que os corpos sejam recuperados. E isso não é bom para Israel, porque no final tudo retaliou, mas não conseguiu recuperar os seus reféns em território, que neste momento é palestiniano. E isso é dramático para Benjamin Netanyahu, porque sabe que quando isto terminar, na minha opinião, terá poucas chances de continuar no governo.

Vitor Gabriel Oliveira, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, Vitor.

Obrigado eu.

Muito obrigada.