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Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro. Comigo hoje está Luiz Tomé, professor catedrático e diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Bem-vindo a este Gabinete de Guerra. Vamos começar esta edição com a investigação que estalou ontem, divulgada no jornal Haaretz, e coloca em causa algumas das decisões de Benjamin Netanyahu na liderança de Israel. Ora diz esta investigação, feita por dois jornalistas que citam fontes governamentais de diferentes países e fontes ligadas a este processo, indicam que Benjamin Netanyahu foi avisado pelos Emirados Árabes Unidos que o Hamas estaria a preparar o ataque de 7 de outubro e que esses avisos surgiram 10 dias antes do ataque e foram desvalorizados por Benjamin Netanyahu. Entretanto, já Benjamin Netanyahu disse que iria avançar com processo com o Haaretz, pediu para a publicação ser retirada. O jornal Haaretz, um jornal israelita, não retirou essa investigação. O livro também vai ser publicado. Entretanto, tem aqui, Luiz Tomé, Benjamin Netanyahu um problema entre mãos, porque de facto, logo quando estalou essa crise dos ataques do Hamas a Israel, surgiram algumas dúvidas sobre se as forças israelitas sabiam ou não desse potencial ataque e como é que tinham agido. E agora há esta investigação muito sustentada a pressionar o líder israelita.
Olá, boa tarde. Sim, eu acho que é uma crise política muito séria que ameaça naturalmente o governo e o primeiro-ministro, até tendo em consideração que dentro de pouco tempo ele vai a eleições e o seu partido Likud retoma uma velha suspeita e discussão, desde logo a Israel, porque logo que ocorreram estes ataques terroristas do Hamas, o Estado Islâmico em 7 de outubro de 2023 se questionou como tinha sido possível. E o facto é que o próprio primeiro-ministro Netanyahu nunca permitiu que se avançasse com uma investigação independente total, alegando as circunstâncias de conflito, de guerra e de ameaça que sofriam. E ele próprio agora, para além do processo de difamação contra o jornal israelita Haaretz e os repórteres, numa lógica de desviar as culpas, negando aliás toda a informação que o jornal reportou, o que ele acabou já por dizer é que as falhas desse atentado terrorista de 7 de outubro recaem sobre os chefes de segurança das Forças de Defesa de Israel, as IDF, e os serviços de informações do Shin Bet. E que estes sim, diz ele, é que tinham indícios horas antes dessa ocorrência e que optaram por não o informar a tempo. Portanto, a verdade é que continua por ser feita essa investigação independente, continua o primeiro-ministro sem esclarecer exatamente e sem permitir que se perceba exatamente o que é que falhou de forma tão clamorosa. E agora, aparentemente, ele próprio uns dias antes, no final de setembro, teria sido informado e avisado pelo líder dos Emirados Árabes Unidos. E ele não só desvalorizou como não passou essa informação para o serviço de segurança israelita. E claro, isto é uma situação delicada. Ele é muito hábil a gerir politicamente, mas não creio que se consiga livrar mais uma vez de todas as suspeitas que recaem sobre as suas próprias responsabilidades, que como se vai percebendo, não resultam apenas de algum desmantelamento e mudanças políticas que ele fez nas Forças Armadas e nas Forças de Segurança Israelitas nos meses que antecederam os ataques do Hamas de 7 de outubro.
E há eleições em Israel muito em breve.
E ele pode pagar essa fatura politicamente, embora saibamos que ele é um sobrevivente. Muitas vezes parece completamente posto de parte a continuidade e ele consegue sobreviver, até nos lembremos que tem processos, inclusive de corrupção, que continua a escapar. Mas se a população e o eleitorado israelita derem credibilidade a este tipo de informação, e estamos a falar de um jornal israelita que apesar de tudo é respeitável, embora possa sempre haver a suspeita de que esta informação surge por motivações políticas visando o primeiro-ministro Netanyahu e tentando impedi-lo de voltar a ganhar as eleições. Mas seja como for, vai muito depender daquilo que a população israelita assume com essas informações e dá ou não maior responsabilidade ao primeiro-ministro Netanyahu. Isso ele vai ser testado politicamente no resultado das eleições que vêm aí.
Mas Netanyahu já disse hoje que há uma interferência estrangeira descarada nestas eleições e aponta diretamente para este caso.
Pois, ele consegue argumentar e tem dado múltiplas explicações para desviar a informação. A informação é de um jornal israelita, de repórteres israelitas, com base numa investigação de israelitas, que aliás vão publicar um livro citando centenas de fontes e várias que confirmam esta informação. Claro que ele recusa, mas eu acho que ele está perante uma das crises políticas, pelo menos em termos de responsabilidades próprias sobre o 7 de Hamas, de que dificilmente conseguirá escapar completamente imune e que, de facto, podem prejudicá-lo gravemente nas eleições que vêm aí já em outubro.
Eleições no final de outubro em Israel. Vamos falar do conflito na Ucrânia, porque há hoje uma notícia que aponta para escassez de alimentos e inflação em território ucraniano. Inflação é algo que se tem registado desde o início do conflito e é natural que isso aconteça, é um dos efeitos económicos também dos conflitos armados. Mas esta escassez de alimentos surge quase como uma novidade Até pelo impacto que pode ter para este conflito. Mas é reportado que há escassez de alimentos nos supermercados na Ucrânia e que o país está a enfrentar cada vez mais dificuldades para os armazéns de alimentos e para as cadeias de abastecimento logístico em várias cidades. Isto pode ser, de facto, um problema também para este período de inverno que se aproxima. Na Ucrânia, no início deste conflito, uma das preocupações era deixar de existir cereais e alimentos produzidos na Ucrânia para exportar para o resto do mundo. Foram encontradas soluções para isso, articuladas até com a Rússia, mas esta escassez de alimentos diretamente em território ucraniano pode ser um problema para Zelensky nos próximos meses?
É, certamente para os ucranianos e para o presidente Zelensky. Ainda bem que o Observador dá a atenção devida a este assunto, porque temos falado várias vezes dos ataques russos às infraestruturas energéticas e sempre aos rigorosos invernos, como aquele que aí vem se repetirá. Mas a verdade é que a escassez e a insegurança alimentar na Ucrânia não resulta da incapacidade de produção do país. A Ucrânia continua a ter capacidade de produção agrícola e, portanto, a escassez e a insegurança alimentar é da destruição da cadeia logística, da infraestrutura civil e dos armazéns e, portanto, das redes de retalho de abastecimento. E, em particular, segundo o próprio Programa Alimentar Mundial, naquelas cidades e regiões da linha da frente. Por exemplo, nós estamos a falar de níveis críticos nas províncias de Kherson, em que nós temos insegurança alimentar que afeta mais da metade da população, Zaporizhzhia 42%, Donetsk 40%. E, por outro lado, associado a esta dificuldade de abastecimento, em particular de cidades próximas da linha da frente, que são particularmente as suas infraestruturas fustigadas, temos uma inflação crescente, genericamente 2,5% a nível nacional, mas com picos que podem chegar até 15%. E por alguma razão, o próprio serviço estatal da Ucrânia para a segurança alimentar emitiu uma diretiva para que a população tenha uma reserva de alimentos não perecíveis e água potável para sete a 10 dias. Claro, desencorajando tudo que sejam compras em pânico, mas é uma situação que está a afetar cada vez mais pessoas no interior da Ucrânia e é um reflexo direto de uma estratégia russa que também visa infraestruturas de abastecimento energético e sempre a tentar quebrar o ânimo da população civil, procurando ter efeitos do ponto de vista estratégico e de pressão sobre a liderança política ucraniana.
Sim, vamos ver efetivamente como é que corre também este processo, até porque não é propriamente uma escassez de alimentos, mas uma escassez ou uma dificuldade de os transportar em território ucraniano e fazê-los chegar às cidades com maiores dificuldades. Ainda assim, essa questão do inverno rigoroso que a Ucrânia tem enfrentado todos os anos neste conflito, com problemas no setor energético. Há agora problemas no setor energético para muitos mais países, não pela escassez em si, mas pelo custo. Os preços de gás na Europa estão a atingir máximos dos últimos três anos devido ao conflito do Médio Oriente. O preço do petróleo volta a ultrapassar os 100 dólares por barril, primeira vez desde julho, mas já aconteceu algumas vezes este ano e pode voltar a acontecer. E para além destes preços no barril de petróleo, há ainda a escassez na produção de petróleo e cada vez menos capacidade também nessa produção. Tudo isto é um impacto econômico da guerra. Podemos tratar desta forma, principalmente do conflito no Médio Oriente, mas o conflito na Ucrânia também tem impacto nesta questão dos preços, do custo dos combustíveis e da energia, porque há várias sanções à Rússia. De que forma é que esta subida galopante dos custos com a energia para a população pode levar a um desfecho mais rápido da guerra? Ou seja, há ou não, ou pode haver um aumento de pressão para conseguir resultados diplomáticos?
A pergunta é muito bem colocada e colocando o termo "pode", a resposta só pode ser pode. De facto, a pressão, inclusivamente sobre os beligerantes e aqueles que procuram diplomaticamente uma solução, pode acelerar e chegar finalmente ao ponto de encontro para uma solução diplomática. Mas a verdade é que isto é uma faca de dois gumes ou uma moeda com duas faces, porque, por outro lado, o que nós estamos a perceber é que esta pressão econômica, esta escalada dos preços designadamente na energia, é usada pelos próprios beligerantes como arma de desgaste econômico recíproco, mútuo. E isto significa que, em vez de acelerar uma solução diplomática, pode vir a agravar ainda mais esta escalada. Sobretudo, porque agora nós estamos a entrar neste ecossistema do impacto econômico, já não apenas tudo o que envolve a guerra Estados Unidos e Irão e o estreito de Ormuz, mas o escalar do conflito interno dentro do Iêmen e entre os Houthi e a Arábia Saudita pressionando o outro estreito, Bab-el-Mandeb, e indiretamente o Mar Vermelho e até o próprio canal do Suez.
E com ataques diretos à indústria petrolífera, com ataques diretos, por exemplo, à Aramco, nesta indústria importantíssima também para a Arábia Saudita.
Exatamente. E portanto, aquilo que temos visto no estreito de Ormuz, nós começamos a ver rapidamente a escalar e a replicar-se de algum modo no Mar Vermelho e sobre o estreito de Bab-el-Mandeb E se é verdade que a administração, e em particular o presidente Trump, tem gerido o conflito e os timings de ataques, de retaliação, de mensagens, para tentar manter os preços, designadamente do petróleo, abaixo dos US$ 100 do barril. Nós vemos frequentemente certas mensagens em certos momentos para fazer baixar, mas se juntarmos a equação mais difícil de controlar por Washington no Iémen e Houthis versus Arábia Saudita, que agora tem uma aliança tripartida formal com o Paquistão e com a Turquia, a situação pode, de facto, levar a um agravamento e a uma escalada contínua dos preços da energia de uma forma menos controlada. Esse é o drama em que estamos. Podemos ter uma pressão que leva a uma solução diplomática mais próxima. É verdade que isso pode até criar muita pressão diretamente sobre Teerão e sobre Washington, mas pode ter também um efeito contrário e mais descontrolado. Neste momento, ninguém sabe, os mercados são muito sensíveis à incerteza e à volatilidade, e é neste pântano que, infelizmente, ainda continuamos. Eu tenderia a ser mais pessimista nos próximos dias do que otimista, achando que vem aí uma solução próxima.
Era a minha próxima questão da experiência que tem, Luís Tomé. Se nós tivemos negociações entre Rússia e Ucrânia este fim de semana, mas que não produziram grande coisa, e não há propriamente negociações à vista com o objetivo de final de conflito nos próximos dias. Esta pressão que poderia existir, não parece estar a existir.
Não. E o meu relativo pessimismo, se tivesse que colocar as coisas nestes termos, resulta precisamente de uma volatilidade e incerteza maior associada a este novo conflito que temos no Iémen e dos Houthis com a Arábia Saudita, porque mesmo do ponto de vista militar, esta escalada no Iémen não parece que proximamente possa resultar numa vitória clara de um dos lados e na capitulação do outro. E mesmo entre os Houthis e a Arábia Saudita, a Arábia Saudita é de novo arrastada para o conflito que achava que tinha fechado com o acordo que foi feito em 2022.
Sim.
E portanto, para além do problema que temos, que vem desde 2022, na guerra da Ucrânia, que não se presume que venha a ter uma solução de paz próxima, para além do que já temos no Estreito de Ormuz, agora juntando este fator, por muito que queiramos ser otimistas e até os mercados que possam estar a aguardar, é volatilidade e incerteza a mais, no imediato, a médio e longo prazo, para podermos ser otimistas. Mas enfim, é uma questão de fé e de esperança, mas sendo realista, também sou um pouco mais pessimista neste quadro atual do que otimista.
Aguardemos para perceber efetivamente que desfechos podem ter esses esforços diplomáticos no futuro. Luís Tomé, tínhamos ainda os colonatos israelitas e a situação na Cisjordânia para abordar. Fica para uma próxima oportunidade. Muito obrigado, Luís Tomé, por esta análise no Gabinete de Guerra.
Eu é que agradeço. Boa tarde.