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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia. As Forças Armadas norte-americanas atacaram esta madrugada mais de 80 alvos militares no Irão. Dizem que o fizeram para travar os ataques desta terça-feira contra navios comerciais. Teerão já terá respondido com dezenas de ataques a bases militares norte-americanas no Bahrein e no Kuwait. Coronel, estes ataques deitam definitivamente por terra as tréguas e o memorando de entendimento e coloca-nos de novo num cenário de combate aberto pelo controle do Estreito de Ormuz?
O que está aqui em causa, o memorando é apenas uma plataforma de entendimento para resolver uns problemas mais vastos. Só que o Irão entende este memorando como uma espécie de capitulação americana e os americanos entendem que este memorando tem dentes e estão a mostrar agora que tem dentes. Nenhuma das partes quer voltar à guerra, o Irão quer apenas garantir que controla o Estreito de Ormuz, é o seu objetivo neste momento. Neste momento, Ormuz tornou-se a sua arma estratégica mais forte e quer manter o controle sobre ela. E por isso atacou navios que estavam numa rota que nem sequer passa pelo Irão, é uma rota que passa por Omã. Porque o Irão age nesta matéria como o gangster de bairro. Diz que é inseguro ir por ali, quem quiser não vai por ali, vai por onde ele protege e depois é ele próprio que causa a insegurança na zona que diz que é insegura. E faz isto. Os Estados Unidos tinham que reagir, porque isto põe em causa aquilo que são os objetivos americanos para esta zona, que é manter a liberdade de circulação tal como estava. E aqui eles chocam completamente entre o que é o objetivo americano e o que é o objetivo iraniano. E o Irão reage fazendo aquilo que habitualmente faz, atacando os países e as localizações americanas na zona, para dizer a esses países que talvez não seja má ideia, no futuro, endurecer a sua vontade de ter ali forças americanas. Eu não sei se isto vai resultar para o Irão. O Irão não está numa posição forte. Os americanos pelo menos passaram a ideia de que estão sob tensão, estão fracos, cederam muito e a Guarda Revolucionária entende este amaciamento americano como fraqueza. E esse é o grande problema que sempre se passa com Teerão, pensar que quando se vai a uma mesa de negociações, o adversário está enfraquecido de tal modo que pode aceitar tudo. Eu não creio que isto vá resultar muito bem para o Irão a prazo. Neste momento, os americanos estão a apostar tudo, porque J.D. Vance tem esta ideia de que há que fazer acordos, há que evitar o investimento americano militar no exterior, mas estão a acolher a resistência iraniana a este tipo de coisas. Negociar sim, mas como tática para ir ganhando tempo, mas mantendo os seus objetivos. É o que o Irão está a tentar fazer. Os americanos têm que reagir com dentes, porque senão perdem completamente a face.
Olhando para a cimeira da NATO na Turquia, Zelenskyy pediu aos aliados mais determinação e defesas aéreas, disse que a Ucrânia faz o resto. Afirmou que Putin teme pela vida e prometeu que os drones vão continuar a voar sobre Moscovo e São Petersburgo. Coronel, esta ameaça de levar a guerra diretamente ao coração político da Rússia é propaganda ou a Ucrânia conquistou mesmo a capacidade de fustigar a retaguarda de Putin sempre que quiser?
Não, conquistou essa possibilidade. É claro que isto envolve riscos. Não nos podemos esquecer que a Rússia pretende fazer com que esses riscos estejam sempre em cima da mesa. As forças têm capacidades bastante destrutivas.
Como se vê pelos ataques das últimas semanas.
Sim, a Ucrânia hoje em dia consegue, já não há retaguarda russa que seja invulnerável. Uma das grandes vantagens estratégicas da Rússia e da União Soviética, na altura, era esta profundidade estratégica que tornava certas zonas invulneráveis, inatingíveis por meios convencionais. E tinha sempre aquela segurança que tinha fábricas, indústrias, dispositivos de energia, petróleo, etc, a salvo de qualquer ataque inimigo. Ou ataques significativos. Neste momento, isso acabou. A Rússia está vulnerável e como é um território grande, não pode garantir a defesa aérea disso tudo porque tem que dispersar defesas. A Ucrânia pode fazer isso. Envolve riscos, mas sim, a Ucrânia está a dizer à Rússia que não vai capitular, está psicologicamente resistente a este contínuo ataque russo com mísseis balísticos, a zonas civis, a estruturas civis. E a Rússia está justamente a usar esta incapacidade ocidental de fornecer à Ucrânia meios adequados para a defesa.
Mais precisos, não é? Aérea.
Exatamente. A questão é os mísseis balísticos. A Europa, nem os Estados Unidos, neste momento, têm capacidade de produzir mísseis balísticos, mísseis antibalísticos, com o ritmo com que a Rússia está a usá-los. E no último mês, apenas 10% dos mísseis balísticos foram interceptados, o que é muito pouco, porque um míssil balístico com 400 a 500 quilos de explosivo faz destruições enormes. E a Rússia está a usar isto como a sua grande arma neste momento, mostrar, chegar às negociações de uma posição que considere superior, uma posição que considere vantajosa. Com a Ucrânia exausta, a população tem medo, nota-se que a população de Kiev já sente o medo dos mísseis balísticos que a qualquer hora podem cair e isso causa grande desgaste psicológico. E isso é o que a Rússia pretende. Mais do que furar as frentes, que não está a conseguir, nem parece que irá conseguir nos próximos tempos, está a tentar chegar às negociações de uma forma vantajosa, usando esta concentração de mísseis e drones ao mesmo tempo. A Europa não tem, de facto, esta capacidade, aliás, nem sequer tem mísseis antibalísticos suficientes, porque assentou durante muitos anos numa estratégia de mísseis caros contra mísseis balísticos caros, e isso hoje em dia a guerra já mudou. Neste momento, os packages de ataque feitos contra a Ucrânia mostram que são centenas de drones e vários tipos de mísseis, e para isso é preciso uma defesa aérea também mais barata. Tem que haver capacidade de produzir sistemas.
Então em que é que pode ajudar a Ucrânia, coronel?
É isso que neste momento a NATO está a tentar fazer, é mostrar uma base industrial capaz de produzir esse tipo de armas, que são aquelas que o futuro vai exigir, armas baratas, mas eficazes e em massa, coisa que neste momento não temos. O secretário-geral da NATO está a tentar mostrar que sim, que há planos para infraestruturas, para resiliência, para armas, para defesa, e mostrar aos Estados Unidos que a Europa está a fazer o seu papel, para que os Estados Unidos também façam o seu papel, que é garantir à Ucrânia, que é o que interessa neste momento à Europa, bastante mais que o Irão, garantir à Ucrânia a sua capacidade de defesa contra uma arma que neste momento está a ser devastadora, que são os mísseis balísticos.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si. Obrigada.