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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para os principais conflitos a marcar a atualidade. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, antes de mais, bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Queria começar com as cerimónias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, já vários meses depois da morte do líder iraniano. Há aqui vários ângulos a ter em conta. O primeiro que eu queria que ajudasse a esclarecer era o que podemos esperar a nível de atividade no conflito durante estes seis dias em que decorrem as cerimónias. É de esperar, por exemplo, algum tipo de respeito, pelo momento, por parte de Israel?

Acho que por Israel, em particular, não. Ou seja, foi Israel que terá, no essencial, conduzido esse ataque contra Ali Khamenei e realmente isso corresponde a um objetivo declarado do Estado de Israel, que era fazer pagar o preço máximo. No fundo, atacar e tentar eliminar todos os principais líderes que estiveram envolvidos nos massacres do 7 de outubro. E realmente, além dos líderes do Hamas, que foram todos eliminados, inclusive também em Teerão, Ali Khamenei também entrava nessa lista. Porque recordo que Ali Khamenei, dias antes do ataque, veio anunciar através até das redes sociais, nomeadamente da conta no Twitter, que haveria um ataque sem precedentes contra Israel e depois foi dos pouquíssimos líderes mundiais, senão mesmo o único, que veio publicamente elogiar esses massacres do 7 de outubro. No caso dos Estados Unidos, eventualmente, sobretudo no contexto atual, penso que isso pode ser um fator adicional para haver aqui um investimento maior em tentar manter o cessar-fogo. Acho que a grande questão é exatamente qual é a atitude do Irão, ou seja, se a atitude prevalecente é precisamente para criar condições para as cerimónias fúnebres, haverá um empenho maior em manter o cessar-fogo e, portanto, evitar, por exemplo, o tipo de incidentes que têm acontecido no Estreito de Ormuz, ou se, pelo contrário, nomeadamente aqui uma ala mais dura vai aproveitar para tentar de alguma forma vingar o líder morto e poderá usar isso para ter aqui uma ação que venha desestabilizar o cessar-fogo. Eu tenderia a pensar que em termos racionais faria mais sentido que houvesse realmente alguma contenção também do lado iraniano, mas não dou por certo que seja exatamente assim, até porque, como eu referi, há vários setores no regime e há um setor de uma linha muito dura que provavelmente, se o deixarem ou se tiver a oportunidade para isso, a sua preferência iria no sentido de manter algum tipo de ação militar contra os Estados Unidos.

E convém lembrar que falamos aqui em seis dias de cerimónias fúnebres que decorrem em cinco cidades diferentes. Nessa linha do teu raciocínio, achas que estas cerimónias neste contexto e neste formato podem fragilizar de alguma forma o Irão? Ou seja, o país está mais à mercê de um novo ataque enquanto estiver ocupado com estas cerimónias?

Tenho dúvidas que seja exatamente assim. Acho que é uma questão legítima, mas à partida, eu diria que o fato também das cerimónias estarem a decorrer e todo este período também pode ser um sinal de que há aqui uma certa estabilização, um certo nível de segurança que permite que as cerimónias se realizem. Agora, parece-me que, nomeadamente esta ala mais dura, a Guarda Revolucionária e tudo isso, à partida terá algum empenho em participar, mas apesar de tudo, o que seria também mais uma vez racional era que pelo menos aqueles militares desta guarda pretoriana do regime, que no fundo é um segundo exército ainda mais bem equipado que o exército normal, convencional, que é responsável, por exemplo, pelos sistemas de defesa antiaérea, etc., ou pelos sistemas de mísseis ou drones que são usados para retaliar contra ataques dos Estados Unidos ou para algum tipo de ação ofensiva, que eles encarem essa missão como sendo também uma forma de homenagem ao líder falecido e imagino que não vão desmobilizar nesses setores mais vitais para a defesa ou até para o ataque, para a gestão militar da estratégia iraniana.

Creio que te recordarás já há mais de um ano que o enterro do Papa Francisco acabou na altura por representar quase que uma oportunidade de negociação entre Estados Unidos e Ucrânia. Essas imagens, de resto, correram o mundo. Em sentido contrário, mas seguindo a mesma lógica, sabendo da quantidade de países que se fazem representar nestas cerimónias fúnebres de Ali Khamenei, entre eles China e Rússia, seria surpreendente que o momento fosse também aproveitado pelo Irão para tentar negociar com estes países?

Não, por um lado, esse também é mais um fator que pode limitar as ações militares, pelo menos em áreas que se saiba onde estão a decorrer esse tipo de cerimónias, onde estão presentes esse tipo-

A presença desses países

...de delegações. Exatamente. Embora, mais uma vez, em relação a Israel, há sempre que ter algum cuidado, mas à partida não me parece que Israel também tenha interesse em hostilizar a China ou a Rússia, nomeadamente. Pelo contrário, até tem mostrado no passado algum interesse em Em manter as melhores relações possíveis com esses regimes. Nathaniel sempre foi muito pragmático na sua ação externa. Mas de facto há esse fenômeno, digamos que fizemos da diplomacia funerária, ou seja, em muitos casos, por exemplo, eu recordo quando foi do funeral de Nelson Mandela, foi uma ocasião para o presidente cubano da altura, Raul Castro, e o presidente dos Estados Unidos da altura, Barack Obama, trocarem um cumprimento e portanto isso foi um aspecto importante que foi depois destacado também para, no fundo, permitir o início de negociações discretas, que aliás envolveram o Vaticano, entre esses dois países. Portanto, realmente por vezes acontece informalmente, de forma discreta, sem haver necessidade de grandes comunicados, de grandes explicações, haver ou esses encontros ocasionais ou até serem organizados encontros bilaterais mais discretos. E portanto, sim, parece-me que é normal que o Irão procure aqui tentar perceber melhor o que é que pode contar do lado da Rússia, do lado da China, neste conflito em curso.

Olhamos também rapidamente para o conflito na Ucrânia. Surge hoje a notícia de que Kiev atacou uma fábrica russa de equipamentos para centrais elétricas em Belgorod. Ontem foi registado o maior ataque russo desde o início da guerra. Eu perguntava-te e apelava à tua capacidade de síntese, se esperas uma resposta forte nesta altura por parte de Volodymyr Zelensky.

A intenção de resposta forte certamente estará lá. O problema sempre, aliás, dos dois lados, é um pouco as capacidades, ou seja, isto corresponde a um modelo que desde o início eu fui sublinhando, que é: há um risco de escalada na resposta da Rússia? Há. Seria uma escalada completamente irracional, por exemplo, alargar o conflito, envolver países da NATO, etc. Sobretudo quando a Rússia continua com tantas dificuldades na Ucrânia. Mas eu não posso garantir que isso não aconteça, porque a própria invasão da Ucrânia não teve nada de racional, tendo em conta que a Rússia já é o maior país do mundo, não tem propriamente falta de território. A escalada que tem acontecido sempre, desde o início, é mais ataques, mais indiscriminados contra a população civil ucraniana. E aí, digamos, os limites não são os das leis da guerra, os crimes de guerra, são basicamente qual é o material que a Rússia tem disponível para fazer um ataque massivo. E infelizmente, a Rússia também tem investido em mais drones, em mais mísseis, em mais tropas, isso está com cada vez mais dificuldade na questão das tropas no terreno, como aliás a própria Ucrânia, mas aí tem investido mais. E portanto, a Ucrânia a mesma coisa, conseguiu agora recuperar alguma iniciativa massificando a produção de drones e também apostando alguma produção própria de mísseis de mais longo alcance. Certamente há um projeto, aliás, em curso com a Grã-Bretanha, chamado Backstop, para fazer produção de mísseis de alcance médio, digamos, que sejam a custo mais acessível, de produção mais fácil. Portanto, imagino que na medida em que a Ucrânia consiga intensificar estes ataques que já tem estado a fazer contra a infraestrutura crítica russa, que irá tentar também fazer isso.

Chegamos ao fim do nosso tempo, fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do historiador Bruno Cruz Reyes. Bruno, muito obrigado. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, disponível em podcast.

Obrigado.