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Está reunido mais uma vez o gabinete de guerra na tarde em direto, hoje com Daniela Nunes, doutorada na Universidade Católica, dedica-se ao estudo da Rússia. Estão também já a postos os membros residentes, Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, hoje temos Zelensky que dá uma entrevista à RTP mais logo e Putin que não foi ao funeral de Prigozhin.
Estão desfeitas as dúvidas. O presidente russo não foi ao funeral do líder do grupo Wagner, conforme já tinha adiantado o Kremlin. Essa cerimônia aconteceu hoje, na terra natal de Prigozhin, em São Petersburgo. Começando por aqui, Daniela Nunes, bem-vinda. Era o que esperava, que Vladimir Putin não fosse? E já agora, se a decisão tivesse sido em sentido contrário, que mensagem é que transmitiria?
Olá, boa tarde. Muito obrigada pelo vosso convite. Esta situação poderá sempre colocar-nos diante de duas leituras: a leitura acerca da ausência de Putin e a leitura sobre se ele tivesse ido ao funeral. Mas eu acho, francamente, que tudo isso já é bastante irrelevante a esta altura. E eu explico por quê. O que é que essas duas leituras, qualquer uma delas, poderiam mudar na nossa certeza acerca da forma como sabemos que o regime putinista lida com os inimigos e muito especialmente com os traidores? Indo ou não indo ao funeral, que no fundo seria só um pró-forma na agenda do presidente, o mais importante a extrair desta história toda é que Prigozhin não escapou à metodologia putinista. Teve foi mais sorte do que os outros, porque se pensarmos bem, ele ainda durou dois meses, tendo em conta que a insurreição do grupo Wagner aconteceu no final de junho e ele só desapareceu da equação no final de agosto. Ainda assim, eu não deixaria de sublinhar que, mesmo que Putin tivesse ido ao funeral e tivesse marcado uma certa presença formal da Rússia enquanto nação naquele momento, eu acho que mesmo que assim fosse, não seria de atribuir a esse gesto ou a essa atitude demasiada emoção, no sentido em que, por uma questão quase lógica, ninguém ia conseguir atribuir crédito ou honestidade à presença do presidente. Portanto, se calhar aquilo que de mais honesto ele podia fazer, ele até está a fazer, que é não comparecer, revelar absoluta indiferença e eu diria mesmo desprezo, porque se ouvirmos com atenção a comunicação do senhor Peskov, o porta-voz do Kremlin, que aliás andou desaparecido durante uns dias e se calhar até só foi de férias, a comunicação deste senhor revela de uma forma muito clara este desprezo. Ele não diz que Putin não vai ao funeral porque isto ou porque aquilo. Ele não presta nenhum tipo de justificação ou de explicação. Ele acha, obviamente, que não tem que o fazer. O que ele diz é pior ainda, que é: "Não dispomos de nenhuma informação sobre o funeral". Ou seja, o Kremlin provavelmente não foi visto nem achado neste assunto e também não tem interesse nisso. Deixaram a situação nas mãos da família, não só na família de Prigozhin, como dos restantes que morreram naquele incidente, e lavaram dali as suas mãos, passo a expressão. Só para concluir, isto não me parece nada estranho, vai bastante ao encontro do que seria de esperar. E o que seria de esperar? Certamente não era um presidente bastante comovido no funeral de um traidor. Em vez disso, Putin simplesmente ignorou.
Daniela, a Rússia aumentou os salários nas Forças Armadas, mas pelas contas do Ministério da Defesa do Reino Unido, é pouco provável que consiga atingir as metas de recrutamento militar. Precisaria mesmo de controlar o quanto antes os mercenários do grupo Wagner?
Conforme na pergunta anterior, eu acho que a resposta a esta questão também pode ter aqui duas leituras, nenhuma delas mais acertada, porque isto são só suposições e formas distintas de interpretação. Por um lado, de facto, nos últimos meses, temos visto uma Rússia preocupada, e naturalmente, com a questão do recrutamento militar, conforme também temos visto a Ucrânia com a mesma preocupação. Essa questão, apesar de ser bastante anterior ao episódio de junho com o grupo Wagner, certamente ganhou novos contornos e acentuou-se ainda mais desde esse episódio. É verdade que já existia uma propaganda muito forte no sentido de chamar e aliciar os homens a juntarem-se ao esforço de guerra, uma propaganda fundamentalmente assente num apelo à virilidade e ao patriotismo, que até são duas coisas mais ou menos típicas desde que exista alguma forma de Rússia. Portanto, até aqui nada de novo. Mas agora, em particular com as ondas levantadas pelo grupo Wagner, que como sabemos não estava exatamente alinhado com as estratégias e com as metodologias do Ministério da Defesa russo, e tendo agora entrado numa fase de um certo vazio de poder, o problema do recrutamento pode agravar-se e pode encontrar nesta situação de vazio, um certo obstáculo à atratividade que se pretende, da parte de Moscovo, claro, manter perante os russos no que diz respeito a conquistá-los, digamos assim, para o esforço de guerra. Por outro lado, a outra leitura é praticamente oposta a esta, ou seja, o vácuo de poder e o eventual receio que as ações de Prigozhin, e depois também a sua morte, possam ter deixado, podem ter alimentado uma espécie de sede de substituição entre os russos e muito particularmente entre as outras três dezenas de organizações militares privadas que se conhecem na Rússia. Estas organizações, umas maiores, outras menores, têm mais ou menos tudo em comum com o grupo Wagner. E isso leva-nos à velha máxima de que ninguém é insubstituível. Ou seja, tal igual como Prigozhin, estes grupos também se movem por um patriotismo cego e por uma sede de guerra quase medieval. Querendo isto dizer que não vai haver certamente grandes dificuldades em substituir o grupo Wagner, que neste momento até é órfão de uma liderança que lhe conhecia Fará certamente muita diferença no contexto interno do grupo, mas que também não é necessariamente sinónimo do fim do grupo. Eu tenderia a pender mais para esta segunda leitura relativa ao fato de ninguém ser insubstituível, nem mesmo o grupo Wagner neste esforço de guerra. Putin, a meu ver, não terá que procurar muito até encontrar quem esteja interessado em herdar o protagonismo deste grupo Wagner no terreno de batalha. E ainda para mais, com a oferta que sabemos que existe na Rússia ao nível deste tipo de organizações, mais facilitada está esta tarefa para o Kremlin e para Putin.
Daniela Nunes, vamos agora à Ucrânia. O presidente Volodymyr Zelensky deu uma entrevista à RTP, só foi revelada ainda uma curta parte. Um elogio a Marcelo Rebelo de Sousa, que visitou o país na semana passada. Diz Zelensky que o presidente português tem carisma, sente a voz do povo, não só do português, mas também do ucraniano, e foi muito importante estar em uníssono. A visita de Marcelo Rebelo de Sousa impulsionou verdadeiramente as relações entre os dois países?
Sim, sem dúvida que impulsionou muito, e no bom sentido, a relação dos dois países. Foi uma visita muitíssimo emocionada, quer do ponto de vista das palavras, dos discursos e da relevância do que foi dito, quer também do ponto de vista prático, com o presidente Marcelo a visitar trincheiras, que é uma coisa que nenhum dos seus homólogos tinha feito. E com Marcelo a ser ele próprio, a distribuir sorrisos e beijinhos pelos ucranianos, como faz com os portugueses. Sobre as consequências desta visita que foi tão marcante, eu diria que para nós, este foi sem dúvida um momento de protagonismo e de visibilidade internacional muitíssimo importante. Não nos podemos esquecer também que foi o dia da independência da Ucrânia, e isso ainda veio conferir mais relevância a esta visita. Portanto, para Portugal, eu julgo que os dividendos só podem ser mais do que positivos. Para além da oportunidade que tivemos de sublinhar de forma bastante enfática o nosso apoio à Ucrânia e aos ucranianos. Há quem tenha vindo criticar a clareza das palavras de Marcelo, mas eu só posso concordar com essa clareza. Como membro da NATO e da União Europeia, Portugal não é um neutro. Portugal quer a soberania e quer a integridade territorial da Ucrânia intocadas, naturalmente. E foi isso que Marcelo vincou, e vincou muito bem, a meu ver. Para Zelensky, para a Ucrânia, tudo isto também só pode significar uma fonte de ânimo e de um apoio declarado, que é muito importante passar para outros países e designadamente para outros membros das instituições ocidentais, como uma espécie de exemplo. Quase de certeza que Zelensky desejaria que todos os chefes de Estado se comportassem como Marcelo e revelassem a mesma convicção no apoio à Ucrânia. Já para não falar das excelentes relações diplomáticas que nós temos com uma série de países, e Zelensky provavelmente também sabe que o presidente Marcelo pode ser um excelente mensageiro no que diz respeito à causa ucraniana e àquilo que ele viu com os olhos dele na Ucrânia, depois em conversação e em debate com outros países e noutros contextos completamente distintos, como por exemplo, será brevemente no contexto da CPLP.
Daniela, hoje soube-se que Vladimir Putin irá visitar a China em outubro, e é a primeira viagem ao estrangeiro desde que o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de captura contra o presidente russo, mas tendo em conta o país que irá visitar, ele não está propriamente a correr um risco.
Pois, eu também soube dessa notícia há pouco, e o que me lembrei logo é que desde o início da guerra, Putin tem viajado para um conjunto muito limitado de países. Se nos pusermos a pensar um bocadinho, só nos ocorrem países que eram antigas repúblicas da União Soviética e o Irão. Portanto, tudo países em que há uma certa garantia de segurança, de que a China certamente não se vai desviar. Bem sabemos que a China se tem colocado ultimamente numa espécie de posição mediadora do conflito, não se envolvendo demasiado, mas sabemos também que desde fevereiro do ano passado, não esconde um apoio diplomático à Rússia, quanto mais não seja porque não condena, nem nunca condenou o óbvio.
Daniela, quando foi emitido o mandado de captura por parte do TPI, a China pronunciou-se e disse que o TPI deveria evitar dois pesos e duas medidas, deveria adotar uma postura objetiva e imparcial. Isso também indica que não terá concordado com esta decisão do TPI.
Justamente. E essa é uma forma muito diplomática e muito à la mediador de conflito, que a China tem vindo a adotar. E fazer aqui um parêntesis, tem tirado dessa postura, desde há muitos anos para cá, e não apenas neste contexto da guerra entre russos e ucranianos. A China tem tirado, de há muitas décadas para cá, os melhores dividendos dessa posição mediadora, de não se envolver com Deus nem com o Diabo. Fica ali numa posição do meio, que é excelente para a China, para os chineses, para Xi Jinping, que é o que interessa, no fundo, para eles. Só acrescentaria aqui uma nuance relativa à ausência de Putin. Primeiro, na Cimeira dos BRICS, ele recusou-se a participar sem ser por via remota. Pelos vistos, também se recusa a participar na Cimeira do G20 em setembro, mas não se recusa a confirmar uma ida à China, que vai acontecer só em outubro. Portanto, há aqui uma razão qualquer para estar mais confiante sobre esta viagem do que sobre as outras. E essa razão será certamente a garantia da sua integridade física e formal por parte do seu homólogo e amigo Xi Jinping. Mas enfim, vamos ter que esperar para ver.
Daniela Nunes, muito obrigada por ter participado mais uma vez no Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador. Daniela Nunes, que é investigadora da Universidade Católica Portuguesa, dedica-se a fundo a estudar a Rússia. Obrigada uma vez mais. Amanhã abrimos novos Gabinetes de Guerra.
Obrigada.