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▲O escritor norueguês de 67 anos, Prémio Nobel da Literatura 2023, fotografado em Óbidos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲O escritor norueguês de 67 anos, Prémio Nobel da Literatura 2023, fotografado em Óbidos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Jon Fosse: "Com o Nobel, passei de mais ou menos suspeito para facto histórico. Mas quem quer isso?"

O Nobel da Literatura de 2023 esteve em Portugal para participar no Fólio. Em entrevista ao Observador, falou sobre a música que abandonou, Rothko, a IA e o medo de se tornar uma "estátua".

Vestido de preto da cabeça aos pés, o cabelo grisalho apanhado num rabo-de-cavalo, Jon Fosse pede para conversarmos no exterior. Sentamo-nos no terraço do hotel onde está instalado, a vinte minutos de carro de Óbidos, onde decorre o Fólio, o festival literário que motivou a vinda do autor norueguês a Portugal (e que termina no domingo, dia 18). Ao longo dos trinta minutos de entrevista ao Observador, o mar está ali, ao alcance do olhar e do ouvido.

Tudo na fala do autor de 67 anos tem uma cadência própria: as frases avançam e recuam como a maré a bater contra as escarpas dos fiordes do oeste da Noruega, onde nasceu e cresceu, e que serve de pano de fundo a quase tudo o que escreve.

Depois de ter figurado no topo das bolsas de apostas ao longo de quase uma década, a Academia Sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 2023, consagrando a “prosa lenta” do “escritor em busca do indizível”. Escritor profícuo, a sua produção era já colossal: dezenas de romances e narrativas curtas, ainda mais peças de teatro, livros de poesia, além de ensaios e literatura infantil. O autor continua a escrever em nynorsk (neo-norueguês), uma variante linguística minoritária falada por cerca de 10% do país, mas que o aproxima da sonoridade e da fonética da sua infância.

Com obra em Portugal editada pela Cavalo de Ferro e com uma presença há muito regular nos palcos nacionais pela mão dos Artistas Unidos, Fosse é um dos dramaturgos contemporâneos mais encenados em todo o mundo — galardoado em 2010 com o Prémio Ibsen. Mas o teatro, como espectador, pouco lhe interessa. Tal como o cinema, ou a música.

Como conta ao Observador, prefere o prazer contemplativo de se plantar diante de um quadro de Mark Rothko, passar os dias a escrever. Difícil de impressionar, mostra-se, celebrando a raridade dos dias em que descobre algo que vale a pena: como a literatura do húngaro László Krasznahorkai, Nobel em 2025.

Sobre o prémio que também ele recebeu em 2023, admite o receio de que o transforme num facto histórico. Talvez por isso, a nova trilogia que está a publicar seja uma reação ao seu magnum opus, Septologia. Ainda que garanta que já estava escrita antes de receber o galardão.

Do tom da conversa emerge a atmosfera que atravessa a sua obra, uma sensação de que o essencial fica suspenso no ar. “Não se consegue explicar aquilo que é a coisa mais importante”, diz-nos, a dada altura. “Se tentarmos reduzi-lo a uma declaração, a uma teoria, perde-se.”

▲ "Cenas de uma Infância" chegou às livrarias portuguesas no verão e reúne num só volume o melhor da prosa curta do escritor

A maioria dos escritores começa com o desejo de contar uma história, passar uma mensagem. A sua obra parece nascer do impulso oposto: uma tentativa de afastar o ruído para escutar alguma coisa. É assim?
Sim. Sabe, na minha juventude, no início da adolescência, a música era uma parte enorme da minha vida. Tocava muito e ouvia muita música, mas, por várias razões, parei de o fazer. Depois comecei a escrever, e o que tentei transportar para a escrita foi aquela sensação do universo em que mergulhava através da música. Portanto, escrever para mim é muito parecido com tocar, não se trata de um compromisso em contar uma história ou passar uma mensagem. Claro que há uma mensagem até na música e na minha escrita também, seguramente, e sinto profundamente que tenho algo de crucial a dizer quando escrevo, tal como sentia quando tocava. Mas dizer exatamente o quê é-me impossível e nem sequer é o meu papel. Acho profundamente errado interpretar-me a mim próprio ou explicar o que escrevo. Eu escrevo, escrever é escutar. É como compor uma melodia. Diferentes melodias, canções ou acordes, se quisermos chamar assim a cada livro, peça, poema.

Como é a sua relação com a música hoje?
Praticamente inexistente. Desenvolvi essa ligação nos meus anos de formação, era um rapaz bastante sensível, suponho. Fui muito, muito moldado pela música e criei uma relação emocional fortíssima com ela. Se me sentar a ouvir música hoje em dia fico emocionado com extrema facilidade e odeio esse estado, ficar demasiado emocionado. A tristeza torna-se quase avassaladora. A minha música agora é a literatura, a leitura e a escrita. Dito isto, consigo ir a um concerto. Se for a um concerto acompanhado pela minha mulher ou por amigos é diferente, porque a presença dos outros impede que me emocione da mesma forma que quando estou sozinho a ouvir música.

Não sente falta?
Não, de todo. Quer dizer, não é totalmente verdade. Por vezes acontece e, se acontece, em algum momento já aconteceu, e por mais aborrecido que seja dizê-lo, acaba por ser sempre Johann Sebastian Bach, uma e outra vez (risos).

Qual é a sua relação com o livro enquanto objeto físico?
Adoro livros. Lembro-me de quando a Apple lançou o primeiro iPad com a promessa de se poder ler um livro naquilo. Comprei-o cheio de entusiasmo, e odiei a experiência de ler num ecrã. Sou completamente fiel aos livros à antiga. Adoro livros, não sou um colecionador, claro, tenho muitos e compro livros desde muito jovem, mas não sou um colecionador em sentido nenhum da palavra. Mas tenho uma coleção considerável.

A leitura alimenta a sua escrita de alguma forma ou são dois processos bem distintos?
Diria que são processos bastante distintos. Sou muito mais escritor do que leitor, embora prefira claramente ler por comparação a outras coisas que se podem fazer na vida, como ver televisão ou um filme. Aí ler é a escolha certa para mim. Leio sobre teologia, filosofia, leio sobre assuntos mais do que leio ficção ou poesia. Porque tenho já tanta ficção e poesia em mim… Sinto que quando leio ficção ou poesia, estou a ler com o olho de quem quer perceber a mecânica do texto, aquilo que torna aquela escrita única, e se um autor não tiver isso então não me interessa, tem de haver algo de divino logo nas primeiras páginas, se não para mim nem vale a pena ler.

"A vida é um enigma enorme e a literatura não serve para o explicar de forma direta. Mas é uma tentativa de dizer algo sobre as coisas, de nos aproximar das grandes questões da vida: o amor, a morte... A vida é enigmática e uma literatura que não seja enigmática… Não consigo entendê-la como literatura."

Mesmo tendo-se separado da música, a relação com o som é evidente na sua prosa. Chegou a dizer que escreve como se tocasse baixo…
É, há aquele pulsar contínuo no fundo, mas é preciso a voz e um som mais amplo para que a peça funcione. Simplificando: nos meus primeiros romances, era um jovem bastante deprimido e rebelde, por isso a minha escrita era quase uma espécie de heavy metal. Já em obras mais recentes, como a Septologia, a composição é muito longa, lenta, com repetições e padrões específicos. Não me atrevo a comparar-me a Bach, mas consigo ver, consigo sentir semelhanças entre o modo como escrevo e a forma como ele compunha, há semelhanças.

Numa das histórias de Cenas de uma Infância (Cavalo de Ferro, 2025) recorda a tentativa de afinar uma guitarra: esticar a corda em busca do tom exato. Essa repetição obsessiva e as variações frásicas na sua sintaxe são uma metáfora para esse esticar da corda, no caso, da linguagem?
Espero que a corda não parta! Mas acho que a minha linguagem mantém uma certa fratura, que vem de um medo paralisante de ler em voz alta que desenvolvi por volta do 7.º ou 8.º ano. Era paralisante, este medo, esta angústia, quase pânico.

Era uma criança tímida?
Não, não, não. Em certo sentido sou um homem tímido, e sou uma pessoa muito introvertida, mas noutro não sou nada. Desde muito jovem que sempre tive amigos e namoradas, desde muito novo.

Por causa da banda de rock, claro.
Sim, claro, a banda de rock! Não sei porquê, tenho pensado, a minha irmã mais nova é menos de um ano mais nova do que eu e, em criança, andava sempre de mão dada com ela. Acho que esse hábito acabou por se manter ao longo da vida.

Mas, voltando à pergunta, por que razão a leitura em voz alta era algo tão paralisante?
Nas escolas norueguesas, pelo menos, sentavam-nos em filas e a leitura rodava, um aluno lia da página cinco à dez, o seguinte da dez à quinze, quando chegava a minha vez da vinte à vinte e cinco… E entrava em pânico total. Não sei porquê, era completamente irracional e continuo sem saber explicar. Mas isso aplica-se a quase tudo na vida, diria. A vida é um enigma enorme e a literatura não serve para o explicar de forma direta. Mas é uma tentativa de dizer algo sobre as coisas, de nos aproximar das grandes questões da vida: o amor, a morte… A vida é enigmática e uma literatura que não seja enigmática… Não consigo entendê-la como literatura.

Já o vi a afirmar que a boa literatura se encontra no espaço entre o que é dito e o que fica por dizer.
Sim, é exatamente nesse domínio. Mas não se consegue explicar aquilo que é a coisa mais importante, ao tentar reduzi-lo a uma declaração, a uma teoria ou a algo do género, perde-se. A literatura ainda consegue transmitir algo de sensato, compreensível e, de certa forma, apaziguador, simplesmente por ser o que é, por ser literatura, e não por tentar ser teoria, política ou seja o que for. É por isso que sou um fervoroso defensor da literatura enquanto literatura: sem mais nada, sem agendas externas, sem missões, nada. Apenas literatura.

▲ "Adoro o som do mar", diz ao Observador, diante do oceano. Na adolescência, Jon Fosse ouvia música a toda a hora, tocava guitarra. Com o tempo, a escrita substituiu a música, que hoje raramente escuta

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ainda assim, em 2024, no Dia Mundial do Teatro, defendeu a importância da arte em aproximar os opostos, escrevendo que “a guerra e a arte são opostas, é tão simples quanto isto. Arte é paz.”
Pediram-me para escrever essa mensagem e pensei: “Bom, porque não tentar?” E surgiu-me essa ideia de que a arte é a paz. De certa forma, é. Na guerra só existe um sentido e o sentido oposto, uma posição e a posição contrária. Na arte não é uma coisa ou outra: há ambiguidade e o paradoxo é fundamental para a compreensão, pelo menos na minha escrita é-o totalmente. Veja-se o caso de Septologia: aquelas personagens são uma e a mesma pessoa ou não? Não é possível definir nem dizer taxativamente que é ou não é. Essa ambiguidade aplica-se a tudo.

O teatro, em particular, exige um processo enorme de escuta. Se estivermos dois atores em cena, tenho de a ouvir a si e você a mim. Para eu fazer um bom papel, você tem de me fazer brilhar e vice-versa. E o encenador está ali a escutar, claro. Para mim, escrever para teatro, ou qualquer tipo de escrita, é também um ato de escuta. Pelo menos esse é o meu ideal de teatro. Há uma verdade naquilo. É o oposto do maniqueísmo do “ou tu ou eu, ou eu te mato ou tu me matas”, que é de uma estupidez atroz. Falhamos em celebrar a grandeza de que tudo na vida é, em certo sentido, ambíguo e enigmático. Para mim, a literatura que tenta doutrinar seja em termos políticos, religiosos ou do que for, ou que se limita a obedecer às regras de um género, como a literatura policial, não é literatura: é outra coisa qualquer que apenas se assemelha a ela.

Hoje fala-se do teatro como o último refúgio do “real” numa era dominada pela inteligência artificial, até realizadores de cinema têm adotado este discurso. Depois de ter estado afastado do teatro durante vários anos, o que o levou a voltar à escrita teatral?
Comecei por escrever poesia. Na verdade, a primeira coisa que escrevi foram letras de canções, quando tocava guitarra. Depois passei para pequenos poemas e contos. Mais tarde, por volta dos 17 anos, creio que escrevi o meu primeiro romance e, aos 20, o meu primeiro romance publicado. Portanto, já sou um autor publicado há… demasiados anos. Estou a ficar velho! Foi publicado em 1983, lá vão 43 anos, julgo eu. Anos a mais, livros a mais… Mas onde é que nós íamos?

Estávamos a falar sobre a sua carreira como dramaturgo e do facto de se ter afastado durante bastante tempo da escrita teatral. Em 2024 voltou a publicar. Porquê?
Não queria escrever para teatro, mas um amigo meu, encenador, insistiu quase ao ponto de me convencer de que eu tinha essa capacidade. Acabei por me sentar a tentar escrever nesse formato, os diálogos e, enfim, a estrutura típica de uma peça. Foi uma enorme surpresa para mim escrever daquela forma, porque me permitia usar o silêncio de uma forma muito óbvia, ao usar apenas a palavra “pausa”, “pausa longa”, “pausa curta” ou “interrompe-se”. Gostei disso. Por isso acabou por ser muito fácil. A primeira peça que escrevi foi Somebody Will Come [foi traduzida e levada à cena em Portugal com o título oficial Vai Vir Alguém]. Acho que até já foi levada à cena em Lisboa, penso que terá sido a minha primeira produção com os Artistas Unidos. Eles produziram várias peças minhas, vi quatro ou cinco, creio.

Como é ver as suas palavras representadas num palco?
A primeira vez que vi algo escrito por mim num palco foi num ensaio em Bergen, no Teatro Nacional de Bergen. Era uma peça chamada And Never Shall We Part [em Portugal, a tradução publicada e levada à cena pelos Artistas Unidos teve o título E Nunca Nos Havemos de Separar] e foi uma experiência muito forte para mim. A peça tinha três papéis, mas o principal era quase um monólogo, e a atriz principal fez um trabalho realmente extraordinário. Senti uma espécie de calma, a sensação de estar a partilhar arte. Enquanto escritor, estamos sempre completamente sós, e ali estava eu a partilhar arte, pelo menos com ela e com os outros atores. Éramos um grupo, com o encenador, o cenógrafo, estávamos todos juntos no processo de criar aquela obra de arte, atrevo-me a dizer. Tornou-se uma produção magnífica e foi essa a minha primeira experiência com o teatro.

Desde então, acho que já foram feitas mais de mil encenações das minhas peças, já perdi a conta. E claro que já vi produções horríveis, mas, de certa forma, não me importa. Sei que as pessoas estão a tentar dar o seu melhor, a fazer o melhor que sabem e conseguem. Há modas que vão e passam, como o teatro do encenador direcionado para aqui ou para ali, ou aquela fase em que toda a gente começou a usar microfones sem fios, há essas tendências no teatro, mas o teatro clássico continua a existir. Como os Artistas Unidos, por exemplo, faziam verdadeiro teatro.

"Quando era novo tinha muito baixa [autoestima]… Não gostava muito de mim, mas até certo ponto ainda não gosto. Escrever não é uma forma de me expressar, é uma forma de escapar de mim mesmo, de fugir de mim. Mas no que toca à minha escrita, sempre fui muito seguro da sua qualidade, que sabia escrever bem. Nunca duvidei disso."

Ainda fazem.
Sim, mas não tenho visto nenhuma das produções recentes.

Têm feito muitas peças de [Harold] Pinter [dramaturgo inglês, Nobel em 2005, um dos raros nomes ligados ao teatro distinguidos pela Academia Sueca].
Oh, Pinter [faz um esgar]. Não, não, não, que erro!

Para quem escreve, há por vezes uma tendência para proteger excessivamente a própria obra, ao ponto de, por exemplo, haver quem recuse ceder os direitos para adaptações. Sempre foi pacífico deixar que trabalhassem sobre a sua obra?
Não sou particularmente brilhante, mas, quando escrevi a minha primeira peça, percebi perfeitamente que, se aquilo fosse para o palco, seria levado por outra pessoa que não eu, e que o faria à sua maneira. Se eu não conseguisse aceitar isso, não podia escrever para teatro. Continuo a ter essa atitude. Sou responsável pela peça e, num sentido estrito, pela peça tal como é publicada em norueguês. Quanto a todas as encenações e interpretações que se fizeram ao longo dos anos, e foram tantas, de certa forma não posso estar preocupado com elas. Ainda assim, fico feliz quando alguém quer levar uma peça minha ao palco, sinto-me agradecido. Levar uma peça de teatro a palco dá imenso trabalho.

Gosta de teatro, como espectador?
Não, não exatamente. Às vezes… Às vezes o teatro pode ser bom. Já vi encenações extraordinárias de peças minhas, o resultado tanto pode ser brilhante como péssimo. Tudo depende da quantidade de ruído. Quanto mais se tenta inventar e quanto mais ruído se leva para o palco — mais vídeo, mais bla bla bla —, pior é o resultado final, basicamente. No teatro o que é importante são os atores, eles é que são o mais importante numa peça. Mas no teatro moderno, o encenador e as suas ideias ou conceitos é que são a coisa importante.

Não ouve música, não gosta de teatro, sei que não aprecia ver filmes…
Não.

Algum tipo de arte lhe dá prazer? A pintura?
Sim, gosto muito de pintura. Não tudo, há muita bullshit. Como na literatura, a maioria dos escritores não são escritores, a maioria dos artistas não são artistas. É simplesmente a verdade. Mas é preciso haver estes não tão bons ou mesmo maus artistas para haver um realmente bom. Sou muito seletivo e fico muito feliz quando descubro um novo grande escritor. A última grande descoberta para mim creio que foi o [László] Krasznahorkai, que recebeu o prémio Nobel no ano passado. Ele é um escritor realmente excelente.

Passou por cá, pelo Porto, num festival literário este verão.
Também fui convidado para lá ir (risos). Mas, voltando à pintura, vou tentar ser sucinto: nos últimos anos, o Mark Rothko é o pintor que me interessa mais. Quando vou a Nova Iorque, a Londres ou Viena tento ver quadros dele. São muito silenciosos e ainda assim dizem-me muito. Têm uma voz silenciosa que fala de uma forma muito, muito forte, e isso é, de certa forma, o meu ideal na literatura. Existe uma voz silenciosa, há duas vozes. Uma está escrita e depois há, por trás dessa, uma voz silenciosa que é a voz mais importante, e que revela, de certa forma, do que se trata realmente, mesmo que isso não seja necessariamente o mesmo para si e para mim… Como um quadro do Rothko. Relaciono-me muito com o seu trabalho. Nestes tempos de inteligência artificial, é impossível uma máquina fazer um quadro como um de Mark Rothko, e é impossível escrever tão bem quanto um escritor com uma voz bastante específica. Agora, literatura de género consegue escrever-se facilmente, claro, literatura comercial, sim, isso tem um grande futuro [com a utilização de IA]

▲ O autor de "Septologia", que em Portugal está editado na Cavalo de Ferro, esteve em Portugal para participar em duas conversas no Fólio — Festival Literário Internacional de Óbidos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A inteligência artificial não o amedronta?
Não, não. Acho que até pode ser uma coisa boa. Para separar o bom do mau, a verdadeira literatura da falsa. É o meu desejo, pelo menos, e acho que há alguma verdade nisto. Claro que quando um escritor já se estabeleceu e já escreveu alguma quantidade, uma máquina pode copiar algumas coisas. Mas tenho a certeza que se consegue perceber a diferença, ainda assim. No meu dia a dia, as pessoas escreviam-me com muita frequência não em mau inglês, mas em inglês pouco correto, muito humano. Hoje recebo e-mails num inglês perfeitamente escrito. É muito fácil perceber que, não, este e-mail não foi escrito por ti, meu amigo, e era muito melhor quando escrevia os teus erros. Pelo menos eras tu, agora é a máquina.

Confronta-os com isso?
Não, não quero ser indelicado. Odeio ser indelicado.

Continua a escrever em nynorsk — uma língua minoritária na Noruega, onde cerca de 90% da população escreve em bokmål. Porquê?
A minha resposta é muito simples: porque é a minha língua. Foi o que aprendi na escola. Na Noruega temos duas línguas oficiais. A minha é a língua minoritária, e sou muito feliz por pertencer a uma minoria. Nunca gostei de pertencer a uma maioria de nenhuma forma, de ficar do lado seguro da vida. De alguma forma acabei lá, mas nunca foi a minha ambição na vida. Com o Nobel, passei de uma pessoa mais ou menos suspeita para uma espécie de facto histórico… Mas ninguém quer ser um objeto, um facto histórico, uma estátua. Quem quer ser isso?

O seu nome circulou nas hipóteses de Nobel durante mais de dez anos.
20! Disse-me um dos membros do comité.

Quando em 2023 recebe, por fim, a chamada, o que sentiu? Alívio?
Estava muito feliz, claro. Estava honestamente muito feliz. É a maior honra que se pode ter como escritor. E mesmo que não fosse um objetivo meu esta honra e tudo isso, a fama, aliás, [era] o oposto, em certa medida… Ainda assim, quando recebemos este reconhecimento há uma grande felicidade ligada a isso. Pelo menos para mim foi assim.

Como é a sua relação com o ego?
Quando era novo tinha muito baixa… Não gostava muito de mim. Não gostava de mim, mas até certo ponto ainda não gosto. Para mim, escrever não é uma forma de me expressar, é uma forma de escapar de mim mesmo, de fugir de mim. Mas no que toca à minha escrita, sempre fui muito seguro da sua qualidade, que sabia escrever bem. Nunca duvidei disso. Um crítico ou o que fosse, podiam dizer o que quisessem, eu sabia o que sabia.

Perguntava-lhe sobre a relação com o ego a propósito do reconhecimento da Academia Sueca.
É preciso manter uma certa distância. Quando era novo e tinha más críticas a toda a hora, decidi que devia ouvir-me, ouvir o que sabia e aquilo que tinha a certeza. É verdade. Passei a ter-me em conta e não a este ou àquele crítico. Depois a coisa muda e começamos a ter prémios e boas críticas. E tive de manter a mesma distância disso. Não pode influenciar-me de todo.

É algo fácil de fazer?
Não, talvez não. Mas pelo menos é o que estou a tentar. Claro que quando recebemos críticas muito más quando somos jovens… Ainda me lembro de algumas palavras. As palavras mais duras. Não é fácil. Tal como as palavras que usaram quando me deram o Nobel, não me esqueço dessas, também, mas tento manter uma certa distância. Se quando escrevo não é um problema, o que me interessa é escrever.

"[A minha relação com a música hoje é] praticamente inexistente. Era um rapaz bastante sensível, fui muito, muito moldado pela música e criei uma relação emocional fortíssima com ela. Se me sentar a ouvir música hoje em dia fico emocionado com extrema facilidade e odeio esse estado, ficar demasiado emocionado. A tristeza torna-se quase avassaladora. A minha música agora é a literatura, a leitura e a escrita."

Que impacto teve o Nobel?
Na minha escrita nenhum.

No mercado, nos livros que vende, nos convites que recebe, seguramente…
Sim, sim. Há sempre alguma coisa a acontecer, então é mais difícil ter tempo para me concentrar em escrever. Ainda assim publiquei alguns livros depois do Nobel e algumas peças, sei que pelo menos uma foi produzida em Lisboa.

Uma Brancura Luminosa — que esteve no Teatro Variedades, em Lisboa, em janeiro.
Sim. Algumas peças e livros foram produzidos antes do Nobel, mas os livros publicados depois do prémio… Escrevi um livro chamado Vaim [Cavalo de Ferro, 2025], sobre um sítio imaginário na zona ocidental da Noruega. Gostei de estar nesse universo, gostei do lugar, do ambiente e quis escrever outro livro, Vaim Hotel [publicado este ano, ainda sem edição portuguesa], e um terceiro, Vaim Vekeblad [com publicação prevista para 2027]. São livros de reação a Septologia, que foi um livro gigantesco em que disse mais ou menos aquilo que pude dizer. Estas histórias são pequenos acordes… que vão contra a [trilogia] Septologia, de certa forma. Têm um lado mais cómico, diria.

É um escritor prolífico. Nunca receou ter um bloqueio, não sair da página em branco?
Não. Não. Nunca tive isso e acho que nunca vou ter. Se o tiver… será um problema? Também sou tradutor, adoro traduzir. Estou a traduzir agora O Castelo, de Franz Kafka.

Um desafio.
Um desafio, também o diria! Senti: se calhar isto é demasiado! Mas pelo menos sou honesto.

Há pouco dizia como gostava do som do mar, que estivemos a ouvir todo este tempo. O que é para si um bom dia?
Um bom dia é um dia completamente normal. Um dia em que estou a escrever alguma coisa. É por isso que sou tão prolífico. Simplesmente porque gosto de escrever. É a minha forma de escapar de mim, da vida, e poder entrar numa certa forma… A literatura é uma espécie de forma. Mesmo que esteja a traduzir, tenho de traduzir a forma na minha língua. Bebi muito durante muitos anos, isso também era uma forma de escapar de mim.

Do que quer escapar exatamente?
De mim, deste mundo. Não gosto dele… Ou, pelo menos, não gostava. Mas a vida, felizmente, muda. Quanto mais velho fico, mais a vida melhora.

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