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Está no ar o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo está o professor António José Telmo. Muito boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar com o que se passa no Mar Negro. Já tivemos aqui várias reações. Houve dois navios mercantes perto da costa da Bulgária, no Mar Negro, que foram atacados. Uma dessas embarcações afundou. Este é mais um caso que se registra no Mar Negro. E Ursula von der Leyen já fala numa situação inaceitável e diz mesmo que o Mar Negro é a nova frente da escalada na guerra da Rússia na Ucrânia. Concorda com essa posição de Ursula von der Leyen?

Boa tarde. Parece uma posição certa, ou seja, a Rússia está, de facto, numa escalada que é virada contra a Europa, essencialmente, e é uma escalada que tem por objetivo explorar as eventuais divisões europeias e tentar convencer a Europa a retirar o apoio à Ucrânia. E esta ofensiva em relação a navios mercantes no Mar Negro é típica desse projeto russo, que aliás passa pelos drones que são enviados contra aeroportos na Europa, que passa pelo cortar os cabos submarinos, que passa por ataques cyber. Enfim, é um amplo leque de ações ofensivas que têm a Rússia por detrás. Isto para já não falar, obviamente, de fomentar as forças políticas europeias que estão ou contra o apoio à Ucrânia ou pelo menos põem certas reservas em relação a isso e que, nomeadamente, volta e meia fazem atos violentos. Portanto, há aí, de facto, uma escalada e infelizmente estas ações no Mar Negro têm que ser aí inseridas. Ursula von der Leyen tem toda a razão nesse aspecto.

Estamos num período descrito ao longo dos últimos meses como um período de uma guerra híbrida. Aqui temos algo mais concreto a acontecer no Mar Negro, mas esta guerra híbrida continua a ter exemplos, ao longo dos últimos dias, de situações de sabotagem em diferentes países. Que análise faz da resposta que a União Europeia tem dado a essa guerra híbrida, que a Europa diz que existe, confirma que existe, associa vários ataques, várias situações de sabotagem à Rússia, mas depois acaba por não ter propriamente uma resposta para dar esse tipo de ataques de uma guerra híbrida?

A resposta tem sido oral, tem sido nesse aspecto significativa, pelo menos é importante que se diga que existe e nós sabemos que existe. Agora, tem sido pouco efetiva. Infelizmente, tem sido pouco efetiva. Por um lado, porque é feita de uma maneira também dividida, sem uma coordenação e sem uma ação conjunta. Por outro, porque é difícil encontrar uma resposta à altura. Quer dizer, a única resposta à altura é aumentar o apoio à Ucrânia e, nomeadamente, em termos de uma aproximação aos Estados Unidos, que se junte também esse apoio à Ucrânia, e nisso a Europa pode ter um papel muito importante. Fora isso, é difícil pensar numa outra resposta, porque não consigo conceber que a Europa, por exemplo, comece a fazer atos semelhantes em relação à Rússia, de atacar os aeroportos russos e coisas do gênero. Portanto, sem ser isso, e não me parece que seja um caminho que a Europa deva seguir, a única resposta é essa: é aumentar e reforçar o apoio à Ucrânia, nomeadamente numa altura em que o presidente Zelensky, em particular, precisa fortemente desse apoio, porque está-se a tornar o alvo claramente do presidente Putin e da ação russa.

Nós estamos numa semana em que se veem aqui algumas dúvidas sobre afinal que acordo há entre Estados Unidos da América e a Rússia nesta questão do fornecimento de combustível e da tentativa que aqui está a ser criada para aliviar a pressão sobre a Europa e outros países perante o que está a acontecer no Estreito de Ormuz. Hoje há aqui uma reação do Kremlin. Fala em cinismo europeu nas críticas que têm surgido ao acordo de Donald Trump. Diz o Kremlin que os países da Europa são grandes compradores de petróleo russo. Quem falou foi mais uma vez Dmitry Peskov, o porta-voz do Kremlin. Diz que os países europeus continuam a ser grandes compradores de petróleo bruto e produtos petrolíferos russos. Isto é dito na sequência dessas críticas europeias a um acordo de venda de gasóleo russo aos Estados Unidos da América. Compreende este posicionamento da Rússia? Há, de facto, algum cinismo europeu perante este acordo e a Europa continua, de facto, a alimentar-se no petróleo russo, apesar de todas as sanções que têm sido aplicadas ao longo dos últimos anos?

Infelizmente, a Rússia tem razão nesse aspecto. Ou seja, já lá vão cinco anos de guerra, ou perto disso, e a Europa, que disse que iria cortar com as compras de energia e sobretudo de petróleo e derivados à Rússia, continua a comprar, principalmente gás natural, que é mais difícil de encontrar um substituto, e que nesse aspecto é um comprador importante, sobretudo tendo em conta as divisas com que paga. Portanto, já devia ter cortado, já podia ter cortado se tivesse sido feita uma ação, de facto, eficaz e uma ação coordenada, e isso ainda não foi feito. E é verdade que a Europa compra bastante mais E tem comprado bastante mais derivados do petróleo à Rússia do que os Estados Unidos. Quanto a isso, não há dúvidas. Agora, é também verdade que há um afastamento entre os Estados Unidos e a Europa, que a Europa deve combater por todos os meios, deve procurar uma aproximação aos Estados Unidos por todos os meios, até por um meio muito simples, mas que seria um dos mais eficazes. É que para os Estados Unidos há uma ligação evidente entre a guerra da Ucrânia e o que se passa no Médio Oriente. Para a Europa, não. Para a Europa são duas coisas completamente distintas e a relação que tem com os Estados Unidos esfriou muito devido à ação no Médio Oriente, que aliás, diga-se, no caso da Europa, foi uma ação bastante errática, porque alguns países da Europa um belo dia anunciaram que fechavam o espaço aéreo e fechavam as bases americanas na Europa ou os aviões americanos, dois dias depois voltaram atrás. Mas o mal estava feito. A verdade é que a partir do momento em que isso é feito, mesmo voltando atrás, como todos voltaram, inclusive a própria Espanha voltou atrás. Mas o mal estava feito, ou seja, os Estados Unidos perceberam isso como uma bofetada na cara, com alguma razão, e concluíram que não podiam confiar neste apoio nestas bases na Europa numa situação de crise. Portanto, temos aqui um caso típico que contribuiu bastante para esse afastamento em relação aos Estados Unidos. Além disso, é notório, também desde há longos meses, que os Estados Unidos têm uma estratégia global divergente da europeia, nomeadamente em relação à Rússia e à China. As duas coisas têm que ser vistas em conjunto, não se podem separar do ponto de vista dos Estados Unidos. E que essa divergência global passa, nomeadamente, pela política em relação à guerra na Ucrânia. Portanto, a afirmação é verdadeira. A Europa compra mais derivados do petróleo à Rússia do que os Estados Unidos e compra desde que a guerra começou. Tem diminuído alguma coisa em relação ao petróleo bruto e em relação ao gasóleo, mas não tem diminuído ou tem diminuído muito pouco em relação ao gás natural, também ligado ao petróleo e um dos derivados do petróleo.

Falava, professor António José Telo, dessa visão dos Estados Unidos da América, de que estes conflitos estão ligados. Nós muitas vezes falamos disso aqui, precisamente neste espaço, neste gabinete de guerra, na ligação que existe entre estes conflitos, que torna quase esta situação que vivemos com algumas semelhanças a uma guerra mundial, discutida em diferentes planos, em diferentes geografias. Mas vamos ao que está a acontecer precisamente na zona do Médio Oriente, até porque continuamos, os últimos dias mostram isto, a ter ataques à Arábia Saudita, concretamente a aeroportos e a infraestruturas críticas da Arábia Saudita. Hoje há uma tomada de decisão do Ministério dos Negócios Estrangeiros português. É uma recomendação que desaconselha viagens à Arábia Saudita depois dos ataques que têm acontecido a aeroportos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros desaconselha essas viagens, diz que só devem acontecer se forem mesmo essenciais, ou seja, devem ser evitadas deslocações não essenciais e quem viaja para a Arábia Saudita deve privilegiar o tráfego por outras vias e deve evitar o tráfego aéreo, deve procurar o tráfego por terra. O que lhe parece esta recomendação? Parece-lhe uma recomendação acertada por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros português?

Antes de eu responder, deixe-me salientar um aspeto que normalmente os observadores não notam, mas que é muito significativo. Foram divulgadas há pouco tempo imagens, filmes das câmaras de segurança do aeroporto de Riade que mostram várias situações desses ataques dos houthis. E são filmes que são divulgados pela Arábia Saudita e são divulgados por uma razão muito simples, na minha opinião. É que quem está nessas salas, nalgumas delas pelo menos, são peregrinos de Meca, coisa que se nota pela roupa que levam, por aquela veste branca que levam. Ou seja, o que a Arábia Saudita está a dizer é: vejam como crentes do Islão, pelo menos que se proclamam assim, fazem aquilo que é um dos maiores pecados para um crente do Islão, que é atacar, ferir e matar peregrinos de Meca. Isto é impensável dentro do Islão. E, portanto, a Arábia Saudita com isto está de facto a dizer aos houthis: "Vocês não são crentes do Islão, porque se fossem, não fariam isto". E isso é um ataque muito certeiro, na minha opinião. É um ataque que se compreende perfeitamente a divulgação dessas imagens, porque o ataque é em cheio. Em cheio é um dos pontos que os houthis devem ter sentido. Em relação à pergunta concreta sobre as viagens para a Arábia Saudita, devemos ouvir o que diz a Arábia Saudita. A Arábia Saudita é a primeira interessada em assegurar o bom funcionamento dos seus aeroportos. Portanto, se ela diz que os aeroportos são seguros, merece alguma confiança, porque a última coisa que a Arábia Saudita pretenderia é dizer que são seguros e a seguir haver uma repetição dos ataques. Se diz o contrário, e se diz que é preciso tomar precauções, aí também se deve ter isso em consideração. Portanto, esse é um dos aspetos em que se deve ouvir o que a Arábia Saudita diz, porque ela é a primeira interessada em que os seus aeroportos funcionem de forma segura. Porque se fizesse o contrário, se ela dissesse que os nossos aeroportos são seguros e a seguir houvesse um outro ataque semelhante, a credibilidade dela caía bastante em termos internacionais. Portanto, não sei se o Ministério dos Negócios Estrangeiros ouviu o que a Arábia Saudita disse ou diz nesse campo. Acredito que sim. E se foi esse o caso, acho que fez muito bem, que faz muito bem em lançar esse aviso, desde que a Arábia Saudita o lance também.

Professor António José Telo, muito obrigado pela sua análise na Rádio Observador.

Um bom dia, obrigado, bom trabalho.