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Gabinete de Guerra na Rádio Observador desta quinta-feira, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis, num dia em que Vladimir Putin, o presidente russo, falou à imprensa para dizer, por exemplo, que o plano de paz proposto por Donald Trump pode ser usado como base para negociar um futuro acordo, mas também deixa esta ressalva: não vale a pena assinar esse eventual acordo com Volodymyr Zelensky, porque o atual presidente ucraniano não é um líder legítimo da Ucrânia. Refere-se ao fato de não existirem eleições, não terem sido promovidas eleições desde que começou esta guerra. Boa tarde, Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Esta declaração representa uma machadada na esperança de que este plano de Donald Trump pudesse efetivamente vir a desaguar num acordo de paz.
Olá, Miguel, olá a todos. Bem, a verdade é que estas declarações não surpreendem muito, ou seja, correspondem àquilo que têm sido pontos que o líder russo tem repetido ad náuseam desde o início da guerra. Também não surpreende que ele diga que o plano de Donald Trump é uma ótima base, porque nós sabemos que, na verdade, é um plano russo, que foi discutido entre os seus conselheiros diplomáticos mais próximos antes de ser depois passado ao Steve Witkoff, ao enviado especial de Donald Trump, para dar uns retoquezinhos pra fazer parecer que não era uma coisa puramente russa. Portanto, isso não é surpreendente. Agora, realmente, com este tipo de posição, não se percebe muito bem como é que isto pode avançar. Donald Trump quer uma paz rápida. Putin insiste que o governo ucraniano não tem legitimidade, portanto ele não pode negociar, não pode assinar nada com um governo que não tem legitimidade. Como sabemos, Putin é um grande democrata, alguém que se preocupa muito com eleições livres e justas, a começar pela própria Rússia. Enfim, obviamente, estou aqui a ser irônico. Putin, aliás, tem se caracterizado por insistir sempre que isto dos assuntos internos da política interna do país é assunto só desse país, que ninguém tem nada a ver com haver ou não haver eleições em outros sítios, mas aparentemente na Ucrânia, isso já é um grande problema. Mas o ponto aqui crucial é: mas então estamos a fazer o quê? Quer dizer, Putin vai escolher o próximo governo ucraniano antes ainda de assinar a paz? Pelos vistos, é essa a condição pra ele aceitar avançar. E depois a outra questão, que é esta ideia de que a Ucrânia teria de abandonar todos os territórios que a Rússia anexou e que Putin descreve aqui num twist orwelliano como territórios ocupados pela Ucrânia. Portanto, o território que a comunidade internacional reconhece como ucraniano, aparentemente, agora a Rússia decreta que é Rússia e, portanto, passa a ser território ocupado ilegalmente pela Ucrânia, porque aparentemente quem define a lei internacional e as fronteiras no mundo é a Rússia. Portanto, tudo isto mostra que realmente não há aqui nenhuma intenção de boa fé de levar a cabo um processo negocial ou sequer a possibilidade de se avançar pra um cessar-fogo de boa fé.
Diz também nesta conferência, Vladimir Putin, que há quem defenda que devemos lutar até que o último ucraniano morra, acrescenta Vladimir Putin, estamos prontos pra isso. Isto é retórica de guerra? Não está a Rússia, de facto, a sentir o desgaste do prolongamento deste conflito?
Isto parece ser dirigido aos europeus, que defendem o direito da Ucrânia a defender-se e a ser apoiado nesse direito fundamental de qualquer Estado a defender-se de uma invasão. Mas realmente, mais uma vez, é aqui uma hipocrisia de uma ironia extrema. Quer dizer, aparentemente, nós temos de acreditar que Putin está muito preocupado com a vida dos ucranianos. Portanto, o senhor que manda lançar ataques indiscriminados contra as principais cidades ucranianas todos os dias, aparentemente é ele é que está muito preocupado com haver baixas, com haver mortes e feridos entre os ucranianos e não os países que estão a ajudar a Ucrânia a defender-se, inclusive desses ataques aéreos indiscriminados contra alvos civis. Portanto, mais uma vez, enfim, isto é propaganda pra uso interno na Rússia. Pode ser que tenha alguns compradores no Sul global e também entre os setores putinistas no Ocidente, mas obviamente ninguém sério e de boa fé leva isto a sério. Isto não faz nenhum tipo de sentido. Aliás, os europeus têm deixado claro que em última análise cabe aos ucranianos definirem em que termos é que querem fazer a paz. Agora é perfeitamente normal e legítimo que os países europeus, que têm apoiado com muito dinheiro e com muitas armas a Ucrânia, tenham aqui alguma palavra a dizer, até porque os termos em que a paz for definida vão ter implicações pra segurança do resto da Europa e até do resto do mundo. No fundo, se avançarmos aqui pra uma paz apressada a qualquer preço, em que fique consagrado uma espécie de regresso do direito de conquista, se normalize as invasões de uma grande potência pra ocupar o território que entende, isso seria uma receita pra multiplicação dos conflitos armados, das agressões armadas pelo mundo todo. Portanto, seria, diria eu, uma paz paga a um preço muito elevado e provavelmente a multiplicação de conflitos de guerras no futuro, não só provavelmente na própria Europa, sobretudo se a Ucrânia não tiver condições realistas pra se defender e pra dissuadir futuras agressões russas, mas até pelo resto do mundo.
Desta conferência de imprensa resulta também uma ameaça feita por Vladimir Putin face à possibilidade da Europa apropriar-se dos ativos russos que estão congelados. Ainda não há uma decisão relativamente a este aspecto. Vladimir Putin diz que a confirmar-se isso representaria um roubo de propriedade e ameaça com consequências, com medidas retaliatórias. O que é que daí poderia advir? Por exemplo, consequências ao nível da exportação de gás?
Essa é uma ameaça completamente vazia, mas altamente relevante. Em si, a Rússia é uma economia irrelevante quando comparada com a Europa. A Europa é um gigante econômico. O maior país do mundo, com imensos recursos naturais, tem uma economia do tamanho da Espanha. Isso são ameaças patéticas, não têm nenhuma importância. Agora, é muito importante e muito revelador no sentido que me parece que isto mostra qual é o verdadeiro objetivo deste plano de paz russo, disfarçado americano. E é aquela cláusula particularmente lamentável em que os norte-americanos passariam a gerir um fundo constituído precisamente com estes bens congelados na Europa e do qual retirariam eles depois 50% dos lucros para a reconstrução da Ucrânia. Portanto, o verdadeiro objetivo não é a reconstrução da Ucrânia, é no fundo alimentar este desejo constante da administração Trump de buscar extrair recursos, de qualquer tipo de intervenção americana fora de portas. Realmente parece-me cada vez mais claro que o verdadeiro objetivo deste plano é criar dificuldades através da pressão americana, que de repente passa a ter aqui um interesse nestes fundos, criar dificuldades aos passos demasiado lentos e que, aliás, deram oportunidade a que houvesse esta reação russa, aos passos demasiado lentos, realmente para haver de uma vez esta decisão de usar esses fundos para realmente ajudar a defender-se. E enfim, usando aqui esta cobertura legal, que isso é feito a título de futuras reparações que a Rússia deverá à Ucrânia por via de uma agressão ilegal contra a Ucrânia, que é algo que quer o Tribunal da Haia, quer a Assembleia Geral das Nações Unidas várias vezes disseram que era o caso com esta invasão não provocada da Rússia desde fevereiro de 2022.
Das últimas horas ainda, a divulgação de uma transcrição que revela conversas confidenciais entre Steve Witkoff, o enviado especial de Donald Trump, e Yury Ushakov, o principal conselheiro de política externa de Vladimir Putin, em que Steve Witkoff aconselharia a Rússia sobre a forma como deveria abordar Donald Trump, a melhor estratégia para chegar a Donald Trump. Isto é normal?
Bem, eu tenho ouvido ideias muito distintas, mas, por exemplo, Michael McFaul, que foi embaixador em Moscovo e que depois também esteve no Conselho de Defesa Nacional durante, nomeadamente, a presidência de Obama, diz muito claramente: "Eu acho normal um enviado especial que lida com a Rússia a aconselhar o presidente americano a como lidar com a Rússia". Aconselhar a Rússia a como extrair as concessões que quer, as vantagens que quer do presidente americano, já me parece que não é todo normal. É verdade que muitas vezes um diplomata, quando está a procurar servir de ponte entre o seu país e um país estrangeiro, acaba, por vezes, por tomar posições, defender posições que muitas vezes são acusadas de ser demasiado próximas desse país estrangeiro, na procura de um compromisso. Um diplomata deixa-se entusiasmar por esta ideia de que lhe cabe chegar a um compromisso e acaba a defender mais o país estrangeiro junto do seu do que o inverso. Isso não é algo propriamente inédito, muitas vezes surgem essas críticas aos diplomatas, umas vezes mais justificadas, outras vezes mais injustas, eventualmente. Mas aqui realmente o que isto tem de extraordinário é que estamos a falar da Rússia. Uma coisa é com um país aliado, com um país amigo, haver aqui algum empenho em que as coisas corram bem. Agora, realmente não é suposto ser esse o estatuto da Rússia, portanto, aquilo que me parece mais relevante, independentemente de acharmos pior ou melhor ou mais ou menos normal, o que isto revela realmente é que para Steve Witkoff, a Rússia é um país amigo, é um país aliado, e a grande prioridade realmente é conseguir um acordo a qualquer preço com a Rússia. E aquilo que me parece também mais significativo é que aparentemente Donald Trump está de acordo com isso. Depois destas revelações, Donald Trump voltou a defender o seu amigo Steve Witkoff. Acho que, sobretudo para os países europeus, este é o ponto crucial. Isto mostra bem que o enviado especial do presidente americano, que está a negociar uma questão que é absolutamente vital para a segurança dos seus aliados europeus, acha normal ignorar completamente, marginalizar, não falar com os aliados europeus, apresentar isto publicamente antes sequer de informar, quanto mais de consultar os seus aliados europeus no contexto da NATO. Isso é uma obrigação no contexto da NATO, não é um favor. Fala-se muito do artigo quinto, mas há outros artigos no Tratado de Washington que obrigam a esta consulta. Está montada toda uma estrutura em Bruxelas, embaixadores permanentemente lá, precisamente para permitir essa consulta permanente sobre assuntos de segurança que impactem os diferentes aliados. E os Estados Unidos acham normal ignorar tudo isso e aquilo que para eles é importante é ajudar o mais possível a Rússia a conseguir o que quer, a ter um acordo nos termos que permitissem à Rússia aceitar esse acordo. Acho que isso é realmente muito significativo do mundo em que estamos atualmente e é o fim da velha ordem de segurança europeia garantida pelos Estados Unidos desde basicamente o final da Segunda Guerra Mundial.
E em troca neste último tema, estamos na reta final. O presidente francês Emmanuel Macron anunciou esta quinta-feira um novo modelo de serviço nacional voluntário e puramente militar, a começar já no próximo verão. É um caminho prudente?
Acho que sim, acho que é fundamental, porque realmente um dos problemas que a Europa tem, como a nacionalidade dos países, é que está em quebra demográfica, mas a Europa está, como é costume, um pouquinho mais adiantado do que o resto do mundo. Há falta de pessoas, há falta de pessoas jovens, e temos este problema que é realmente não basta ter novos sistemas de armamento, e por muito que estes novos sistemas sejam drones e algo assim, permitam dispensar algumas pessoas, mas ainda assim convém recordar que os drones, por enquanto, são remotamente controlados por pessoas. A pessoa pode não estar lá no cockpit, mas está à distância. Tudo isso implica que não é só necessário reforçar a quantidade de armamento, é preciso também reforçar a quantidade de pessoas que possam utilizar esse armamento. E isso tudo é fundamental para passar também uma mensagem de dissuasão, ou seja, esta ideia de que a Rússia, se pensar em atacar países europeus, deve pensar duas vezes, porque realmente eles têm não só as armas, mas também os soldados para contrariar isso de uma forma eficaz, de uma forma robusta. Parece-me que esta é uma boa solução, mas de facto apostar num serviço sobretudo voluntário, acho que abrir essa possibilidade é bastante inteligente.
Bruno Cardoso Reis, historiador, acompanha-nos todas as semanas aqui na Rádio Observador e ajuda-nos a analisar e interpretar alguns dos factos mais recentes dos conflitos, não só no Leste da Europa, mas também no Médio Oriente. Hoje centrámo-nos, tem estado no topo da agenda mediática, neste conflito no leste da Europa. Bruno Cardoso Reis, obrigado. Até breve.