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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos dois dos conflitos ativos no globo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, convidamos hoje o coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, o Jorge Rodrigues. Jorge Rodrigues, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar da guerra na Ucrânia, até porque o Kremlin afirma que o suposto ataque ucraniano à residência de Vladimir Putin obriga a Federação Russa a endurecer a sua posição nas negociações de paz. Jorge Rodrigues, este suposto ataque não surge numa altura demasiado conveniente para o lado russo?
Boa tarde, José Rafael. Surge de uma forma muito conveniente, diríamos mesmo. Neste tipo de situações, há sempre muito nevoeiro. Nós ainda não sabemos bem o que se passou, iremos saber algumas coisas, haverá sempre uma informação filtrada, mas seja como for, apesar de possível, é pouco provável que tenha acontecido o ataque na forma como é defendido pelo Kremlin. Naturalmente que várias ações poderiam ter acontecido com outro tipo de características, inclusivamente com os vários atores que existem no terreno, até que sobre uma operação de falsa bandeira. Mas 91 drones dirigidos para uma fortaleza como Valdai, seria expectável um outro tipo de ação e num outro tipo de momento, caso fosse a intervenção dirigida a partir de Kiev. Portanto, parece-nos pouco provável. Surge numa altura em que foi criado um bom ambiente, muito diferente do passado, entre Trump e Zelensky, que realmente pareciam conduzir numa outra direção. Parecia haver aqui um tipo de evolução que não pareceria interessante ao Kremlin, nomeadamente após ter partido daquele ponto inicial que foi Anchorage e, portanto, estava à espera de uma outra inclinação no processo. O que isso nos demonstra? Eu penso que é mais importante ir por aí. Demonstra-nos um conjunto de ideias. Uma primeira é a total ausência de equilíbrio estratégico. Só se chega ao final dos conflitos, só se chega a um momento de paz, não com justiça, mas sim com equilíbrio estratégico. E a verdade é que ainda não foi alcançado. O que há é que eles se ultrapassavam, esses incidentes, de uma forma ou de outra, com maior ou menor ruído, mas de alguma forma se iriam ultrapassando. Não nos parece que isso tenha sido o caso. Há aqui ainda interesses russos que não estão alinhados com os ucranianos, definitivamente. Há interesses russos que não estão alinhados com os europeus, definitivamente. E depois verificamos também que há uma incapacidade do mediador, um pouquinho por culpa própria. Os Estados Unidos colocou-se numa situação em que retira formas de pressão que tem sobre a Rússia e, portanto, de alguma forma, se expôs a um menor respeito pela sua tentativa de mediação. Isto estou a referir-me principalmente ao retirar o receio e o isolamento internacional, ou seja, o Kremlin não sente uma pressão efetiva quando ainda tem condições de avançar para uma fase com maior sucesso. Eu julgo que aqui há uma luta pela cabeça Trump. As pessoas já perceberam que mais do que diplomacia, é conseguir atuar na cabeça de Donald Trump no sentido de recolher o seu interesse e as suas boas intenções e com isso as decisões dos Estados Unidos serão determinadas e consequentemente teremos, a médio longo prazo, uma resposta que poderá ser mais ou menos favorável. Por fim, e eu julgo que este é um ponto também particularmente relevante, há aqui uma sinalização com este tipo de empolamento, se tenha ou não tenha acontecido, mas um empolamento efetivo, que é uma resposta à Europa, que é uma tentativa de Putin de manter o afastamento entre os aliados e que, isso foi dito de uma forma inclusivamente formal, a Europa tem que perceber quem está por cima no conflito. E daí haver aqui a justificação para algum tipo de ações futuras, nomeadamente sobre interesses civis, sobre mobilização de tropas, como é já o caso dos sistemas de mísseis Orishnik que estão a ser projetados para território bielorrusso e, portanto, criar aqui um novo ambiente um pouco menos favorável ao processo de paz.
Posto isto, Jorge Rodrigues, em que ponto é que ficamos precisamente nesse processo de paz na Ucrânia?
A paz não está mais próxima. Tudo o que se pensou que poderia ter avançado e o bom ambiente que se viu recentemente em Mar-a-Lago não está concretizado, de facto. Se bem que era evidente que os 95% deixavam bem claro que não se tinha avançado muito, ou seja, avançou-se um pouco de um lado, mas a Rússia nunca cedeu. E a Rússia não cede porque verdadeiramente mantém os objetivos e parece-nos ter as condições para os atingir. Continua a ter a iniciativa no terreno, por muito que seja demorada, ela vai paulatinamente evoluindo e tenta passar uma imagem de ser mais favorável, o que não é, mas considera que tem a capacidade para ir progredindo, portanto, não está numa situação de completa estagnação estratégica, consegue de alguma forma avançar Mas por outro, sente que está a conseguir ganhar a guerra da comunicação e a retirar a vontade de apoio no mundo ocidental. Trump tem pressa porque quer se concentrar o mais depressa possível na região da Ásia-Pacífico, numa visão mais global. Naturalmente, tem as suas preocupações noutros pontos, como o Médio Oriente, mas também nas suas fronteiras próximas. Mas julgo que a prioridade manter-se-á sempre na competição com a China a nível global e que, portanto, a Europa também não se sente capaz de manter este conflito por muito tempo e haverá sempre um desgaste e uma procura de solução, que em última análise poderá vir a ser favorável a Putin. Ele percebe isso e portanto o fator tempo determinante, quando aliado à componente moral, acaba por lhe permitir concluir que tem vantagens em prosseguir com o conflito. As questões de território, soberania, garantias de segurança, o futuro, reconstrução e não haver mais ataques, tudo isso ainda está demasiado em aberto. São os tais 5%, que eu acho que são mais, mas são os tais 5% que ainda não estão concluídos.
E é precisamente sobre as garantias de segurança que vamos falar de seguida, até porque Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, não desiste de tentar prolongar o período de 15 anos, que é a garantia de segurança dos Estados Unidos à Ucrânia. Donald Trump admitiu que ia refletir sobre o pedido de Volodymyr Zelensky. Jorge Rodrigues, entende a forma como o presidente ucraniano está a tentar forçar esta questão das garantias de segurança?
Entendo perfeitamente, até porque recentemente, a Ucrânia teve provas de como não resultam garantias de segurança. Aliás, já foi por duas vezes exposta a esse tipo de situação. Daí elas serem determinantes por dois vetores. Vamos começar por aí. Um é diretamente em relação ao território, às populações, etc. Outra, que pode não ser tão evidente, que é pela soberania, porque as garantias de segurança têm também que ser direcionadas para esta dimensão. Uma soberania política, econômica, militar, de segurança, num sentido abrangente, envolvendo várias outras áreas, como seja, por exemplo, a própria segurança energética, etc. Há aqui vetores que não podem ser definitivamente esquecidos e, portanto, têm que ser efetivas. Têm que ser efetivas em meios, em envolvimento dos atores e em tempo. Quinze anos pode nos parecer muito tempo, mas não é. Se nós remetermos à história recente, verificamos que foi exatamente o período mais complexo para esta situação atual na Ucrânia. Portanto, natural que ele tente ter um período mais alargado de 30, 40 ou mesmo 50 anos, e que tente que isso esteja ligado a quase um artigo quinto da NATO, como tem sido veiculado, de defesa mútua, mas que não esteja dependente das mudanças de regime do lado norte-americano, e que, portanto, um novo regime, eventualmente dentro ainda do movimento MAGA, o possa colocar em causa. Isso tem que ser conseguido diretamente junto dos Estados Unidos, daí a preocupação com a retificação pelo Congresso, como também o envolvimento de outros atores para dar a cobertura extra necessária, e daí a necessidade que Zelensky tem de chamar à mesa de negociações também os europeus para garantirem o extra que possa não ser garantido pelos Estados Unidos. Finalmente, é óbvio que aqui tem que ser envolvida a capacidade das próprias forças de segurança e defesa ucranianas, seja através do fornecimento de material, seja pelo efetivo que lhes seja permitido manter, seja ainda também pelo desenvolvimento da sua indústria de defesa. Só aí terá assegurado um conjunto de condições que permita a Zelensky encarar o futuro sem correr o risco de um 2.0 neste modelo ou eventualmente no modelo híbrido que venha a colocar em causa a segurança e a soberania da Ucrânia nos tempos mais próximos.
Vamos avançar, Jorge Rodrigues, falar do conflito no Médio Oriente e do encontro entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, em Mar-a-Lago, na Flórida. Em cima da mesa estava a segunda fase do processo de paz em Gaza. No entanto, o que acabou por se tornar o tema principal foi o apoio do presidente norte-americano a um eventual ataque de Israel ao Irão. Jorge Rodrigues, não é contrário estarmos a falar de ataques quando o tempo seria de pacificação?
Não, Rafael, com Donald Trump tudo é o seu contrário. Para começar, ele transformou Mar-a-Lago parece a Versalhes de Luís XIV, ou seja, o local onde é decidida a diplomacia de uma outra forma, o que tem vantagens informais de conseguir uma maior flexibilidade, tem um grande inconveniente de ao chamar apenas este ator ou aquele ator ou conversas informais, depois ser muito difícil de se conseguir materializar e solidificar o que venha a ser falado neste tipo de encontros. E tivemos já vários exemplos, e é mais um. Este em que verdadeiramente, mais do que uma reunião para preparar a segunda fase, foi um conjunto de troca de Boas relações entre Israel e Estados Unidos, em que se procura verdadeiramente transmitir um conjunto de mensagens para atores que não estavam presentes. Esses dois vetores, eu diria, na influência que Israel consegue exercer sobre os Estados Unidos, principalmente a partir dos anos 60 do século passado, em que ficou como um ator relevante no Médio Oriente, os Estados Unidos perceberam isso. Uma pequena potência conseguiu influenciar a grande potência, o que não é nada normal no sistema político internacional. E Netanyahu percebe bem que a luta pela cabeça de Trump, como há pouco falávamos, é essencial e já lhe foi oferecendo alguns presentes, como agora designar para o Prêmio Israel, e que vai ser o primeiro cidadão não israelita a ser proposto para este prêmio. Isso vai alimentando o ego de Netanyahu, como já foi no passado a proposta para o Nobel da Paz. Netanyahu percebe bem como deve conduzir este tipo de relacionamento. Por outro lado, lá está a tal sequência de mensagens da exploração do sucesso. A exploração do sucesso em que vai falando que Israel compra 100%, que a Arábia Saudita apoia e que poderá vir a entrar nos acordos de Abraão, mas depois umas mensagens mais diretas para alguns atores locais regionais, como o Líbano e o Hezbollah, como na Síria para pacificação, mas que deixa a mensagem principal definitivamente para Teerã. É um adversário comum aos dois atores, um adversário que os Estados Unidos pretendem manter incapaz e que vão fazendo uso de algumas mensagens que não têm particular razão neste momento. Obviamente, Teerã tenta agora reorganizar-se após os ataques, mas não poderá estar numa situação a constituir uma ameaça e, por isso, quer deixar bem claro que como líder do eixo de resistência poderá sentir alguma orientação agora eficaz da parte de Israel e que vai ser coadjuvado pelos Estados Unidos. Nesse sentido, é determinante este ponto de querer deixar bem claro no final da reunião que é essa a prioridade dos Estados Unidos. É sintomático.
Jorge Rodrigues, temos ainda dois minutos e meio para falar de um possível acordo para a venda de aviões de combate à Turquia por parte dos Estados Unidos, F-35 para ser mais exato, sendo que há uma garantia de que esses aviões não vão ser utilizados contra Israel. Jorge Rodrigues, este processo tem vindo a arrastar-se. Como é que se explica que seja tão complicado vender este tipo de equipamentos, sobretudo porque a Turquia é aliada dos Estados Unidos na NATO? Lembro que temos dois minutos e meio para falar sobre este tema.
Então em dois minutos e meio, muito rapidamente, eu acho que poderíamos ver sobre duas dimensões. Uma primeira, a Turquia já esteve no programa, também de renovação do F-16. Saiu em 2019 com a aquisição dos S-400 à Rússia, isto na sequência de um processo de demanda que a incapacidade de comprar mísseis aos Estados Unidos e a partir daí foi colocado fora do programa. O cancelamento da operação dos S-400 reabre a porta da entrada no programa, só que depois temos a questão da competição regional. Erdoğan como líder muçulmano definiu que Israel seria o grande adversário vendável dentro daquele mercado e assim se dirigiu. No entanto, é importante para os Estados Unidos, é importante como ponto de referência para utilização logística e projeção de forças norte-americanas, visto que há várias bases dos Estados Unidos, meios dos Estados Unidos e também comandos da NATO no território. E dentro da facção ligada ao Qatar e à Irmandade Muçulmana, tem alguma moderação. Acaba por ser útil, como já foi no Afeganistão, como já foi na luta contra o ISIS, na Líbia. Tenta utilizá-lo em Gaza, mas Israel não aceita, porque Israel está muito preocupado com a competição regional e com a pouca fiabilidade deste líder Erdoğan. E a questão na Síria é de fato determinando. Essa competição poderá levar a algum tipo de conflito direto e que obviamente o equipamento como o F-35 poderia desnivelar um pouco e criar algum tipo de restrição às operações israelitas no sentido de criarem a sua zona de segurança tão determinante. Há aqui uma procura de aproximar a Turquia e Israel por parte de Trump, por outro, há uma competição direta e efetiva no terreno que preocupa, em particular, Netanyahu.
Muito obrigado, Jorge Rodrigues, pelas explicações não só sobre o conflito no Médio Oriente, mas também sobre a guerra na Ucrânia. Agradeço-lhe ter aceitado este nosso convite. Jorge Rodrigues, que é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. O Gabinete de Guerra fica por aqui, está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.