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E começa agora o novo gabinete de guerra esta manhã com a análise de Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Lusíada. Muito bom dia, muito obrigada por estar conosco.

Olá, bom dia.

Bom dia. Arranca hoje mais uma ronda de negociações à procura de chegar a um acordo de cessar-fogo em Gaza. As delegações mediadoras do Egito, Estados Unidos e do Catar reúnem-se no Cairo com a parte israelita. Mas professor, depois do Hamas dizer que a última proposta de trégua é um golpe e a luz verde americana para Israel continuar a guerra, parece-lhe que há condições para uma resolução rápida?

Marisol, eu acho que não vai haver acordo e até porque ontem tivemos dois sinais que são preocupantes. Tivemos Blinken a ir ao Egito e a Marisol reparou, não há comunicação oficial do Estado egípcio com relação ao que foi discutido. Há uma declaração vazia em que o Egito fala de que Blinken falou com o presidente Sisi, o que nós vimos nas imagens, de resto, mas não há propriamente uma declaração em que se diga, por exemplo, que o Egito aceita a proposta tal como está e o mesmo com relação ao Catar. E, portanto, do Catar aquilo que saiu, aliás, foi uma reafirmação de que o Catar continua como mediador, o que nos dá a entender que terá havido um momento em que o Catar terá ameaçado sair do jogo de mediação e, portanto, esta proposta não agrada nenhuma das partes e em particular a permanência das tropas israelitas no corredor de Filadélfia é algo que nós sabemos agora não agrada nem ao Egito, nem ao Hamas.

Entretanto, Israel recuperou os corpos de seis reféns num túnel em Khan Yunis, mortos durante o cativeiro em Gaza. Os familiares culpam Netanyahu pela falta de interesse em chegar a um acordo com o Hamas. Considera justa esta acusação quando foram feitos reféns pelo grupo extremista?

Mas a impacte é justa, porque a verdade é que nas várias hipóteses em que Netanyahu teve para fazer acordos, não o quis fazer para prolongar a guerra, para manter uma dinâmica militar, mesmo tendo nós já percebido que apesar do serviço de informação e inteligência de Israel ser muito avançado, a verdade é que ao final de 10 meses continuam sem conseguir saber onde é que estão os prisioneiros, quem é que os tem. Nós não podemos esquecer que Israel é o mesmo Estado que uns anos antes trocou um refém por mil prisioneiros palestinianos. Nesta fase, a fórmula não era tão generosa. A fórmula era um por cada quatro.

Mas estas notícias depois também não dão muita esperança de encontrar os restantes reféns com vida, não é?

Não dá, mas também há agora um sinal, e isso aí ontem à noite, se não me engano, até foi no New York Times, de que dos seis corpos encontrados, quatro terão morrido por sufocação e há a possibilidade de que essa sufocação tenha sido resultado da operação em curso pelas IDF, que costumam usar gás lacrimogêneo para entrar nos túneis e para obviamente obrigar à fuga dos operacionais do Hamas. E, portanto, há aqui a hipótese de, inadvertidamente, obviamente, terem sido mortos por aquilo que se chama fogo amigo.

Sim. Entretanto, o Hezbollah reivindicou mais um ataque ao norte de Israel, perto da fronteira com o Líbano. O grupo armado disse ter disparado contra soldados israelitas. Tiago André Lopes, isto são apenas testes para uma maior ofensiva. Acredita que o Irão ainda irá retaliar, como disse que o faria?

Acredito que o Irão ainda irá retaliar e que a partir de hoje a hipótese da retaliação se torna mais real, não por causa do que está a acontecer no Cairo. Eu acho que a hipótese das negociações, quer no Cairo, quer em Doha, correrem bem é muito baixa, mas porque o governo do Irão é hoje votado formalmente e toma hoje posse formalmente. Daqui para a frente, o Irão já não tem qualquer tipo de restrição do ponto de vista constitucional a fazer uma retaliação, que mesmo que seja calibrada, pode levar a uma escalada regional e numa escalada regional, o Irão terá que ter um governo plenamente empossado, porque um governo interino como o do Líbano, tem poderes limitados e essa é uma dimensão. E aliás, foi bastante curioso que no domingo, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, que se propõe agora a essa posição, entre várias coisas, disse duas em particular. Falou do direito do Irão à retaliação e falou também das prioridades estratégicas do Irão do ponto de vista diplomático. As prioridades são retomar relações e fortalecer relações com Estados como a Rússia ou a China, reconstruir o Irão no seio da comunidade islâmica árabe ou persa, e só em terceiro lugar, restabelecer pontes com o Ocidente. E isso dá-nos muito conta daquele que é o Irão que nós vamos ter daqui para a frente.

Na Ucrânia, Zelensky quer que os vários milhões de homens entre os 18 e os 60 anos que saíram da Ucrânia no início da guerra regressem ao país para se alistarem no exército e pediu ajuda aos aliados europeus. Professor, é uma decisão fácil e um processo simples para os aliados que acolheram essas pessoas há mais de dois anos?

Não, e aliás, os aliados têm que ter cuidado com duas coisas. Por um lado, do lado da Ucrânia, e nós temos que ser muito claros com relação a isso. A percepção que fica é que, de facto, há escassez de homens, porque se não houvesse escassez de homens para combater, não havia esse tipo de pedidos. Por outro lado, o princípio do não-reenvio, o não-refouma, é um princípio do direito internacional no que toca às migrações e neste caso é uma migração forçada por conflito. E, portanto, é preciso ter em conta que qualquer mecanismo de tentar forçar a população a sair do seu território pode, salvo disso, roçar em princípios de alguma ilegalidade ou de menor legalidade. E, portanto, os parceiros europeus podem ter aqui mãos atadas. Nós sabemos que já tinha havido pedidos similares no passado, pedidos de que, por exemplo, não fossem renovados processos administrativos para forçar os cidadãos a terem que ir à Ucrânia e ao voltarem ao solo ucraniano, depois não poderem sair. Mas é um sinal de que a guerra está, de facto, a complicar e de que o cenário nos próximos meses vai ser complexo e doloroso.

Entretanto, Zelensky agradeceu ao Parlamento por aprovar uma lei para a independência espiritual. Tiago André Lopes, que projeto de lei é este que, segundo o presidente, vai contribuir para fortalecer a sociedade ucraniana?

É um projecto de lei que vai permitir uma coisa: as ligações à Igreja Ortodoxa Russa vão ser juridicamente cortadas. E não só à Igreja Ortodoxa Russa, mas a outras igrejas não nacionais. É um projeto perigoso em duas dimensões. Por um lado, do ponto de vista democrático, esta coisa dos caminhos únicos é sempre um perigo enorme e a União Europeia deveria, se de facto fosse um aliado credível e não estivesse a bens como está neste momento, deveria vir a jogo e dizer a Zelenskyy que este é um mau projecto de lei. Este projecto de lei não é assim tão diferente daquela lei dos agentes externos que na Geórgia e na Rússia foi implementada e que nós, União Europeia, criticámos de forma tão contundente. Agora, quando há uma lei similar para uma dimensão tão sensível como a dimensão espiritual, parece-me que estamos a brincar com o fogo do ponto de vista até de uma rejeição de parte da população, porque as questões de fé não se vão agora mudar rapidamente só porque juridicamente e politicamente Zelenskyy quer uma visão unilateral da coisa. E este tipo de jogadas começam a ter um custo demasiado alto que Kiev deveria ponderar duas vezes. Aliás, as críticas que estão a sair a esta lei, não só obviamente os oficiais russos que eram esperados, mas também, por exemplo, da Igreja Ortodoxa da Arménia ou da Igreja Ortodoxa Grega, não são poucas e não são críticas que devam ser ignoradas.

Importa também falarmos da Alemanha, o segundo maior apoiante financeiro da Ucrânia, a seguir aos Estados Unidos, que há dias disse que iria cortar o financiamento já no próximo ano. Mas ontem Olaf Scholz veio dizer que sim, que a Alemanha é e continuará a ser o principal apoiante na Europa, apesar dos cortes orçamentais previstos para 2025. Tiago André Lopes, em que é que ficamos? O que é que Zelensky deve esperar?

Marijana, essa é a questão para a qual até eu tenho tido dificuldade em acompanhar neste momento o cenário político, porque nos últimos dias nós vimos uma luta no Parlamento alemão que é difícil de compreender. Por um lado, o ministro da Economia diz que não vai haver mais gastos com a questão ucraniana. Por outro lado, quer o chanceler Scholz, quer a ministra dos Negócios Estrangeiros a defenderem que há a necessidade de a Alemanha continuar a ser o maior aliado da Ucrânia. Esta questão de ser o maior aliado do ponto de vista financeiro é provável que venha a ser verdade. Ao mesmo tempo, vai haver cortes, porque a ideia que se começa a ter é que vários países do espaço europeu se preparam para reduzir o montante de ajuda à Ucrânia. Por isso, aliás, que vários analistas, e eu faço parte desse grupo, têm dito que o espaço para Zelensky ir para a mesa negocial de forma fortalecida é o atual e não continuar a protelar com negociações em que a Ucrânia poderá ir para a mesa num cenário muito mais desfavorável. Não esquecer de duas coisas: apesar do sucesso da incursão em Kursk, há um quase completo colapso do que está a acontecer em Donetsk e na frente diplomática, a Ucrânia, neste momento, não está a somar vitórias. A Ucrânia viu o Mali e o Níger cortarem formalmente qualquer tipo de relação com a Ucrânia e o Burkina Faso fez reclamação sobre os actos que a Ucrânia vai apoiando para combater o grupo Wagner em solo africano.

Olhemos também para os Estados Unidos. Ontem, Barack Obama discursou na Convenção Nacional Democrata, onde o partido oficializou a nomeação de Kamala Harris, que para o antigo presidente é a única escolha possível para suceder a Joe Biden na Casa Branca. Professor Tiago André Lopes, o que destaca deste segundo dia de convenção democrata?

Foi acima de tudo importante por duas razões. Ponto um: no primeiro dia ficou-se muito afastado desta questão do legado de Joe Biden, da despedida de Joe Biden. Ontem foi o dia do lançamento de Kamala Harris. Foi o dia do lançamento, finalmente, da candidata Kamala. Continua a haver aqui uma fragilidade, e eu já chamei a atenção para isso noutro meio de comunicação. Kamala ainda não nos apresentou ideias. Nós não sabemos qual é, de facto, a agenda de Kamala Harris. Nós não sabemos quais são as prioridades. Nós não sabemos que ideias políticas é que Kamala tem. E eu sei, até porque tenho colegas nos Estados Unidos que nos dizem que, ao contrário do que nós achamos, as questões externas não são relevantes para efeitos de campanha, não são relevantes para efeitos de eleição. Portanto, essa é uma questão. Ontem foi também importante por uma questão: Michelle Obama e Barack Obama são pesos pesados, têm imenso espaço, não só na televisão, como também têm impacto nas redes sociais. Conseguem chegar a um eleitorado mais jovem, algo que quer os democratas, quer os republicanos têm tido muita dificuldade. Portanto, eu destacava acima de tudo o uso destes trunfos pesados para tentarem chamar a atenção de eleitorados que estão desligados ou até estão desinteressados do jogo, mas nada disto nos faz também esquecer a outra dimensão. Os protestos pró-palestinianos acabaram por marcar também a convenção e alguma divisão interna dos democratas, o que difere, de resto, do ambiente um pouco mais pacífico da convenção republicana.

Tiago André Lopes, muito obrigada pela sua análise. Bom dia, professor.

Obrigado eu.