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Abrimos a porta ao gabinete de guerra aqui na Rádio Observador. Analisamos dois dos principais conflitos no globo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, convidamos Mónica Dias, é especialista em Ciência Política e Relações Internacionais. Mónica Dias, seja muito bem-vinda à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar a olhar para a guerra na Ucrânia. Donald Trump e Volodymyr Zelensky vão discutir a entrega de armas dos Estados Unidos da América a Kiev esta sexta-feira. A minha pergunta é se está aqui muito em jogo o futuro deste conflito e da sobrevivência ucraniana.
Sim, muito boa tarde e obrigada também pelo convite. Temos, de facto, dois conflitos muito graves, muito próximos da Europa e os dois, de alguma forma, estão relacionados. E portanto, é também curioso ver como é que, na nossa avaliação, muitas vezes os Estados da União Europeia têm uma resposta num caso e outra resposta noutro conflito. E também os Estados Unidos estão muito divididos, têm uma posição muito clara em relação a Israel e uma posição muito ambígua em relação à Ucrânia. Então vamos a isso, à Ucrânia, não é? E de facto, este encontro é muito importante, mas as notícias hoje dão a conhecer que, aparentemente, Washington quer interromper o apoio a Kiev de armamento, não diz se é algo definitivo, se não quer apoiar mais ou se realmente vai cumprir. O que sabemos é que há armamento americano estacionado na Polónia e com ordem de marcha já para entrar na Ucrânia. No entanto, houve aqui uma paragem, uma suspensão desse envio. E neste momento não se sabe o que é que significa o fim. Portanto, se os Estados Unidos, de facto, suspendessem ou terminassem realmente o seu apoio a nível de armamento à Ucrânia, isso seria obviamente uma tragédia para a população da Ucrânia e também para todo o território da Ucrânia, e também teria consequências muito graves para a NATO e para a Europa. E temos aqui também, por parte de Trump, se isto se realizasse, uma quebra de compromisso anterior, porque estavam efetivamente prometidos sistemas de defesa aérea Patriot, mas também envio de munições e de mísseis e, sobretudo, os sistemas de defesa aérea Patriot são muito importantes para a defesa das cidades. E enquanto que temos esta indefinição por parte dos Estados Unidos, deste governo de Trump, assistimos a uma intensificação dos ataques da Rússia todos os dias, com drones, com mísseis. Na última noite morreram mais 24 pessoas. Os ataques dirigem-se muito concretamente a alvos civis, ou seja, zonas urbanas, casas, infraestruturas vitais, sobretudo centrais de energia. E, portanto, estamos perante aqui uma ofensiva de verão, como já suspeitávamos há algum tempo. E, portanto, mesmo que Trump venha a tomar uma decisão, esta indefinição e também o anúncio de que Trump iria ter uma conversa ao telefone com Putin hoje, esta tarde, é do ponto de vista simbólico, muito grave. E por quê? Eu penso que isso é muito importante, porque nas conversas entre Trump e Putin, sabemos que Trump não tem um plano e Trump não está preparado para este diálogo com Putin. Muitas vezes acredita tudo o que o Putin diz, não entende o imperialismo russo deste presidente e, portanto, não parece que tem o conhecimento que permita conseguir aqui, como ele costuma dizer, fazer um bom negócio.
E do outro lado, Mónica Dias, o que é que Zelensky pode tentar dizer a Donald Trump para o convencer a não cortar o abastecimento de armas?
Enfim, Zelensky está numa luta pela sobrevivência e vai ter que explicar a Trump, na linguagem de Trump, que os Estados Unidos tiram mais benefícios A médio prazo, nem sequer a longo prazo, porque isto também é algo que não existe no imaginário de Trump. Mas tem que explicar que a curto e médio prazo, os Estados Unidos, e não a Europa, não o Ocidente, mas os Estados Unidos terão muito mais benefícios se apoiarem Zelensky e a Ucrânia do que se não o fizerem. E aqui, Zelensky tem, obviamente, uma tarefa muito difícil, porque dentro da própria administração Trump, há vários republicanos, um deles muito importante, que é o secretário de Estado da Defesa, Elbridge Colby, que consideram que a prioridade dos Estados Unidos não deve ser a Europa, não deve ser esta guerra entre a Ucrânia e a Rússia, mas deve ser o Pacífico. E portanto, é para a China que os Estados Unidos devem olhar, é para a China que devem concentrar ou gerir o seu armamento e os seus investimentos militares para esta zona. E, portanto, Zelensky tem uma tarefa difícil, mas tem talvez um aspecto que é muito importante. E é uma coisa que não esperamos na área política nem na diplomacia. Mas também sabemos que Trump não vai pela via da política tradicional, nem pela diplomacia. Mas Zelensky é um ator, sempre foi um ator e consegue, mesmo em todo o dramatismo da situação real em que o seu país e a sua população se encontra, conseguiu até agora, com imensa coragem, resistir e conseguiu desempenhar um papel, de fato, que é fundamental e simbólico para a sua população e talvez que consiga, assim também conquistar Trump, explicar-lhe que de fato pode beneficiar com negócios de matérias-primas da Ucrânia, com vantagens estratégicas e geopolíticas ao apoiar a própria Ucrânia. Portanto, é este nível que estamos, mas o que define toda esta situação, e que em meu entender, é o mais importante realçar, é toda esta indefinição. Nós não conseguimos ter em Trump ou nos Estados Unidos, no governo dos Estados Unidos, neste momento, uma linha clara, um parceiro em que possamos confiar. E a imprevisibilidade é geralmente, em política, um enorme perigo. Torna todas as relações internacionais muito frágeis e geralmente abre oportunidades à guerra e aos senhores da guerra ao mesmo tempo. E, portanto, temos, de fato, aqui uma situação muito difícil. Talvez um aspecto muito importante e fundamental para nós, portugueses e europeus, é que esta indefinição, esta arbitrariedade de Donald Trump, um dia apoia, no outro dia diz que suspende, um dia telefona a Putin, no outro dia reúne com Zelensky. Toda esta indefinição significa que a Europa tem que ser o parceiro que continua a agir pela via da diplomacia, pelo direito internacional e continua a apoiar a Ucrânia, e se necessário, também com o armamento e com mais financiamento, e continua com sanções também sobre a Rússia. Neste mesmo sentido, é muito interessante ver que, por exemplo, o ministro de defesa da Alemanha, Johann Wadephul, esteve na segunda-feira e na terça-feira, precisamente em Kiev e Odessa, e em Kiev, obviamente, e também em Odessa, as esperanças de que a Alemanha possa fornecer mais armamentos e continuar o apoio financeiro muito importante e convencer os parceiros da União Europeia a continuar e de uma forma muito mais determinada, estar ao lado da Ucrânia. Essa foi a esperança que ouvimos por parte dos ucranianos em relação a Wadephul. Vamos ver em que medida é que a Alemanha consegue cumprir, por um lado, o apoio e também convencer os parceiros europeus para terem uma política de apoio à Ucrânia, independentemente daquilo que Trump decidir.
Vamos avançar, olhar para a situação no Médio Oriente. A ONU pede a vários países a suspensão dos laços comerciais e financeiros com Israel numa tentativa de pressionar. Parece-lhe, Mónica Dias, uma decisão possível de ser colocada em prática?
É uma decisão muito difícil de ser posta em prática e é também uma afirmação muito extremada. Mas temos que entender que aquilo que se passa efetivamente no terreno, na Palestina, é absolutamente inaceitável do ponto de vista do direito internacional e mesmo das convenções internacionais que foram, de certa forma, criados por Israel e que Israel apoiou. E, portanto, temos, neste momento, o relatório de Francesca Albanese, que é a relatora principal sobre direitos humanos nos territórios ocupados da Palestina e que apelou precisamente a estas sanções E, sobretudo, a um embargo de armas. Portanto, não seria comercial neste relatório, mas um embargo ao envio de armas. Há muitos Estados europeus que continuam, além dos Estados Unidos, a fornecer armas a Israel e é muito questionável esse envio de armamento quando a utilização pode ser dirigida contra uma população que não tem absolutamente nada, que tem o seu país em escombros da guerra por causa destes bombardeamentos. É importante aqui lembrar, talvez, pensadores judaicos como Raphael Lemkin, um grande advogado e defensor dos direitos humanos, que criou a própria palavra de genocídio em 1944. Não queria aqui falar obviamente em genocídio diretamente, mas é importante olhar para a convenção de 1948, e que depois entrou em vigor em 1951, assinada por 153 Estados até agora, e também por Israel. Neste momento, a situação humanitária está para além da política. Isto é que tem que ser entendido. Não tem a ver com política, não tem a ver com blocos, é um sofrimento humano que não pode ser tolerado e neste sentido temos que pensar qual é a melhor forma de conseguir convencer Israel a parar imediatamente esta ofensiva, a mudar a sua política.
Mónica Dias.
Que seja levado a este território, sejam levados bens de primeira necessidade e alimentos, sem que perca a sua face e sem que perca também a sua base de defesa, que é obviamente também importante. Ou seja, em vez de extremismos, precisamos de moderação e olhar para o essencial, que está para além da paz e da guerra, está simplesmente para a proteção de vidas todos os dias, e isso está na consciência de todas as mulheres e todos os homens.
E é precisamente nesse tema que eu gostava de pegar. Já só temos dois minutos antes de terminarmos este gabinete de guerra, mas que decisões alternativas que falava é que podem ser postas em marcha? Em dois minutinhos.
Eu creio que temos que tentar convencer Israel a agir de outra forma, isso é muito importante, mas atenção, a população de Israel não defende esta política de Gaza. Ou seja, a população uniu-se em torno de Netanyahu em relação ao Irão e à guerra no Irão e ao impedimento absoluto do Irão desenvolver armamento nuclear. Agora, em Gaza, a situação é completamente diferente. Há contestação nas ruas de Israel contra Netanyahu e neste momento Netanyahu tem que, obviamente, apresentar algum plano que seja credível, porque neste momento não faz sentido esta agressão diária sobre uma população que está deslocada. Portanto, são 2,3 milhões de pessoas que veem o seu país em escombros, que estão deslocados, que não têm acesso a bens de primeiríssima necessidade, destruição de hospitais e não é sustentável continuar assim. E aqui, obviamente, há dois apelos muito grandes que têm que ser feitos. O primeiro aos Estados Unidos. Os Estados Unidos são o único país que pode forçar, de facto-
Para concluir, Mónica Dias
...pela via diplomática Israel a mudar de rumo, e também a Europa. Na Europa, a Alemanha, a Áustria e a Hungria têm também de ter aqui uma palavra muito importante e pressionar. Mas pela via da diplomacia, parece-me que os julgamentos e as tentativas de sanções abertas e na praça pública não têm efeito. Temos que apostar na diplomacia e nos bastidores e conseguir, a partir daí, e baseado obviamente em leis internacionais, conseguir convencer Netanyahu a alterar esta política e apresentar um plano concreto para Gaza com transparência ou formulá-lo, e também distinguir, por um lado, o combate contra o Hamas.
Temos mesmo que fechar, Mónica Dias.
E, por outro lado, a defesa da população também da Palestina.
Diplomacia e bastidores. Ficou clara a posição. Muito obrigado, Mónica Dias, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, fica disponível já daqui a pouco em podcast. Está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.