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Começa agora o novo Gabinete de Guerra das manhãs 360 e esta manhã, 10 meses depois do início do conflito entre Rússia e Ucrânia, contamos com a análise e a opinião do Major-General Isidro Morais Pereira. Bom dia, General, muito obrigada por estar conosco.

Muito bom dia.

Bom dia. Já vamos ao terreno, mas começamos pelas declarações que marcaram este Natal, este fim de semana. Putin voltou a dizer que Moscovo está disponível para negociar a paz, mas General, o principal conselheiro da presidência ucraniana, Podoliak, e muitos dizem que a Rússia não está realmente interessada em quaisquer negociações, que só está a tentar fugir às responsabilidades. É também esta a sua leitura?

Aquilo que me parece é que a Rússia, e designadamente Putin, usa este tipo de linguagem para darem uma má imagem da Ucrânia a nível interno, defendendo a posição da Rússia, porque como sabemos, há bem pouco tempo, uma sondagem das muitas que tem havido no território da Federação Russa e aquilo que sabemos relativamente aos resultados é que a larga maioria da população russa é favorável a negociações, ou seja, a terminar com a guerra. Portanto, este tipo de afirmações são dirigidas para o público interno, mostrando que de facto a Rússia quer negociar, quer terminar com a guerra, e depois pretende-se também na arena internacional colocar a Ucrânia como culpada desta guerra não terminada. Uma guerra que está quase com um ano, já não falta muito para fazer um ano, estamos a cerca de dois meses. Portanto, apontar o dedo à Ucrânia. Nós sabemos que de facto as coisas não são bem assim, porque a retórica ou a narrativa russa não corresponde à prática, porque aquilo que nós assistimos ainda, por exemplo, o ataque que foi feito a Kherson, teve efeitos devastadores. Temos pelo menos 16 mortos confirmados, 60 feridos, dois hospitais atingidos. Parece-me que quando se quer, de facto, negociar, a primeira coisa que tem que se fazer é dar um sinal de boa vontade e depois negociar em condições aceitáveis, que é isso que Putin diz e é isso que o Kremlin tem vindo a dizer.

Aliás, uma das exigências da Rússia é o fim da liderança do regime de Kiev, ou seja, que deixe pura e simplesmente de existir, o que para Zelensky não é sequer hipótese.

Vamos lá ver. Quando se quer negociar e que se coloca em cima da mesa o fim deste regime e quando se coloca em cima da mesa a não devolução dos territórios usurpados na Ucrânia, eu penso que isto não passa de propaganda. Isto é exatamente aquilo que eu referi, virado para o público interno e procurando na arena internacional colocar a Ucrânia como sendo a malvada. Eu julgo que é disso que se trata. Se continuarmos por este caminho, pese embora as iniciativas por parte de Recep Erdogan e até do secretário-geral das Nações Unidas, que já colocaram em cima da mesa dois caminhos, duas possibilidades de ir fazendo a paz, penso que isso não passará de boas ideias, mas que dificilmente poderão traduzir-se em algo palpável e concreto. Aquilo que nós sabemos é que as operações no terreno continuam. Aliás, a Rússia, neste momento, até em Bakhmut, contrariamente àquilo que tem sido-

Exatamente, ontem vários ataques

...tem sido afirmado por alguns setores e por alguns analistas a nível internacional, que Bakhmut estaria numa situação muito difícil e que seria este tempo extraordinariamente complicado para a Ucrânia manter esta cidade. O que é facto é que esta cidade é uma cidade que está a ser objeto de ataque, desde, pelo menos, por parte de forças do grupo Wagner e outras forças da Federação Russa, com grande intensidade já desde maio, e esta cidade tem-se aguentado estoicamente. E desde 21 de dezembro, que são as informações que fui capaz de coligir, os sinais até são do contrário, de que as forças russas têm fraquejado, pelo menos a cintura leste desta cidade, grande parte dela terá sido reconquistada pelas forças ucranianas. Aquilo que estamos a ver é que Bakhmut vem resistindo e resistindo Bakhmut torna-se praticamente inviável para as forças da Federação Russa conquistar a outra metade que falta do Oblast de Donetsk, designadamente, Kramatorsk, deste Oblast que ainda estão por conquistar e que estão mais a oeste, como sabemos.

Mas General Isidro Morais Pereira, Zelensky diz que a Rússia perdeu tudo o que podia perder este ano e que está a tentar compensar com novos bombardeamentos. Temos o caso de Kherson na véspera de Natal, de ontem os ataques a Bakhmut. Isto quer dizer que vamos assistir a um intensificar dos ataques nesta última semana do ano?

Eu julgo que essas palavras têm que ser lidas, naturalmente, com alguma cautela. Essa é uma modalidade. Aliás, nós sabemos perfeitamente que a forma de combater privilegiada do general Surovikin, que é o comandante do teatro, é de facto o ataque indiscriminado às infraestruturas e os ataques indiretos à população Foi isso que ele fez na Chechénia, foi isso que ele fez na Síria, foi isso que ele fez em vários teatros onde participou. Portanto, não nos devemos admirar que até o final do ano, e para lá do final deste ano, que esse tipo de estratégia de utilizar fundamentalmente barragens de fogo e a utilização de mísseis e drones para atingir as infraestruturas críticas, as quais são indispensáveis para que a população possa viver minimamente em condições aceitáveis e associar a isso, naturalmente, o inverno rigoroso está mesmo aí à porta. A partir de agora as temperaturas são mesmo, de facto, muito baixas e continuarão a ser muito baixas até finais de fevereiro. Portanto, eu julgo que isso iremos continuar a assistir. Outro aspecto importante que eu queria sublinhar: quando se afirma que a Rússia já perdeu aquilo que tinha a perder, há sinais no terreno de que há colunas a reforçar toda a área de Melitopol e Berdiansk. São duas localidades junto ao mar de Azov, como nós sabemos, e estão localizadas naquela faixa de terreno que vem sendo designada há muito tempo, já há meses, desde que os russos conquistaram essa parte do Oblast de Zaporíjia, ou seja, conseguiram ligar os territórios do Donbass, e estou-me agora a referir concretamente àquele que fica mais a sul, que é Donetsk, que vai até Mariupol. Relembraria aqui que Mariupol está mesmo no limite sudoeste do Oblast de Donetsk, e a seguir é o Oblast de Zaporíjia, Melitopol já fica em Zaporíjia. Entre Zaporíjia, essa faixa de terreno conseguiu estabelecer ligação entre o Donbass e a Crimeia, também através do Oblast de Kherson, como sabemos, porque do Oblast de Kherson apenas cerca de 30%, que era aquela porção de terreno que ficava na margem direita do rio Dnípro, que foi reconquistada pelas forças ucranianas, porque todo o resto ainda continua a ser controlado pelas forças da Federação Russa. Face à possibilidade e à grande probabilidade da ocorrência de uma nova grande ofensiva por parte das forças ucranianas para cortarem a continuidade territorial desta designada ponte terrestre e assim desequilibrarem definitivamente, abrirem naturalmente uma passagem novamente para o mar de Azov e desequilibrarem completamente o dispositivo militar das forças da Federação Russa. É por isso mesmo que temos assistido, e há informações fidedignas, até de observação geoespacial, de uma concentração anormal de novas forças na região de Melitopol e Berdiansk. Isso é um sinal claro de que a Rússia não está disposta a perder mais terreno. Mas o que é facto é que as coisas não estão fáceis para ambos os contendores.

Mas General Isidoro Reis Pereira, ia perguntar-lhe, porque falou aí em contraofensiva ucraniana. Desta manhã a notícia de alegada tentativa de ataque da Ucrânia a uma base aérea na região de Saratov, na Rússia. Morreram três militares. Moscovo já reagiu e diz que vai ter novos mísseis hipersónicos. É um comandante do exército russo que avança que está a ser desenvolvido um esforço para melhorar o armamento aéreo de longa distância. O que lhe pergunto é se isto também é propaganda ou a Ucrânia deve mesmo estar preparada para fazer frente a este possível upgrade?

A Ucrânia tem que estar preparada para tudo isto, como é óbvio. Porque já não é a primeira vez que a Ucrânia é atacada por todo o tipo de mísseis. Os únicos mísseis que ainda não foram utilizados na Ucrânia foram mísseis com ogivas nucleares e espero que nunca se façam. Eu estou convencido que essa opção é uma opção que está completamente colocada de parte. Mas de qualquer maneira, novamente, a base aérea de Engels foi atacada por drones, segundo se pensa, já não é a primeira vez. E esta base de Engels fica na profundidade do dispositivo russo, são cerca de 700 km da fronteira ou coisa parecida com isso. Portanto, há mortes a registar. E outra informação é que a torre de controle foi completamente destruída também, como sabemos, e um aeródromo sem torre de controle deixa de ser capaz de operar. É fundamental haver uma torre de controle. Portanto, naturalmente que a Rússia promete retaliar relativamente a esta situação. Agora, a verdade é que esta base aérea é a casa na qual estão alojados bombardeiros estratégicos, designadamente Tupolev Tu-95, que têm sido responsáveis por atacar com os mísseis que transportam, ultimamente, fundamentalmente as infraestruturas ligadas à distribuição e à transformação da energia elétrica, tão necessária para que todas as infraestruturas base de apoio à vida dos ucranianos possam funcionar de forma adequada. Portanto, esta também sido, cerca de há uns tempos a esta parte, também uma estratégia levada a efeito pelo comandante das Forças de Teatro da Ucrânia, quer dizer, atingir os próprios bombardeiros na base, portanto, atacar o problema na sua origem. Se isso tem provado uma eficácia grande? Podemos dizer que a Rússia deixou de ter, por causa destes ataques, capacidade para atacar a Ucrânia com mísseis? Não, isso não é verdade. A Federação Russa inclusivamente tem capacidade para levantar e descolar bombardeiros com o mesmo tipo de equipamento também da Bielorrússia, onde nós sabemos que tem alguns também em território bielorrusso e noutros locais do Cáucaso. Mas de qualquer maneira, eu penso que isto é algo a que iremos assistir até com mais frequência, porque já há uns tempos a esta parte, que eu venho afirmando, e não apenas eu, que a Ucrânia vem desenvolvendo uma capacidade diferente em termos de levar o combate à profundidade do território russo, designadamente através de drones. E esses drones estão a ser produzidos na Ucrânia, não são drones fornecidos pelos países da NATO, nem pelos Estados Unidos, nem pela Inglaterra, nem por qualquer outro país. É de facto o armamento que tem vindo a ser desenvolvido pela própria indústria ucraniana. Pensa-se que em cooperação com a Baykar, que poderá também estar associada a este tipo de consórcio, porque a Baykar eu relembraria que é o grande fabricante dos drones turcos, designadamente dos Bayraktar, que a Turquia forneceu à Ucrânia praticamente desde o início dos combates. Portanto, os primeiros drones que apareceram, designadamente drones suicidas que as forças ucranianas utilizaram, os americanos Switchblade, os drones kamikaze, foram também os drones conhecidos de todos nós, os Bayraktar, que são exatamente produzidos por esta empresa, que é a empresa Baykar, que até é o nome do CEO ou do dono desta empresa. Portanto, pensa-se que poderá haver aqui também uma participada ucraniana neste consórcio. De qualquer maneira, outra grande empresa que está associada a este projeto de produção de drones de longo alcance e de última informação que eu consegui recolher, é que estão em fabrico inclusivamente drones que podem ter alcance de 3400 km. Estamos a falar de drones com capacidade estratégica, porque atingir alvos a 3400 km de distância já ultrapassa largamente aquilo que são drones de caráter tático ou até operacional. Passam a ser drones com características estratégicas face à distância que são capazes de fazer e produzir os seus efeitos.

General Isidoro Moraes Pereira, ainda voltando à questão das negociações, no mesmo dia em que Putin falou sobre o assunto, Medvedev disse que a Rússia precisa ter garantias de segurança da Ucrânia ou ameaçou que o mundo vai continuar à beira da Terceira Guerra Mundial e de uma catástrofe nuclear. O que lhe pergunto é que garantias de segurança são estas que ponham a salvo o mundo?

Vamos lá ver, o Medvedev já nos habituou a estas gracinhas. Isto é retórica pura e dura. Quando o Putin ele mesmo não quer fazer determinado tipo de afirmações, coloca Medvedev a fazê-las por ele. Porque este tipo de narrativa até toca naquilo que são as fronteiras do ridículo. Vamos lá ver, a toda-poderosa Federação Russa quer garantias de segurança da Ucrânia? Isto é algo que não cabe na cabeça de ninguém. Quem precisa de garantias de segurança é a Ucrânia, porque é a Ucrânia que está a ser atacada, é a população ucraniana que está a ser devastada. Aquilo a que nós assistimos, temos que referenciar aqui o afundamento do Moscou e de um outro vaso de guerra russo no Mar Negro, mas que saibamos, a Ucrânia só há bem pouco tempo é que tem capacidade para atingir a profundidade do território russo com este tipo de drones e tem-no feito de uma forma em concordância absoluta com aquilo que é o direito internacional humanitário. O que nós sabemos é que a Ucrânia cada vez que envia os seus drones para território russo, tem-no feito com especial cuidado de atingir unicamente infraestruturas militares ou seja, alvos legítimos. Eu sinceramente gostaria de poder responder mais concretamente à sua pergunta, mas eu não estou a ver que garantias de segurança é que a Ucrânia possa dar à Rússia.

E o que é que estaria na mente de Medvedev?

O que estaria, de facto, na mente de Medvedev. Se ele disser assim: "Não, nós queremos garantias de que as supostas minorias russófonas", porque a grande maioria delas nem russófilas são, são russófonas, falam russo, "que veem garantida a aprendizagem do russo nas escolas, em que a cultura da Rússia seja naturalmente objeto dos curricula vitae, dos cursos e por aí fora". Se Medvedev viesse com este tipo de exigências, ou uma integração plena de todos aqueles que têm uma origem russa na Ucrânia, esse tipo de exigências seriam perfeitamente compreensíveis. Agora, garantias de segurança, mas a Ucrânia quer atacar a Rússia ou a própria NATO. Isto parece-me até ridículo, por isso é que eu utilizei este tipo de linguagem.

Então, general, vamos até à China.

Putin não tem grande jeito para este tipo de declarações, não é um homem especialmente bem-humorado. E quando é necessário, deixa Medvedev a fazer este tipo de graçolas.

Vamos até à China, então, general. O ministro das Relações Exteriores reforça que Pequim vai aprofundar os laços com Moscovo no próximo ano. E, portanto, a pergunta é se deve o Ocidente preocupar-se ainda mais com esta aliança?

Eu julgo que está nos laços comerciais, é natural que o faça, porque nós sabemos que a própria China, fruto não apenas deste conflito, mas também de sequelas da pandemia. E que neste momento a pandemia na China está a ter repercussões diferentes daquilo que a pandemia tem no mundo ocidental. Eu não sou especialista na área, como é óbvio, mas como simples observador e pela forma como nós estamos a viver no nosso próprio país, a pandemia, de alguma forma, e isto muito graças à tecnologia ocidental ligada à indústria farmacêutica, nós beneficiamos de uma situação em que, neste momento, já vivemos praticamente em liberdade, já estamos praticamente a viver como vivíamos no período antes da pandemia, o que não é verdade na China. A China está a desconfinar há bem pouco tempo. E eu gostaria de referir quanto a esse aspecto, que a China proibiu, ela mesma, a importação de vacinas do Ocidente, que são muito mais eficazes do que a famigerada Sinovac, de que nós tanto ouvimos falar logo no início da pandemia. Portanto, a China foi dos primeiros países a aparecer com uma vacina e que, se a memória não me falha, o nome dela é exatamente Sinovac. Agora, a China, desde a pandemia, que deixou de crescer ao ritmo que tinha planeado. E agora, fruto também dessa guerra, este crescimento da China também tem sido abrandado de alguma forma. Eu julgo que este-

Este aprofundar laços, sim

...este aprofundar laços é natural, tem a ver, porque a China é um consumidor de matérias-primas e de energia e fontes energéticas. E se a China conseguir, naturalmente, continuar a comprar à Rússia petróleo e gás a preços, de facto, baratos, digamos assim, tanto melhor para a China. Porque a China é a grande fábrica do mundo, mas a China tem aqui um problema severo.

E para concluir, major-general.

E para concluir, a China tem que gerir muito bem a sua posição, a posição que toma relativamente ao apoio explícito à guerra na Ucrânia, porque pode sujeitar também a ser sancionada pelo mundo ocidental. E a China naturalmente tem pouca vontade de ser sancionada, porque então todo o efeito do projeto-

Porque a economia já está como está, claro.

Não, porque a economia não está a crescer ao ritmo que era desejável e toda aquela ambição da China, pelo menos até 2049, que esse é um dos grandes objetivos, passar a ser a maior economia mundial e uma superpotência à escala global, poderá naturalmente esfumar-se. Poderá esfumar-se, poderá ser uma miragem. Portanto, isto são declarações. Eu acho que é prudente esperarmos para ver, porque na prática, vamos ver em que isso se traduz. Há aqui uma intenção de aprofundar, naturalmente, laços económicos. Aliás, eles são países que fazem fronteira um com o outro. Um é uma indústria transformadora, que é a grande indústria do mundo, o outro é rico em fontes, em matérias-primas, quer em metais preciosos, quer em petróleo, quer em gás, portanto, é natural que a China olhe para os dois lados com algum equilíbrio.

Major-general Isidro Morais Pereira, muito obrigada pela sua análise e por ter estado conosco em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.

Um bom dia.

Muito obrigada.