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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Espaço para análise dos mais recentes desenvolvimentos das guerras na Ucrânia e também no Médio Oriente. Hoje com Orlando Sá Monge, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, Orlando, bem-vindo.

Muito boa noite. Obrigado pelo convite.

De nada. Esta tarde o governo russo ordenou um cessar-fogo durante seis horas para garantir a livre circulação de jornalistas estrangeiros em áreas em que, de acordo com Putin, as tropas ucranianas estarão cercadas. Kiev já reagiu. O ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros pede que nenhum jornalista confie neste cessar-fogo. E o que lhe pergunto é qual é então a estratégia de Moscovo ao decretar este cessar-fogo temporário e se Vladimir Putin estará mesmo preocupado com a liberdade de expressão ou se o único objectivo será prolongar a guerra, como diz o ministro ucraniano.

Muito obrigado pela pergunta, questão crucial. De facto, creio que ficámos espantados, não é, de termos Putin a dar margem para um possível cessar-fogo, para logo em seguida percebermos que era de cinco ou seis horas, o que significa que era muito pouco e que parece mais uma manobra, mais uma tática de tentar dar a entender que está disposto a ser mais transparente, neste caso com um ponto que lhe interessava, que seria mostrar que está a avançar ou algum tipo de política que até possa ter dos soldados. A primeira impressão que tive foi que poderia ser na forma de estar que ele queria demonstrar ter nas linhas da frente e não tanto dos cercos, que já sabemos que as cidades estão em condições muito difíceis. Pokrovsk, Dnipropetrovsk, Kopânsk eram as três. Não são muitas vezes as três que são exatamente citadas como sendo a barreira da resistência da Ucrânia que dará acesso a todo o Donetsk quando caírem, se caírem. O que é facto é que a pressão é enorme. Houve uma campanha de mobilização, mais de 11 mil, creio eu, soldados russos para cercar Pokrovsk que está, já podemos começar a dizer, há anos, porque já passa mais de um ano com as tropas russas muito perto de conseguir cercar, mas ainda não foi bem isso que aconteceu. E quanto à liberdade de jornalistas, sabemos que muitas vezes na Federação Russa os jornalistas têm muitos problemas com a autoridade e não é propriamente um país de imprensa livre ou até de oposição livre. Portanto, é mais uma tentativa de Putin se mostrar de outra maneira. Na realidade, durante a noite a guerra continuou e continua com toda a força, mais creio que 650 drones, 50 mísseis sobre estruturas energéticas, sobre as termoelétricas e, portanto, era um cessar-fogo, mas apenas em cidades muito concretas e que nem coincide com aquelas que Putin conseguiu conquistar pela força, que foram, creio que duas aldeias em Kharkiv, portanto, mais a norte. Mas enfim, estamos habituados a ver estas alterações de política, de forma de estar, que nos fazem ter que pensar e repensar todos estes termos. Um cessar-fogo de cinco ou seis horas também não é bem um cessar-fogo.

Acha que isto pode fazer parte, de certa forma, da propaganda russa?

É, porque continua a ser apenas uma forma de se mostrar como estando disposto a dialogar, a mostrar, a ser transparente, mas que na prática tem muito pouco efeito. Não são cinco ou seis horas que vão fazer a diferença, mesmo que fosse verdade. E também não precisamos, se calhar, de saber com tanta precisão que cidades é que estão cercadas. Sabemos que as tropas ucranianas estão em grandes dificuldades e num esforço enorme, mas também temos os dados possíveis, que ainda são muito preliminares, sobre as baixas combatentes e sabemos que do lado da Rússia é muitas vezes o triplo ou mais do que dos soldados ucranianos, que podem ter que recuar para preservar as suas vidas, enquanto que a Federação Russa avança, mesmo que às vezes isso tenha enormes custos, feridos e até de mortos, em números que são absolutamente colossais. Putin joga muito com estas palavras, faz-nos pensar, e seria bom permitir que, em nome da verdade, se soubesse mais sobre a linha da frente, porque o grau de violência e intensidade é tanto que naturalmente também não é um bom cenário para a presença de pessoas que não sejam independentes, como seriam jornalistas, mas que poderiam ser apanhados no meio do fogo cruzado.

Depois de Vladimir Putin ter anunciado nos últimos dias que a Rússia testou com sucesso armas nucleares, Donald Trump veio hoje anunciar também que os Estados Unidos recomeçaram testes nucleares. Pergunto-lhe se pode estar a começar uma corrida ao armamento ou se podemos estar perante um regresso ao passado.

O Trump está a voltar a uma mentalidade de Guerra Fria, mas aqui pode ter alguma razão. Ele diz-nos, e estou a citar: "Eu vejo que eles testam. E então por que não, numa base igual, tentarmos também voltar aos testes?" Os Estados Unidos não faziam este tipo de testes desde 92. Creio que a China tem o último em 96. Só a Coreia do Norte é que tem sido um pouco a exceção. Estes testes são importantes, apontam em um sentido altamente perigoso. Não vai contra os tratados de não proliferação, porque estes são testes sem, tecnicamente é chamado pelos engenheiros entendidos, explosão. Parece que não vão para a última parte daquilo que seriam testes para a persecução do rearmamento do nuclear. Ainda assim, e apesar de se perceber que os Estados Unidos queiram igualar, fazer aqui uma espécie de espelho perante as outras potências Com isto também as autoriza a voltar a este tipo de testes. Eu não tenho os números concretos e por vezes esta informação também é sempre um bocadinho sujeita à interpretação. Tem poucas dezenas, por exemplo, 50 testes até hoje, enquanto os Estados Unidos se calhar aproximam-se de alguns milhares. Até porque mesmo o número de ogivas dos Estados Unidos é muito superior ao da China. E Trump parece dar a entender que assim sendo a China também tem margem para esse crescimento. Ora, claro que quem despoleta toda esta situação, que pode vir a ser bastante complicada, esperemos que não, é a Rússia ter testado também os mísseis de cruzeiro, o Burevestnik, que tem capacidade nuclear, e o próprio torpedo Poseidon, que também é movimentado dessa maneira. Ora, por muito que Trump desgoste, o que é facto é que voltamos a estar num mundo mais próximo do seu próprio fim, porque estamos a falar de armas que têm capacidade para acabar com o mundo. Ele depois desvaloriza e diz uma coisa com a qual eu concordo: "Deveríamos era desnuclearizar". E até repete esta ideia, diz duas vezes a palavra "Deveríamos era desnuclearizar". E devíamos. Sabemos também que não podemos estar num mundo sem armamento nuclear, porque não sabemos se os inimigos da sociedade livre também um dia o terão. E repare-se que muitas vezes são esses que rompem mais facilmente os tratados de não proliferação. Mas o que é facto é que num mundo mais perigoso, é natural que Trump queira fazer o matching, o encontro em relação a todos os outros que ele diz que têm estado a fazer esse tipo de testes, mas esperemos que ainda se consiga desescalar. A aproximação à China no dia de hoje e dos tratados, por muito que não tenham sido assim tão profícuos, não saibamos dos pormenores, mas que ainda assim entre a questão das terras raras poderem continuar, pelo menos durante mais um ano, a escoar para os Estados Unidos e esta moeda de troca que foram os produtos de soja, mesmo os chips da Nvidia, que a China também precisa vindos dos Estados Unidos, pode ser uma maneira de talvez por via do comércio, alcançarmos algum tipo de harmonia, ainda que seja apenas por um ano. A China não parece estar muito preocupada porque está a fazer um jogo mais longo do que esse ano e para já durante um ano veremos até que ponto é que se mantém esta tentativa de alguma cooperação para a qual os dois teriam a ganhar, mas que no fundo pode ter nascido no meio desta tensão em que mesmo o jogo de palavras e de corrida ao armamento parecia estar um pouco mais enraivecido. Esperemos que estas conferências tenham ajudado hoje para acalmar as hostes, ainda que este sinal do retorno aos testes nucleares, ainda que sem explosão, sejam eles próprios uma fonte de preocupação.

Vamos agora analisar o conflito no Médio Oriente. O Líbano está no centro de todas as atenções depois de Israel ter confirmado um ataque a uma cidade no sul do país durante a madrugada. Aqui os relatos dividem-se. Israel diz ter atacado uma infraestrutura do Hezbollah e o Líbano diz que foi morto um funcionário da Câmara Municipal. O presidente do Líbano ordenou que o exército enfrentasse qualquer ataque israelita. Pergunto-lhe se estamos perto de uma guerra aberta entre estes dois países e se estes ataques israelitas não aproximam o governo libanês e o Hezbollah, uma vez que o grupo islâmico já veio soldar as ordens do presidente do país.

Essa é a tensão que tivemos durante o ano passado e principalmente no final. Teremos que começar por recordar que o Líbano estava numa situação de grande fraqueza interna, em que a própria assembleia não conseguia eleger um presidente, até por força do grupo Hezbollah e da sua presença nessa assembleia, que conseguia bloquear a votação. E portanto, neste momento temos um Estado que se conseguiu unir, que já tem um presidente, que já tem um presidente que está de acordo com a Constituição, uma Constituição que coloca nos pontos-chave de cada uma das posições de governo uma pessoa representante, ainda que de maneira indireta, dos grupos étnicos e religiosos do próprio Líbano, que é um país muito diverso. E essa união foi conseguida precisamente pelo enfraquecimento do Hezbollah, pelo que o Líbano deve a Israel estar neste momento numa posição bastante mais saudável enquanto Estado soberano do que estaria antes. Infelizmente, sabemos que as tréguas no Médio Oriente e os cessar-fogos são muitas vezes impostos por fora e são articulados entre outros Estados que têm interesse na manutenção de paz, enquanto os próprios mantêm as tensões. Israel claro que dá a entender que está, no fundo, a ajudar essa unicidade do Estado do Líbano ao tentar desmobilizar, desmilitarizar e destruir a força do grupo Hezbollah, que no fundo disputa a liderança do Líbano, mas muitas vezes isso é também visto como um ataque a um país soberano que tem esse grupo dentro das suas fronteiras. Ora, a população também por vezes se divide nestas interpretações e vai sempre contar um pouco a história à sua maneira. Mesmo que tenha sido na tentativa de combater apenas o Hezbollah e a sua força, o que é facto é que desta feita pode ter sido, nós aqui a esta distância também não sabemos, atingido uma pessoa que estaria de acordo com o Estado oficial, digamos assim, do Líbano. E isso é de facto de lamentar e pode voltar a incitar esta tensão que já é muito complexa num Estado em que as As forças da UNIFIL não conseguem também manter a estabilização e a paz, porque não têm força para isso e os mandatos da ONU, estamos a começar agora a perceber que nem sempre cumprem com os objetivos tais como eles foram delimitados. Esperemos que seja apenas uma escaramuça e que a paz ainda assim se mantenha, apesar de todas as dificuldades.

Na Faixa de Gaza, o Hamas continua a entregar corpos de reféns. Hoje foram entregues mais dois. Entretanto, ontem à noite, Benjamin Netanyahu anunciou estar a trabalhar com a Casa Branca para conseguir um plano que garanta que Gaza não voltará a ser uma ameaça para Israel. Estão reunidas essas condições?

Todos queremos a segunda fase, mas o problema é que a formação do tal governo tecnocrático está a demorar. As pessoas muitas vezes mais próximas dos palestinianos podem ter um pendor que no fundo os faz pertencer a um grupo ou a outro e a terem um passado que também pode prejudicar a sua autoridade enquanto meros técnicos, portanto, podem ser vistos de ideológicos. A força de estabilização internacional, também é difícil reunir consenso. Sabíamos que quando começássemos a falar nos pormenores de quem faz o quê, iríamos ter problemas. Hoje, creio que a Alemanha e Merz está na Turquia, a Turquia quer fazer parte, por exemplo, desta força de estabilização, mas sabemos que Israel terá muitas dificuldades em aceitar. É um cessar-fogo, mais uma vez, visto por fora, no qual os intermediários, o Egito, o Qatar, mas principalmente os Estados Unidos, diz que se mantém, apesar das escaramuças e das tensões, vão morrendo pessoas, apesar da baixa intensidade, também por falsa bandeira, porque alguns dos grupos podem não ser o Hamas e estarem no fundo ainda em processos de ajuste de contas ou a ver quem é que consegue vir a ter a autoridade de Gaza e estamos numa situação muito complexa, no meio da qual ainda não foram entregues todos os corpos. Quando foi estabelecido o acordo, pensava-se que estariam perdidos alguns, mas não tantos. Neste momento, creio que ainda faltam 11 ao todo. Pensava-se que eram muito menos que estivessem perdidos e as autoridades em Gaza reclamam por um equipamento mais sofisticado e mais pesado para poder tentar saber onde estão, porque tem muitas vezes a haver remoção de escombros para perceber onde é que os corpos estão. É um cessar-fogo, como sabemos, muito precário e difícil, mas ainda assim, apesar das demasiadas interrupções, mais ou menos se mantém. Agora houve um ataque um pouco mais forte a Beit Lahia, que é no norte de Gaza, onde Israel diz que haveria mesmo um armazém de armamento. Enfim, parte a parte vão justificando, vão por pergunta e resposta, continuando e mantendo este tic por tac. Esperemos que acalme, mas sabíamos de antemão que estes esforços de Trump conseguiram libertar os reféns e ainda assim pôr alguns dos intervenientes a falar, mas não os intervenientes principais. Hamas e Israel continuam, infelizmente, neste clima de grande tensão e a prossecução das duas fases é muito difícil porque, no fundo, as partes não se aceitam mutuamente.

Obrigada, Orlando Sá Mendes, por ter estado conosco na Rádio Observador.

Eu que agradeço. Muito obrigado.

O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.