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Abrimos a porta a mais um "Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, o programa em que fazemos um ponto de situação em dois dos conflitos ativos no globo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Eu sou o José Rafael Lopes e hoje conto com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito boa tarde. Vamos começar por falar da conferência de imprensa de Vladimir Putin sobre o estado da nação da Rússia. Bruno, que notas a retirar das palavras do líder russo?

Olá, boa tarde. As notas é que, no fundo, é mais do mesmo. Os comentários vão, aliás, muito nesse sentido. Portanto, aqui é sobretudo uma ocasião para Putin fazer esta encenação, uma espécie de abertura de liberdade de imprensa. Ora, a Rússia está, penso que em quinto, a contar do fim, na lista de liberdade de imprensa ou de falta de liberdade de imprensa pelos Repórteres sem Fronteiras, portanto, a Organização Internacional de Jornalistas. Sabemos que basicamente acabou a imprensa livre na Rússia. A que existe, puro russo, é no exílio. Tem este lado de encenação. Apesar de tudo, realmente é um pouco uma oportunidade para perceber, mesmo escrutinado, mesmo selecionado, o que é que aparece e realmente acaba por aparecer, apesar de todo o escrutínio, perguntas com muita frequência sobre as dificuldades económicas, sobre a inflação, sobre a falta de habitação, enfim, sobre os enormes custos para um país como a Rússia que tem tido esta guerra que, na versão oficial russa, não tem nenhumas implicações negativas para a Rússia nem para a sua economia, mas isso é impossível disfarçar. Portanto, apareceram bastantes perguntas sobre esses temas mais internos. Houve alguém que perguntou quando é que acabavam todos aqueles shows de propaganda com uma linguagem qualificável geralmente de extrema agressividade, insultuosa em relação, nomeadamente, aos países europeus, e o Putin respondeu que também estava a trabalhar para acabar com isso, mas a implicação parecia ser acabar com a guerra na Ucrânia ou, se quisermos, com a Ucrânia, acabar com a Ucrânia, não propriamente acabar com os programas. Em termos da guerra em si, talvez a pergunta mais interessante fosse do correspondente da BBC, que é dos poucos correspondentes estrangeiros que ainda não foi expulso, e que perguntou diretamente a Putin se ele iria realizar novas operações especiais, que é o nome oficial desta guerra. Basicamente a resposta de Putin, acho que não pode deixar ninguém descansado, foi dizer: "Não vamos fazer se nos respeitarem." Ora, tendo em conta que a Rússia tem, de facto, um grande índice de suscetibilidade e que basicamente haver países vizinhos ou que fizeram no passado, mais ou menos remoto, parte do Império Russo ou da União Soviética, que se atrevam a ser realmente independentes e a não ceder às pressões, às tentativas de chantagem russa, isso já é visto como uma falta de respeito pela Rússia, acho que ficamos esclarecidos. É evidente com isto, eu tenho sempre insistido neste ponto, é ridícula esta ideia de que a Rússia vai invadir e conquistar a Europa toda, de Moscovo até Lisboa. Isso nunca aconteceu na história. Aliás, nem sequer os romanos conseguiram dominar toda a Europa, nem o Napoleão, nem o Hitler. Mas a ideia de que, por exemplo, seria impossível, não havendo conflito na Ucrânia, a Rússia, por exemplo, fazer um ataque contra algum país báltico, até para demonstrar a impotência, a fragilidade das garantias de segurança dos Estados Unidos, da NATO, da União Europeia, isso já me parece uma hipótese bastante mais realista e já estamos confrontados com estes constantes ataques híbridos, uma situação que não é de guerra, mas também não é de paz da Rússia em relação ao resto da Europa. Portanto, basicamente é mais do mesmo e para terminar, em relação à guerra em si também e às condições para a paz, Putin voltou a insistir que o problema são o que eles chamam as causas profundas deste conflito. Nós sabemos que as verdadeiras causas profundas deste conflito são o imperialismo russo, o desrespeito da Rússia pelas regras mais elementares da lei internacional, pela Carta das Nações Unidas e já agora também pela Acta Final de Helsínquia de 1975. Foi o grande acordo entre o bloco soviético e o bloco ocidental, que tinha como princípio basilar não se alterar as fronteiras pela força ou até também os acordos que assinou com a Ucrânia, nomeadamente o famoso Memorando de Budapeste. Mas basicamente o que Putin está a dizer é: se não houver mudança de regime na Ucrânia, se não cederem a todas as nossas exigências, se a NATO não aceitar que deixa de ser uma organização plenamente soberana, em que decide quem entra ou não entra de sua livre vontade, como acontece aliás com a organização semelhante que a Rússia tem, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva ou a Organização de Cooperação de Xangai, que a China tem com a Rússia. Se isso não for aceite, então a Rússia reserva-se o direito de voltar a resolver os problemas pela força e reserva-se o direito também de continuar o conflito na Ucrânia.

E também de anexar territórios, até porque não deixou de ser curioso, no mapa russo que foi transmitido durante essa conferência de imprensa, as partes anexadas da Ucrânia faziam parte precisamente desse território russo. Ainda sobre este tema, Bruno Cardoso Reis. Diz.

Essa questão é muito relevante e vale a pena destacar, e também o facto de Putin voltar a insistir que conta inteiramente com o apoio, com a compreensão do seu amigo Donald Trump. Inclusive diz que não percebe como é que o secretário-geral da NATO diz que a NATO tem de se preparar pra um conflito com a Rússia, quando na nova doutrina de segurança norte-americana, na nova estratégia de segurança nacional, a Rússia não é identificada como um inimigo. E realmente aí Donald Trump tem razão. É a primeira vez na história destes documentos em que a Rússia não é identificada como uma potencial ameaça, um potencial adversário, um rival estratégico dos Estados Unidos.

Bruno, ainda sobre estas palavras de Putin. O líder russo diz que o uso de ativos russos em empréstimos à Ucrânia teria sido um assalto com consequências muito graves. Isto também entra naquele rol de pseudoameaças que falavas há pouco?

Realmente aí Putin pode reclamar uma certa vitória, pode agradecer aos seus amigos Orbán e em particular ao primeiro-ministro da Bélgica, mas realmente não foi possível seguir essa via mais evidente e que não ia sobrecarregar mais os europeus, ainda que, na verdade, o esquema que se encontrou acaba por, de alguma forma, envolver esses recursos. Ou seja, a ideia é que há aqui um empréstimo garantido pelo orçamento comunitário, mas que esse empréstimo só será pago quando a Ucrânia receber reparações e até a Ucrânia receber reparações, a União Europeia congelou estes bens russos. Portanto, sem dar já esse passo, fica a ideia de que será esse o passo necessário e que também se a Rússia quiser realmente não só acabar com a guerra na Ucrânia, mas acabar com a guerra económica com a União Europeia, terá sempre de aceitar esse tipo de condições. Se isto vai ser realmente assim. Agora é extraordinário que um país que basicamente viola os princípios básicos, as normas mais claras do direito internacional, pelo menos desde 1945, esta ideia de que não há guerras de conquista, que a ocupação não cria direitos, que não se resolvem os conflitos pela força, e depois vem reclamar, vem se apresentar como o grande defensor da lei, da santidade da lei, para defender os seus bens na Europa. Portanto, quem achar que isso faz algum sentido, acho que terá de rever a sua lógica, mas é evidente que há aqui uma enorme contradição, uma enorme hipocrisia. Mas a verdade é que independentemente disso, a pressão russa parece ter funcionado, em particular junto dos políticos belgas, que realmente revelaram aqui mais uma vez que a sua grande prioridade, que aliás tem sido consistente desde o início da guerra, houve o mesmo problema em relação aos diamantes russos também, é realmente defender os interesses económicos belgas, mesmo depois de todo o tipo de garantias legais razoáveis terem sido dadas.

Bruno, antes de avançarmos para falar sobre o conflito no Médio Oriente, em minuto e meio, falavas de empréstimos. O Zelensky assegurou um empréstimo de 90 mil milhões de euros, é uma linha de ajuda muito necessitada para Kiev. O que é que precisa mais agora a Ucrânia?

O que precisa mais é o que tem precisado sempre. Precisa de dinheiro, realmente, e precisa de armamento, basicamente. E precisa de apoio diplomático também nesta negociação com os Estados Unidos, porque realmente vamos chegar aqui a um ponto crítico em que, muito provavelmente, a Rússia vai recusar tudo que são propostas que dão algumas reais garantias de segurança à Ucrânia, por exemplo, a ideia de que haverá algum tipo de presença de monitores, tropas europeias, embora não para combater, mas para acompanhar o cessar-fogo, e que isso seria coordenado pelos Estados Unidos, um mecanismo de monitorização para não permitir à Rússia dizer, sem mais, que foi a Ucrânia que atacou. Aliás, foi outra coisa que Putin voltou, digamos, descaradamente a mentir a respeito disso. Todos nós vimos como é que começou a guerra, com uma invasão massiva da Rússia, mas Putin voltou a insistir que, na verdade, a guerra começou com os ataques da Ucrânia e dos seus aliados ocidentais. Obviamente, isso mostra bem que não se pode confiar que a Rússia estará de boa-fé a dizer quem é que começou um ataque ou quem é que reiniciou ações militares. Mas todo esse tipo de exigências, todo esse tipo de mecanismo de monitorização, provavelmente serão recusados pela Rússia. E portanto, a questão é saber se os Estados Unidos vão alinhar com a posição russa, como tudo tem indicado nos últimos tempos, ou se vão alinhar com os seus aliados tradicionais europeus, se vão manter-se fiéis à promessa que fizeram à Ucrânia, às garantias de segurança que deram à Ucrânia em 94, quando a pressionaram a entregar as suas armas nucleares à Rússia. Há esse apoio diplomático muito importante e que será muito urgente, provavelmente já nos próximos dias. E depois há esta questão de, sobretudo se os Estados Unidos começarem a hostilizar mais a Ucrânia, aumenta ainda mais a responsabilidade europeia no sentido de dar o apoio financeiro e também militar, que seria indispensável para evitar um colapso da resistência ucraniana.

E Bruno, temos ainda quatro minutos então para falar sobre o conflito no Médio Oriente e no ponto de situação do acordo de paz, quer em Gaza quer no Líbano. Qual é que pode ser feito, Bruno?

Realmente, infelizmente, confirmaram-se algumas das minhas preocupações, nomeadamente esta questão. Ainda há um dia atrás, o Wall Street Journal, o jornal de referência de direita americana, dizia que o plano de paz de Trump tropeça ou enfrenta obstáculos por causa da questão do desarmamento do Hamas. E portanto, esta ideia de que o Hamas recusa desarmar-se. Como resultado disso, há a perspetiva de que a missão internacional, os soldados, os capacetes azuis, teriam uma missão de desarmar o Hamas, ou seja, uma missão de imposição de paz e não de manutenção de paz. E isso também tem levado a que a maior parte dos países que se tinham mostrado predispostos a enviar soldados, entretanto voltaram a recuar. E insistem que estarão dispostos a enviar soldados, mas para manter a paz, não para impor a paz. Portanto, esse pareceu-me ser um teste decisivo e potencialmente muito difícil à viabilidade dos passos seguintes neste plano de 20 pontos. Em relação ao Líbano, que é o outro grande cessar-fogo Também está a chegar ao fim o prazo para o desarmamento do Hezbollah, da milícia xiita que tem dominado a política no Líbano há várias décadas, um Estado dentro do Estado. No Líbano é muito popular entre muitos setores essa ideia, porque há a noção de que o Líbano tem pago um preço muito elevado por causa desta guerra entre o Hezbollah e Israel, que muitas vezes tem mais a ver com interesses externos, por exemplo, do Irã do que propriamente do Líbano. Mas a verdade é que não se deram passos decisivos nesse sentido. O Hezbollah, mesmo enfraquecido, continua a ser bastante forte no contexto libanês e, portanto, também aí há este problema, que é bastante paralelo com o de Gaza, que é este compromisso de desarmamento. De facto, não se vê como é que vai ser cumprido e não sendo cumprido, há argumentos para Israel eventualmente voltar a retomar ações militares ainda mais intensas, sendo que nós sabemos que em nenhum dos dois casos houve um completo cessar-fogo. De vez em quando há ações armadas, quer de um lado, quer do outro.

Sendo que, Bruno, temos então ainda mais um minutinho para abordar aqui uma questão sobre uma ONG israelita que acusa Tel Aviv de continuar a destruir Gaza, apesar do cessar-fogo. O que nos diz, Bruno Cardoso Reis, desta oposição quase que interna ao governo de Tel Aviv? Temos um minuto e meio.

Certamente estão se a referir a estes ataques ocasionais da parte de Israel. O que nos diz é que realmente, apesar de todas as críticas, muitas vezes justificadas, a Israel, também há críticas completamente injustificadas, disparatadas, desproporcionadas, quase como se Israel fosse a Alemanha nazista. Apesar de haver muitas razões de queixa e de crítica em relação ao atual governo israelita, em particular alguns dos seus ministros que assumem posições completamente inaceitáveis, basicamente apelam à limpeza étnica, etc. A verdade é que Israel ainda é uma democracia em que inclusive a sua população de origem palestiniana, os árabes israelitas, têm cidadania, têm voto, têm uma voz. E além disso, há toda uma oposição histórica e toda uma corrente importante na sociedade israelita que defende o processo de paz. Uma das grandes tragédias dos ataques de 7 de outubro foi que visaram muitas comunidades onde havia muita gente, onde historicamente a grande maioria das pessoas eram muito favoráveis ao processo de paz. Hoje em dia já são à partida minoritários na política israelita, mas continuam a existir e continuam a ter alguma voz, apesar de alguns esforços do atual governo para concentrar ainda mais poderes no Executivo.

Muito obrigado Bruno Cardoso Reis. Esteve a ajudar-nos a analisar o estado do conflito na Ucrânia e também como está a situação no Médio Oriente, dois dos conflitos ativos neste momento no globo. Muito obrigado. Até uma próxima oportunidade, Bruno Cardoso Reis.

Obrigado.

A edição do Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.