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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso, com destaque para a Ucrânia e Médio Oriente. Hoje com comentários do Major-General João Vieira Borges. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco. Vamos começar pela situação na Ucrânia, até porque há avanços no terreno e há avanços que podem ser perspectivados para as próximas semanas, porque os Estados Unidos da América, Joe Biden, autorizou a Ucrânia a utilizar armas de longo alcance contra a Rússia, a serem disparadas da Ucrânia contra território russo. Isto é uma mudança importante neste conflito, Major-General João Vieira Borges.
Muito boa tarde. No cenário que estamos a viver, em termos táticos e operacionais, com grande desgaste da Ucrânia, com bombardeamentos sistemáticos há mais de um mês, com perda de várias regiões, designadamente no Donetsk, realmente, haveria que tomar uma decisão, seja ela qual fosse, de dar apoio à Ucrânia, caso contrário, daqui a dois meses, com a tomada de posse da nova administração, digamos que a Ucrânia não tinha qualquer liberdade de ação e portanto estaria numa situação, como queria Putin, de capitulação autêntica. E portanto, aquilo que foi esta tomada de decisão teve em conta tudo isto, teve em conta, certamente, o encontro de Schultz com Putin. A Ucrânia criticou muito, mas agora, se forem ler os órgãos de comunicação social, já perceberam que esta conversa foi para ter a noção de qual era a posição de Putin e de Lavrov. Toda a gente percebeu, e ele disse, que foi a capitulação, indiscutível. E portanto, isso ajudou, certamente, a decisão de Biden. Por outro lado, a conversa com Xi Jinping, na reunião da APEC, no Peru, percebemos que havia algo em termos daquela reunião, porque Biden falou exatamente e criticou a Coreia do Norte estar neste teatro de operações. E certamente houve ali, pelo menos, se não houve acordo, houve tomada de conhecimento. Acredito perfeitamente. Por quê? Porque a China estava particularmente incomodada exatamente com esta aproximação da Rússia à Coreia do Norte, era seu espaço de influência e, portanto, algo que estava a incomodar Xi Jinping, certamente. Depois o ataque que houve há duas noites atrás, com 210 mísseis e drones. E portanto, tudo isto no seu conjunto levou a esta tomada de decisão, que não devia ser pública, como dizia Zelensky ontem. Isto faz parte do processo, faz parte do artigo 51º da Carta das Nações Unidas, o direito à autodefesa. E portanto, estas matérias não devem ser discutidas na praça pública. Infelizmente, assim tem sido ao longo desta guerra. Quando nós falamos em paz justa, nós temos uma guerra injusta, em que temos uma das partes que não pode usar determinado tipo de armas desde o início, há mais de dois anos. São situações que temos vivido com o Leopard, temos vivido com o F-16, temos vivido com os HIMARS. Em nenhuma guerra da história nós vimos situações destas. Estamos a ver pela primeira vez e a grande potência, que ainda por cima tem armas nucleares e que ameaça sistematicamente os países que apoiam a Ucrânia, mete no teatro de operações forças da Coreia do Norte, o país que tem mais sanções no mundo, que a própria Rússia condenou e que também aprovou as sanções no Conselho de Segurança. Isto é todo um conjunto de fatores que levaram, certamente, a esta decisão, que não é explícita. Biden não veio pra rua dizer que apoia isto ou que apoia aquilo, vem através dos órgãos de comunicação social. E no terreno, atenção, que qualquer destas armas, quer as armas franco-britânicas, quer as armas americanas que estão no teatro de operações, já fizeram ataques a zonas, designadamente na Crimeia, a zonas de território ucraniano ocupadas pela Rússia. Portanto, não é novidade. A novidade é agora poder fazer intervenções em território russo e não território ucraniano ocupado pela Rússia.
Mas isto pode colocar, ou há esse objetivo de colocar a Ucrânia num ponto mais favorável no dia em que se chegar efetivamente a uma discussão de um acordo de paz? Ou seja, a Ucrânia, com a utilização deste armamento, pode ter algumas conquistas que a coloquem numa posição melhor, mais favorável para o momento em que se discutir a paz?
Pelo menos não vai perder mais área naquela região. É uma região complicada neste momento em termos de teatro de operações. Pelo menos serve de moeda de troca, que era esse o grande objetivo, não era conquistar Kursk, era conquistar espaço que constituísse moeda de troca. E neste momento, com mais de 50 mil militares apoiados já por mais 10 mil coreanos, obviamente a pressão tem sido enorme sobre as forças que se encontram naquela região. E portanto, é pelo menos para não perder mais área, seja ali, seja no Donetsk, porque o fato de bater alvos, se virmos o mapa, aquilo é na zona para este de Sumy, apanha Kharkiv, a segunda maior cidade, e depois temos o Lugansk e temos mais a sul, o Lugansk e o Donetsk. Se estas armas, que têm alcance da ordem dos 300 km, que são disparadas normalmente a 50 km da fronteira, no caso das armas terrestres, que é o caso que nós estamos a falar, dos ATACMS, que é um míssil balístico, tático, e portanto terra-terra, ou no caso das armas ar-terra Que é o caso do SCALP francês ou do Storm Shadow inglês, que é lançado de aeronaves, aí também tem cerca de 250 km, 300 km, aí já se aproxima mais da fronteira. Portanto, os objetivos que são batidos na área da retaguarda são fundamentalmente centros logísticos, paióis, bases aéreas, zonas de reunião de tropa, que obviamente há ali determinados nós de comunicações que vão prejudicar o deslocamento, sobretudo da questão logística para as outras zonas mais a sul. Portanto, isto tem consequências diretas em termos táticos e operacionais em Kursk, mas também tem indiretamente noutras zonas mais a sul. Não altera certamente aquilo que se está a passar no teatro de operações, uma grande pressão da Rússia até o inverno impedir a movimentação, a manobra dos carros de combate e viaturas blindadas. A guerra terá que ser diferente depois, mas impede ou dificulta os ataques, aquilo que está no artigo 51 da carta, os ataques como foi anteontem, como já foram hoje outros, que vêm normalmente daquelas zonas. Portanto, pelo menos dá mais liberdade de ação durante este período para que não perca tanto território. Já nem falo em ganhar território, porque isto não são armas que vão fazer com que faça conquistas territoriais rapidamente.
De qualquer forma, Moscovo, a Rússia já avisou que se forem disparados mísseis de longo alcance, o Kremlin culpa quem autorizou e não propriamente a Ucrânia. Como é que vê a resposta da Rússia, tudo o que tem acontecido desde essa autorização de Joe Biden, deste tipo de armas?
A Rússia já declarou relativamente a esta questão das armas de longo alcance, primeiro era que se houvesse qualquer tipo de apoio, era a NATO que estava implicada.
Certo.
E, portanto, houve uma pressão logo para todos os países da NATO. Vai mudando os seus discursos, vai mudando as narrativas. Inicialmente, também a operação militar especial nem era guerra. Inicialmente era só para a zona do Donbass. Nós sabemos, e agora ocupa mais duas regiões e acha que tem que congelar a guerra naquelas regiões ou então haver mesmo uma capitulação. Portanto, Putin vai mudando o seu discurso conforme lhe convém. Neste momento, o que lhe convém é pressionar a decisão política dos países que apoiam, porque isso tem repercussões internas. Ele sabe o que é que se passa na Europa, ele sabe o que é que se passa nos Estados Unidos. Relativamente à Europa, uma decisão dos governos é sempre uma decisão com consequências diretas nas eleições que se aproximam, que há sempre eleições que se aproximam em democracia. E nós vamos tê-las em fevereiro na Alemanha, nós em França vamos tê-las, nós no Reino Unido nunca sabemos. Agora tivemos a alteração de governo, portanto ele sabe isso e usa isso. Ele usa a autocracia contra as democracias, aproveitando-se exatamente dessas fragilidades dos ciclos eleitorais. E vai mudando o discurso em conformidade, inclusivamente com a situação que ele sabe que será diferente daqui a dois meses da situação atual. E vai empurrando para frente esta situação, sabendo que não vai haver assim tantas consequências em termos militares e, portanto, a primeira grande ameaça que era de usar armas nucleares e mudou inclusivamente as suas normas de utilização das armas nucleares. Depois passou a acusar que era a NATO, seria a NATO no seu conjunto que estava a atacar. Agora já é cada um dos países que está a atacar. É a narrativa a que estamos habituados há dois anos e meio. Se os países europeus e os Estados Unidos no início da guerra tivessem tomado as decisões que deviam ter tomado, não tínhamos 25% do território ucraniano destruído, mais de 100 mil mortos ucranianos e mais de 300 ou 400 mil feridos. Já para não falar nos desgraçados dos russos que foram obrigados a ir para o teatro de operações sem perceber porquê e que também lá morreram mais de 100 mil ou 150 mil e outros 300 mil feridos. Tudo isto às ordens de um senhor que se chama Putin. Infelizmente é assim a história.
Falar um pouco do conflito do Médio Oriente, até porque Joe Biden está a tentar fazer pressão sobre o Hamas. Acusa o Hamas de recusar acordos de paz e pede um aumento da pressão dos líderes do G20. Disse isto no Rio de Janeiro, deixou um apelo a todos os líderes presentes no Brasil para que se aumentasse a pressão sobre o Hamas. Diz que é um grupo palestiniano a atrasar o caminho até se atingir um acordo de paz com Israel. Como é que vê este posicionamento de Joe Biden, colocar o Hamas aqui como um bloqueio à procura pela paz na região?
Se o Hamas já era bloqueio antes, depois de perder dois dos seus principais líderes, neste momento a situação ainda é mais complicada, na medida em que, segundo aquilo que temos de informações, as decisões passam por várias pessoas. Ao passarem por várias pessoas que obviamente têm pontos de vista diferentes, mas coincidentes numa coisa, que é a destruição do Estado de Israel, aquilo que pretendem. Digamos que a situação torna-se bem mais difícil e tem que haver aqui outros atores a intervir. Aquilo que nós estamos a ver no Líbano, com pressões internas num país que tem cristãos maronitas, tem sunitas, tem drusos, tem xiitas. Os xiitas a dominar, como estamos a ver, através do Hezbollah e a tornar num Estado caos, autêntico. Tem, no entanto, depois pressões em situações como aquelas que estão a viver. E essas pressões no sentido da paz, pelos vistos, têm estado a resultar, independentemente da ligação dessa guerra com aquilo que se passa em Gaza. Agora, se em Gaza o Hamas tivesse um outro tipo de posturas, relativamente a negociações que já tiveram lugar, por 11 ou 12 vezes já pensámos que a situação seria favorável para os desgraçados dos palestinianos e para toda aquela mortandade que tem havido. Obviamente que chega a determinado ponto, ou é os extremistas do governo Netanyahu ou é o próprio Hamas. Nós nunca percebemos neste processo Eu acho que nem os americanos percebem aquilo que nós vamos acompanhando já há mais de um ano. Há sempre qualquer coisa que impede o acordo, que impede uma aproximação, que impede sobretudo um cessar-fogo que permita negociar. Nem isso. E portanto, as modalidades de cessar-fogo já foram tantas que até já são de quatro dias. E a situação continua muito difícil. E há aqui países que, obviamente, ao fim deste tempo todo, dois dos países, nomeadamente o Egito, que faz fronteira com os próprios territórios, que têm interesse em que a situação se resolva, que já não têm soluções. Não sei se têm que entrar no processo de negociação outros actores, porque aqueles que têm estado a fazer todo este esforço ao longo de mais de um ano não conseguem encontrar soluções. E aquilo que nós estamos a ver é que o próprio Hamas, alguns dos dirigentes do Hamas já estão a deslocar-se também para outros países, designadamente para a própria Turquia, que quer ter também um papel importante neste processo.
Sim.
Deliberadamente o Hamas, como nós já vimos, o que torna difícil ser actor num processo negocial.
Eu ia apenas dizer que neste processo também temos aqui uma parte israelita. Já hoje Netanyahu disse que nunca vai apoiar um acordo que ponha fim à guerra com as forças israelitas a deixar Gaza. Portanto, também há aqui alguns condicionantes de Israel que terão de ser tidas em causa no momento de negociar um cessar-fogo. Israel não está disponível para retirar as tropas de Gaza e é possível, de facto, ter um acordo com o Hamas num cenário desse ou chegar a um acordo?
Não é possível. Na minha perspectiva, tocou exatamente no ponto-chave. Para o Hamas, qualquer acordo com reféns ou sem reféns, com cessar-fogo ou sem cessar-fogo, passa exatamente por uma fase primeira de afastamento das tropas israelitas, das Forças de Defesa de Israel daquele território. Só que aquilo que temos visto, sobretudo no último mês, há aqui informações que inclusivamente vêm de agências norte-americanas que mostram determinado tipo de trabalhos que estão a fazer. E aquilo que é a minha percepção decorrente dessas imagens que aqui aparecem, é de que Israel está neste momento a trabalhar, há mais de um mês, exactamente para ter um posicionamento no território diferente daquele que tem agora. Ou seja, aquela fronteira com o Egito está a ser alargada, aquilo que eram uns metros passou a uns quilómetros, e depois a meio, a separar Gaza norte para sul, também uma largura considerável, com as máquinas de engenharia a fazer trabalhos de afastamento de prédios destruídos e outras coisas decorrentes da guerra, o que leva a uma interpretação de que são zonas onde vão ficar tropas de Israel. Portanto, o Hamas não aceita, Israel pelo visto também não, esse é um dos pontos-chave neste processo negocial.
Muito bem. Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado connosco nesta edição de Gabinete de Guerra.