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Abrimos agora o Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno, muito obrigada por estar conosco.
Olá.
Boa tarde. Vamos começar pelo Médio Oriente, já que hoje é um dia importante. Dizia ontem Donald Trump aos jornalistas que hoje, segunda-feira, as negociações entre os Estados Unidos e o Irão iam ser retomadas. Um regresso à mesa depois de Washington ter decidido também cancelar um ataque de grandes dimensões contra o Irão, que estava planeado para este domingo. Pergunto, Bruno Cardoso Reis, é desta que a guerra pode acabar?
Boa tarde a todos. Bem, eu acho que temos que ter aqui muita prudência, porque inclusive o próprio Irão vem dizer que não está a negociar. E também que um acordo com o Omã não seria suficiente para garantir a reabertura do estreito. Sendo que também sabemos que no passado, por vezes, o Irão desmentia que havia negociações e depois percebíamos que, ainda que de forma indireta ou discreta, elas até estavam a decorrer. Mas isto é mais um sinal que realmente estamos aqui num contexto de um conflito que agravou muito a desconfiança entre as partes, que já era historicamente muito elevada, tanto que por regra eles nem sequer mantinham relações diretas. Os Estados Unidos e o Irão não têm relações diplomáticas normais desde 1979, e obviamente o próprio conflito armado em si. E depois também esta enorme incerteza sobre exatamente o que é que foi acordado, quem é que violou os acordos, etc, ainda aumentou mais as suspeitas, as desconfianças mútuas das partes, dos beligerantes, e eu acho que também deve aumentar as nossas desconfianças sobre qualquer tipo de anúncio de uma paz iminente ou podermos presumir que por haver o anúncio de que vai haver negociações, que elas vão mesmo decorrer ou que se decorrer, vão ter realmente um sucesso garantido e rápido. Acho que isso claramente tem sido desmentido muitas vezes pelos factos.
Uma das questões incontornáveis deste conflito é, como disse ainda agora, o Estreito de Ormuz. Trump diz que o acordo passa pela reabertura total e imediata deste estreito. Entretanto, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão diz que o país não está, de facto, em negociações com os Estados Unidos e avisa que este acordo, tal como disse, não é suficiente para reabrir o Estreito. O que pode ser um bom acordo no sentido de acabar com este encerramento do Estreito de Ormuz, que também se tem verificado como ameaça à economia internacional?
Eu acho que o principal critério, neste momento, para definir um bom acordo pro conjunto da economia global e da comunidade internacional, é um acordo que realmente garanta a reabertura em segurança do Estreito, coisa que não aconteceu com as tentativas anteriores, e que garanta essa reabertura sem condições, sem constrangimentos, sem taxas, sem pagamentos, porque isso seria criar aqui um precedente muito perigoso, muito custoso e muito arriscado em termos de outros pontos de estrangulamento, de outros estreitos internacionais. O Bósforo, o Estreito de Aden, que também está afetado por esta crise, o Estreito de Malaca, o Estreito de Gibraltar, à partida, que agora se tem falado ainda que indiretamente a respeito de Ceuta. Realmente esses estreitos, em muitos casos, canalizam 10, 20, 30% do comércio global e se de repente todos eles começarem a ter constrangimentos, a colocar problemas de segurança e a cobrar taxas, nalguns casos há alternativas, mas são sempre mais custosas, mais demoradas, é o caso do Estreito de Aden. Noutros casos não há alternativas, não há outra forma de sair do Golfo, pelo menos com as infraestruturas que existem, em muitos casos, não há outra forma senão através do Estreito de Ormuz, além de ter custos muito elevados. Essa seria a questão fundamental. Agora vale a pena recordar que há muitas outras questões importantes em cima da mesa, mas cada vez mais, e isso já é uma vitória estratégica do regime iraniano, estão postas de lado a questão da própria sobrevivência do regime, a questão de mudar o regime ou não, começou por ser uma questão no início da guerra, pelo menos. A questão do programa nuclear iraniano, a questão com efetivas garantias também de fiscalização, a questão dos mísseis balísticos, do programa de mísseis do Irão e sobretudo, e também todo o histórico do Irão apoiar há muitas décadas grupos armados, milícias armadas por todo o Médio Oriente, que têm sido uma enorme causa ou um dos fatores importantes de violências, de conflitos, de instabilidade em múltiplos países, em múltiplas regiões do Médio Oriente, desde o Iémen ao Iraque, ao Líbano. Isso neste momento já parece quase um luxo pensarmos num acordo que chegasse a incluir todos esses pontos. A prioridade parece ser a reabertura do Estreito para começar e depois haver negociações mais prolongadas para resolver alguns desses problemas.
Donald Trump queria esta reabertura total e imediata, mas mesmo assim, mesmo que seja essa a prioridade definida, é algo que não vai ser assim tão linear nem tão rápido?
Sim, todos os sinais apontam nesse sentido. Infelizmente, Donald Trump já anunciou múltiplas vezes que o Estreito estava reaberto, que se podia navegar com segurança para rapidamente ser desmentido pelos factos. E o problema de base aqui é que Donald Trump tem razão quando diz: "Bem, nós afundamos a marinha iraniana". De facto, a marinha convencional iraniana, as fragatas iranianas, etc, basicamente estão destruídas. O problema é que o Irão não precisa de ter uma marinha convencional pra criar este tipo de insegurança, de incerteza, que depois torna a navegação segura impossível. Ou seja, precisa de uns quantos drones, uns quantos mísseis, umas quantas minas, umas lanchas rápidas E tudo isso é difícil de eliminar completamente. A campanha americana nos últimos dias tem ido nesse sentido, de atacar esses meios, nomeadamente os que estão na costa iraniana. Mas basta pensar no que é um drone, na sua dimensão, na quantidade que o Irão consegue produzir por mês, no fato de ter muitos abrigos subterrâneos, etc, para perceber que é muito difícil destruir isso completamente.
Porque já temos pouco tempo, mas antes de terminarmos queria ainda que falasses de Ceuta, temos sempre de arrumar até lá. Hoje foi divulgado pelos serviços de informação espanhóis que, ao contrário daquilo que dizem algumas teorias que têm vindo a ser partilhadas, Marrocos não terá planeado esta entrada em massa de migrantes, mas também não fez nada para a deter. O jornal "El País" conta também que os serviços de informação marroquinos não chegaram a avisar os homólogos espanhóis sobre este movimento migratório, quando já estava a ganhar alguma força nas redes sociais. Pergunto se os serviços espanhóis deveriam ter sido postos a par e, sendo que Marrocos pode não estar diretamente envolvido, quer dizer que Rabat não tem, de todo, responsabilidades nesta crise ou não é bem assim?
Há realmente aqui uma questão, saber se houve ou não informação. E obviamente isso é uma questão importante também para avaliar as responsabilidades do governo espanhol. Portanto, uma das críticas da oposição espanhola tem sido que o governo devia ter percebido e prevenido isto. A resposta do governo, tanto quanto eu percebi, é que não receberam informações de uma crise desta magnitude, o que também não é dizer que não receberam informações nenhumas. Eu diria, à partida, tendo em conta que Marrocos e Espanha têm uma cooperação muito próxima, nomeadamente na gestão de questões de segurança, na linha dessa boa vizinhança, de facto, Marrocos deveria ter avisado e é difícil de acreditar, para não dizer que é impossível, que os serviços de informações marroquinos, todo o aparato de segurança que está muito desenvolvido em Marrocos, que é um Estado muito bem organizado, não tivesse dado conta de nada. Essa é uma primeira falha na cooperação, na intervenção do lado marroquino. Uma segunda é que também é bastante evidente que as forças de segurança marroquinas não fizeram nada para impedir esta enorme vaga. Isso significa que realmente há aqui alguma responsabilidade do governo marroquino por ter, pelo menos, tolerado isto, não ter avisado a respeito disto. Se houve ou não envolvimento mais direto, mais ativo. Eu acho que é significativo que do lado espanhol se diga que não há sinais disso. Não haver sinais disso também não é garantia de que não tenha mesmo acontecido. A mim parece-me que nem é sequer necessário que Rabat estivesse diretamente envolvido. Ou seja, não me custa a acreditar que haja aqui redes organizadas de tráfico, que perceberam que havia aqui uma oportunidade e que se começaram a organizar. Que isto claramente não foi espontâneo e que foi organizado, isso parece bastante evidente. Que houve também aqui uma dinâmica de desinformação, inclusive provavelmente com envolvimento russo, também parece claro. Tudo isso quer dizer que provavelmente Rabat ou o governo marroquino não precisava de se envolver diretamente. Bastava, de facto, não agir contra, permitir esta ação. Agora, eu acho, e para terminar, que apesar de tudo isto mostra algum esforço também da parte de Madrid e de Rabat, calibrar um pouco as coisas, não esticar demasiado a corda, não romper relações. A minha interpretação é que o governo de Marrocos está a sinalizar, depois de há 10 dias atrás Sánchez ter organizado uma cimeira com a Argélia para procurar melhorar as relações, que essa normalização de relações entre Espanha e Argélia não deve ser feita à custa dos interesses de Marrocos. Ao mesmo tempo, também não quer esticar demasiado a corda, porque as relações com a Espanha e com a União Europeia são muito importantes. E o governo de Madrid também não quer nenhuma ruptura com Marrocos, porque é muito importante a cooperação marroquina, por exemplo, para o repatriamento. E há aqui, quer de Madrid, quer do lado de Rabat, uma gestão também cuidadosa desta crise nas relações bilaterais para procurar evitar rupturas públicas que depois torne ainda mais complicado gerir esta crise.
E chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com análise dos historiadores Bruno Cardoso Reis. Bruno, obrigada por ter estado conosco.
Obrigado, boa tarde.
Boa tarde. O Gabinete de Guerra fica por aqui. Ainda está de regresso esta noite, fica disponível, como sempre, em podcast.