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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professor Carlos Gaspar, depois do porta-voz da Casa Branca, John Kirby, sugerir que o Irão está a ponderar fornecer mísseis balísticos à Rússia, o Kremlin não comentou, mas reconheceu a existência de conversações. Isto tem sido recorrente, mas o que podem os países ocidentais fazer para evitar este envolvimento iraniano do lado da Rússia?
Muito pouco. Os países ocidentais têm um certo número de prioridades. Em primeiro lugar, obviamente, garantir a resistência da Ucrânia, mas não têm sido capazes de interferir de uma maneira significativa na relação que se está a construir, quer entre a Rússia e o Irão, desde a guerra da Síria, que essa relação é importante do ponto de vista militar e da segurança, e foi confirmada desde os primeiros dias da guerra da Ucrânia, nem são capazes de interferir verdadeiramente na relação entre a Rússia e a China. Ao contrário, esta vaga de guerras e de conflitos, de Síria, Ucrânia, agora Gaza, tem reforçado a ligação entre a Rússia e o Irão, a Rússia e a China e a China e o Irão. Há uma dinâmica de polarização entre dois campos que é cada vez mais forte e até agora a diplomacia norte-americana, a diplomacia ocidental, tem sido incapaz de inverter essa dinâmica.
Entretanto, professor José Tello, a Rússia ajudou a Coreia do Norte a lançar na terça-feira um satélite de espionagem. A informação foi confirmada pelos serviços de informação sul-coreanos, que adiantam que a colaboração terá sido discutida na cimeira em setembro, juntou Putin e Kim Jong-un. O que ganha a Rússia em ter a Coreia do Norte a pressionar a Coreia do Sul?
Permita-me uma observação que enquadra essa sua pergunta. A chave disto é a China. E eu não concordo por completo com o que ouvi ao doutor Carlos Gaspar. A questão é esta: os países ocidentais, enquanto tal, dificilmente poderão ter influência sobre a China e sobre o posicionamento da China. Os Estados Unidos podem. E nós vimos, nomeadamente nesta viagem recente do presidente chinês aos Estados Unidos, que foi por iniciativa da China, em que a primeira afirmação que ele faz publicamente é dizer: "Quando a China e os Estados Unidos se entendem, o mundo avança". Portanto, mostrando claramente uma vontade de entendimento com os Estados Unidos, que é perfeitamente compreensível. E é isso que distingue a China da Rússia. Pelo menos que distingue, no fundamental, a China da Rússia. É que a China precisa do mercado ocidental, dos investimentos ocidentais, da tecnologia ocidental, para alcançar o seu objetivo número um, mas de longe o número um, por muito distanciado de qualquer outro, para os próximos 10, 15 anos, que é continuar a crescer a ponto de se tornar no primeiro poder económico mundial. Isto é a base de toda a ação chinesa, de todo o pensamento chinês. Para isso precisa do entendimento. E esse entendimento tem que ser obtido em primeiro lugar com os Estados Unidos, como a China sabe. E para isso, os chineses já deram várias vezes sinais que estão dispostos a um entendimento mais geral, que passe por muitas outras coisas, nomeadamente pelo Médio Oriente e pela Ucrânia. Que alguma coisa está a ser feita, eu não tenho dúvidas. Por exemplo, eu não acredito que o Irão tivesse feito aquela incrível afirmação de que não se iria envolver militarmente na guerra do Médio Oriente, sem que isso tivesse partido de algum entendimento entre o Irão e a China e de alguma pressão da China sobre o Irão. Ora, quem aqui tem a capacidade de fazer pressão não é a Rússia. A Rússia está extremamente enfraquecida com esta guerra na Ucrânia. Quem tem essa capacidade, nomeadamente, o poder económico e financeiro, que aqui é o fator fundamental, é a China, exclusivamente a China. E isto é particularmente importante para o Irão, que tem na China o primeiro mercado, não só para importação, mas também para exportação. Portanto, a China é que tem aqui a leverage, é que tem aqui a capacidade de pressionar. E ela está a pressionar. Afirmações como a do Hezbollah, que são claramente influenciadas pelo Irão, e como a do Irão, de que não vão participar ativamente desta guerra, vêm da China. Por que a China faz isto? Porque gosta de Israel? Não. Porque gosta muito da paz? Bom, gosta da paz tanto como todos os outros, que essa paz sirva os seus interesses. É porque é do seu interesse primário e vital o entendimento com os mercados ocidentais. Não é tanto com o mundo ocidental, mas é com os mercados ocidentais. E ela sabe que isso passa pelos Estados Unidos. E sabe que está ressentida e que a sua capacidade económica e financeira está fortemente abalada por algumas medidas que os Estados Unidos tomou, nomeadamente em empresas de 5G chinesas e outras Portanto, o que está aqui em jogo é isto: é o fio que abre a relação fundamental para o mundo futuro, que é a relação entre a China e os Estados Unidos. É isso que vai decidir qual vai ser esse mundo futuro. E não está fechada neste momento, ou seja, não é certo que venha a ser uma nova Guerra Fria, pode ser uma relação de colaboração. O jogo ainda está em aberto, o grande jogo, porque isto, de facto, é o grande jogo, ainda está em aberto. E nós vemos sinais disso, quer na guerra da Ucrânia, quer na guerra da China. Eu, desde o começo da guerra da Ucrânia, venho a dizer que a chave é a China para resolver a guerra da Ucrânia, mas passa por uma negociação que cede, em muito, a guerra da Ucrânia.
Professor Carlos Gaspar, no G20, Putin disse que é preciso pensar numa forma de parar a guerra na Ucrânia, garantindo que a Rússia está pronta para negociações. A Ucrânia reagiu chamando-o de assassino. Está a mudar alguma coisa na posição de Putin, que tem feito vários apelos para a paz, até no conflito de Israel e do Hamas, ou apenas palavras de circunstância?
Não há nenhuma razão para considerar que Putin tem a menor predisposição para negociar nesta conjuntura sobre a guerra da Ucrânia. E o presidente Zelenskyy fez uma declaração anterior que vai no sentido daquilo que o professor António Telos estava a defender. O presidente Zelenskyy tem uma frase em que diz: "Só quando os Estados Unidos e a China se impuserem à Rússia é que ela se pode mover na Ucrânia. Só a China e os Estados Unidos é que têm capacidade para fazer a Rússia recuar e entrar num verdadeiro processo de negociação". O problema é que não é nada evidente que os Estados Unidos e a China estejam, nesta fase, preparados para convergir nessa matéria. A relação entre os Estados Unidos e a China está numa fase competitiva, em que a China ainda não desistiu, e provavelmente não vai desistir, de uma estratégia ofensiva. A Guerra Fria, no passado, foi marcada por períodos de competição e de détente, portanto, obviamente, a cooperação entre os Estados Unidos e a China é possível, como foi possível a cooperação entre os Estados Unidos e a União Soviética, mas nada indica que nós estejamos numa fase de détente nas relações entre os Estados Unidos e a China, e nesse sentido, a guerra russo-ucraniana vai continuar.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem uma nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.