Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, com dois conflitos em curso em partes bem diferentes do mundo, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Nos próximos minutos, vamos falar sobre estes dois conflitos, com estas duas guerras, com o major-general Isidro Morais Pereira. Muito boa tarde, major-general.
Olá, boa tarde.
O ministro da Defesa da Eslováquia sugere que a Ucrânia considere concessões territoriais para pôr um fim à guerra. Diz Robert Kalinak que a prioridade tem de ser um cessar-fogo imediato entre a Rússia e a Ucrânia. E a pergunta, major-general, é: tem razão o ministro da Defesa da Eslováquia?
Claro que não tem razão nenhuma. A Eslováquia está a pensar no seu umbigo. A Eslováquia teve quase três anos para resolver o problema da dependência extrema da Gazprom, designadamente do gás russo a preços muito baratos, diga-se de passagem, e teve essa orientação vinda das entidades da União Europeia. Não tratou do assunto como outros países trataram, designadamente a Alemanha, a própria Áustria, que a partir do início do próximo ano vai deixar de receber gás da Rússia, e todos os outros países que tinham gás barato vindo da Rússia foram substituindo por outras fontes. Fontes do norte da África, gás natural liquefeito transportado por plataformas marítimas, por navios vindos dos Estados Unidos, e a Eslováquia não quis pura e simplesmente saber do assunto. Nem a Eslováquia, nem a Hungria, diga-se de passagem. E agora, como nós sabemos, o presidente Zelensky anunciou que a partir das 07h00 do dia 01 de janeiro, dois dias, diga-se de passagem. O primeiro dia do ano de 2025 vai cortar a passagem do gás. Ontem houve aqui uma peripécia que todos nós temos assistido. O primeiro-ministro da Eslováquia lançou uma infâmia contra o presidente ucraniano, dizendo que ele o tentou subornar para que ele apoiasse a integração da Ucrânia na NATO e na União Europeia, o que é uma pura mentira. Depois ameaçou a Ucrânia de que deixaria de exportar eletricidade para a Ucrânia, principalmente nesta fase mais aguda, que é o inverno, em que nós sabemos que a Federação Russa tem lançado imensos mísseis e drones tentando atingir as centrais de produção de energia, os locais de transformação e distribuição da energia elétrica tão necessária para aquecer os lares dos ucranianos. Mas em boa verdade, a Ucrânia está a importar fundamentalmente energia de quatro países mais próximos do oeste europeu, como nós sabemos, e um deles é a Eslováquia, outro é a Polônia, outro é a própria Bulgária. Há uma notícia de hoje que é muito simples: a Polônia já disse que está disposta a aumentar a produção para, no caso de a Eslováquia cortar o fornecimento de energia elétrica, que representa apenas 19%. Isso são números do Ministério da Energia ucraniano, são números que eles publicaram. Portanto, eles dependem 19% da energia importada vinda da Eslováquia, o que não é significativo porque a própria Polônia anunciou hoje que se a Eslováquia levar por diante esta decisão, a Ucrânia substituir-se-á à mesma e aumentará a produção energética de forma a suprir as necessidades do povo ucraniano. Portanto, o que me parece aqui, no fundo, é que vamos continuar a assistir a este tipo de diferendos. O próprio Fico, o primeiro-ministro da Eslováquia, encontrou-se com o presidente da Federação Russa ainda há bem pouco tempo para discutir estas questões, para pressionar também a Federação Russa no sentido desta pressionar a Ucrânia para que o gasoduto conhecido que é o Druzhba, que vai ser encerrado, não seja encerrado, porque aqui a Ucrânia cumpre integralmente com o contrato. O contrato estava previsto para quatro anos, termina agora dia 01 de janeiro de 2025 e a Ucrânia não está na disposição de continuar a possibilitar à Federação Russa encher os cofres de milhões de dólares para depois serem utilizados para destruir, naturalmente, a população ucraniana e para combater contra a Ucrânia. Portanto, há aqui um diferendo e um desalinhamento, eu diria assim, um desalinhamento completo da Eslováquia, e não apenas da Eslováquia, porque a Hungria tem feito algo parecido. Tem insistido na mesma tecla, dá a impressão que lêem os dois na mesma cartilha e são os dois líderes, o Órban e Fico, são os dois líderes de países europeus, primeiros-ministros, que têm de alguma forma brandido esses argumentos, a dizer que tem que se fazer a paz e a paz tem que ser, porque já morreram imensos ucranianos e insistem que a única maneira de se conseguir a paz é a Ucrânia ceder território à Rússia. Parece-me que não é essa a solução, aliás, é um mau princípio. A própria Ucrânia até admite uma cedência temporária, mas não definitiva de alguns territórios, que depois poderiam ser recuperados diplomaticamente e por outros meios, para cessarem as hostilidades. Agora, uma entrega definitiva de territórios Eu relembraria que é contra o próprio articulado da Constituição da Ucrânia. Se o presidente alinhasse numa coisa dessas, estaria a trair o seu próprio povo e incorreria no cometimento de um crime gravíssimo, que está previsto na Constituição. Portanto, não me parece que seja por aí. E pra terminar esta apreciação, é de fato a Eslováquia que não fez o trabalho de casa, quer continuar a ter energia barata vinda da Rússia e neste momento é um interlocutor privilegiado de Putin. Aliás, não é o único. É habitual nós ouvirmos dizer que temos no seio da União Europeia dois cavalos de Troia, são exatamente esses que eu referi. Estão ao serviço de Vladimir Putin, infelizmente. E nós, União Europeia e também a NATO, temos que arranjar soluções pra esses problemas, porque não é admissível ter no seio das nossas alianças, países governados por personalidades que estão do lado contrário aos interesses do próprio Ocidente europeu. Isso não faz qualquer tipo de sentido. E eu julgo que é preciso começar a pensar seriamente em rever quer o tratado de Lisboa, quer o tratado de Washington, de forma a poder expulsar de uma e de outra organização os Estados que não se comportam dentro dos cânones previstos nos próprios tratados. Isso tem que ter uma solução.
Major-General, e falando sobre as dificuldades da NATO, eu queria também perguntar-lhe, Joe Biden anunciou hoje um novo pacote de ajuda.
2.5 mil milhões.
Exatamente, 2.5 mil milhões de dólares. O que eu lhe quero perguntar é se estes são os últimos cartuchos, de alguma forma, antes da presidência de Donald Trump.
Eu penso que esta será a última ajuda volumosa sob a égide de Joe Biden. Isto não quer dizer, e nós temos sinais de confiança vindos dos principais conselheiros do novo presidente americano, que já têm outro tipo de discurso relativamente à Ucrânia. Eles próprios começam a dizer que é preciso continuar a apoiar a Ucrânia em força. Aliás, esta foi uma das grandes críticas que foi feita pelo Partido Republicano. Tinha duas correntes, uma delas é: "Não vamos dar mais armas à Ucrânia, porque não vale a pena. O que é preciso é criar condições para que se faça a paz, para que termine a guerra, já morreram demasiadas pessoas". Essa era uma das teorias. Mas quando os próprios enviados de Trump se começam a deparar com uma intransigência a todos os títulos por parte do Kremlin. O Kremlin não desiste daquilo que foram os seus objetivos quando se lançou nesta aventura da conquista da Ucrânia. E hoje em dia, curiosamente, aparece um estudo que diz que Vladimir Putin, em boa verdade, já está a planear atacar a Finlândia, os países bálticos, inclusivamente a Noruega, de forma a recuperar as fronteiras que já remontam ao século XVIII, a 1714, se não me falha a memória. Portanto, se nós dermos ouvidos a um dos principais ideólogos do atual regime da Federação Russa, o Dugin. Dugin que é um homem que há bem poucos dias disse que sem a Ucrânia não é possível restaurar o império russo. A Ucrânia faz parte do império russo e se a Ucrânia não for tomada, não haverá nunca mais império russo. Portanto, ele deixa clara a ideia que está por trás do Kremlin. Quer dizer, que não tenhamos ilusões. O estabelecimento de uma linha de cessar-fogo seria condições apenas temporárias pra Rússia respirar, encher os pulmões de ar e daqui por uns meses voltar a atacar ainda com mais força, porque grande parte do potencial ucraniano poderia ser absorvido em prol das forças da Federação Russa e a Federação Russa transformar-se numa ameaça verdadeiramente perigosa relativamente ao nosso modo de vida e às nossas populações que vivem na Europa Ocidental, e que Vladimir conhece muito bem as nossas fraquezas atuais. Todos os países, praticamente, da União Europeia, agora com a rara e honrosa exceção da Polônia, têm cuidado muito pouco da sua defesa. Temos a Polônia, que neste momento está a investir já muito próximo dos 5% no seu aparelho defensivo, mas o resto dos países, mesmo quando em 2014 Barack Obama referiu na cimeira da NATO em Gales, a dizer que os países europeus da NATO teriam que investir pelo menos 2% da sua riqueza produzida anualmente na defesa pra fazerem a sua parte, a parte que lhes compete dentro daquilo que é a Organização do Tratado do Atlântico Norte, muito poucos foram capazes de subir o investimento na defesa e neste momento, julgo que são 21, ou pouco mais do que isso, dentro dos 32 países da NATO que cumprem com esses requisitos. Isso eram os requisitos de antanho, eram os requisitos colocados pela administração norte-americana em 2014, sob a égide de Barack Obama. Neste momento, Biden não Donald Trump tem uma ideia diferente. Donald Trump diz que 2% não é suficiente e que o ideal são mesmo 5%, e que se os países europeus não cumprirem com a sua parte, os Estados Unidos da América não se sentirão obrigados a proteger os países que não fazem o trabalho de casa. Portanto, o que é que acontece? A Europa não está devidamente armada, não tem forças armadas preparadas nem em qualidade, nem em quantidade suficiente no momento. O complexo militar industrial está neste momento a recuperar, de alguma forma, principalmente em países onde têm existido grandes produtoras de armamento, como a Rheinmetall na Alemanha, como outras companhias na Inglaterra, como outras companhias importantes em França, em Itália, mesmo em Espanha. Há um pouco, neste momento, o acordar para a realidade. E a realidade é uma realidade que nos vai obrigar a fazer escolhas, porque temos um conjunto de países. Eu digo um conjunto, porque ainda hoje Vladimir Putin resolveu enviar uma mensagem de bom ano, de novo ano, uma mensagem curiosa que só é dirigida praticamente aos seus amigos e a ditaduras. O único país que não é uma ditadura a que ele envia este desejo de um ano novo próspero e feliz é o Brasil, porque o resto são tudo ditaduras. Quer dizer, há aqui a tentativa de construir um bloco antagonista ao nosso modo de vida, à nossa liberdade, à nossa democracia, à nossa tolerância. E há aqui uma clara preparação por parte da Federação Russa para reconstruir um grande império. Esse é o desígnio de Vladimir Putin. Vladimir Putin olha para ele como o novo Pedro Grande e Catarina a Grande. E não há nada a fazer. Vladimir Putin, e aí dou razão em absoluto ao presidente Volodymyr Zelensky quando ele diz, e já o disse repetidas vezes para todos nós ouvirmos alto e bom som: "Vladimir Putin, esqueçam. A única linguagem que ele conhece é a linguagem da força". Aliás, e é por isso que a equipe do Donald Trump neste momento está a utilizar outro tipo de tática. Está a dizer que vai armar a Ucrânia de forma conveniente para que consiga vergar esta vontade e negar esta possibilidade de Vladimir Putin vir a conquistar definitivamente a Ucrânia de uma maneira híbrida ou de uma maneira convencional, ou conquistando parte do terreno e obrigando a Ucrânia a desmilitarizar-se e a desnazificar-se, coisa que eu sinceramente nunca percebi o que ele quer dizer com isto de desnazificar-se, e transformar aquele país num vassalo como já o é a Bielorrússia, por exemplo. Portanto, estamos perante um momento particularmente difícil em que os países europeus, onde se inclui o nosso, obviamente, têm que começar a pensar muito a sério em construir rapidamente um aparelho defensivo credível, porque o próprio espírito do Tratado de Washington é muito simples. Um país quando é ameaçado ou é invadido, tem que mostrar que tem vontade de se defender e tem que ser em primeira instância os seus cidadãos a morrer pela pátria. E depois são merecedores que os outros países todos, evocando o artigo quinto, venham em seu auxílio. Não é o contrário. Quer dizer, nós fazermos de conta que não é nada conosco, somos invadidos e depois vêm os americanos morrer por nós, ou os ingleses, ou os franceses. Não é nada disso que se trata. Se alguma vez pensamos que era assim, estávamos redondamente enganados.
Agradeço ao Major-General Isidro Morais Pereira. Esteve aqui no Gabinete de Guerra a ajudar-nos a analisar a guerra que está em curso na Ucrânia. Major-General, muito obrigado. Muito boa tarde.
Obrigado a você. Muito boa tarde.
O Gabinete de Guerra volta já amanhã.