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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno. Bem-vindo mais uma vez.

Boa tarde.

Começou a Conferência de Segurança em Munique. Já ouvimos as primeiras declarações da Ursula von der Leyen, J.D. Vance e Volodymyr Zelensky. Que sinais podem dar essas primeiras declarações?

Eu diria que são sinais muito preocupantes, em particular o discurso do vice-presidente dos Estados Unidos, que é um discurso absolutamente sem precedentes da parte de um representante dos Estados Unidos, numa conferência que foi criada há mais de seis décadas como um ponto de encontro entre os aliados da Europa Ocidental e os Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, para resistir às ameaças da ditadura soviética na altura. J.D. Vance passou o discurso todo a falar sobre supostas ameaças à democracia na Europa. Enfim, há aqui aspectos que podem ser discutidos e criticados. Eu próprio, por exemplo, aqui na Rádio Observador, comentei a questão da anulação das eleições na Roménia, que me pareceu uma reação exagerada. A grande preocupação do presidente americano quando há uma guerra em curso na Europa, uma agressão sem precedentes por parte da Rússia contra um país cujas fronteiras a Rússia garantiu, e os Estados Unidos também, em troca das armas nucleares que a Ucrânia tinha em 1994. Isso basicamente não é mencionado no discurso, a não ser para dizer que ele está confiante que haverá um acordo, a possibilidade de paz com a Rússia. E o grande problema são as supostas ameaças à democracia na Europa. Como disse o ministro da Defesa alemão a reagir a si, é um discurso absolutamente inaceitável, delirante, muito preocupante. Aparentemente, a prioridade dos Estados Unidos, que tem um presidente que é muito cioso da sua soberania e que não haja interferências nos assuntos internos americanos, é interferir nos assuntos internos europeus, interferir na política europeia, andar a escolher quem devem ser os líderes europeus. Aparentemente, têm de estar alinhados com as ideias de Donald Trump, em vez de se preocuparem em defender o continente europeu, onde, apesar de tudo, os interesses americanos me parecem bastante relevantes. Basta dizer que a maior parte dos estados norte-americanos continuam a exportar mais para a Europa do que para a China, e isso inclui um estado como a Califórnia, que está no Pacífico. Dois terços do investimento externo nos Estados Unidos são de países europeus, portanto, a destabilização da Europa parece-me que poderá ter algum impacto nos interesses norte-americanos. Mas aparentemente o vice-presidente americano acha que a grande prioridade é interferir na política interna dos países europeus.

De resto, a Ursula von der Leyen, no discurso que fez, sublinhou o apoio e a importância da União Europeia estar nas negociações de paz com Kiev. Foi também importante o encontro que foi mantido hoje entre Ursula von der Leyen, António Costa e também Volodymyr Zelensky.

Sim, é a voz da razão, ou seja, isso deveria ser evidente. Mais uma vez, é inconcebível e sem precedentes que os Estados Unidos estivessem a ponderar ou estejam a ponderar, vamos ver exatamente o que é que acontece, avançar com negociações que dizem respeito à Europa, em que aparentemente até já há esta ideia de que serão os europeus a garantir a segurança da Ucrânia, até com tropas, mas não falou antes com os líderes europeus, não discutiu antes essas propostas e nem sequer há garantias claras de que nessas negociações estarão presentes responsáveis europeus. Imagino os líderes dos principais países europeus mais diretamente envolvidos e também da União Europeia. Pelo menos passar essa mensagem de forma clara. Depois há esta questão do nível de apoio à Ucrânia. Aí realmente há muitas críticas também, ou autocríticas a fazer. Do meu ponto de vista, os europeus, também os norte-americanos, deveriam ter apoiado muito mais a Ucrânia, de forma muito mais decidida, muito mais cedo. Falamos aqui muitas vezes disso, essa questão de linhas vermelhas artificiais, etc. Mas a verdade é que isso não aconteceu. Agora o que há que fazer é procurar mostrar que, pelo menos do lado da Europa, continua a haver determinação em apoiar a Ucrânia na medida do possível. O problema é que sabemos que o possível para a Europa, sem os Estados Unidos, tem limitações importantes, sobretudo na dimensão militar, até em termos de capacidade de produção, etc. Mais uma vez, aí também há muito espaço para autocrítica, mas nesse momento as autocríticas têm o seu lugar, mas sobretudo é muito importante para a Ucrânia haver essa mensagem de que não foi completamente abandonada por todos os seus aliados ocidentais.

Sendo que nesta altura surge essa notícia de que o presidente da Ucrânia está reunido com o vice-presidente norte-americano. Bruno, queria perguntar-te até que ponto é que é percetível a estratégia dos Estados Unidos no que diz respeito a este conflito, porque por um lado temos os Estados Unidos a dizer e a ameaçar a Rússia com sanções, mas também a não manifestar um total apoio à Ucrânia. Conseguimos perceber qual é a estratégia norte-americana?

Não parece que haja aqui nenhuma estratégia que faça sentido, a não ser fazer uma paz a todo o preço com a Rússia, que é um país cujo líder, Vladimir Putin, anda há muitas décadas a deixar muito claro que o seu grande objetivo é o mais possível minar a influência, o prestígio e o poder dos Estados Unidos, é o mais possível dividir o Ocidente. Os comentadores da propaganda russa na televisão russa passaram os últimos dias a gabar a eficácia de Donald Trump em fazer precisamente isso. Acho que este discurso de J.D. Vance também na Conferência de Segurança de Munique é mais um exemplo disso. Ou seja, são os próprios Estados Unidos, que tradicionalmente eram os garantes dessa coesão e da força do Ocidente, que parecem ser os principais promotores, neste momento, da sua divisão Enfraquecimento. É a situação em que estamos atualmente.

Bruno, vamos também olhar rapidamente para a situação no Médio Oriente, na véspera em que serão libertados mais três reféns pelo Hamas. Uma libertação que esteve em vias de não acontecer e o próprio cessar-fogo esteve em causa ao longo desta semana. Com a libertação destes reféns, fica resolvido este irritante relativamente ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas?

Não, acho que íamos de irritante em irritante. Há claramente muitas dúvidas sobre quantos reféns é que ainda estão vivos. Esta insistência de Israel nesse ponto é bastante reveladora e se não houver muitos mais reféns vivos, isso certamente tornará a viabilidade do acordo muito mais complicada. Temos também tensões provocadas no Líbano, em relação ao cessar-fogo no Líbano, com acusações cruzadas sobre condicionamento de voos, Israel a dizer que os voos civis são usados para fornecer armamento ao Hezbollah. Realmente não só em relação ao Hamas, mas mesmo em relação ao Líbano, onde a situação parecia estar um pouco mais estabilizada, os riscos para a continuação do cessar-fogo vão continuar a existir. Esperemos que seja possível ir resolvendo esses irritantes e que seja possível continuar com este cessar-fogo, que vai permitindo, pelo menos para já, a libertação de reféns e também alguma assistência humanitária em melhores condições para a população civil em Gaza.

Mas esse cessar-fogo pode estar em risco, tendo em conta também que o gabinete de Netanyahu recusou confirmar a um jornal israelita se essa libertação prevista para amanhã poderia significar continuar ou não o cessar-fogo, ou seja, apesar de haver alguma libertação de reféns, esse acordo pode estar em causa?

Neste momento, esse é o principal motivo pelo qual o cessar-fogo continua a existir, pelo menos do lado de Israel, até porque deixou haver pressão dos Estados Unidos nesse sentido. Havia uma pressão fortíssima, permanente e pública dos Estados Unidos no sentido de se conseguir um cessar-fogo. Quando Donald Trump isso deixou de existir, pelo contrário. No fundo, aqui a grande pressão, a grande motivação do lado do governo de Israel é a pressão que existe na opinião pública, até tendo em conta realmente a enorme fragilidade dos reféns que foram entretanto libertados, no fundo tentar conseguir o mais possível a continuação de libertação de reféns. Agora, como dizias, é revelador que Israel continue a insistir em manter esta incerteza. Aqui também há muito esta postura, que é um dado permanente também da parte do governo Netanyahu e que parece por vezes ter sido validado, que é que só é possível obter algum tipo de compromisso da parte do Hamas se for sob uma enorme pressão, ou seja, se realmente o grupo tiver um enorme incentivo, sendo que do outro lado a possibilidade é a retomada de operações militares contra o grupo. Isso parece realmente ter sido validado por aquilo que tem acontecido no terreno ao longo dos últimos tempos.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por teres vindo a mais um "Gabinete de Guerra", que está de regresso na próxima segunda-feira. Bom fim de semana.

Obrigado.