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E assim é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Espaço para fazermos um ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. É nosso convidado Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, a quem desejo desde já muito boa tarde. Jorge Rodrigues, bem-vindo à Rádio Observador. Começamos a olhar para a Faixa de Gaza, onde uma série de ataques israelitas causaram a morte de 104 pessoas, entre estes mortos estão 46 crianças. Isto de acordo com os dados do Ministério da Saúde do Enclave. Os ataques de Israel atingiram vários alvos de norte a sul da Faixa de Gaza e foram ordenados pelo próprio Benjamin Netanyahu depois de acusar o Hamas de violar o cessar-fogo. Depois destes ataques, Israel anunciou o restabelecimento do cessar-fogo e Donald Trump garantiu que a trégua seria para continuar. O que eu pergunto, Jorge Rodrigues, é se de fato este cessar-fogo tem condições para continuar depois destes ataques.
Boa tarde, João. Tem condições para continuar, de fato. Aliás, as condições principais mantêm-se, apesar de obviamente neste processo, e aliás não era um processo fácil, não era um processo logo à partida que tinha o sucesso assegurado. Primeiro porque é normal neste tipo de situações haver muitos avanços e recuos, pequenos erros táticos, interesses que estão em jogo. Neste caso concreto, há muitos atores que foram derrotados e que estão a tentar regressar ao tabuleiro. Há mesmo ações de falsa bandeira, há uma grande possibilidade de terem existido. E há ainda os interesses maximalistas. Nenhum dos atores principais conseguiu atingir o seu grande objetivo, portanto, é natural que ainda se lute por eles. O Hamas, por um lado, falhou intencionalmente na entrega de alguns reféns, apesar de não acreditarmos que possa vir a entregar todos, está provado que realmente pelo menos mais dois poderia ter feito. E houve um ataque efetivo com baixas na IDF por um grupo que não se tem absoluta certeza que seria do Hamas, mas que foi assim interpretado. Portanto, Israel reagiu. Reagiu em força como é seu normal e reagiu com pouca atenção para eventuais danos colaterais, se me permite a expressão neste contexto, e foi autorizado pelos Estados Unidos para isso. O Hamas tem aqui um grande objetivo. Tem um objetivo de se reorganizar militarmente, de se reposicionar face a outros grupos. Temos visto várias ações a serem, tem o apoio da população, de alguma forma, e procura jogar a nível político. É perfeitamente normal que o tente fazer e que tente aproveitar alguns momentos, alguns hiatos que lhe parecem oportunos. Temos que lembrar que a natureza, a matriz jihadista do grupo, a sua razão de existir, passar única e exclusivamente a uma força política, ainda para mais sem poder na região, não será definitivamente o seu grande objetivo e, em boa verdade, parou porque foi obrigado a isso, parou pela força. Israel, por outro lado, tem objetivos maximalistas e a segurança e a grande estratégia de Israel assim o determinam e, portanto, procura explorar o sucesso militar. Mas os Estados Unidos, de alguma forma, querem manter a chama, querem manter o processo, querem manter a ideia pacificadora Trump. E algumas coisas, como eu disse no início, asseguram isso. Há uma ajuda humanitária que continua, há umas bases de cessar-fogo que se mantêm, há o Israel que anunciou o restabelecimento do cessar-fogo. O problema será sempre passar para a fase dois, cumprir totalmente a fase um, que nos parece extremamente difícil, e partes da fase dois, como a desmilitarização do Hamas, a governança de Gaza, a força internacional e a própria segurança de Israel, que não pode ser esquecida, portanto será particularmente difícil passar para essa segunda fase.
Portanto, das suas palavras, Jorge, depreendo que é mais provável que não voltarmos a ter notícias destes ataques e destas interrupções unilaterais de parte a parte do cessar-fogo e destas notícias de mortes nestes níveis de mais de uma centena de pessoas.
Esperemos que não venha a atingir este tipo de proporção, mas algumas escaramuças vai haver com toda a certeza, como digo, isto até ao nível de erros táticos. Estamos a falar do soldado que está no terreno e que dispara no momento em que não deveria, mas que a confusão, o ruído do combate muitas vezes leva a esse tipo de situações e pode muito facilmente escalar. Mas acreditamos que pelo menos no imediato, não teremos mais situações com esta gravidade.
Washington elogiou hoje o esforço, passamos aqui pro Líbano, do exército libanês para monopolizar o controle das armas, ou seja, procurando retirá-las de grupos como é o caso do Hezbollah, mas para já há ataques que continuam. Israel disse hoje mesmo ter morto um membro do Hezbollah num ataque no sul do Líbano. Qual que é a importância, que papel tem o Líbano a desempenhar neste conflito ou neste cessar-fogo entre Israel e o Hamas?
Tem toda a importância, João. Aliás, eu complemento Tom Barak, o enviado para a região, avisou o Líbano que é a última oportunidade para desmantelar o Hezbollah e que senão os Estados Unidos deixam o Líbano completamente sozinho. Eu penso que o que se passa no Líbano é paradigmático do que representa toda esta situação. Tal guerra de sete frentes que Israel refere, uma coisa tem toda a razão, há uma ameaça existencial ao país, há uma ameaça que é agravada pela sua pequena profundidade estratégica e é natural que haja aqui também do lado dos derrotados uma tentativa de reorganização. O Irã e os seus proxies também sentem uma ameaça existencial, aí mais ao regime e às organizações, e por isso é que o Irã rearma a toda velocidade o Hezbollah via Síria Israel tem dúvidas de como tratar o Líbano, em boa verdade. Se vê um Estado conivente ou apenas um Estado falhado. Nenhuma das soluções é boa e, portanto, Israel sente-se na obrigação, entre aspas, de intervir diretamente no sentido de assegurar a sua grande estratégia, que é face a uma menor profundidade estratégica, criar uma buffer zone e uma superioridade militar que permita intervir rapidamente sobre qualquer tipo de ação. Relembro que no terreno temos a UNIFIL, mas que acaba por não ser um ator relevante e, portanto, Israel sempre com alguma liberdade para explorar o sucesso das ações militares anteriores e ajudar o Líbano a controlar o sul, que eram as forças libanesas. E será determinante nos próximos tempos a forma como as forças libanesas vierem, de facto, a controlar aquela região, porque caso contrário, poderemos ter aqui uma escalada, mas como daqui também poderemos ter em outras áreas, nomeadamente no sul da Síria, por onde passa todo este armamento, e mesmo em última análise, face ao Irão novamente.
A tal guerra das sete frentes. Jorge Rodrigues, quero também ouvi-lo sobre o que se está a passar na guerra da Ucrânia esta semana. A União Europeia e a Ucrânia vão discutir as principais características de segurança pro pós-guerra. Foi assim hoje mesmo anunciado, isto numa altura em que sabemos que a Hungria de Viktor Orbán está ativamente a tentar criar um bloco anti-Ucrânia com a ajuda de países como a Chéquia e Eslováquia, pelo menos foi uma notícia do Politico de alguns dias. Como é que isto deixa a União Europeia? Consegue manter o apoio militar à Ucrânia ou contribuir pra uma solução de paz quando essa mesma solução não é pelo menos universal entre os 27 Estados-membros?
É uma boa questão. Aliás, eu vou repetir uma terminologia que ainda há pouco utilizei, que é uma ameaça existencial. Já estou a falar muitas vezes de ameaça existencial, mas existe, de facto, a Europa democrática. Não estamos a ver a destruição dos países, mas estamos a ver a destruição de um regime, de um modo de vivenda, diria mesmo, da Europa Ocidental. O problema maior da Europa acaba por ser exatamente esta desunião estratégica, o que implica que não consegue ser ator geopolítico credível, ter autonomia estratégica, ser efetivo, ser reconhecido. Por algum motivo é alcunhado pela potência víbora, em que aparece nos momentos em que é preciso dar dinheiro, mas depois nos momentos de decisão não é considerado por nenhum ator a nível internacional. Portanto, Bruxelas identificou como um risco particularmente relevante um processo de paz favorável à Rússia. É um processo que poderia dar ânimo a uma Rússia mais interventiva no Leste Europeu, entrando em outras zonas, sempre com a desculpa da defesa de minorias. E há essas minorias em vários locais, minorias russófonas, bem-entendido, em vários locais da fronteira e, portanto, poderão ir avançando e acabava por promover uma nova ordem euro-asiática. Bruxelas não pode permitir que a Ucrânia fique isolada, apesar de termos passado aqui um momento em que os apoios à Ucrânia baixaram em cerca de 40%, pelo menos a nível militar, não tanto a nível financeiro pra instituições e administração, mas no plano de equipamento e material militar. Portanto, Bruxelas precisa rapidamente de se reorganizar. Só que Orbán achou que por bem agora com um terceiro parceiro, que é Babiš da Chéquia, com o parceiro que já tinha, Fico da Eslováquia, em liderar aqui uma reação no Conselho Europeu e que poderá ser obviamente virada para outros órgãos da União Europeia, fazer como que um Visegrád 4 que também operou na crise migratória também neste sentido de defender interesses próprios e não os interesses de toda a União Europeia. E em última análise, esse grupo poderá servir os interesses russos, que não são os interesses de criar algum tipo de desunião ao Ocidente, tanto a nível NATO como a nível da União Europeia, e com isso ir alargando a sua esfera de influência e da capacidade de intervir, e obviamente diminuindo a capacidade da União Europeia de efetivamente defender aquelas regiões e eventualmente vir a integrar a Ucrânia num processo de adesão à União Europeia, que como é sabido nem sequer era uma das maiores preocupações de Moscovo no início do conflito, mas que agora obviamente é um ganho extra que Orbán lhe pode servir de bandeja.
Ainda esta madrugada, Donald Trump admitiu que chegou a pensar que a relação que tem com Vladimir Putin ajudaria a chegar a uma solução de paz. Foi o que disse na Coreia do Sul, numa cimeira de cooperação econômica Ásia-Pacífico. Donald Trump sobrevalorizou-se ou desvalorizou Vladimir Putin neste processo?
Nitidamente desvalorizou Vladimir Putin. O que chamaríamos de diplomacia pessoal de Trump é definitivamente sobrevalorizada. E o que vai conseguindo, e aliás, as mensagens ao ego que tem conseguido receber nesta viagem asiática, seja pela Malásia, Tailândia, Japão, que até vai propor ao Prêmio Nobel, e mesmo da Coreia do Sul, que falou numa época dourada da aproximação. Mas são acordos comerciais básicos, são relacionamentos básicos. Na prática, nem mesmo Takashi, que é discípulo de Abe, acredita verdadeiramente e a longo prazo nesta aproximação. Portanto, o objetivo de recuperar parceiros foram destruídas, em primeiro lugar, logo as redes que havia antes e depois não é de forma alguma capacitador para futuro, porque não transmite a confiança. Não transmite confiança e portanto, deixa os parceiros numa posição um pouco dúbia Como diz exatamente, já que estamos a falar da Ásia, recentemente, aliás, é de hoje, a Coreia do Sul diz que vai desenvolver uma política com duas asas em que tenta tocar na China e nos Estados Unidos. Portanto, não acredita única e exclusivamente no ator apoiante que era antigamente o ator norte-americano. Portanto, nesse sentido, a competitividade global acaba por deixar Trump mais preocupado realmente com a guerra trade war com a China e deixar um pouco para lá esse tipo de situações como o conflito na Ucrânia. A capacidade de influenciar no teatro de operações da Ucrânia está definitivamente demonstrado que o rei vai nu e portanto acaba por ter que salvar algum tipo de questões e nomeadamente procurar manter o mínimo de integridade do território ucraniano e é aí que aparece mais uma vez a necessidade da União Europeia surgir como um ator determinante nesse fator, caso contrário, a fronteira leste-leste irá vir a avançar um pouco mais para o centro da Europa.
Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, foi o nosso convidado da edição de hoje do Gabinete Guerra. Muito obrigado, Jorge. O Gabinete Guerra está de regresso já amanhã.