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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, a segunda edição do dia. Contamos agora com a análise do professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Obrigado por estar com a Rádio Observador. Professor, tivemos eleições em Israel sem um vencedor evidente, um impasse entre Eisenkot e um Netanyahu sem maioria e em gestão. Quando se tem um Israel politicamente fragilizado, isso é mais ou menos perigoso para a região?

Boa tarde, Miguel. Realmente, o ponto de partida é que ninguém tem maioria, ninguém tem as condições imediatas para governar, pelo menos sozinho. Netanyahu ganhou, é certo, mas Eisenkot tem uma melhor posição para ser convidado pelo presidente a formar o governo e temos aqui quatro, seis semanas de negociações pela frente e não podemos dizer que estão excluídas novas eleições. Os números vão mudando, vamos atualizando, depois já verificamos que os partidos árabes podem ser decisivos. E isto para a região, o que poderá implicar? Nós temos Netanyahu em gestão e com pressa de apresentar resultados para ter eventualmente uma mobilização do eleitorado e o caminho se calhar mais seguro através de um incentivo à ameaça à segurança e à necessidade de uma ação militar que de certo modo o possa favorecer. Isto obviamente coincide com relatos de ofensiva preparada pelos Estados Unidos e Israel para depois das midterms, mas também vai tendo alguns sinais dos quais eu saliento que alguns caças entraram em espaço aéreo iraniano. E ficou muita dúvida se seria como provocação para exatamente motivar essa ação militar iraniana e colocar uma ameaça de segurança que pudesse beneficiar Netanyahu, ou foi só apenas para testar meios de defesa aérea iraniana e isso faz parte da preparação para o conflito. Por outro lado, o governo de Eisenkot, eu julgo que mudaria mais o método do que propriamente o objeto. Ele não é propriamente uma pomba, é um ex-chefe de Estado-Maior, mas acredito numa maior coordenação com Washington e com os parceiros do Golfo e também um pouco mais espaço para a diplomacia. Agora há impactos globais e muito rapidamente salientava apenas dois, que é nitidamente o ex-Trump, Netanyahu sai enfraquecido disto, não há dúvida nenhuma, Trump apoiou Netanyahu na campanha e sai enfraquecida toda essa liderança e essa, entre aspas, amizade. E depois o Pacto de Meca que acaba por surgir como polo de segurança regional independente israelita e que ganha aqui um certo espaço no plano estratégico.

Falamos agora de um aliado de Israel, os Estados Unidos terão avisado o Golfo de um possível ataque ao Irão depois das midterms de 3 de novembro. A diplomacia em Teerão pode ainda travá-lo ou é só uma questão de tempo até lá, ou ganhar tempo até lá?

Miguel, eu começaria por algo que me parece evidente. Os Estados Unidos colocou-se num conflito e agora não sabe como sair dele. Trump realmente caiu numa armadilha, uma armadilha comum para achatar hipotéticos, mas a verdade é que se colocou mesmo a jeito, como se diz em bom português. Os Estados Unidos aqui têm objetivos diferentes de todo o mundo, inclusivamente Israel, mas aqui Israel por outros motivos, que procura uma certa instabilidade numa reação à segurança para ter ganhos definitivos no plano estratégico. Obviamente que tem aqui um problema de segurança, uma ameaça existencial à sua segurança, mas aqui há outros objetivos que poderão também estar a ser equacionados. Em boa verdade, o que me parece que Trump está a desenvolver através da sua administração é procurar pressionar o Irão, mas abre a porta à negociação que nunca fechou, em boa verdade. E julgo que há aqui um ponto muito relevante que é a visita dos representantes do Pacto de Meca a Teerão. O ministro da Defesa saudita, o chefe do exército paquistanês, o chefe de serviços secretos turcos, acabam por se reunir com o presidente paquistanês e com o chefe de segurança Rezaei, que em boa verdade demonstraram negociações de certo nível e que até é curioso porque o Pacto de Meca é uma aliança de defesa mútua, mas a prioridade do primeiro ato foi realmente sentar-se à mesa das negociações. Isto é importante por quê? Por dois grandes motivos. Um primeiro por interesse próprio, a questão do Iémen nos ataques à Arábia Saudita, a estabilidade no Golfo e na região, mas também como representação dos Estados Unidos, dando uma última oportunidade à diplomacia. O conflito está em modalidade em si também é uma possibilidade, continua a estar na mesa, seja para salvar a face de Trump, seja para alcançar resultados efetivos que a administração norte-americana considera poder alcançar face a um inimigo um pouco mais fragilizado, mas há sempre o risco de escalar. O último ponto é apenas por que depois das eleições intercalares, naturalmente as razões eleitorais, um conflito poderia implicar preço dos combustíveis subir, o risco de baixas, etc. Isso teria um impacto direto. As razões militares, porque os Estados Unidos estão a reunir os meios necessários na região, inclusivamente com os Patriot, alguma retirada de tropas em bases vulneráveis, um maior equilíbrio no plano militar. Razões negociais, como eu disse há pouco, para dar um espaço ao Pacto de Meca e o contexto israelita que Netanyahu está em gestão e um pouco de esclarecimento antes de agir.

E aqui uma questão: como é que os Estados Unidos podem sair aqui desta encruzilhada? Donald Trump vê-se nesta posição em que diz que às vezes vai atacar só depois das midterms, mas depois também há vezes em que põe em causa ataques antes. Como é que os Estados Unidos podem sair deste conflito no Irão, que não parece ter fim à vista, os preços dos combustíveis só aumentam, o eleitorado Donald Trump... Como é que Donald Trump pode sair desta encruzilhada?

Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Voltando à questão da armadilha, cair numa armadilha é muito complicado sair. Essa armadilha está a conduzir para uma situação que afunila soluções. Uma solução ideal já não irá acontecer, definitivamente, será a solução possível. E a solução possível, para mim, passará por um acordo nitidamente entre as duas partes. Agora, como vai ser conseguido esse acordo, porque não acredito na capitulação iraniana, esse é o meu ponto, como vai ser conseguido esse acordo é que será determinante. Pela ação militar vai ser muito complexo e pode ter realmente uns respalos para a região, instabilizando e, portanto, criando impacto a nível também global. Um acordo que, considerando apenas alguns aspetos essenciais, que a narrativa Trump, no qual ele é brilhante, conseguirá transformar numa vitória, mas que poderá apenas conduzir a uma situação muito semelhante àquela que havia antes do conflito e que ainda vamos ver como é que ficará resolvida a questão das taxas em Ormuz, porque será sempre muito complexo. A situação aí será determinante, porque a nível nuclear eu penso que até poderão encontrar algum tipo de soluções, nomeadamente a movimentação do material crítico para a Rússia, em que verdadeiramente não fica no Irão, mas está disponível num parceiro, num aliado iraniano, caso os Estados Unidos retirem as condições e as garantias de segurança em algum momento.

E falamos agora precisamente da Rússia e do conflito, da guerra na Europa. Há relatos de navios afundados junto à Roménia e também mais marinheiros mortos no Mar Negro do que em Ormuz. A Rússia está aqui a abrir uma nova frente contra a Europa?

O que estamos aqui a ver é a concretização da nova estratégia, que já fomos falando aqui por parte de Moscovo. A Europa é definitivamente o principal adversário de Moscovo neste momento, está perfeitamente identificado e um eventual acordo sobre a Ucrânia pode inclusivamente coincidir com uma escalada na Europa. Portanto, há esse risco. Há aqui um objetivo estratégico de Putin, que de alguma forma eu chamaria um novo acordo de alta. Quer negociar a segurança europeia, a arquitetura de segurança europeia no seu conjunto, talvez criando as tais esferas de influência em que retiram soberania aos países que acabem por estar controlados por essas esferas de influência. Mas aqui verdadeiramente a pergunta é se estamos ou não em guerra com a Rússia, se a Rússia está em guerra com a Europa, melhor colocando. A resposta não é fácil. Eu diria inclusivamente que sim e não. Não porque não há confronto direto, cinético, portanto não há tropas, não há contacto, mas sim porque há essas ações de guerra híbrida, interesses em infraestruturas de território europeu, que realmente vão criando algum tipo de pressão em várias dimensões, vão testando, vão marcando posição, vão de certo modo empurrando linhas vermelhas da Europa para um ponto que depois qualquer ação pareça uma ação atentatória aos interesses da Rússia, mas verdadeiramente essas linhas vermelhas foram já empurradas para o lado. Portanto, há aqui um risco e um receio de entrar neste ciclo de escalada perigosíssimo, que obviamente não quero ser alarmista e não parece que estejamos realmente numa fase de escalada perigosa, mas que temos que considerar como risco. Repare que o Mar Negro está a ser utilizado, de certo modo, como o novo Ormuz. Nove navios foram já atingidos em águas romenas e búlgaras. O Financial Times chegou, e eu não consigo citar de cor, mas algo como a rota do Mar Negro como a rota mais perigosa do mundo. Temos que considerar que há aqui uma tentativa de imitação. A analogia funciona, usar o estrangulamento da rota como arma com custos para a Europa e a nível global, claro. Há aqui uma weaponização dos choke points, neste caso direto de Bósforo e Dardanelos.

Este mês, a reunião anunciada entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin não chegou a acontecer. Por que é que desta vez havemos de acreditar? Para quê esta reunião do próximo dia 10 de novembro nos Emirados Árabes Unidos, em Abu Dhabi?

O que está a ser referenciado será com foco na desescalada, com os temas principais da garantia de segurança, troca de prisioneiros, algum tipo de ações ou preocupações mais imediatas, outras um pouco mais avançadas. Inclusivamente, Zelensky chegou a dizer que após o telefonema nórdico, parece que Moscovo estará a levar a reunião a sério. Qual a importância deste telefonema de Støre a Putin? Foi de 90 minutos, foi profissional, foi coordenado com Kiev e Washington, veio no seguimento de Oslo, daquela reunião do dia 20 de outubro ou 21, agora não tenho de cabeça, que constitui o primeiro contacto de um líder europeu aliado da Ucrânia com Putin desde aquela mesa enorme em que Macron se sentou em 2025. Sabemos que falaram de uma maneira alargada da segurança do Báltico, do norte da Europa, com promessas de manter contato direto. Claro que isto me agrada a nível pessoal, desde que tenha sido perfeitamente coordenado com a Europa, se bem que já vimos um ou outro país europeu, nomeadamente ali os parceiros nórdicos, como a Dinamarca e a Suécia, a discordarem do telefonema Pode ser que este contacto, pode ser que a entrega local em Olesky possa servir de balão de ensaio, mas continuam algumas dúvidas se não será apenas um rebuçado de Putin para as midterms de Trump, se verdadeiramente temos equilíbrio estratégico que permita avançar e se as tais root causes, as posições irredutíveis de Putin permitirão o encontro a meio ou apenas espera a capitulação ucraniana. Mas em suma, eu acho que há sempre espaço para a diplomacia.

Uma reunião para acompanhar também com alguma atenção. Ainda temos tempo para falar sobre as Nações Unidas, isto porque a ONU acusa a Rússia de um crime de guerra por ter atacado a energia ucraniana. Isto muda alguma coisa para antever este próximo inverno ou Putin vai continuar a tentar apagar as luzes na Ucrânia e também desta forma condicionar a capacidade dos ucranianos lidar com a guerra?

De uma forma muito pragmática, Miguel, infelizmente eu acho que não irá mudar muito. E não irá por quê? Por, eu diria, duas, três dimensões. Uma primeira é que a ONU já não é o regulador do sistema político internacional, por culpa própria, mas também por fatores externos, anacronismo, não representa o poder atual, o Conselho de Segurança é bloqueável, mas em boa verdade o papel de António Guterres já não consegue ser o de mediador/regulador do sistema. Portanto, não penso que tenha capacidade para mudar muito e nós já tivemos várias situações semelhantes em que nada resultaram na prática. Inclusivamente, há um momento que eu não me esqueço de António Guterres a fazer uma vénia a cumprimentar Putin no momento em que ele já era, vá lá, de alguma forma procurado pelo Tribunal Internacional. Portanto, isto vamos ver um pouco mais do mesmo, a estratégia já assumida de Moscovo de retirar a vontade de combater aos ucranianos, seja através de ataques a alvos civis, às infraestruturas energéticas, às pontes, etc. Vamos sentir que esse inverno muito complexo, mas poderá ainda não ser decisivo, porque apesar da grande preocupação com a população, a verdade é que os dados recentes, e nomeadamente um estudo do Instituto Kiel, demonstra a continuidade de uma incrível resiliência do povo ucraniano. Nesse sentido, conto com a manutenção da estratégia, conto com a resistência ucraniana. Vamos esperar por melhores dias que, muito sinceramente, todos queremos nesta altura.

Fica por aqui mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. A segunda edição do dia, mais logo há mais uma. Hoje, agora, contamos com a análise do professor Jorge Rodrigues, é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Professor, muito obrigado e um resto de um bom dia.