Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos os principais conflitos a marcar a atualidade, bem como as questões predominantes da geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do major-general João Vieira Borges, que é também presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. Seja muito bem-vindo, major-general João Vieira Borges. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar das conversações trilaterais Estados Unidos, Rússia e Ucrânia. Já começaram em Abu Dhabi, devem continuar por dois dias. A minha pergunta para si, major-general João Vieira Borges, é se podemos olhar para estas conversações como o princípio do fim da guerra.

Muito obrigado pelo convite. Concordo consigo. Efetivamente, é significativa, em termos de condução à paz, estas negociações trilaterais. São diferentes de todas as outras, envolvem as autoridades da Ucrânia, da Rússia e dos Estados Unidos. E, sobretudo, nós temos a noção, neste momento, daquilo que são os grandes obstáculos. Quando diziam ontem os negociadores, designadamente os Estados Unidos, que havia já só um ponto em discussão, todos imaginamos que será certamente a questão territorial. Ou seja, quer dizer que duas questões que eram importantes, Zaporíjia, a central, e a questão das garantias de segurança, em princípio estão mais ou menos asseguradas. E, portanto, a grande questão será a questão do território, será a questão, sobretudo, do Donbass, que os russos não abdicam. Disseram até antes de entrar nas próprias negociações, que no fundo era a fórmula Anchorage, a fórmula do Alasca, que implicava que o Donbass fosse liberto para a Rússia. Aliás, porque isso é um objetivo militar e simultaneamente um objetivo político que estava no primeiro discurso de Putin quando invadiu a Ucrânia. Portanto, ele não quer abdicar disso.

Entretanto, Volodymyr Zelensky assegura que está em contacto constante com a equipa de negociadores que está em Abu Dhabi. Que papel, major-general, é que tem o presidente ucraniano em toda esta questão?

É um papel determinante, ele é que diz sim ou não. Ou seja, ele é que dá a liberdade de ação aos negociadores para irem até determinado ponto. E esse ponto pode ser, designadamente na questão do Donbass, a criação da tal zona económica livre que referiu Witkoff. É um dos assuntos, não deve estar muito longe disto a negociação, a cedência da parte da Ucrânia para a tal zona económica livre, mas não aceitará, certamente, que as forças ucranianas se retirem e que fiquem as tropas russas. Para a Ucrânia era mais importante que ficasse zona cinzenta. Os russos querem ficar no local. E, portanto, andará muito por aí. Por quê? Porque o Donbass não está actualmente ocupado, os cerca de 20 a 30% do Donbass são importantíssimos em termos militares, já o disse aqui, em termos estratégicos, mas também em termos táticos de determinados pontos importantes que dominam toda a outra região a leste e que impossibilitam o avanço rápido da Rússia, e por isso eles estão ali há quatro anos pra avançar muito pouco e morrer muita gente. E a Rússia sabe que isso é importantíssimo e a Ucrânia não admite isso. Esse é que é o grande ponto, a linha da frente se vai chegar até à linha de fronteira. Esse é que é o grande ponto.

Continuamos ainda a falar sobre o conflito na Ucrânia, até porque Volodymyr Zelensky diz que chegou a acordo com Donald Trump para a entrega de mais mísseis Patriots às Forças Armadas Ucranianas. Que importância, major-general, tem este equipamento para o lado ucraniano e que danos é que provoca na Rússia?

Não provoca danos na Rússia. Isso é muito importante, ainda bem que fez essa pergunta. Agradeço imenso, porque o sistema Patriot é um sistema puramente de defesa. De grande altitude e protege sobretudo infraestruturas energéticas, que tem sido o grande objetivo da Rússia, e protege o povo ucraniano. É uma arma puramente defensiva e por isso não haverá grandes problemas em que seja fornecida por parte dos Estados Unidos. O problema é que é um sistema de armas caríssimo e é um sistema de armas que é utilizado fundamentalmente contra os mísseis balísticos, que são muito difíceis de atingir pelos restantes sistemas de defesa antiaérea. É importantíssimo, como nós vimos, porque no dia 20 foi um ataque sobre as infraestruturas estratégicas e energéticas da Ucrânia. Foi muito complicado para a Ucrânia. A Rússia sabia que haveria estas negociações, aliás, foram eles que propuseram, mas quiseram também a liberdade de ação e por isso fizeram esse ataque para colocar a Ucrânia numa posição muito desvantajosa, sobretudo numa posição de autêntica catástrofe humanitária. Neste momento, a energia elétrica nas grandes cidades são três, quatro horas, depois ficam 10, 15 horas sem energia. Há imensos prédios, e é preciso notarmos que hoje acho que estão à volta de nove, 10 graus negativos, na altura estavam 15 graus negativos. É uma situação muitíssimo crítica e simplesmente uma situação inexplicável da parte de um país como a Rússia, em que não tendo sucesso na frente do teatro de operações na guerra verdadeiramente Depois usa a população, a mortandade da população e neste caso, limitar a população à energia elétrica num país com aquelas temperaturas tão muito mais baixas do que na Gronelândia.

E é precisamente sobre a questão da Gronelândia que vamos falar, avançando neste gabinete de guerra. Já começam a ser conhecidos alguns dos detalhes do acordo entre Donald Trump e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte. Apontam para uma maior defesa do Ártico, uma maior presença dos Estados Unidos, reforçada mesmo, e a exclusão da China e da Rússia da região. Major-general, quem é que pode cantar vitória nas negociações, tendo em conta estes termos que eu detalhei neste momento?

Canta vitória a democracia, canta vitória o Estado de Direito, canta vitória a soberania dos Estados, canta vitória o direito internacional. Efetivamente, os métodos utilizados por Trump não resultaram e não resultaram porque a Dinamarca, com a sua primeira-ministra, reagiu imediatamente na mesma linguagem, ou seja, uma linguagem com coação política, com coação psicológica. A União Europeia reagiu imediatamente com coação política e, sobretudo, com coação económica. E isso foi fundamental para que se chegasse a uma solução, que no fundo era a solução de 1951 do tratado entre os Estados Unidos e a Dinamarca. Ou seja, os Estados Unidos têm toda a liberdade para, em vez de ter 150 homens e mulheres, terem 10 mil, se quiserem. Portanto, a grande questão não era certamente a segurança, a grande questão não era certamente, inclusivamente, a parte das riquezas, designadamente terras raras. Não, a grande questão para Trump era ficar na história com a maior ilha do mundo. Essa é que era a grande questão, todos nós percebemos e Trump nem sabe disfarçar. E, portanto, é uma boa solução. Se acha que é muito importante em termos de segurança e defesa para afastar os navios russos e chineses, pode lá colocar à vontade as unidades que quiser de rastreio de mísseis, as unidades de detecção, radares, inclusivamente sistemas de armas ofensivos. E não é preciso ter a soberania da Dinamarca e não é preciso alterar completamente aquilo que é o direito internacional, pôr em causa o direito internacional.

Esta questão da Dinamarca tem provocado várias reações europeias, nomeadamente dos países da NATO, e mais recentemente, quer a Itália, quer a Alemanha vieram defender um reforço do pilar europeu da NATO. Major-general, o que é que podemos retirar desta declaração e que efeito é que pode ter dentro da aliança?

É no fundo, ir ao encontro do relatório Draghi, ou seja, ter uma autonomia estratégica maior da Europa e não só ser uma Europa económica, uma Europa política. É fundamental ser também uma Europa da defesa nas duas componentes: a componente de investimento e de produção de equipamentos de defesa, e também na componente da práxis, que é ter forças armadas credíveis e com capacidade. E, portanto, é uma alteração profunda que implica investimentos consideráveis e isso pode levar, como dizia, e muito bem, a criar um sistema de defesa europeu específico que vá ao encontro, inclusivamente, de preocupações relativamente ao próprio posicionamento dos Estados Unidos noutras situações. E portanto, é bom que a Europa salvaguarde essa situação, mas isso implica investimentos durante mais do que quatro, cinco anos. Não é de um dia para o outro, não se vai comprar à loja os sistemas de armas, a maior parte dos países está com grande dificuldade na produção, têm limitações na produção. Simultaneamente, há uma guerra de grandes dimensões, uma guerra convencional e não só híbrida na Ucrânia, que consome muito mais do que a capacidade de produção dos europeus. Portanto, em simultâneo, estamos a desenvolver ações de apoio à Ucrânia. Por outro lado, temos que também reforçar, não só em termos material, mas também em termos de pessoal, o que é dificílimo em termos de preparação para estas situações da adversidade, para o novo mundo, para a tal rutura que dizia o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, e que efetivamente ele só disse a verdade, outros pensaram, mas não disseram, e por isso o discurso dele foi tão marcante. Mas já que falei no Canadá, certamente que nessa perspetiva e por razões que todos nós percebemos, designadamente aquela que tem a ver com a tentativa de Trump também de incluir o Canadá.

Do quinquagésimo primeiro estado.

E o Canadá estaria connosco, certamente. A vários níveis, não só económico, mas também nesta dimensão europeia. Num cenário adverso de continuidade destas políticas de Trump. E portanto, é um cenário que é bom preparar e está a ser preparado, quer se queira, quer não, ao mesmo tempo que a Europa se está a reforçar em apoio da guerra da Ucrânia e a reforçar-se designadamente em termos de produção de armamento, em termos de maior capacidade das suas forças armadas, está a ganhar a tal autonomia estratégica para em qualquer momento adverso que ponha em causa a aliança transatlântica, também ter a sua autonomia.

Temos ainda alguns minutos para abordar a situação no Médio Oriente, nomeadamente no Irão. Mais de 5 mil pessoas já terão morrido na repressão aos protestos no país. Há pedidos para o fim dessa mesma repressão. Os ânimos aparentam, major-general, estar mais calmos agora, mas podem estar mais problemas no horizonte, pergunto.

Podem estar mais problemas no horizonte, certamente, porque já estamos a falar de persas Eles nunca gostaram de ser chamados de árabes porque não o são. E portanto, o social, o modo de vida, a mentalidade é completamente diferente de outros países. Há ali uma certa especificidade em que as ruturas, já falámos em ruturas há pouco, tradicionalmente as ruturas naquele país são feitas exatamente na sequência de grandes manifestações e de grande mortandade, independentemente do tipo de regime, seja monarquia, sejam regimes islâmicos como é o atual, ou autocracias islâmicas ou o que quisermos chamar. E portanto, a situação tem impacto em toda uma sociedade, por muito controlada que seja. Há aqui um aspecto muito importante das imagens que passaram para o exterior, que têm a ver com as forças armadas e têm a ver, inclusivamente, com a polícia, que não reagiram da mesma maneira do que a guarda revolucionária islâmica e aquelas milícias. Certamente houve demissões das Forças Armadas que nós não temos conhecimento, mas foi um indício de que a situação já está muito diferente daquilo que foram as manifestações de 2022. Isso tem vindo a agravar estas manifestações. E eu estou a falar das questões internas de um regime que está numa situação cada vez pior em termos económico-financeiros, de um regime que em termos políticos, designadamente no apoio ao Hezbollah e aos movimentos do Iémen, ficou altamente fragilizado, já para não falar da Síria. E portanto, há toda uma dimensão interna e externa que leva a que, certamente em breve, tenhamos uma situação diferente daquela que existe agora. Esperemos que não haja tanta perda de vidas, esperemos que a comunidade internacional, a começar na própria Rússia e a acabar na China, também tenha uma postura diferente àquela que tem tido de apoio ao regime do Irão, porque o Irão fazia parte da tríade. Mas que haja uma grande pressão da comunidade e que não haja um posicionamento de Trump daquele que teve lugar aquando das manifestações a partir de 28 de dezembro, porque esse posicionamento faz com que o regime fortaleça. A população não gosta certamente que haja apoio dos Estados Unidos feitos daquela maneira, com aquele tipo de ameaças, porque isso só piora a situação, como nós já vimos e que vamos continuar a ver. Portanto, tem que haver também uma estratégia diferente da parte desta administração americana, porque só assim certamente caminharão no sentido do regime que o povo escolherá, de um regime mais democrático do que aquele que tem neste momento.

E é desta forma que fechamos o Gabinete de Guerra. Muito obrigado, Major-General João Vieira Borges. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, também disponível em podcast.