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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Eu sou o Miguel Vilela Dias. Hoje contamos novamente com o historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno. Começamos pela situação na Ucrânia, com um dia marcado por um ataque russo à cidade de Poltava, que provocou um número de vítimas mortais elevado, 41 vítimas mortais confirmados e mais de 180 feridos.
Sim, aparentemente, é a continuação desta ofensiva aérea russa, que tem sido até agora a principal manifestação concreta de uma certa escalada em reação, nomeadamente ao avanço ucraniano em Kursk, muitas vezes com alvos indiscriminados ou alvos civis. Neste caso, aparentemente, tratar-se-ia de uma escola militar, portanto, nesse sentido, pode ser que é um alvo mais legítimo do que outros. Em todo caso, não deixa de corresponder a esta escalada da guerra aérea russa sobre a Ucrânia e também manifesta este problema de base que os ucranianos têm, que a Ucrânia é um país muito vasto. Aí o contraste com Israel é muito evidente. Não só Israel tem tido os meios e deu prioridade à defesa aérea há muitos anos e portanto tem a defesa aérea mais sofisticada e também mais dispendiosa do mundo, mas tem a vantagem de ter meios concentrados num território muito pequeno, relativamente diminuto, comparado com a Ucrânia, e portanto isso torna muito difícil também à Ucrânia responder com eficácia a este tipo de ataques aéreos, mesmo em relação àquilo que poderiam ser alvos mais previsíveis, como quartéis, estruturas militares, etc. Se se tenta proteger, por exemplo, mais uma cidade como a capital Kiev, isso implica com meios limitados também e com o território tão vasto, abrir o flanco, dar a possibilidade a ataques noutras zonas do território.
E há também, por parte da Ucrânia, uma estratégia de continuar os ataques com recurso a drones, até onde também é que vai existir esta capacidade das Forças Armadas ucranianas?
A questão coloca-se em relação aos dois lados. Também há alguns sinais de que a Rússia tem tido problemas em gerir o seu arsenal, sobretudo de mísseis mais avançados, e tem por isso recorrido, por exemplo, à Coreia do Norte e ao Irão. Houve informações recentes de que estava novamente a procurar ter mais um reforço de mísseis da parte do Irão. Mas é evidente que, à partida, tem sempre uma vantagem muito grande nesse campo em relação à Ucrânia, como na maioria dos sistemas de armamento avançados. Muitas vezes estamos a falar de uma desproporção 10 para 1 ou mais favorável à Rússia. O apoio ocidental é fundamental para reequilibrar um pouco isso, mais em termos da qualidade até do que quantidade, mas há sempre este problema que é, mesmo que as entregas até sejam relativamente rápidas para aquilo que tem sido o ritmo habitual de produção da indústria de armamento nestas muitas décadas de paz, num contexto de guerra, muitas vezes parecem extraordinariamente lentas. Essa é que é essa queixa da Ucrânia, que esses sistemas não chegam mais rapidamente. Em relação à questão dos drones, realmente são a grande resposta da Ucrânia em relação às deficiências que tem em meios aéreos, quer em relação a meios navais e portanto tem apostado muito no desenvolvimento destes drones, que são um sistema de armamento muito mais simples, muito mais barato, muito mais fácil de produzir em quantidade, que não tem também a questão de produzir baixas, ou seja, se um drone é abatido, não está lá nenhum piloto a pilotá-lo in loco. São remotamente pilotados, alguns até já têm algum grau de autonomia. O facto da Ucrânia ter criado ou ter elevado, se quisermos, o seu comando de drones a um ramo das Forças Armadas, que seria equivalente à Força Aérea, à Marinha e ao Exército, mostra bem da importância que a Ucrânia tem dado a este meio. E realmente, nos últimos meses tem-se assistido a cada vez mais ataques, com cada vez mais drones de mais longo alcance, contra alvos no interior da Rússia, em particular tudo o que tem a ver com refinarias, instalações ligadas sobretudo aos hidrocarbonetos, que têm também a vantagem adicional de serem altamente explosivas, de serem estratégicas quer para o combate, ou seja, obviamente sem combustível, um exército moderno não consegue avançar, quer também para a própria economia russa.
E a Ucrânia tem aqui ainda a expectativa dos Estados Unidos poderem fornecer mais armas de mais longo alcance. Isso seria algo muito relevante naquilo que é a capacidade ofensiva da Ucrânia.
Sim, surgiu essa notícia hoje, que os norte-americanos teriam a discutir a entrega de sistemas ainda de mais longo alcance, chamados NASAMS, mas aí a grande questão que se coloca é que faria sobretudo sentido se fosse associado a uma revisão destas linhas vermelhas, que já foram revistas várias vezes, inclusive na sequência do ataque russo em direção a Kharkiv há uns meses atrás, a segunda maior cidade da Ucrânia, permitir alguns ataques com alguns destes meios no interior do território russo, desde que fosse como uma resposta a uma ameaça imediata e próxima ao território ucraniano. Mas aquilo que os ucranianos têm insistido, e têm insistido de forma ainda mais veemente nos últimos dias, é que é preciso rever essa linha vermelha e permitir à Ucrânia usar estes sistemas de mais longo alcance para Atingir seja sistemas de lançamento, seja meios aéreos que estão a ser usados para estes ataques aéreos muito mortíferos contra a Ucrânia. Portanto, dar meios de mais longo alcance, mas em termos de alcance útil continuar a ser o mesmo, isso realmente não faria muito sentido. Teria, apesar de tudo, a vantagem de permitir fazer ataques mais da retaguarda e portanto resguardar mais esses meios de possíveis ataques russos, seria a grande vantagem, mas aquilo que é fundamental perceber e que poderia ter um impacto positivo do ponto de vista da eficácia da ação militar ucraniana, é se isso viria associado à possibilidade também de rever essas linhas vermelhas e portanto usar realmente com mais eficácia estes meios de mais longo alcance, aqueles que já existem e até outros que viessem a ser fornecidos. Isso também não é claro ainda.
Não é garantido que haja apoio político, não é?
Não percebi.
Não é garantido que haja apoio político para essa revisão das linhas vermelhas.
Sim, teremos de ver se esta notícia se confirma. Eu até agora só vi uma notícia nesse sentido, portanto, é boa prática esperar-nos por duas ou três indicações no mesmo sentido para perceber se é realmente assim. E a notícia não era explícita a esse respeito e como referias há essa questão que é: há de facto no Ocidente e em certos setores até da administração Biden, aqueles que consideram que há que gerir sempre com muito cuidado os limites desta guerra limitada, há que evitar uma escalada. Eu percebo que isso seja assim, de facto ninguém tem interesse em que este conflito se transforme na Terceira Guerra Mundial, que seria suicida para toda a humanidade. Agora o meu ponto aí sempre é que há que perceber que a forma de lidar com esse tipo de riscos não é ceder a tudo aquilo que a Rússia diz. Já muitas vezes ficou demonstrado que a Rússia procurava usar essa chantagem para evitar qualquer tipo de apoio à Ucrânia quando esse apoio se concretizava, nada desse tipo acontecia, sobretudo porque não é todo racional, não é do interesse da Rússia que também haja um alargamento do conflito e muito menos uma escalada para uma Terceira Guerra Mundial, porque ela seria terrível, seria suicida, não só para os ucranianos e para os países ocidentais, mas para todo o mundo, inclusive a própria Rússia e o próprio regime russo.
Vamos ao conflito no Médio Oriente. Começo por te perguntar se a suspensão do Reino Unido, do fornecimento de algum tipo de armamento por parte do Reino Unido pode ter algum impacto visível na capacidade de Israel se defender.
Não, não poderá. Aí o único país que tem realmente um papel crucial é os Estados Unidos e mesmo os Estados Unidos, apesar de tudo, Israel já tem uma indústria militar relativamente desenvolvida, mas no caso dos Estados Unidos, sim, poderia ter um impacto com algum significado, porque nalguns sistemas normalmente mais sofisticados, basicamente é o único fornecedor. Os outros países, realmente, no fundo isto tem mais uma dimensão política, não quer dizer que não complique um pouco marginalmente as coisas, mas tem mais uma dimensão política e essa é importante e mostra realmente algo que nós temos aqui discutido várias vezes, que é esta estratégia do atual líder do governo israelita de apostar exclusivamente na via militar, de recusar qualquer tipo de acordo ou qualquer perspetiva de um reiniciar de um processo de paz que permitisse isolar politicamente o Hamas e valorizar aqueles elementos mais moderados da liderança política palestiniana e também, a par disso, retomar os esforços de aproximação aos países árabes moderados. Uma das consequências disso é que Israel está a ver a sua imagem internacional muito degradada e isso está a colocar em questão até o nível de apoio, para já não de uma forma radical, mas até certo ponto está a colocar em causa o apoio que Israel recebe de aliados tradicionais. Há já muitos sinais desse desconforto nos Estados Unidos, mas no caso da Europa, sobretudo aí estamos a falar da Grã-Bretanha e da Alemanha, e portanto, neste caso, temos a confirmação disso, ou seja, a Grã-Bretanha dá aqui um sinal de que não está disposta a continuar a insistir que Israel tem o direito a defender-se, mas o deve fazer respeitando as leis da guerra e também com alguma noção do que são os seus interesses estratégicos e os seus aliados, porque isso não parece ter efeito em Netanyahu e portanto, o resultado desse cansaço é começar a tomar aqui algumas medidas, dar um sinal mais forte dessa insatisfação e portanto, para já é também uma limitação de 30 sistemas de armamento entre 300 em que a Grã-Bretanha tem algum tipo de relação com Israel. Portanto, mais uma vez, é sobretudo um gesto político, mas eu acho que é bastante significativo deste crescente isolamento do atual governo israelita.
Neste conflito há também uma situação em destaque nas últimas horas, a campanha de vacinação contra a poliomielite na Faixa de Gaza. As notícias mais recentes dão conta que cerca de 160 mil crianças foram vacinadas. O objetivo é vacinar 640 mil, portanto ainda é um número grande pela frente. Qual é a importância disto e também de que forma é que está a ser cumprida a capacidade de avançar com o plano de vacinação?
Bem, eu diria que um primeiro significado é que há aqui um lado uma certa ironia quando vemos toda esta controvérsia em torno das vacinas nos países ocidentais que têm sistemas de saúde altamente avançados. Geralmente nos países pobres, onde há doenças contagiosas altamente letais, a vacinação não é um luxo, é uma necessidade absoluta e portanto aí não há propriamente grandes controvérsias. O problema é conseguir-se avançar com esses processos de vacinação. Quando isso acontece, geralmente eles avançam. O segundo aspecto é que, apesar de tudo, é uma rara boa notícia no contexto de um conflito onde essas boas notícias não têm propriamente sido abundantes. É verdade que a Organização Mundial de Saúde, o seu diretor-geral fez um apelo a que houvesse um cessar-fogo também para facilitar a vacinação, mas apesar de isso não ter sido possível, as negociações como sabemos que continuam bloqueadas a esse nível, pelo menos tem havido estas pausas nos combates num determinado horário, em determinadas zonas, para permitir realmente avançar a vacinação. Isso apesar de tudo permite reduzir aqui mais um risco que a população civil de Gaza, que está de facto numa situação terrível há muitos meses, mais um risco que a população civil de Gaza estava a correr, em particular as suas crianças e portanto eu acho que é uma rara boa notícia num contexto onde elas praticamente não existem.
Bruno Cardoso Reis, e vamos terminar assim, com esse sinal positivo este "Gabinete de Guerra" de hoje. Obrigado por te teres juntado a nós, o historiador Bruno Cardoso Reis, no "Gabinete de Guerra" de terça-feira aqui na Rádio Observador.