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Muito bom dia. Abrimos agora o novo gabinete de guerra das manhãs 360. Hoje com a análise e opinião do major general João Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. General, bom dia, bem-vindo e muito obrigada por se juntar a nós.

Muito bom dia.

Muito bom dia. General, a Rússia ameaçou atacar os centros de tomada de decisão de Kiev, se a Ucrânia usar mísseis fornecidos pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido contra a península ocupada da Crimeia. Shoigu disse mesmo que o uso marcaria o total envolvimento do Ocidente no conflito. Quando falam aqui em centros de tomada de decisão, pode querer dizer Volodymyr Zelensky? Isto é mesmo uma ameaça?

É mesmo uma ameaça e pode querer dizer, naturalmente, aquilo que são os centros de decisão em Kiev.

A pessoa, o alvo é Zelensky.

Ele não o disse e, portanto, aquilo que ficou subjacente, até na sequência da entrevista que ele tinha dado no dia 3 aos jovens bloggers, ele disse na altura que quando quisesse e quando houvesse ameaças, ele também destruiria os tais centros de decisão. Não foi agora só o ministro da Defesa, o próprio presidente naquela entrevista de três horas, já o tinha dito, até porque os bloggers nacionalistas estavam a pressionar, pelos vistos, nesse sentido. Por que a Rússia não destruía? Até porque já tinha havido dois drones ucranianos que tinham estado no Kremlin. Por que também não estariam no edifício presidencial ou nos edifícios ministeriais de Kiev? Portanto, é mais nessa linha do que propriamente a pessoa em si, porque seria criticado pela comunidade internacional de uma maneira veemente se dissesse o nome de Zelensky.

Claro. Entretanto, general João Vieira Borges, Lula da Silva vai ser hoje recebido pelo Papa Francisco, no Vaticano. Espera-se que o presidente brasileiro apresente iniciativas para acabar com a guerra na Ucrânia, que passam pela criação de um grupo de países que possam mediar e levar Kiev e Moscovo à mesa das negociações. Lula, de facto, tem feito este caminho com obstáculos criados, às vezes, por ele próprio, mas desta vez envolve o Papa. O que pode o presidente brasileiro propor a não ser convidar as duas partes a sentarem-se à mesa, o que parece altamente improvável?

Eu penso que, tendo em conta a relação pessoal de grande respeito e consideração invulgar, até, as palavras do Papa relativamente ao presidente brasileiro aquando das eleições. E foi uma aproximação pessoal que neste cenário é muito útil para haver maior força naquilo que é o esforço de Lula da Silva para a paz. Nesse sentido, aproveitou essa mais-valia que tem a ver com uma série de países católicos, profundamente católicos, que se podem juntar, independentemente das ideologias mais ou menos de esquerda ou de direita, ou seja, o tal Sul global. É importante, ele percebeu que a iniciativa africana também teve alguns pontos positivos. Eu julgo que ele é capaz de trazer mais-valias para todo este processo, ou seja, também já teve aprendizagem ao longo destes dois ou três meses e julgo que é sempre positivo. E acho que é uma boa oportunidade por várias razões.

Entretanto, a Ucrânia diz estar a ganhar terreno na região de Zaporizhzhia, em particular nas cidades de Melitopol e Berdyansk. Um porta-voz das forças ucranianas dá conta de um sucesso parcial. Faz sentido ir comunicando estas pequenas conquistas ou estamos a falar de conquistas realmente significativas? Todas elas são importantes.

Não são significativas, mas faz sentido.

Claro.

Faz claramente sentido, não só para a comunidade internacional, mas para ter a iniciativa da comunicação. Isto é muito importante. A Ucrânia percebeu, e foi altamente criticada por isso, que nos primeiros tempos da ofensiva, sobretudo a primeira semana, era ultrapassada pela iniciativa de informação e contrainformação da parte da Rússia. E nós só ouvíamos uma das partes, que ainda por cima só falava em destruição e morte de ucranianos. É bom que haja este tipo de informação, independentemente, nós temos a noção, todos aqueles que acompanham a guerra, de que efetivamente as conquistas são muito reduzidas a troco de vidas humanas consideráveis, números consideráveis, mas que é uma demonstração de que efetivamente está com coragem, com determinação a tentar conquistar o seu território que foi ocupado. Isto é muito importante passar permanentemente esta mensagem para o mundo e sobretudo, também, para quem no interior está a lutar e a morrer, e precisa de ter esse incentivo, seja quem está em Bakhmut, seja quem está em Zaporizhzhia. Ontem eu vi um dos soldados numa entrevista muito interessante, um militar muito simples, não era oficial e para ele era muito importante saber que em Bakhmut estavam a ter sucesso e ele estava em Zaporizhzhia. Isto tem uma influência muito grande na tropa em termos de motivação. Eu acho que é uma boa opção ir transmitindo, sobretudo quando há sucesso, independentemente de serem mais ou menos reduzidos.

E vem aí a Cimeira da NATO, é uma cimeira muito importante quando a Ucrânia quer, pelo menos, garantias de uma maior aproximação da organização ao país e onde se vai falar seguramente do apoio à Ucrânia. Uma cimeira num momento particularmente difícil sobre o que acontece no terreno. General, o que pode trazer de novo esta cimeira na Lituânia e que dificuldades podem surgir entre os países presentes?

A cimeira o que está a trazer é uma nova forma de De mostrar esta aproximação da Ucrânia. Independentemente de já se ter assumido que não pode fazer o convite para a entrada da Ucrânia diretamente, não há condições, não há enquadramento legal, e nesse sentido, a criação do Conselho da Ucrânia-OTAN é já por si muito importante, até porque vai colocar a Ucrânia em pé de igualdade com os aliados na consulta e na tomada de decisões. Depois, vamos ter ali umas novidades da componente militar. O SACEUR, que tem agora 40 mil homens e tem mais de 100 aeronaves e 25 navios sob controle permanente, portanto, isto é muito importante. E depois a capacidade de exercer controle sobre forças noutros domínios, também vamos ter ali umas novidades. Nós ainda não sabemos.

Não pode ser, exactamente.

Eu vou tendo algumas informações, mas são reservadas.

Claro, compreendo.

Vamos ter ali algumas informações. O modelo de geração de forças novo, com emprego de várias nações, uma estrutura nova de C2, de command control, vai redefinir os quartéis-generais. Também vamos saber ali algumas coisinhas novas. A questão do multidomínio vai aparecer ali, também em termos de doutrina. Vão aparecer muitas coisas sobre forças de operações especiais da NATO, cibernéticas, forças espaciais. São coisas que nós andamos a ver, quem está mais próximo da NATO, são mais essas novidades. Em termos políticos, vai ser o apoio determinado, a criação do Conselho Ucrânia-OTAN. Isso, no fundo, vai ao encontro da sua questão, Marisol. Mas os outros aspectos também vão aparecer, como demonstração de capacidade, de força, de dissuasão. A nova dissuasão, que em termos teóricos andamos todos a discutir, porque a antiga dissuasão já percebemos que não funciona com uma potência nuclear numa guerra clássica, que é aquela que nós estamos a ter agora.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigada por ter se juntado a nós neste Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia para si, general.

Bom dia, bom trabalho.

Muito bom dia, obrigada.