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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de tensão geopolítica. Na edição desta noite contamos com a análise de Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o convite. E vamos começar pela visita de Marco Rubio a Portugal. O secretário de Estado dos Estados Unidos esteve hoje em Lisboa, reuniu com Luís Montenegro e também com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. O que é que destaca desta visita?
Boa noite, Laura, e obrigada pelo convite. Esta é uma visita muito importante em múltiplas dimensões. Primeiro, por aquilo que foi dito e que se prende, por um lado, se quisermos, Marco Rubio vem numa de diplomacia econômica, fazendo, de alguma forma, o destaque daqueles que são os seus F-35 no momento em que Portugal se prepara para adquirir aeronaves novas e está a considerar várias escolhas, e também para fazer publicidade, passo a expressão, à compra de tecnologia norte-americana. Depois, ele referiu algo que é muito importante para Portugal, que é a questão da segurança dos cabos submarinos. Todos nós nos lembramos que em julho deste ano foi lançado o cabo Nuvem, que liga pela primeira vez Portugal aos Estados Unidos, liga a Carolina do Sul a Sines, e isto tem aqui uma dimensão estratégica muito importante, porque Portugal vai ser central, ou está a ser central naquilo que é a infraestrutura global, quer de telecomunicações, quer de internet. E está previsto também, com investimento norte-americano, um novo cabo, o Cabo Sol, que será lançado em 2027. Isto é um grande investimento pela parte dos Estados Unidos e há esta dimensão, se quisermos, econômica. Depois tem a ver com o facto de Portugal ter sido um aliado leal. E é importante haver aqui este reconhecimento por parte dos Estados Unidos. Portugal, por aquela que é a sua posição geográfica, é um país que tem um pilar de política externa assente na União Europeia, é ser europeísta, e tem, naturalmente, do outro lado, os Estados Unidos, e é um país atlantista e é um país que tem uma aliança antiga com os Estados Unidos, tem uma das principais bases militares norte-americanas, e há aqui, se quisermos, esta dimensão também de agradecimento. E depois Marco Rubio, integrando esta visita numa estratégia mais ampla dos Estados Unidos, veio advertir para os riscos de termos, por exemplo, em setores estratégicos como a energia, como a banca, de haver aqui muito capital chinês, porque todos nós sabemos que a grande competição internacional e aquilo que está realmente a causar os turbilhões internacionais é a competição estratégica entre os Estados Unidos e a China, e com esta competição estratégica, o redesenho, se quisermos, de uma ordem internacional onde a China tenta, de alguma forma, fazer valer aquela que é a sua cosmovisão e que não é necessariamente uma cosmovisão que seja do agrado de democracias liberais, como é o caso da portuguesa. Portanto, foi uma visita de amigos, uma visita de agradecimento, uma visita para fazer negócios e uma visita para deixar aqui também um alerta. Mas para Portugal, que é um pequeno país no concerto das nações, é muito significativo termos o secretário de Estado norte-americano e que é um putativo candidato a presidente dos Estados Unidos, prestar esta atenção ao nosso país.
Também hoje, durante a conferência de imprensa cá em Lisboa, Marco Rubio falou sobre a guerra na Ucrânia, diz que há dois caminhos para o conflito, uma negociação ou uma escalada, mas não uma solução militar. São declarações que estão até hoje em destaque também na imprensa russa. Concorda com esta afirmação de Marco Rubio?
Isto é um bocadinho o copo meio cheio, o copo meio vazio. Nenhuma guerra acaba sem ser à mesa das negociações, mas muitas vezes, ou na maioria das vezes, aquilo que conduz à mesa das negociações é aquilo que se obtém do ponto de vista militar. Aquilo que se pode observar é que Putin parece ter mudado de estratégia. Neste momento, nós todos esperávamos aqui uma mobilização, mas não, o que Putin está a fazer, e está a perder terreno no Donbass, é uma intensificação de ataques russos com drones e com mísseis balísticos contra ativos industriais ucranianos, contra infraestruturas energéticas, transportes, centros de retalho de logística, cadeias de abastecimento à indústria siderúrgica e também ataques contra civis, como vimos hoje em Kramatorsk, contra os autocarros. Há aqui, se quisermos, um querer quebrar ou minar o ânimo da população e comprometer o funcionamento da economia da capital. Putin parece ter percebido que uma mobilização seria bastante impopular na Federação Russa e, simultaneamente, também tem visto que tem sido muito ineficaz do ponto de vista militar. Não conseguindo dobrar militarmente os ucranianos, e nós estamos aqui numa guerra de atrição, onde não há avanços consideráveis da Federação Russa e face à assimetria de forças que havia, era expectável que o segundo maior exército mundial e que alguns analistas diziam que em três dias estaria em Kiev, a verdade é que não conseguiu dobrar a Ucrânia. Tenta agora escalar, mas escalar para todo este conjunto de alvos que são bastante problemáticos do ponto de vista do direito internacional e muitos deles constituem crimes de guerra. Estamos a ver o caso dos ataques às pontes ou dos ataques a autocarros ou a hospitais, visando aqui tentar dobrar a Ucrânia, sobretudo quando se aproxima o inverno, maximizando aqui a destruição da Ucrânia. O que Rubio diz tem algum sentido e naturalmente é saudado pela Federação Russa, porque gostaria muito que a Ucrânia cedesse e cedesse nas condições russas, mas não é nada de novo no discurso norte-americano. Aliás Putin vai continuar a fazer este tipo de ataques, porque Donald Trump impôs poucos custos a Putin ou à Rússia pela guerra na Ucrânia. Aliás, de alguma forma até parece querer recompensar Putin pela apropriação do território da Ucrânia, tentando restabelecer, por exemplo, a normalidade nas relações comerciais, favorecendo muitas vezes as posições russas, o que faz com que Vladimir Putin não veja nenhuma penalização ou sanção em tentar continuar a testar as fronteiras da NATO na Europa. E esse também poderá ter sido, não sei se foi, um dos temas discutidos com o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros. E nós vemos aqui realmente Putin, através de ciberataques, através de ataques a depósitos de munições da NATO, através de drones em aeroportos civis, através de tentativas de assassinato de CEOs de empresas de armamento, como por exemplo o CEO da Rheinmetall, e tudo isto, estas incursões com drones, não tem tido consequências. Naturalmente, quando Putin encontra aqui um elemento discursivo em Marco Rubio, que vai de encontro àquela que é a tática ou a estratégia que ele adoptou agora, naturalmente que isto tem destaque na imprensa russa.
A propósito precisamente do que estava a falar, a União Europeia prolongou as sanções à Rússia por ataques híbridos até outubro do próximo ano. Isto numa altura em que vários Estados-membros têm atribuído incidentes de sabotagem e incursões de drones a Moscovo. Que efeito é que têm estas sanções na Rússia? Ou seja, são suficientes para travar os tais ataques híbridos ou não chegam?
Não chegam. As sanções são importantes, mas são lentas. E nós vimos do ponto de vista daquilo que é a economia russa, como as sanções aplicadas internacionalmente acabaram por ter, passado algum tempo, porque elas necessitam sempre de algum tempo, impacto sobre a economia russa. Quando se está a falar de ataques cibernéticos ou se quisermos, de operações na zona cinzenta, não basta isto. É preciso ter a ciberdefesa, que é algo que está a ser trabalhado, quer ao nível da União Europeia, quer ao nível da NATO. É preciso ter bons serviços de informação, que é algo que alguns países da União Europeia têm, outros não têm, e Portugal está completamente depauperado nessa matéria. Aliás, basta ver que ainda hoje os nossos serviços, o SIRP sofreu um ciberataque que poderá ser atribuído, e estou aqui a especular, a um agente estrangeiro, mas isso demonstra aquilo que é a fragilidade da infraestrutura. Portanto, além de sanções, importa, por um lado, prevenir, se quisermos fazer aqui todo o trabalho de intelligence e perceber de onde é que podem surgir estes ataques e porque eles são altamente profissionalizados, e depois ter a capacidade de os divergir e, se necessário, ripostar. É algo que, por exemplo, a Alemanha neste momento está a fazer, que é havendo ataques cibernéticos contra a Alemanha, há a capacidade de fazer a guerra cibernética contra a Federação Russa. Só quando a Europa fizer, como fez a Turquia, quando houve um caça russo entrar em espaço aéreo turco e foi derrubado. Quando a Europa fizer isto face à ameaça russa, seja os drones do Irã, seja o responder a ameaças cibernéticas, não estou a falar em guerra cinética, é que a Federação Russa irá compreender a mensagem. Porque se não houver aqui nada de concreto, nenhum tipo de penalização, Vladimir Putin irá continuar a testar os nossos limites e até poderá provocar um incidente mais grave, porque este nível de provocação e de irritante tem aumentado nos últimos tempos e já se tornou bastante visível. Os analistas haviam alertado para a presença de toda esta infiltração russa no nosso tecido. Aliás, nós vemos muitas destas manifestações que existem em vários países europeus, quem é que financia estes partidos, quem é que financia algumas organizações, entre aspas, "orgânicas". Há aqui, de facto, um fluxo de capital que valeria a pena seguir para se perceber quem é que está interessado em desestabilizar, quer europeus, quer americanos. Saiu muito recentemente um relatório, só para concluir, Laura, sobre aquelas manifestações nas universidades norte-americanas, manifestações pró-Palestina. E o que conclui esse relatório muitíssimo detalhado e que foi feito ao longo de muito tempo? Conclui que aquelas manifestações de orgânico nada tinham, que tinham sido financiadas por agentes estrangeiros e havia vários países envolvidos, e que os países envolvidos precisamente na desestabilização das universidades norte-americanas era a China, uma vez que está em competição estratégica com os Estados Unidos. Uma outra dimensão da guerra que não é a cinética é precisamente esta guerra que se faz por via de ciberataques ou de operações na zona cinzenta, usando para isso, por exemplo, estudantes, organizações não-governamentais, usando as manifestações, usando protestos.
Vamos olhar também para o Médio Oriente. Donald Trump promete não atacar o Irão antes das eleições intercalares de 3 de novembro, devido às condições muito más em que o Irão se encontra, são palavras do presidente norte-americano. Que condições são estas? E pergunto-lhe também se é de facto por este motivo que Washington não vai levar a cabo ataques antes das eleições ou se há uma outra razão por trás.
Bem, Donald Trump tem feito muitas declarações e depois tem-se contradito. Nós sabemos, aliás, foi noticiado, que ele e o Pentágono pediram um conjunto de sugestões para resolver a questão iraniana. Mas há aí uma verdade nas declarações do presidente norte-americano. A situação interna no Irão é muitíssimo problemática. As fontes de receita, se quisermos, da IRGC, a Guarda Revolucionária estão, de alguma forma, bastante depauperadas, porque eles não estão a conseguir exportar petróleo. Por outro lado, o bloqueio que impuseram no Estreito de Ormuz não está a funcionar, já passa uma parte significativa de navios. Outro tipo de exportações não são possíveis ou são muito débeis e, do ponto de vista económico, a situação é muito dramática. E nós sabemos que quando as situações são dramáticas economicamente, isso acaba por ter um impacto popular. Depois temos o Baluquistão que está em ebulição. Entre as diversas facções do poder iraniano, há diferentes linhas de entendimento, algumas que querem realmente chegar a uma espécie de acordo, a uma negociação com os Estados Unidos, outras que não querem e querem o confronto total. Portanto, quando nós olhamos para estes cenários, percebemos que realmente Donald Trump, quando faz essa afirmação, sabe que a situação iraniana está muito débil e é como aqueles jogos de dominó. Às vezes, se o dominó certo for empurrado, acabam por ser derrubados todos os outros dominós. Esta é uma parte da leitura. Outra parte da leitura é que a guerra no Irão é muitíssimo impopular nos Estados Unidos, também é impopular no Partido Republicano, portanto, o presidente já foi alertado por alguns dos seus senadores e dos séniores do partido que fazer uma operação militar, que eu estou convicta que acabará por acontecer, neste momento, pode não ser a melhor escolha para os Estados Unidos. Há, no entanto, alguns analistas militares norte-americanos que consideram que Donald Trump poderá, muito em cima das midterms, fazer uma operação militar, se percepcionar que isso lhe traz vantagem eleitoral ou se houver algum tipo de ameaça concreta colocada pelo Irão. Estamos a menos de um mês das eleições e eu não excluiria que isso fosse também ponderado. Temos que olhar para esta situação no seu todo. Se trouxer vantagem ou for percepcionado como trazendo vantagens eleitorais a Donald Trump e aos republicanos, podemos ter aqui algum tipo de intervenção militar que permita quick wins, que permita ganhos rápidos. Se não, é deixar passar as eleições, ver que resultados é que Donald Trump e o seu partido têm, se é uma catástrofe como se prevê ou se se consegue contornar esta catástrofe, e sim, depois do 3 de novembro e depois das eleições israelitas, não nos podemos esquecer delas aqui também neste contexto, estou convicta que a questão do Irão vai ter que ser resolvida e vai ter que ser resolvida do ponto de vista militar.
Chegamos ao final do nosso tempo. Contamos hoje nesta edição com a análise de Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Muito obrigada pela sua análise.
Muito obrigada.
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